sexta-feira, março 09, 2007

Eu, poeta-de-café, tenho os olhos vermelhos de um chôro que nem sei explicar. Coisa do meu inconsciente. Saio da minha toca para dar uma volta, sem rumo nem motivo. O motive talvez seja esse cancioneiro francês que canta ao fundo seu lamento confuso e minguado. O problema é que em casa não consigo mais escrever: casulo, caverna. Então saio para a rua e ando pelo mercado, vejo as pessoas e caminho. Vejo as pessoas e quase todas me parecem ter um rumo certo e um destino incerto. Vou flanando, pairando pelo ar como se não tivesse pernas. Como se fosse só olhos. Como se meus olhos se pusessem a comer cada cor, cada movimento, cada imagem. Fico aqui na varanda. Ultimo refúgio tridimensional para mim. Palavras escorrem da pena deslizando espontaneamente. Eu me pergunto se deve haver um começo-meio-e fim, como numa partida de xadrez. Nas covas de Guandix, preciso andar impreciso. É dia. Logo logo começa o shabat. Apesar de não vermos, existe uma estrela que brilhará mais forte quando o sol se pôr. Devo esperar la posta del sol ? Minha caverna me chama e como Curupira não voltarei sem deixar rastros invertidos. Meus olhos queimam. Talvez seja a claridade. Estou proibido de sair à noite, pelas feras que rondam a cidade. E por isso não vou me prender ao contexto para remendar esse texto fragmentário. Heute ist Feitag. Berros, ruídos, sons enlouquecidos. Impossível traduzir as nota do piano em um pentagrama invisível. Chega daqui, vou nessa... dialogando com um pensamento débil, inábil, calo. Enquanto dentro de mim sentimentos eclodem organicamente como uma colônia de bactérias em uma colônia de férias. Acho que eu sou o próprio verme. Parasita. Parábola. Parágrafo. Preâmbulo.
Vozes.

sábado, março 03, 2007

Veja

Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos
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"E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho
que se voltou, mas não viu nada.

- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho.
Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo,
propôs o príncipe, estou tão triste...

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.

Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer "cativar”?
- Tu não és daqui, disse a raposa.
Que procuras?


- Procuro amigos, disse.
Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida,
disse a raposa. Significa "criar laços"...
- Criar laços?


- Exatamente, disse a raposa.
Tu não és para mim senão um garoto
inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.
Mas, se tu me cativas,
nós teremos necessidade um do outro.
Serás pra mim o único no mundo.
E eu serei para ti a única no mundo...


Mas a raposa voltou a sua idéia:
-Minha vida é monótona.
E por isso eu me aborreço um pouco.
Mas se tu me cativas,
minha vida será como que cheia de sol.
Conhecerei o barulho de passos
que será diferente dos outros.
Os outros me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha!

Vês, lá longe, o campo de trigo?
Eu não como pão. O trigo para mim é inútil.
Os campos de trigo não me lembram coisa alguma.
E isso é triste!

Mas tu tens cabelo cor de ouro.
E então serás maravilhoso
quando me tiverdes cativado.
O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti.
E eu amarei o barulho do vento do trigo...


A raposa então calou-se e
considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o príncipe,
mas eu não tenho tempo.

Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.

- A gente só conhece bem
as coisas que cativou, disse a raposa.
Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma.
Compram tudo prontinho nas lojas.
Mas como não existem lojas de amigos,
os homens não têm mais amigos.
Se tu queres uma amiga, cativa-me!
- Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.
Mas tu não a deves esquecer."

[Fragmento]

Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, março 02, 2007

Diálogo

__ O que você acha sobre "amigos"? Melhor seria perguntar O que você pensa sobre "amizade"? mas essa pergunta suscita falar aquelas coisas lindas, quando dizemos. Manchei as paredes do meu cérebro. Você acha que eu faço o arquétipo de poeta sozinho e sofredor? O que você acha de "amigos"? Uma vez manchei a parede com tinta preta espirrada de uma caneta cujo bico estava arranhado. Eu sabia que havia tinta na caneta, mas aquela ponta arranhada não queria deixar sair "aquelas coisas lindas" que eu tinha pra dizer. Também quebrei o telefone em mil pedaços. Fácil interpretar que eu queria falar; e deduzir que o chôro explodiu logo depois.
__ Todo homem passa por isso, às vezes, você não é uma exceção. Choram sozinho no banheiro de algum lugar distante.
__ O quê todo ser humano deve estar pensando sobre o "fim do túnel"? o "ponto de chegada"? A morte, a simples e racional morte não faria os filósofos filosofarem, nem chorarem. Não quero mais comer, apesar de sentir fome. Eros e Thanatos. Mais uma vez sinto-me compelido a escrever nesse papel borrado que sou suspeito de cometer um crime contra mim mesmo que ainda não aconteceu. Fico cataléptico e esse estado de retidão leva a um acompanhamento não linear.
__ Isso tornaria as coisas "mais fáceis", não?
__ Em seu livro "A Ética demonstrada segundo a geometria" ou, abreviadamente, "A Ética", Spinoza dedica o último capítulo à servidão humana. Porque será?