sábado, setembro 19, 2009

Despedida

Permite que eu deseje, agora, tomado e vencido pelas urgências que de mim exigem, um canto de sono e preguiça onde ainda não se tenham inventado o telefone e o relógio. Deixa que eu seja pessoal em mais uma crônica para, ao medo das tarefas que se me impõem, querer, ardentemente, que não tirem do rol das pessoas úteis, que me esqueçam e que me abandonem, que me larguem, enfim, onde seja lícito viver ignorado e despercebido. Sinto-me vazio de poesia, esgotado de um resto de doçura que tanto prezava e, coagido pelos que revendem minhas idéias, dói-me o tempo e o esforço gastos, os ardis e os truques que emprego para arrumar palavras e construir frases de efeito. Lamento enganar a todas. Permite que eu deseje, agora, um silêncio que me contagie de tristeza, uma calma boa e definida para, num momento espontâneo e sossegado, escrever as grandes definições, as palavras que me envaideçam, os versos e as cantigas que me elevem, querida, à glória e à resolução do teu desmesurado amor. Através dessa janela vejo coisas que, antigamente, eram poderosas e fecundas. O céu repete o azul de tantas tardes acontecidas em maio, as últimas quaresmeiras do verão agonizam na saia do morro, os homens martelam a pedreira... e eu não sinto vontade de rir ou de chorar. Na rua, arrastando uma corrente eterna e incompreensível, passa mais um caminhão da Standard Oil... e eu não sinto nenhum vexame político, nenhuma revolta social. Por isso e pela descrença que em meu espírito se acentua, permite que eu deseje ser só — ou teu somente — num lugar do mundo onde os gritos não tenham eco, onde a inveja não ameace, onde as coisas do amor aconteçam sem testemunhas. Livrem-me da pressa, das datas, dos salários e das dívidas e a todos serei agradecido, num verso submisso. Livrem-me de mim, de uma certa insaciabilidade que apavora e de todos serei escravo numa humilde canção. Permite que eu só queira, agora, esse canto de sono e preguiça, onde não necessite dos atletas, onde o céu possa ser céu sem urubus e aviões, onde as árvores sejam desnecessárias, porque os pássaros se sintam bem em cantar e dormir em nossos ombros.
Antônio Maria
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31/05/1963
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7 comentários:

Jacinta Dantas disse...

Forte essas palavras. Instigantes, vão desconstruindo o que parece, só parece, ser o certo fazer. Então,a apatia, depois a vontade de ser livre. Sint-me assim, diante desse texto
Um abraço

renata.ferri disse...

Lindo texto.
Ótimo macaco.

BeijO!

roserouge disse...

Este rapaz é um alucinado!

Codinome Beija-Flor disse...

Ler esse texto (me achar em algumas partes dele).
"Livrem-me de mim" - Quantas vezes clamei tal frase.
Bela escolha.
Abraços

***MissUniversoPróprio*** disse...

Maravilhoso e fluido texto, gostei demais. ;) =**

Papagaio Mudo disse...

Esse conto cadenciado e solto, simplesmente lindo, enfim.

"...onde ainda não se tenham inventado o telefone e o relógio"

gosto especialmente dessa frase.
gosto de Antônio Maria.
ele era amigo do Vinícius de Moraes.

as viciadas disse...

CLAP CLAP CLAP CLAP CLAP!!!!
(sonoplastia de palmas!!!)
Mandou beeeem.

Beijones, L.