quarta-feira, dezembro 31, 2008

Cronos


Dia 31 de dezembro de 2008. Dezenove horas e vinte e cinco minutos. Hoje é quarta? As pessoas estão fazendo planos para o ano que vem e eu estou fazendo planos pra sábado. Amanhã é o amanhã, e daí? O quê muda? Não muda nada, apenas um número no calendário. E as pessoas comemoram esse aniversário como parturientes do Tempo. Hoje mais cedo conversei com o Caio pelo telefone. Falávamos desse paradigma e, muito bem lembrado, ele disse Einstein provou que o Tempo não existe. Pois eu nem me lembrava disso, nessa minha intolerância com as falsas alegrias. Eu poderia contar o tempo com os fios de cabelo branco que nascem em minha barba. Seria bastante subjetivo ao invés do racional, inexato e opressor Tempo Tempo Tempo Tempo. Já estamos em um planeta que gira, onde as populações vivem os dias e as noites. Já existe esse dueto maquinal, automático, inconsciente, involuntário. Mesmo na estrada pra lugar nenhum precisamos ter o controle das horas. O Tempo corre o Tempo voa o Tempo é um atleta! O Tempo não pára, não pára nem pra descansar, dar um tempo. O Tempo não dá Tempo ou dá de sobra, ou dá justo apenas naquele exato momento. Deleuze sabe disso. Sabe, obviamente, da crítica de Nietzsche aos filósofos naturais, mas coloca os mestres da arte e da filosofia no mesmo bojo atemporal. Serpenteando numa linha onde cada um encena um personagem. E ainda me condenam por isso. A dor existencialista é muito mais visceral iconoclástica, muito mais meu estilo, admito. Identifico-me com o Nada, personagem de A Peste do Camus. O Nada interrompe os discursos da Peste para proferir ao povo obviedades, o Nada suicida-se no fim da peça. O melhor fim ao nada. Riu-se de improviso e tristeza. Se quiseres saber, fodam-se Nietzsche Camus e Deleuze! Quero viver a mística transgressiva do Olímpio, Brancas bêbadas bacantes o beijam. Cronos engolindo seus próprios filhos. Amanhã é (foi e será) apenas amanhã, quando parar de chover. O declínio da matéria a degeneração progressiva das notas new age do Miles Davis, as rugas da Dona Lili Marinho, os quantos maços de cigarro. Se fumei ou se bebi, ou se dormi na véspera sem aderir ao sistema, Adeus Ano Velho. Já vai tarde. Que eu sinta menas tristeza, que eu fique menos miseravél, que eu continue anti social ao invés de antissocial, depois te mando as reformas da gramática...
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terça-feira, dezembro 30, 2008

Mildred

Mediterranean Sundance

Código de palmas, castelo de cartas. O clown do jogo das contas de vidro, the glass bead game, o lirismo na fila das capitais. Não houvesse a paciência e a tolerância não haveria filas. De noite em Copacabana a vida é uma luta. Em cada esquina um pivete, em cada janela um olhar, em cada cama uma puta. Tentar destruir um ar soberano sobre si, sobre eles e sobre mim. Obstruindo o fluxo de estrangeiros preocupados com seus dinheiros e roteiros turísticos. Idiota e disforme contorcionista acrobata da dor estilo feliz. Sou o palhaço do jogo das contas de vidro, senhor Herman Hesse, mein freund. Nunca vi tantos eus em suas palavras.

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to be continued

segunda-feira, dezembro 29, 2008

dicionário de antônimos


um senão

Um esclarecimento: o Tempo não existe. Foi o homem (raça humana) que o inventou para pontuar o envelhecimento, o declínio da matéria, a impermanência constante. Se Tempo não existe digo portanto que mais um elo de matéria se fecha nesse momento, como uma cicatriz. Dar destaque a linha temporal, é como "dar-se conta" de que somente o Tempo demarca, delimita e conta essa aventura, da matéria ao espírito, do concreto ao abstrato. Micronizamos o contagio das horas, exterminamos o Tempo que hoje* é somente uma questão global. A interface, a linha que me liga à essa realidade particular via cabo. Como uma torre torta, uma tocata, o hino estadunidense num dedilhado de Hendix, e depois, um palco vazio. Porquês.

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*temporalidade

pas de deux

Lecuona - Grupo Corpo

Eu não te vi passar
mas agora você está distante
eu estou distante
na ilusão de Tempo e no Espaço

sinto falta muito embora
falta de qualquer coisa desordenada
falta sentir seu alarde
depois de te esperar toda tarde

falta de você
e da metade que levou quando partiu
mas como membro que se regenera
outro a ser o que era

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Para Cynara Jácome

VOLLMOND von Pina Bausch

domingo, dezembro 28, 2008

My Favorite Things

A verdade é que ainda não consegui me desprender por completo das relações humanas. De você que me deixei arruinar, perdoa-me por me traíres. A calma agora plaina no ar da noite, nos intervalos, nas pausas, no silêncio e na música. Eu quero falar sobre você, e daí, nada me impede fazê-lo. Somente a ética, um pudor parnasiano e a lucidez. Eu quero me lembrar das coisas boas e acabo lembrando-me da minha condição atual. Tenho vontade de te matar, não só no sentido figurado. Mas isso seria muito sério, muito shakespeareano, nelson-rodriguiano, tennessee-williamsiano, jean-genetniano, nietzscheniano e deleuzeano. Enfim, só conhecendo os marginais franceses para tentar definir como seria. A noite nessa cidade não há nada noir, nada horrorshow na noite. Só o que me empeça de sair o monstro no armário. E quem ganha com isso? O único show de horror é você, e é nauseante que isso ainda me atraiu.

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Wo bist du?

Há pouco mais de um ano me separei de minha mulher. Ela é descendente de alemães assim como minha namorada antes dela, Pesseguinho. Sempre fui um errante, nada do que fiz em minha vida foi certo. Sempre cantei aos quatro ventos minha miséria minha sabedoria, a prepotência, também minha e humana. Sempre me embriaguei dos venenos mais torpes, e me safei com audácia, como um Hobin Wood underground, das situações mais caudalosas. Estou me sentindo Giaccomo Casanova a descrever suas aventuras desde que foi expulso de Veneza. Mas, prosseguindo em meu relato pessoal. Essa experiência foi-me um tanto traumática. Foi e está sempre sendo para mim. Minha senda caminha na alma do nevoeiro. Isso acaba envolvendo todos que estão em volta. Isso acaba por mitigar cada dia a imagem que formo de mim mesmo. Sonho ser o que não verdadeiramente sou. Poeta e marginal sempre a margem daqui e dali também. Disse-me Mildred certa vez que eu tinha uma enorme vontade de ser aceito, mas não aceitava ninguém. Até hoje não entendi o que parece simples. O que é de fato aceitar alguém? É não ter olho crítico? Não saber sair dos lugares onde não me sinto bem? Eu é que nunca fui aceito por esses olhos pouco fugazes, e às vezes nada inteligentes. Ficamos juntos dois anos, eu afogado na germanofilia. Nem na Alemanha são tão germanófilos. Nunca os alemães me perseguiram tanto. E eu fui de encontro a eles, a ela. Com minha espada em riste e o coração na mão. Sem disfarçar pequenas emoções, tentando não me desesperar com grandes tristezas. Mas desse passado em que vivemos, sangue do meu sangue espanhol, ativado através dos genes de meu pai, essa novelística quase mexicana. Viva Frida Khalo, mas imagino que nos confins da Galícia, em Ribeiro de Bandi os dias são de tonalidade gris e sem cor, e até os dias de sol são tomados por algum pudor católico que não os deixa ser alegre. Existe uma grande diferença entre festejar e ser feliz. Quanto a verter a si mesmo, se divertir, não vejo lógica, com todo meu pessimismo, para isso. Mesmo assim o faço. Por pessimismo. Quando não tenho para onde ir. Cair morto para mim é a rua, é a chuva, sem destino certo, sem pausas e sem parágrafos. Saio como um Jack Pollock, de gola roleux e jaqueta. Os tons são frios, o dia é branco. Não tenho para onde ir, saio a flanar. Ocorre que tenho que deixar essa estação. Sair da casa de meus pais, da qual passei fora dez anos, da qual todos os irmãos já debandaram. Como disse minha mãe nascem dois morrem dois. Um novo paradigma contradiz esse dito popular. No caso geral seria nascem dois e morre um pra cada lado. Mas no nosso caso, está se cumprindo a sua profecia, o que ela, minha mãe, vaticinou. O problema é que não tenho para onde ir, por isso passo os dias perdido. Por isso passo os dias assim, com a mesma toalha que limpei minha porra, enxugo minhas lágrimas. A mesma paisagem, um voto de silêncio, outro de castidade. Lágrimas são de cristal e la leche és santa.
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sexta-feira, dezembro 26, 2008

Leonardo hyper

Distante e somente no dia do começo e no meio do fim do dia. Veruska, sua calcinha francesa e suas várias personalidades me comovem. Quisera eu um dia também estar longe daqui, mas quando longe significa estar longe das pessoas que você gosta.
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quinta-feira, dezembro 25, 2008

deformati mezzi

Cai devagar a noite de natal. Com uma chuvinha fina Yundi Li executa Escherzo N.1 Op. 30 de Chopin, entrecortado pela tosse de um velho senhor, meu pai. Quero recostar minha cabeça no travesseiro para admirar os inumeráveis tons de cinza, enquanto as notas são condolentes comigo. Enquanto acordes não me fazem dormir. O Escherzo zomba de minha tristeza anunciando o Noturno e a noite que vem pela frente. Ainda zombando de mim, diz adeus em uma escala transversal tão transgressiva que o próprio Rachmaninoff, especialista na obra de Chopin, aplaudiria. Scherzo N. 2 me chama, mas o primeiro tinha razão as notas não mentem e escolho mesmo ouvir Noturno Op. 66 enquanto a noite cai. Nas mãos do mesmo Yundi Li, bom garoto, de gravata borboleta ao rigor da decadência dos salões nobres e miséria da doença do pobre Chopin que, entre mazurcas e polcas, derrama sua melodia no esplendor das noites, notívago e sempre taciturno. Fantasie improptus em C Op.66, ele se ri de nós deixando escondidas lágrimas entre as teclas duo cromáticas.
Mas vejam essa japonesa, Hiromi Uehara, tocando com o Chick Corea (que deve atrair os orientais por causa desse nome). Vejam como é sexy ao piano, e como toca bem! Tocam um arranjo de Summertime. O arranjo que em si é a maior das gloriosas apropriações, a maior das libertações poéticas, a paráfrase em seu sentido mais explicito. Ah sim, isso lembrou-me d escrever um conto dentro desse conto, ou seja, um pequeno conto. Chama-se Desvirginando Oli. Depois de um samba ela veio parar em minha cama e não se lembra como. Pratiquei entre suas pernas o esporte do qual me tornei insigne praticante, succhiare buceta. No calor eminente da carne, chegou a hora de fazê-lo. De fato, eis que uma hora esse momento que um dia nada servirá, seja esquecido.


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Melodia sentimental

Heitor Vila Lobos

Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente.
Sobre o espaço, sonhadora e bela!
Surge no infinito a lua docemente,
Enfeitando a tarde, qual meiga donzela
Que se apresta e a linda sonhadoramente,
Em anseios d'alma para ficar bela
Grita ao céu e a terra toda a Natureza!
Cala a passarada aos seus tristes queixumes
E reflete o mar toda a Sua riqueza...
Suave a luz da lua desperta agora
A cruel saudade que ri e chora!
Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente
Sobre o espaço, sonhadora e bela!

quarta-feira, dezembro 24, 2008

downtown


Como exterminar de vez essa lembrança? Como assassinar em público essa dor? Somente matando a si mesmo? A dor física dói menos, distrai. Cadê o espírito imortal do Capão? Será que só choro eu? Chora você? Hey Joe. Quando criança tinha um sonho, mora no Blues que não desejo a você. Sabe sobreviver com outro homem, sozinha. Por quê me dói essa dor consoante dor-de-corno? Será que ainda te amo? Ou sinto falta da possibilidade de wohlgeratenheit, daquilo que deu certo, de ter dado certo, mas tudo é incerto. Que ridículo a possibilidade ser uma lacuna, uma falta, uma saudade, uma dor. Estive fora e as sirenes tocam mais um labirinto, lamento mais uma vez aqui ensimesmado. Trocando valores por maços de cigarro e cerveja. Eu me escondo da chuva fumando meu baseado, dando a minha risada mais profunda. Gargalho e rio e jogo bola, com os pés descalços. Eu sou do povo, embora muitos me critiquem. De domingo pra segunda tem sempre alguém dando a bunda. But the wind cries mary..
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segunda-feira, dezembro 15, 2008

Meu sobrinho saiu de casa por uns tempos está na casa da Tia. Minha irmã chora todo dia. Sinto falta de um amigo de outras vidas um ex-namorado que partiu de Belo Horizonte de quem não tenho mais notícia não se sabe onde. A última notícia que tive foi que ele havia se retirado pra morrer como fazem os elefantes. Sendo carcomido a cada instante pelo câncer, resolveu ter uma vida tranquila no ostracismo do sítio sem solidariedade sem espalhar a notícia incógnita. Essa informação vazou através de um amigo em comum... Espero que esteja bem. Às vezes penso nele. I hope he is okay. Penso que quando penso nele é porque ele está pensando em mim, mas longe de mim, longe de mim tentar entender física quântica. Um abraço. Amém.

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ps: e choro...

sábado, dezembro 13, 2008

The Great Gatsby

para ler ao som de Chet Baker, de preferência Moon and sand.

Eu com o lábio costurado, como disse minha irmã “meia boca”, Liberté me chama pra sair pra jantar na sexta. Tento entender aquele poema do Drummond João amava Tereza que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém (segue...). Poxa, como a vida pode ser assim e ninguém efetivamente conseguir amar ninguém? Amei certo tipo de pessoa de quem guardei ódio e amor no coração, que, como todo ser humano, tem a necessidade de meter, andar de moto, beber, se divertir - sair de si. Pena que eu ainda sinto algo por ela ter me revelado minha profunda ignorância de levar uma vidinha mais ou menos. Estou usando óculos. Descobri minha pequena e profunda miopia, mas nesse caso, o ano de 2007 foi para mim um caso de cegueira total. Estive fora do meu habitat natural, sei lá qual ele é.
Pesseguinho me chama para jantar, hoje é sexta e não fomos, numa cantina italiana que queremos ir desde que nos conhecemos. Pedacinho-de-carne-tentação chama para me jogar na Mary’s in Hell. Sei lá onde fica o inferno. De qualquer forma sinto-me ligeiramente pround. Esgotam-se as forças, acaba energia, mas no fim não há fim não acaba. Segue em compreensão na linha do bem, do religare ao etéreo ao ser menos cético. A fé é um veneno-medicamentoso, como o curare. Tudo depende da dose. Te paralisa te anestesia te dopa te mata. Nesse momento de pleno desespero é que se começa a pensar no etéreo, no que vive além da vida. Minha meta freudiana de agora em diante é “se perdoe e vá em frente” (ou paras as frentes). Sem mais esse amor romanticuzinho entre a lua e areia,
Oh, wheeeeen shall we meet again?
quer saber?
Fick dich!
ps: uma dose de ganância também não faz mal.

terça-feira, dezembro 02, 2008

heuters


Um dia nublado é para nos lembrar que o sol está atrás das nuvens, mas também pode ser o prelúdio de uma tragédia cataclísmica.

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quarta-feira, novembro 19, 2008

Vandalismo

Versos íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo amigo é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

sexta-feira, novembro 14, 2008

no comments



You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all

Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall
Show me from behind the wall
Eu você nos dois, já temos um passado meu amor....

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quinta-feira, novembro 13, 2008

MacDowell

Clockwork Orange

Sorria Malcom

Vai uma musiquinha?




Com o advento desses fatos ocorridos e comentários ao meu respeito, eu – iconoclasta por natureza e essência e sociopata disfarçado de escritor, lembrei-me de um primo distante, com sotaque cockney inglês que tomava pílulas com leite em uma casa de bonecas. Um Rasputin ultra violento, que o Anthony Birgs criou. Coloco aqui um pedaço da dúvida ética que sempre nos perturbará. Um experimento não autorizado e transgressor, assim como lei e ordem desaparecem numa noite sombria. Desaparece aqui o cenário de retidão ética. Os bons científicos analisam a cobaia humana, banalizada, pois a vida assim como não justificada na violência. Torturar com sadismo tecnocrata no andar de baixo enquanto ululava e se contorcia MacDowell no andar de cima. Optem, ou melhor, optemos por analisar o tema ao invés de minimizar-lo ao dualismo mocinho e bandido, o bom e o mau. Análise fleumática do sistema.

terça-feira, novembro 11, 2008

Eles não são bonzinhos

Hei cara, o que está acontecendo? Você parece que não me conhece, você não me conhece. Você acha que me conhece? Sei que nenhum sofrimento do passado justifica coisas que fazemos agora. O que você pensa que eu sou? Eu é o outro. Na sua idade já tinha passado. Existe uma lacuna entre o que existe e tudo que você gasta sem saber que o Espaço muda as pedras, as águas mudam imagem em movimento. Percebe? Há uma distancia entre você e a realidade. A realidade é retornável? A realidade e um conceito relativo. Em cada espaço que você não conhece há uma realidade. Se lá em Pato Branco existe um professor de esperanto. Quando nos perguntamos o que é normal. Isso é uma afirmativa? Existe uma prelação por isso ou aquilo, por aquela morena, alta, magra. Você tem um nome, você tem uma história que não me importa saber. Eu troquei de pele. Rasguei a máscara que trazes e que vês. E as pessoas me vêm. E como eu posso ser invisível pra você? É importante que tenha a resiliência do ferro, mas que seja de suave e leve como a pluma. Então vamos caminhar juntos pelas ruas cultivando as estrelas. Ein minute, ein Stern. Muda a perspectiva. Muda a estrutura. Há um ponto de fuga. Adentro a casa mental do estranho como numa pintura. Faz parecer flauvista ou surreal, mas mergulho em um campo de trigo impressionista. A arte é a vida. Estamos falando de arte, e eu digo que a arte a própria vida. Eles não são bonzinhos.
Enjoy Capitalism

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segunda-feira, novembro 10, 2008

retrato falhado

oi carta rasgada,

tudo que tenho é esse blog. devo ser tudo aquilo que você falou mesmo. as pessoas dizem que sou agessivo. não sei o que me falta. essa raiva que trago dentro de mim é como estar no caminho errado consciente disso. não sei qual meu caminho, não sei o que eu posso deixar de bom nesse mundo, não sei de que forma eu poderia contribuir... a indiferença me mata. e morto eu já nem sei se existo, porque existo, logo penso.vivo deprimido, não sei se essa palavra é muito forte. não é pra que sintam pena que digo isso. é porque não me encontro nessa busca eterna psicoanalizada. eu concordo totalmente com você, digo, não com essas classificações psiquiátricas, mas quando diz que eu sou agressivo. olho pra dentro de mim, olho no espelho bem dentro dos meus olhos, olho e me desespero, e páro sem reação. o que eu tenho? não é psicopatia. "A teatralidade e manipulação social dos sociopatas é tão convincente que poucas pessoas, após algum contato duradouro com os sociopatas, são capazes de imaginar o seu lado negro, mau e perverso."poxa não sou pervertido, apesar de ser perseguido por certos tipos de bichinha escrota. e que mal eu poderia fazer a sociedade? um crime bem bolado. O mal que faço é a mim mesmo. sou persona non grata. e no fim da noite despejo toda essa energia guardada entre braços e cadeiras voando, como você disse. é foda, é dificil pra mim ser assim. é uma coisa qualquer que eu não sei o que é: religiosidade, mais terapia, mais remédio, nascer de novo, sei la.portanto me afasto o contato com as pessoas, não consigo mais olhar na cara de minguém. Talvez porque não conheçam meu passado e aprendi a viver com a falta de educação deles (e mal humor). é mais uma tentativa de fuga, mas eu sei que é impossível fugir de si mesmo, mesmo em Düsseldorf. Bem carta, vou me deitar, a cama me chama. Não sei se estou mais aliviado em confessar, pois é uma confissão, mas é uma conversa com quem está do outro lado da tela. e de repente abro essa janelinha e tem uma resposta (ou não). daí fica valendo a conversa consigo mesmo.
Beijos
de quem não deseja mal a ninguém,

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sexta-feira, novembro 07, 2008

Albtraum


Há uma ainda sina e ela me persegue em pensamento. Quando consigo relaxar ao som do jazz, me vem a nostalgia nas notas prolongadas do trompete, na cadência e nas pausas do piano. Pega o lencinho aí pra mim. Como fiz isso? Como eu pude? Que saudade. Devo mesmo gostar de sofrer Roserouge, então dedico essas palavras a você. Permita-me dedicar também a mim mesmo, eu próprio ego. Foi ele quem escreveu essa comédia bufa e foi ele quem pintou essas paisagens. Adentro as nuvens entre as notas, nota que sou louco por você. Então, não podemos mais nos beijar, então as ondas invadem a areia do mar, a noite está sob o nosso comando. Quando os encontraremos de novo? Quando a noite nos enfeitiçou, nos deveríamos. Embora as ondas invadam a areia do mar, embora não possamos mais nos beijar. Existe a lua e a areia do mar. Segue e sua vida e quando menos se espera vai raiar um novo dia, não é? Pois a noite hoje chuvosa faz-me lembrar sonhos derramados. Tento controlar essa saudade, isso, saudade que sinto no peito. Sinto-me um mosaico inacabado. Sinto que faltam alguns pedaços, pedaço vazio vão vácuo ausência distância ó pedaço arrancado de mim. Sem você, como membro que se regenera, outro a ser o que era. Episodio na vida de um escritor, sinto-me o próprio Arturo Bandini, personagem de John Fant que protagoniza Espere a Primavera Bandini e Pergunte ao Pó (o pó das prateleiras, a poeira dos livros, o pó – matéria em decomposição – do passado). Busco me comunicar, procuro por um rosto conhecido que eu nunca tenha visto. Um escritor em busca de quê? Busco a mim mesmo em você. Eu sou você e o que eu vejo sou eu.
Katzen-traurig ohne ihre Fuchs
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quinta-feira, novembro 06, 2008

zenstehen

Tenho que seguir essa sina de cigano. Eu, nessa ternura afônica, não pude engolir nenhuma das duas. Durante muito tempo na história do mundo o alimento foi escasso e ninguém falava russo. Passamos chuvas do verão e frio de inverno. As folhas caíram. Sabe aquela dor? cacete, aquela dor que me trucida. Estou fisicamente fora, lembrando momentos memoráveis, ou só mais distantes. E deixem-me colocar as asas pra secar. Para eu poder voar como um pássaro livre, um fora da lei. Não tenho mais lugar. Vivo aqui mesmo, não é novidade. Pode-se esperar que eu seja humano. Pode-se até esperar que eu seja mais amargo e hostil com as palavras. Mas pode acreditar mesmo é que vou pedir seu currículo. Nessa disciplina que se revolta contra si mesma para formar novas estruturas. E essa não era a fórmula dos meus sonhos.

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Ziggy Stardust


Ziggy tocava guitarra, tocava bem com Weird e Gilly (?).
As aranhas de Marte, ele tocava com mão esquerda.
Mas foi longe demais
E se tornou o homem especial, e nós nos tornamos banda do Ziggy.

Ziggy cantava bem, apertava os olhos e bagunçava os cabelos.
Como um gato japonês, podia lamber com um sorriso.
Podia deixá-los pra serem enforcados
Eram homens muito carregados, bem enforcados e brancos como neve.

Onde estavam as aranhas?
quando as moscas tentaram acabar com a nossa coragem?
Só a luz de uma cerveja pra nos iluminar
Então xingamos seus fãns e deveríamos esmagar suas delicadas mãos?

Ziggy cantava pra o Tempo, cantava que éramos Vodu
As crianças eram estúpidas. Ele era o máximo
Com o cu abençoado por Deus
Ele foi longe demais, mas tocava bem guitarra

Fazendo amor com seu ego, Ziggy foi sugado pela sua mente.
Como algum messias leproso
Quando as crianças mataram o cara eu tive que acabar com a banda.

David Bowie

Livre tradução feita por mim
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terça-feira, novembro 04, 2008

Sonho

Claro. As coisas agora estão claras e começam a acontecer rapidamente. Fico feliz em saber que a Mildred está bem. Claro, sinto saudades, mas já conheço nossos limites. Foi um thriller mal contado, de uma noite sem fim em um lugar desconhecido. Lugar que ainda hoje eu tenho medo. Medo quando a feitiçaria da noite, medo quando andava sozinho pelas ruas, medo de chutar macumba na encruzilhada, medo de me aproximar novamente. Preciso apurar o olhar para distinguir o óbvio do efêmero. Preciso distinguir o áspero do suave em suas palavras. Aqui é melhor começar a se ajudar, cuidar de si. Essa vez faz conjunto com a flora agreste do seu peito. Dói? Saber que nada mais te encerra na minha evolução, pequena? E o escambau, eu digo, as coisas caminham, percebe?, não quero seguir seus vestígios de sangue e vinho vagabundo e esperar que me diga alguma coisa mal humorada. E a própria lógica do índice “onde há fumaça há fogo” é foda. Espero a sua doença passar. O céu alimenta as estrelas dando um véu acetinado à cena. Depois coloca seu rosto meio de lado, seu sorriso sonso meio devasso e de entusiasmo que eu me lembro tanto. Então vamos pra casa.

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Lady sings the blues

Billie Holiday and Band...

sexta-feira, outubro 31, 2008

Help Roserouge

Querida Roserouge, Talvez você possa me ajudar, me aconselhar talvez. É que de repente fiquei triste, percebe?, silenciosamente. Certa rapariga misteriosa entrou, sei lá como, na gaiola do papagaio mudo (que vive aberta) e deixou um comentário dizendo que estivera numa vernissage onde nos encontramos e que eu ficara “beeem” interessado. Interessado em quê? Como jornalista, tenho interesse em pessoas, gosto de pessoas, dou bom dia ao trocador do ônibus, me despeço dos garçons, agradeço, dou lugar na fila sempre que posso. Sou cordial com os mais velhos e um pouco impaciente com os muito jovens. Talvez porque com quinze anos saí de casa. Fui morar em São Paulo onde vigora uma mentalidade bem diferente dessa vida montanhesa que levamos aqui em Belo Horizonte. Bem, o fato é que essa moça fez um jogo de mistério sobre sua identidade, até aí tudo bem. Foi averiguar com os amigos quem eu era, quem eu sou. Disse em um blog amigo, o dublês de poeta, que eu não tinha muito boa fama e que cada um tem uma história estranha sobre mim. Data Vênia, mas nunca nesses casos me é dado o direito de me defender, mesmo que na maioria das vezes eu esteja errado. Um pré-julgamento antecede um preconceito, não acha? Convidei-a para um café. Recebi a pior resposta a esse convite que já deram nos últimos tempos. Disse-me que sou visto como uma pessoa má, enfim, merece uma transcrição:

“Um grupo tão grande de pessoas, e mesmo os meus amigos, não inventariam absurdos sobre você, à toa. Não tape o sol com a peneira. Acorda!Já me disseram que você é agressivo e que no final das contas NUNCA admite que colocou você, ou as pessoas em sua volta em risco. Que egocentrismo, não?”

Não sabia que eu espantava as pessoas só com a minha fama de mau. È certo que estive vivendo longe durante muito tempo e que saí a pouco de um relacionamento conturbado meio sem rumo e sem direção. Mas daí a apontar o dedo no meu nariz? Isso é típico de quem não tem telhado de vidro e atira pedras de sua redoma de puritanismo. Gostaria de saber o que você acha disso, Roserouge. Se algum dia eu me embriaguei e pus a minha vida em risco e a de outras pessoas, foi uma atitude auto destrutiva e suicida que só os loucos levam as últimas conseqüências. Eu me coloco os devidos limites, ao mesmo tempo em que desprezo esse pensamento Tradição Família e Propriedade. Sou filho de espanhol com um pezinho na Alemanha, germanófilo. Meu sangue ferve ao mesmo tempo em que outra hora penso tudo racionalmente. Me perdi nesse discurso...
Ou você se insere no caos ou nasce denovo. Somos homens contemporâneos.

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quinta-feira, outubro 30, 2008

fragmento saudade

Que saudade, que bom termos na nossa língua essa palavra repleta de significado. Que saudade de dizer eu te quero, saudade de querer cuidar, querer bem, querer perto, querer bem perto. Criando atividades para reduzir a lista de saudades. A janela emoldura a paisagem, ladrão de entardeceres, calor avermelhado de luz sobre as cores, sobre as nuvens. Saudade de querer ter saudade. Os tons bucólicos sempre me emprestam a tristeza, e a noite me revela seus segredos. Doce é morrer no mar, doce o seu beijo, seu jeito de fazer. Escrevo apenas aquilo a quem não me pede licença pra ir embora. Embora eu queira bem sem saber. Vem cá, me dá sua língua. Minha medida. Eu inventei você.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Echoes

Overhead the albatross hangs motion
less upon the air
And deep beneath the rolling waves
In labyrinths of coral caves
The echo of a distant time
Comes willowing across the sand
And everything is green and submarine.

And no-one called us to the land
And no-one knows the wheres or whys
But something stirs and something tries
And starts to climb towards the light

Strangers passing in the street
By chance two separate glances meet
And I am you and what I see is me
And do I take you by the hand
And lead you through the land
And help me understand the best I can

And no-one calls us to move on
And no-one forces down our eyes
And no-one speaks and no-one tries
And no-one flies around the sun

[guitar solo]

Se você completa


Se você deixar que eu parta, enfim. Você vai dizer que só depende de mim, da minha força de vontade para continuar, seguir, evoluir. Mas espere, você não está dizendo nada. Isso são apenas palavras que se materializam do meu ego. Sou apenas EU dizendo. Acendo um baseado. Provar a mim mesmo que ainda vivo. Não sinto mais prazer no sexo insosso, na cerveja sem gosto, no cinema, em nada. Sobrevivendo a cada dia em que não espero recompensa. Um dia que se parece com o outro. Acompanho as notícias pela televisão. Meu olhar perdido e desinteressado. A egolatria camufla a estrutura de seres humanos frágeis. Não que isso seja uma vantagem (aliás, quem conhece demais a si mesmo, perde um pouco a curiosidade e essência), mas conheço-me o suficiente para ver a mim mesmo. De fora não indulgente, de forma real. Sob o dom divino da dura árdua realidade. Estive vazio, e agora? quantas noites se passaram? Dessa janela vi muitos entardeceres, o sono da bebedeira da madrugada. Sim, no fundo, autodestrutivo, mas além, diga que não é verdade. Quando acho que já superei, me vejo pensando e tentando esquecer. Solidão que resguarda minha vida estreita as portas e controla meu caminho. Lembro-me o dia que saí dessa desse castelo, quando não pude mais suportar a vida monástica. Não concordo que destruam minha moral. Aquela que foi pisoteada e atirada no lixo nessa loucura órfã desvairada. Um pouco de vida familiar ia te fazer bem.

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Wo bist du?

Roads - Live in Roseland, N.Y.
Portishead



Wo bist du mein süsse?

terça-feira, outubro 28, 2008

Round Midnight

a hora que penso em você


super time

Escrevo, independente de qualquer forma. Preso na gaiola, escrevo. Como preencher melhor planejado os discursos e estruturação de idéias, com prazo. Por isso quase arredondado, já deve estar pronto para rolar, rebater, girar, como a terra. Perdido no globo que não me encontro. Aproveitando o espaço para descartar o lixo que enjoa. Enjoa-me a voz do William Bonner, esmo assim eu assisto. Construindo um atalho de perdão, esquecimento, ódio. Onde caminha o amor, caminha também o ódio, em lados bem próximos. Pior é perder o rumo das próprias vontades, destruir a imagem dos próprios sonhos, vandalismo. Um tango rasgado com sangue e seu perfume naquela blusa, tempo rasgado. Incapaz de superar a si mesmo, de seguir e sonhar outra vez. Cabeça minha, começa uma transformação. Negação de toda dor que as questões existenciais (dor física) e filosóficas, causam. Indagações sobre a idade da razão. Trintão, ou trintinha, depende. Acabou-se a juventude e eu, tardiamente descobri isso. Mesmo que nesse tempo não tenha deixado de evoluir, ler, aprender, mesmo que aos tropeços, mesmo que aos trancos. Um poeta opina sobre a própria sorte. Morte é uma palavra sombria, contudo fala a verdade quando é renascimento, recomeço. Uma oportunidade se toma, como um bom cálice de vinho do porto. Depois da refeição, depois de uma dança, depois do marido e a mulher, depois de trinta anos de casamento. Escrevo porque café pequeno. Feito de benefícios, trator amarelo, as benfeitorias. Pos fogo nas manchetes do jornal. Fugiu nas páginas policiais. Saiu do Brasil de navio. Compondo as minhas proposições, propondo às minhas divagações algo além do éter, a matéria metafísica. Escrevo meu tratado de paz comigo mesmo. Escrevo. E você nem vai perceber, mais rápido do que eu pensava.

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Shaman

Então escrevo desesperadamente, compulsivamente. O que não me deixa. O que não me deixava. Procura auxilio nas palavras, minhas próprias palavras. Amaciando o teclado, amaciando o pensamento. Penso que sou essa página em branco e que devo cuidar-se com muito cuidado. Nem sempre isso é possível. Blasfemo esse pedaço de documento virtual com certeza de que não vou ferir ninguém, mas as conseqüências dessas palavras ressoam, e acabar por arder em mim mesmo. Há um pensamento em fuga, uma poesia. Ela se esvai, porque dilacera mais em poucas palavras que a prosa corrida e articulada. Não que a poesia não seja articulada, não necessariamente o é. Na sua desarticulação cria, no seu estado de caos sistematiza. Desconforto é pra quem está confortável, equilíbrio é para quem está desequilibrado. Quero ser o beijo nessa consciência e mesmo apesar do estrume, ainda enxergar a rosa. Sinto que coisas boas, essas que ficam guardadas na nossa memória lúdica, começam a desabrochar. Estou reunindo toda a força do mundo. A força e o poder de cura das florestas amazônicas, fluidos cósmicos, juventude.

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Feist

Compositora canadense


"So Sorry"

I'm sorry
Two words
I always think
After you've gone
When I realize I was acting all wrong
So selfish
Two words that could describe
Oh actions of mine
When patience is in short supply
We don't need to say goodbye
We don't need to fight and cry
Oh we, we could hold each other tight tonight
We're so helpless
We're slaves to our impulses
We're afraid of our emotions
And no one knows where the shore is
We're divided by the ocean
And the only thing I know is
That the answer isn't for us
No the answer isn't for us
I'm sorry
Two words I always think
Oh after you've gone
When I realize I was acting all wrong
We don't need to say goodby
We don't need to fight and cry
We, we could hold each other tight tonight
Tonight
Tonight
Tonight
Tonight...


Pirata


Todos a postos. Não há Espaço para vacilar. O mundo se recria em mil formas. O pensamento se dissolve para se plasmar de juventude, daí recria mil cores em formas novas, em mil estados de consciência, reflete mil fragmentos de luz, o peso das partículas incide levemente sobre mil pedaços. Minha ternura se reaviva, a tristeza não se esvai, diminui, atropela, sufoca. Continua ali guardada. Como um alarme vermelho, como a lembrança de outro eu. É difícil e tem sido difícil viver, conviver e reconstruir. Fui jogado de volta para o útero materno. Não tive escolha, não tive dinheiro, não tive pernas e braços fortes para me manter desgarrado do bando. Faltava um leão quando eu vim morar aqui. Hoje estamos quase completos e completando pequenos ciclos de vida. Minha irmã, fêmea alfa recessivo da “família” (afinal somos gângsteres sem Família, somos filhos de imigrantes forasteiros, sem o corporativismo das colônias italianas e alemãs), ou do bando, vai se mudar. Vai para um apartamento com sua cria, ou melhor, seu filho. Acho que estou virando Tio. 30 anos e muitas montanhas pra escalar, muitos rios para seguir, muitos mares para navegar.

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domingo, outubro 26, 2008

Escrevo para aprender




Pergunte a minha amiga Bruna Gil como o mundo funciona. Isso, se ainda não tiveres feito a sua cirurgia moral. Ela poderá te diagnosticar com suas palavras, talvez. Escrevo para não morrer aniquilado, esmagado pelo peso dessa tragetória. De dia, de noite, a marcação das horas. Um lamento ritmado, o compasso de uma ladaínha flamenca, chôro e lágrimas. Deixemos, então, as águas idas, meu bem, não saber como o mundo funciona, um mundo sem clichês onde ninguém se apaixona. Ah, como era bom o seu carinho derrete em minha boca essa lembrança. Tão linda assim, pura posia e nos olhos a graça que somente eu podia. É que ando nostalgico faz tempo e o pulso, infelizmente, ainda pulsa. O coração bombeia para o cérebro o sangue e o cérebro manda de volta em palavras. Eu ainda bato nessa mesma tecla, tentando acessar um arquivo que se perdeu. Então, sou exatamente igual quem me persegue. Sou um fantasma assim com você é um fantasma em minha vida. Somos fantasmas um do outro e quanto aos outros, quem são? Somos apenas fantasmas. Uma retórica acadêmica? quem somos nós, afinal? quem é você? diga, ou serei obrigado a dizer? Seria você o que eu penso? ou não apenas o que eu penso? Escrevo ao som da Bachiana n.5 do Villa. A solista canta em português, o que me lembra um fado. O que seria de nossas tristes e corrosíveis, chatas e cansativas saudades, chôro de amor, não se sabe, além de um grande efadonho fado? O que seria, eu te digo, é o que se sabe, é o que se vê, é o que está sendo, é o que hoje se assegura, sozinho sim, com seu fantasma e sem você.

Paco



sábado, outubro 25, 2008

talKing hEads

David Byrne - Voz, Guitarra, Violão
Chris Frantz - Bateria
Tina Weymouth - Baixo, Teclado
Jerry Harrison - Guitarra, Teclado


sexta-feira, outubro 24, 2008

bounced

Estou sozinho e os sinos tocam. Há cinco dias sem meu remédio. Sem destino, sem saber minhas prioridades, permitindo que a dúvida se instalasse. A cinco dias sem escrever. Acordo, durante meu sono cortado, com um poema a pular para o consciênte. Minhas costas doem. A situação de vulnerabilidade física que se tem talvez não seja conciência de todos nós, mas um dia o porquê se levanta e tudo recomeça, nessa lassidão tingida de espanto. Um poema de duas estrofes de três versos que se perdeu e deve estar em alguma gaveta do meu cérebro. Nada me desabona, além das palavras. Explicando, a minha maneira, que fosse meio eu meio você, percebe?, mesmo que você não veja a mesma paisagem de prédios e janelas acesas e a minguante, com seu sorriso amarelo, zombando de mim no céu, zombando dos que dormem. Mesmo que três xícaras de café sirvam somente um. Um cigarro de cada vez. Já não penso mais em nada, já não penso mais, já não penso. Você liga pra me procurar, você me persegue, onda anda minha vida? quem é essa galera? você se sente rejeitada. Você se esconde. A quem você mostraria a sua realidade? é como tentar esquecer uma sina, um acidente climático. Feito tentar esquecer a realidade, feito rasgar uma carta de amor. Os sinos tocam para marcar a passagem dos dias, enquanto a matéria envelhece. Eu me comprometeria a eliminar todos os tempos verbais. Eu exterminei o Tempo. Agora existo numa outra marcação da passagem das horas, uma marcação biológica, rizomática. Meus músculos doem. Qual seria minha vocação? minha vocação... sim, minha vocação.

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quarta-feira, outubro 22, 2008

night in Venezsia


Giacomo,

Incrível as coisas que o ser humano faz tentando agradar os deuses: predileções, diligências, indulgências... como essa biografia assassinada, filho de Ôbá. Aquele pensamento oriental de que a vida pode ser como um rio, se você deixar ela vai seguindo, encontrando seu curso. Mas você também pode tomar as rédeas e fazer dela o seu cavalo. É você quem escolhe, Rio ou Cavalo?
Com treze anos eu matei meu pai. Isso fez de mim um iconoclasta. Com o passar do Tempo, aprendi a matar meus próprios ídolos.
Tentando dormir
de luz apagada
tentando memorizar
alguma coisa boa
que fica, nada além. Vivendo hoje para morrer durante a noite. Não quero mais la belle mort. O dormir de um bêbado como um momento roubado. Longas noites de dissolução. N
a maioria delas, ele dissolve-se a si mesmo, adormecendo feito criança, louco, lírico, sereno.

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quinta-feira, outubro 16, 2008

Almost Blue

Little funny erotic midnight version of Almost Blue. Almost Good.

Elvis




Almost blue
Almost doing things we used to do
Theres a girl here and shes almost you
Almost all the things that your eyes once promised
I see in hers too
Now your eyes are red from crying

Almost blue
Flirting with this disaster became me
It named me as the fool who only aimed to be

Almost blue
Its almost touching it will almost do
Theres a part of me thats always true...always
Not all good things come to an end now it is only a chosen few
Ive seen such an unhappy couple

Almost me
Almost you
Almost blue

quarta-feira, outubro 15, 2008

Vôo cego



Agora quero ser um pássaro livre, um fora da lei, um frei Vogel um Vogelfrei. Mas minhas asas ainda estão molhadas da madrugada chuvosa de ontem e só um dia o porquê se levanta Tudo recomeça, nessa lassidão tingida de espanto.

A manifestação do universo como uma idéia complexa em si mesma, em oposição a estar no interior ou exterior do próprio e verdadeiro Ser, é inerentemente. Um nada conceitual ou um Nada em relação a qualquer forma abstrata de existência, de existir ou ter existido perpetuamente, sem estar sujeito às leis de fisicalidade, de movimento ou de idéias relativas à antimatéria ou, à falta de um Ser objetivo ou a um Nada subjetivo.

Há quanto tempo não consigo dormir? Entro na noite como um vagabundo furtivo com bilhete de segunda classe numa carruagem de primeira, passageiro clandestino dos meus desânimos encolhido numa inércia que me aproxima dos defuntos e que a vodka anima de um frenesi postiço e caprichoso, e às três da manhã vêem-me chegar aos bares ainda abertos, navegando nas águas paradas de quem não espera nenhum milagre, a equilibrar com dificuldade na boca o peso fingido de um sorriso. Há quanto tempo de fato não consigo dormir? Se fecho os olhos, uma rumorosa constelação de pombos levanta minhas pálpebras descidas, vermelhas de conjuntivite e cansaço, e a agitação das suas asas enrola-se na colcha numa umidade de febre, por dentro da cabeça uma chuva de outubro tomba lentamente sobre os gerânios tristes do passado*. Uma tarde chuvosa de carnaval nessa cidade deserta, tomar um café. Depois nos render à insistente garoa de um Café para o outro a flanar. Caminhavas como onça com passos largos para pular as poças nas calçada e beber suas palavras de silêncio.

Voar onde refletem meus sonhos, perdido no deserto das idéias. Ao fim de um breve silencioso adeus, um coração vazio, palpita. Um choque leve na ponta dos dedos, na ponta dos dedos que se encontram, despedindo-se, despindo-se.


*trecho furtivamente extraído do livro Os Cus de Judas de António Lobo Antunes.

terça-feira, outubro 14, 2008

Lady Gasoline

Sinto-me bem. Cansado de não conseguir controlar o Tempo e difícil de me comunicar no Espaço. Sinto-me bem cansado. Por enquanto feliz pela sorte de ser tão suave sua pele que nem conheço. Preparando-me para atravessar pontes sobre penhascos, me preparando pra enfrentar desafios, acelerar o passo. Com o dia acabando já não tenho alternativa. A noite vem de mansinho, e fica, e se prolonga em vários desafios em que eu mesmo me coloco. Parece que estou sobrevivendo a algum momento. Se então meus olhos continuam fechados? Não consegui, de fato, entender essa lógica, essa equação tão simples? Meu Deus, o que faço? Por onde seguir? Aonde ir? Que tal fazermos um acordo? Deixa ser bem vindo a essa vida social, executiva, pública, econômica, capitalista. É choro, é lamuria? Não é o meu país é uma sombra que pende, completa, o meu nariz em linha reta. E vem.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Taxi Driver

The young Robert de Niro directed by Martin Scorsese

Não sei mais o que dizer. Talvez eu esteja vazio nessas tardes de primavera. Adentro minha janela como quem entra em um quadro, uma tela de céu azul e nuvens rosadas. Consigo escrever alguma coisa. Realmente não sei quem lê essas palavras. Guardado o sentido relativo de realidade. Vivo minha realidade enquanto o dia se desfaz, enquanto a economia global se desespera, enquanto o vento uiva pelas frestas da janela. Quando a lua nasce, ainda cedo da noite, fumo um cigarro pensando nos olhares de Ana Lena. Quero ouvir jazz, quero as notas líricas do Chet, quero as notas compassadas de Coltrane, quero a elegância da garça do Miles, quero um pouco de paz, mas a proposta de voltar ao tempo das tabernas me cansa só de pensar. Vamos lá. Vamos na direção e no caminho que o vento sopra. Alle LaCriola!

ps: eu me lembro da loirinha adolescente com quem esse psicótico pirou. Vocês lembram? Judie Foster!

sexta-feira, outubro 10, 2008

Josephine Baker

Aquela noite em que bebemos o superlativo de tudo. Fomos ao cinema dançar. Antes de entrar, já ébrios, entornamos mais meia garrafa de tequila entre cinco na roda. Ao entrar, atravessa-se toda a sala de exibição que conduz a um pequeno underground munido de um bar, uma pista e a cúpula sagrada do DJ (assim eles acham). Mas enfim, um não faz a festa acontecer sem o outro. Nessa noite me disseram que eu beijava tudo que se movia, e veja o que poucas garrafinhas do pescoço-grande podem fazer: despertar testosterona em doses cavalares. Encantava-me a cara amedrontada das meninas em fila na porta do banheiro. Olhavam-me como se eu fosse um leopardo no espreitando as gazelas na beira do rio, e eu saía indiferente como assim o fazem os leopardos. Àquela altura já se sentia em certo pânico no ar. Medo de um surto psicótico, medo da sociopata, digamos, nessa altura não havia mais galanteio sociopata, apenas auto-iconoclastia, como que quebrando a imagem do meu próprio sonho. Como diria Caio Campos, minha outra personalidade (tenho várias) essa destrutiva, brutal, agride as pessoas, é má. Um underground em um lugar de monstrinhos ainda mais destrutivos mas por ora inofensivos. Sabem quem por lá estava dicotecando? O Donatinho, filho do João Donato. O pai João Donato eternizou com Ellis Regina a canção Preciso Aprender a Ser Só, além d outras façanhas na música. O filho herdou todo o seu talento e apesar de fazer um solo (a formação completa de sua banda chama-se Zambê), ele conseguiu balançar todos com seu tecladinho. Poucos sequer sabiam que ele Donatinho estava lá colocando seus arranjos musicais, seu set, para a musica eletrônica. Privilégio nosso. Nos fins mais uma noite adentros que ao cinema fui. O cinema parecia mudo, as pessoas falavam e eu não entendia. Tinha que fazer um esforço enorme para enterder por meio de leitura labial e gestos o que meus amigos diziam.

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quinta-feira, outubro 09, 2008

The Old Cat and the Sea

Andar pelas praças, subir as escadas, descer as ruas virando esquinas desconhecidas. Andar pelas ruas, as mesmas ruas. As mesmas pessoas, não é nenhum segredo. Sabe, hoje faz um pouco de frio, a tarde foi eternamente turva e a noite formou nuvens vermelhas. A vida monástica tem sido a minha melhor escolha. Quando penso em escrever, quando vejo interfaces abertas e o paradoxal comportamento da pós-modernidade: falta de vínculos interpessoais, individualismo, eu eu eu. Uma questão freudiana, essa busca eterna. O que mais interfere no comportamento é a dúvida. Como diria Fernando Pessoa “ninguém sabe que coisa quer/ ninguém conhece a alma que tem”, daí resta a dúvida, e continua, “tudo e disperso e derradeiro/ tudo é incerto, nada é inteiro.” Vale a resposta do cronista mineiro Murilo Rubião quando perguntado por Fernado Sabino (outro mineiro) se acreditava em Deus: “Em Deus não! Mas tenho uma enorme devoção em Nossa Senhora.” Portanto há que se acreditar em alguma coisa que não vemos. Na transmutação da matéria, transvaloração de todos os valores. Da mesma forma, são se pode culpar uma árvore frondosa por um dia ter sido uma sementinha. Mas há que se crer que a árvore irá crescer, mesmo sob ventos fortes, quanto mais fortes os ventos mais fortes o tronco. Que não seja Deus e nem mesmo o próprio etéreo, mas nesse florescer natural, biológico, nem por isso distorcido, distanciado da realidade. É nisso que quero acreditar.

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Paris Texas

Wim Wenders masterpiece

Segue


Qualquer coisa esse 2008. Qualquer coisa aconteceu que eu fiquei assim. Cada três dias me parecem um. Cada três messes me parecem um. Falta-me quanto tempo parar de gostar dessa condição? Confesso, deve valer-me de algo essa pena. Um motivo qualquer para querer morrer, já que o embalo da vida já não é. E somos expulsos de alguma realidade, e aos poucos construindo outras. Gerundiando por aí, por cá, high up in the sky. Outra tarde eu vi dois aviões passarem, não sei por que me lembro disso até hoje, mas quando era criança minha tia pedia um bebê aos aviões, quando via um. Ela já soma meio século de idade e até hoje não teve filhos. As tardes são infinitas e as noites são eternas. Acordo no Japão é na palma e na palma é na palma da mão, dançando um samba em frente ao McDonalds. Ventos fortes sopram desde a tarde. As nuvens formam refletem uma estranha luz. No cu algumas estrelas reluzem urbanas e solitárias, e sorridente a lua cresce. Mais um dia. Mais um dia sem saber por onde andar. E a gente vai levando. Tomando as frentes e seguindo as horas.

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quarta-feira, outubro 08, 2008

Seu Jorge

Quando as coisas do coração
Não conseguem compreender
O que a mente não faz questão
E nem tem forças para obedecer
Quantos sonhos já destrui
E deixei escapar das mãos
E se o futuro assim permitir
Não pretendo viver em vão
Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
Do infinito do céu azul
Pode ter vida em marte
Então vem cá
Me dá a sua língua
Então vem
Eu quero abraçar você
Seu poder vem do sol
Minha medida
Então vem
Vamos viver a vida
Então vem
Se não eu vou perder quem sou
Vou querer me mudar
Para uma Life on Mars

Transparência

Pequenas paisagens guardadas nas gavetas da memória, fazendo alusão ao título que dou as noites passadas, Litlle girl blue. Você agora descansa em outros braços. Agora a noite dança ao seu compasso, ao seu ritmo, sua assimetria. Melodia previsível nesse sair de si sem palavras, nesses gestos de nada a ser jogado na rua, a ter os braços arranhados, a viver de uma lembrança que precisa rir, precisa sair de mim, precisa ir, deixar-me um pouco em paz. Não sou o pobre nuem o mais capacitado a nada, neste caso sou uma reciclagem de mim mesmo. Começa de estar diante de si somente. Como um corte de seco de navalha a voz falha. Calado, eu mudo e mudo, eu sumo... Faço em mim seu próprio túmulo, e rezo sobre o que me restou de você e deposito as rosas amarelas que comprei ontem à noite. Te digo em segredo que há um altar em meu armário que eu fiz em segredo e guardo. Ouça. Essa melodia diz de si mesma da mesma forma que me lembro de você. Cá estou, distante e jazz. Na carne em pensamento, navalha.

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segunda-feira, outubro 06, 2008

David Bowie für ein rouserouge

David Bowie





Distância

Na sequidão das lágrimas que inundaram meu quarto, no aperto no peito e na garganta. Uma dor que escorre pelos olhos. Não falarei mais de manchas de sangue, borrões de café tingidos no papel, mancha seca de esperma, de porra. Não mais falarei das manchas do passado, do seu e do meu passado. Passados tão datados quanto meus textos, minhas lamurias, ladainha, masturbação verbal, colocar pra fora dessa forma, entenda como quiser. Sou um homem de um tema só. O meu tema universal é o amor. Leia essa Canção do Ginsberg sobre o amor, pois eu concordo com tudo que ela diz, embora nunca se diga tudo. Alguns acham esse tema muito abordado no lugar-comum, onde-todos-nós-habitamos. Sou realmente fascinado pelo amor. Nenhum outro tema me encanta mais que esse drama mexicano, que leva as mulheres ao choro de orgasmos múltiplos e os homens ao ardor do desespero. Quem nunca sofreu por amor? Sofreu, amargurou- se, mas nunca escreveu poesia, somente cartinhas de amor. Como um corte seco de navalha, que sangra lentamente depois pára. E deixa uma cicatriz mínina que, com a degeneração da matéria, esvai-se até em pensamento. Quando não lembro mais de você, você me vem à cabeça. Vai entender o masoquismo humano... não é? Você se foi, mas o céu continua a brilhar, vejo uma nuvem em forma de anjo e as noites são como um quarto escuro. Coloco você na cápsula do Tempo, que já não existe, e me transporto para um espaço onde sou o próprio Saint Exupéry. Querendo voar, querendo ir-me embora para outro planeta.

gatopatocafe


Comemorando um ano de saudade. Comemorando um ano que passou. Para mim esse setembro representou a doce lavoura de recomeçar, deixar para trás lembranças ruins, pois são apenas lembranças. Como não existe tempo, me apresso em refazer-me dessa comemoração, que vem a ser o despertar para outro caminho. Um caminho que por instinto estou buscando. Eu, esse personagem cibernético, e tantos vários que não vale a pena citar uma gotinha no deserto. De repente estou disperso novamente e meus pensamentos, minhas atitudes precisam de concentração. Então se passou um ano dessa separação, se passou um ano, tenho quase certeza. É como comer e lembrar o estado etílico em que vivi durante um tempo. Afastei-me das pessoas, de mim mesmo e acho que ainda continuo. Continuando a respirar, continuando a sentir saudades, continuando a deixar achar que pensem que minha vida é uma ópera bufa. Continua a ser o conquistador, o navegador, pirata, de terras distantes indo e vindo em um via vai sem fim. Docemente bárbaro docemente rude. Aniversário tingido de Ron Blanco.

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