domingo, outubro 14, 2007

Inspiração


___ Alguém tem uma idéia precisa, no final do século XIX, sobre o que os poetas de épocas fortes chamavam de inspiração? Se assim não for, eu a descreverei... Com os restos mais ínfimos de superstição dentro de si, de fato qualquer um teria dificuldades em refutar a noção de que é apenas encarnação, apenas porta-voz, apenas médium de forças super-poderosas. O conceito de revelação, no sentido de que, de repente, com uma seriedade e uma fineza indizíveis, algo se torna visível, audível, algo que é capaz de sacudir e modificar uma pessoa no mais profundo de seu ser, descreve de maneira simples a situação. A gente ouve a gente não procura; a gente toma, a gente não pergunta quem está dando; como se fosse um raio, um pensamento vem à luz, por necessidade , em uma forma sem hesitações – eu nunca tive escolha. Um encantamento, cuja tensão monstruosa se dissolve numa torrente de lágrimas, no qual o passo ora toma de assalto, ora se torna vagaroso, involuntariamente; um estar-fora-de-si completo, com a consciência mais distintiva de um sem número de tremores e transbordamentos finíssimos, que são sentidos até os dedos dos pés; uma profundidade venturosa, na qual o mais dolorido e o mais sombrio não têm efeito de antítese, mas sim de condição, de desafio, como se fosse uma cor necessária no interior de uma tal abundância de luz; um instinto de relações rítmicas, que cobre vastos espaços – a longitude, o desejo de um ritmo estendido ao longe é quase a medida da força da inspiração, uma espécie de equilíbrio contra sua pressão e sua tensão... Tudo acontece, no mais alto grau, de maneira involuntária, mas como se fosse em um temporal de sentimentos de liberdade... A involuntariedade da imagem, da comparação é o aspecto mais singular; não se tem mais idéia; o que é imagem, o que é comparação, tudo se oferece como se fosse a expressão mais próxima, a mais correta, a mais simples. Parece de fato, para recordar uma palavra de Zaratrusta, que as coisas se aproximam com vontade própria, se oferecendo a comparações (_ “ aqui todas as coisas vêm acariciantes em busca do teu discurso e te adulam: pois elas querem cavalgar sobre tuas costas. Sobre todas as comparações tu cavalgas em direção a todas as verdades; tudo o que é ser quer se tornar palavra, tudo o que é vir-a-ser quer aprender a falar contigo“). Esta é a minha experiência com a inspiração; eu não tenho dúvidas de que é necessário voltar milênios no tempo a fim de encontrar alguém que possa dizer comigo: “ essa também é a minha” ...

F. Nietzsche

Ecce Homo, pag. 116- L&PM Pocket

segunda-feira, outubro 01, 2007

Eu é o outro
Ser sem deixar de ser. Ser sem de estar só. A arte sorrir contente vive mais uma vez ao papel. A dor que sinto agora faz surgir algo um lamento, um respingo de tinta, uma lágrima. Tanto faz crer que vai mudar, pois o fantasma da lembrança nos persegue e é “inútil dormir que a dor não passa”. Um ser-estar ao lado de outro outro que se confundiu às vezes se confunde. É um frio de tristeza em um deserto de agonia. Morto, louco, solto, a falta que me faz arrancado um pedaço de mim. Sintomas patológicos de um luto. Respiro, falo, calo. Solto, surdo, mudo. Esse veneno vida que me asfixia. Esse poetizar sem causa, sem objeto. Sem afeto, sem si mesmo, sem sujeito. Um pathos que aos poucos permanece/ remanescente da dor própria que se anuncia. Onde as memórias reverberam o próprio eco. Renunciar a si para fazer nascer de si um novo eu. Difícil é encontrar esse lugar onde as lembranças não mais não mais. Recodifico as células do meu cérebro. Recodifico meu mapa antropogenético mudando a geografia do Infinito. Até agora, até amanhã, até a morte.

Weisse Katze