quarta-feira, outubro 15, 2008

Vôo cego



Agora quero ser um pássaro livre, um fora da lei, um frei Vogel um Vogelfrei. Mas minhas asas ainda estão molhadas da madrugada chuvosa de ontem e só um dia o porquê se levanta Tudo recomeça, nessa lassidão tingida de espanto.

A manifestação do universo como uma idéia complexa em si mesma, em oposição a estar no interior ou exterior do próprio e verdadeiro Ser, é inerentemente. Um nada conceitual ou um Nada em relação a qualquer forma abstrata de existência, de existir ou ter existido perpetuamente, sem estar sujeito às leis de fisicalidade, de movimento ou de idéias relativas à antimatéria ou, à falta de um Ser objetivo ou a um Nada subjetivo.

Há quanto tempo não consigo dormir? Entro na noite como um vagabundo furtivo com bilhete de segunda classe numa carruagem de primeira, passageiro clandestino dos meus desânimos encolhido numa inércia que me aproxima dos defuntos e que a vodka anima de um frenesi postiço e caprichoso, e às três da manhã vêem-me chegar aos bares ainda abertos, navegando nas águas paradas de quem não espera nenhum milagre, a equilibrar com dificuldade na boca o peso fingido de um sorriso. Há quanto tempo de fato não consigo dormir? Se fecho os olhos, uma rumorosa constelação de pombos levanta minhas pálpebras descidas, vermelhas de conjuntivite e cansaço, e a agitação das suas asas enrola-se na colcha numa umidade de febre, por dentro da cabeça uma chuva de outubro tomba lentamente sobre os gerânios tristes do passado*. Uma tarde chuvosa de carnaval nessa cidade deserta, tomar um café. Depois nos render à insistente garoa de um Café para o outro a flanar. Caminhavas como onça com passos largos para pular as poças nas calçada e beber suas palavras de silêncio.

Voar onde refletem meus sonhos, perdido no deserto das idéias. Ao fim de um breve silencioso adeus, um coração vazio, palpita. Um choque leve na ponta dos dedos, na ponta dos dedos que se encontram, despedindo-se, despindo-se.


*trecho furtivamente extraído do livro Os Cus de Judas de António Lobo Antunes.

10 comentários:

roserouge disse...

Ah, poeta! Bela postagem. Bjs.

Papagaio Mudo disse...

Danke shön!
Bjs

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roserouge disse...

Gostaste do meu? Não disseste nada...

Papagaio Mudo disse...

Achei encantador! você é sempre sutil... assisti várias vezes.

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ps: perdoe não ter dito nada do seu post, estava buscando inspiração em pedaços de mim. Teve relação com VOAR? e agora, que fazemos?

roserouge disse...

Agora vou tomar duche e vou à rua, tenho voltas a dar. No próximo mês há mais, depois aviso. No blog do Eduardo estão sempre a acontecer coisas, te liga mérmão! É super divertido, tudo gente muito boa, finíssima. E andas a precisar de te distrair, deixa lá o teu umbigo sózinho por uns tempos, não escarafunches mais. Bj

Menina do mar disse...

Lindo!!! Mais uma vez Poeta!!
Bjinhos vindos de cá!

claire disse...

Olá papagaio mudo, já cá tinha passado, não me ouviste que estava alparcatas que é como gosto de anda para não acordar quem tenta adormecer. Beijinho

Papagaio Mudo disse...

Olá Claire,

Talvez eu esteja colocando memórias no papel. Não propriamente adormecidas. "Colocar pra fora" esses sentimentos. Fico mais aliviado quando consigo escrever.
Quando não pude dormir
aprendi a escrever
Bjs,

Gustavo

Papagaio Mudo disse...

9 neun...

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pontos disse...

Muito bonito, não fosse a maior parte retirado do livro "cus de judas" de António Lobo Antunes, início do capítulo I...