segunda-feira, novembro 13, 2006

A Lagoinha e seus segredos

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Em nossa tentativa de descobrir um pouco mais da essência do Bairro da Lagoinha, que fazia parte da zona boêmia e se eternizou em livro, série de TV e muitas outras historias com seus personagens nobres ou dissolutos, entramos em contato com dona Marília Ferreira de Freitas, ex-aluna do UNI-BH, na época em que a instituição se chamava Fundação Belo Horizonte, e ela concordou em nos ceder essa entrevista. Estávamos motivados a saber mais da época em que, "de repente não mais que de repente", a ditadura se instalou de vez no Brasil, mais precisamente em 1964, o chamado "ano do golpe militar". A intenção era entender um pouco mais o que acontecia na vida daquelas pessoas e qual era o seu cotidiano, de uma maneira geral. Uma entrevista que abordasse as lembranças mais tênues de alguém que viveu essa época. Em nossa conversa dona Marília recordou-se de vários fatos peculiares e engraçados. E também revelou-nos saborosas lembranças daqueles que foram chamados anos dourados. Confira.
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Papagaio Mudo: Para começar, nos conte um pouco como era a vida cotidiana da sua família?
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Marília de Freitas: Bem, meu avô saiu de Catas Altas muitos e veio morar aqui nesse bairro, quando a cidade ainda era bem nova. Meu pai consertava coisas, era mecânico. Ele tinha um Ford modelo 28. Eu me lembro de ter andado nesse carro. Ainda hoje ele é preservado por meus irmãos como uma relíquia de família. A minha família aliás é uma das mais antigas do da Lagoinha, assim como os Vaz de Melo, a família Morici, de origem italiana, e a família Sampaio.
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P. M. : Em geral como era a aparência do bairro? Como era o cenário em que vivia a sua família?
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M. F. : Na minha casa havia fogão de lenha. As casas eram como chácaras espalhadas entorno do Conjunto I.A.P.I. . Dizem que no início da construção da cidade havia, onde hoje é a avenida Antônio Carlos, uma lagoinha, que acabou dando nome ao bairro. As ruas em de pedras, haviam procissões das igrejas...havia também um único ônibus, o bonde...Ah tinha a "Casa da Loba"

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P.M. : Era uma casa residencial? Por quê tinha esse nome?
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M.F. : Eu acho que era chamada assim por ostentar na eira aquela cena clássica da loba amamentando Remo e Reno, mito de criação de Roma, sabe? Deve ser por isso que era famosa a casa.
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P.M. : Haviam pensões ou hotéis na Lagoinha, devido à proximidade com a rodoviária?
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M.F. : No bairro haviam republicas de estudantes que vinham do interior cursar o Cefet ou a UFMG. Tinha também aquelas casas para moças, sabe? E duas ou três pensões sim, talvez mais, não me lembro bem.
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P.M. : Você se recorda dos jovens e do comportamento das pessoa naquela época em que a Lagoinha fazia parte, senão centralizava propriamente a zona boêmia da cidade?
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M.F. : Sim, eu me lembro. Era um tempo de serestas e serenatas, em que os jovens tocavam violão na porta das casas. O bairro era mesmo dos pinguços e das putas durante a noite, mas eles respeitavam a vida cotidiana dos moradores. Meu tio era oficial do exército e músico da banda marcial. Ele tocava no Montanhês (clube) e tocou uma vez com Luís Gonzaga, o rei do baião. A minha tia se vestia de homem, para não ser reconhecida, e ia lá no clube vigiar meu tio. Não sei porque me lembrei desse fato curioso...
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P.M. : Aproveitando o viés dessa conversa, dizem que na época lendas de alguns personagens exóticos. Você se lembra de algum?
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M.F. : Ah, sim, claro. Aquela era a época do Cintura Fina, que era bastante conhecido na zona boêmia, mas naquele tempo era só uma figura folclórica da cidade e ninguém sabia que iria virar patrimônio literário belorizontino. E tinha a Loira do Bonfim, que muitos disseram ter visto e as pessoas tinham medo, faziam medo nas crianças. Essa sim era uma verdadeira lenda da época.
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P.M. : E como eram os carnavais da época? Você se lembra de algum bloco caricato?
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M.F. : Lembro sim. Era muito bom o carnaval. Não tinha toda essa violência que a gente vê hoje em dia. Eu desfilei no Canto da Alvorada, bloco aqui do bairro da Lagoinha, e tinha também o Bloco dos Caricatos, do Santa Teresa e o Boca Branca, do Floresta. E nos clubes também tinha carnaval. Nos bailes do Fluminense a gente pulava carnaval de sandália Havaiana e era normal.
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Nome: Marília Ferreira de Freitas
Idade: 50 anos
Profissão: Professora
Meio de transporte: Ônibus
Time do coração: Atlético Mineiro
Medos: Da morte, da violência e dos clichês
Sonho: Ganhar na loteria
Frase ou pensamento: "A vida é o pecado dos homens"
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Aguerdem mais um perfil de um ilustre anônimo . . .

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