quinta-feira, janeiro 31, 2008

Para Iákov

Hoje fui ao dentista. Foi rápido. Rápido também peguei o ônibus de volta pra casa. Ando feito bicho manhoso, só faço dormir o dia todo. Espero que o tempo mude e o sol apareça. Observo as nuvens como quem observa o movimento das marés. Aguardo com ansiedade o dia em que irei pro mato, navegar as montanhas. Minha vontade é caminhar pelas cristas durante o dia e à noite dormir nas tocas.
Hoje senti uma saudade enorme do pequeno Iákov. Foi preciso dormir para esquecer. Trago boas lembranças desde o dia em que o vi pela primeira vez. Ele será sempre o meu pequeno. Ele está sempre em meu pensamento.
Este ano completo três décadas de vida. Tenho pensado muito nos meus vinte anos. Tenho pensado na minha infância. Outro dia tive vontade de ver minhas fotos de menino. Após vasculhar os alfarrábios de minha mãe me encontrei, tão pequenino e inocente.
A palavra por mais abstrata que possa parecer, como uma maçã de cristal em uma floresta de vidro, é sólida. A solidão de quem pensa dentro de um mundo invisível.
Página virada, agora em branco, tem um novo começo a escrever. Evoco a forças dos meus ancestrais. Sei que esse ano vou me arriscar em tantas batalhas. Por isso o ritual diário de ficar só. Durante o dia faço a mim mesmo várias perguntas e tento responder a todas, mas nem todas têm uma resposta, ou uma resposta óbvia.
O gosto fica na ponta da língua, desconectado, distraído faz lembrar. Imagens, lugares e odores, memória afetiva. Hoje tive a chance de te reencontrar e espero tê-la feito sonhar novamente. Eu prometi que quando as feridas cicatrizassem eu começaria uma nova vida. Por ora, fico em mim mesmo. Mimetizado, observando. Invisível, se esconde atrás das palavras tentando se revelar a cada instante.
Mildred, lembro-me de você todos os dias. Nossa vida foi um grande reencontro e nossa vida a dois não passou de uma farsa que nos causou perdas e danos. Foi difícil ser aceito de volta na casa de minha mãe. Difícil é uma palavra que a parece nas minhas cartas proporcionalmente à minha dor. Mas estou farto de despejar recuerdos. Esgotado de todo falatório, de todo verbo. Guardo na gaveta
nostalgia e sonhos alquebrados. Um homem à deriva, meu pensamento voa no pano distorcido da realidade. Eu sei que a razão pela qual, a razão pela qual eu, a razão pela qual... Conduzindo os dias, rejeitando a hora viva, desenhando peixinhos no papel, rebuscando o banal, continuamente tentando, papagaio mudo cheio de sorrow e de mesmice. Como escrever quando não se tem nada a dizer? Se algo importa é a minha paz de consciência. Livrar minha consciência das incontáveis noites de bebedeira onde não havia nenhum navio branco, nenhuma mulher dançando, nenhum girassol de Buda.
Meus sonhos durante o dia são letárgicos, não ouvem, não falam. Agora todos dormem.
Dedico este texto a Iákov pela lembrança e pela convivência. Desculpe-me por tudo que não pude dar.
Um beijo fraterno,
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terça-feira, janeiro 29, 2008

Alarme falso

Dia turvo e sombrio. Como se fosse o prenúncio de uma onda de frio. Não importa como eu passo os meus dias, mas sinto vontade de descrevê-los, sem parágrafos. Pela manhã tomo um café e fumo meu cigarro. Ligo o rádio e ouço bem baixinho e nenhum barulho a mais. Até que alguém desça para reparar a comida, o almoço. Então vou para o que chamam de meu quarto. Sinceramente ainda não me acostumei com isso. Guardam os enfeites de natal no armário do quarto, afinal, ainda sou um intruso. Ligo o computador. O ruído dele me hipnotiza. Durmo de tédio, de saudade, de falta. Acho “um saco” me sentar à mesa e muitas vezes não quero compartilhar a refeição com a família. Quando a noite cai, assisto ao Jornal Nacional, não tenho o menor interesse por novela, então ligo novamente o rádio, deito-me no sofá e fico pensando e pensando. Meus devaneios estão condensados pela brisa. A fina garoa cai como pensamento e doce e lento e erradio. Pus na minha cabeça (para justificar minha lentidão) que ninguém trabalha em janeiro. Tomo meu remédio e aguardo até que o sono venha falsear a realidade que nos faz parecer impotente. Ler, ou melhor, a verborragia descontrolada de qualquer autor que seja, me causa tédio ainda maior do que não fazer nada. Nesse momento quero pôr pra fora o vômito que já se foi, mas ainda causa náusea. E me fechar em mim mesmo, fugir do contato com as pessoas. Afinal, tenho dormido muito sem muita esperança. Ânsia de não querer nada, agora. Deito a cabeça no travesseiro e deixo meus olhos fechados, até dormir. Meus dias têm sido assim, cheios de uma história que não interessa a ninguém, senão a mim mesmo. A música se tornou inconsistente. Tentando ler um livro, supanha que o meu cérebro consegue minimamente absorver conteúdo, consequentemente este não diz nada. A TV entorpece, anestesia. Gostaria de fazer parte dessa teia de profusões transgressais, sem amortecedores. Haja eu para mim mesmo, o tanto que fui nessas noites adentro...
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sábado, janeiro 26, 2008

Pierrot le Fou

Sair pela tangente. Nessa casa reina um clima de tensão. De tragédia anunciada, barco abandonado. Quero a solidão total: estar sozinho em local ermo. Descompassado, calmo extra-sonho. A vida exige que eu haja. A lua crescente sorri seu riso mais sarcástico. Hoje é só adeus e nada. Um nada que fica cada vez menor e menor até virar símbolo e morrer. Uma miragem, um cartão postal guardado na gaveta. A mais fina desesperança, a elegância com decadência porque grudou em mim, quando acaba sozinho até o último resvalar do sino. Nesse carnaval sou pierrot sem rumo, arlequim maltrapilho e maltratado. Escrevo a você, embora nem saiba se você me lê. Para continuar a construir meu ego. Ajuda a juntar os cacos de menino. Lugar-comum transforma, contradiz afirma, reafirma e re-contradiz o impacto energético da palavra amor. A ridiculeza se acomoda no tema, pergunte ao pó. Um vulto, da bruma se apresenta e depois se desfigura em mil pedaços. O que era tangível. Em cada chôro que dói pequeno, despejo uma enxurrada de miasmas no rio caudaloso dos recuerdos. O esvaziamento me deixa carente. Linhas mais curtas, palavras mudas. Acreditei e acredito que erramos por nossa pura inocência. Agora sou um pássaro livre fora da lei (Vogelfrei), mas minhas asas estão molhadas dessa madrugada chuvosa. Coisas duras e ridículas q ouvi de meu pai. Um período turbulento, cheio de sins e de nãos e nenhum talvez. Firme, inflexível e maquiado de alegria.
Por aquelas bandas eu era o estrangeiro, visado, peixe-espada fora d’água, mancebo, playboy. De camarote víamos tudo. O bêbado passarinheiro de voz tonitruante, as mulheres tresloucadas, os drogaditos. Ô mundo, por ironia me conduziu por esse terreno que para mim foi um verdadeiro e obscuro trauma.
O gato vira-lata comeu a cabeça daquele lindo passarinho de bico vermelho. Aquele que ganhamos para nos trazer sorte. Sorte ou azar? Que importa esse dualismo? Eu sabia, depois disso, que nenhum mandarim faria alguma mágica por nós. Depois daquela briga decretou-se o jamais. Mas corre o fio da palavra e a cor da tinta continua. Se há alguma coisa de comum, se eu morrer vou ser mais um ou menos um. Depois daquela despedida de filme policial decretou-se o "pra sempre jamais"...

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sexta-feira, janeiro 25, 2008

Malandanza

Arlequim au cafe_Pablo Picasso

Ocasionalmente você ocupa meus pensamentos.Todos os dias em algum momento. Em vários momentos.
Já passei por todas as fases: tese, antítese e síntese. Já quebrei uma cadeira de plástico toda a minha raiva. Briguei com minha família. Quis afogar minhas mágoas ao ponto de não lembrar de nada. Estive por aí solto. Perdido nos arredores da faculdade, perdido no espaço, partido, bêbado e sem saber como voltar para qual casa. Todas foram tentativas infelizes de aliviar minha dor.
Não entendi ainda o que se passou. Penso que, apesar de toda situação macabra, não nos entendíamos, mas nos amávamos.
Não é preciso lembrar nossos erros. Lembranças surgem espontaneamente do nada. Causas de certo pânico que até hoje carrego intimamente. Noites que tentei morrer, longe de sentir meus pés no chão. Distante do mundo. Insociável.

Espero estar mudando esse comportamento. Regras de uma rotina diária. Tenho tempo para meditação. Passo bastante tempo em casa. Fazem três semanas que não bebo. Dentro de casa tento me esquivar das pessoas. Fujo para algum canto mais distante possível. Mais fechado e recolhido. Por ironia, através de um mecanismo da memória, vou desprendendo lembranças do que foi nossa história. Por isso a vontade que tenho em despejar tudo isso no papel. Queria que a vida fosse uma torrente contínua e que nunca exigisse parágrafo. Nosso encontro não foi meramente casual. Mas cheguei, nesse tempo, a pensar que o amor se comprava em loja, produto social, figura de linguagem, tema batido de música.
Falando em música, as letras emo sempre abalam corações condicionados à malandanza, má sorte, ao infortúnio, à tristeza e melancolia. Tento preencher meu dia com agradáveis melodias, mas ele me enfastia. Então arranjos e duetos inebriantes embalam minha madrugada. Tudo é igual, vazio, desabitado, deserto, livre, asilado, retirado, desguarnecido, abandonado. Às vezes a prosa lenta desenrola o novelo da rima como um raio. Caleidoscópio de conceitos esparramados no chão da consciência. Nem chega a ser um devir filosófico.
Começo então a escrever naquilo em que me perco. Enquanto as palavras pintam um quadro dos campos urbanos da mente, eu fumo meu cigarro. It’s toasted.
Um samba no escuro, uma ilusão perdida e um silêncio cruel, um dia estar só e o outro também condenado a isso. Só, na acepção da palavra.
Na casa vivia um casal e um menininho. De repente, mais que rapidamente, como num flash tudo se desfez. Ao contrario de tudo que conseguimos plantar, organizar, fazer. Na área em que a tinta cobre a lucidez vazia do papel. Inclusive dormir juntos na frente da TV. Cuidar com carinho um do outro...
Essas palavras mal cunhadas vão em busca de um sentimento retilíneo. Seguir somente. Já não consigo ler, não consigo ver TV, não consigo me concentrar em nada. Faz muito pouco tempo que consegui não te querer e sigo seguindo. Desenhando peixinhos no papel, lentamente a cada dia. Você não existe, mas sua voz me pareceu turva aquele dia. Espera alma turva no ponto de ônibus, espera sozinha no quarto.
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sábado, janeiro 19, 2008

Liberté

É domingo de outono e você vem me ver, mas a gente não se vê há dias. Não tenho coragem de te dizer que conheci uma pianista. Pobre pianista. Você não possui o poder que tinha sobre mim, mas de alguma forma ainda sou seu. Você, meu anjo outonal, eu aprendi a esperar assim como uma aparição do etéreo. Nunca se acaba o ciclo da frustração. “João que amava Tereza que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.” Meu ego viaja a esmo, na brisa desse triste deletério, o mesmo que faz caírem as folhas velhas. Verdades que nunca foram ditas, mas que sabemos sem dizer. As folhas caem cobrindo a rua.
Continuação. Os pratos se quebravam e não era um casamento grego. O Cigano esteve aqui em minha casa e eu lhe presenteei com uma foto, uma revista, uma meia e uma cueca. Era noite de esquecer de tudo, o começo da decomposição. De esquecer você e extirpar com a navalha alguns miomas intelectuais, além de simples objetos...

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sexta-feira, janeiro 18, 2008

Degas

Sinto-me só. A solidão a qual as mulheres estão mais acostumadas. Convivo em um lugar comum onde todos se fecham para conviver. Tentando simplesmente seguir o caminho certo, ou tornar o torto, direito, o simples, complexo. Porém repleto de palavras no mundo das idéias, a vida me determinou esse estigma: das anças e das iças, das crenças e vagas esperanças. Então, dou-me forças para agüentar mais um dia nessa solidão de enfermaria.
Degas

terça-feira, janeiro 15, 2008

Acariação verbal

Tantra Yoga Intelectual
Masturbation

1. Como eu devo te chamar sendo q você cada hora assina de um jeito?
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Sei lá, me chame como quiser. Menos pelo meu nome, por favor.

2. Okay. Você sempre assina Katze e no início Weisse Katze, o que significa Gato Branco. Existe alguma conotação de puritanismo de raça?

Não. De forma alguma. Um amigo já comentou que as pessoas acham meio anti-semita, nazista, sei lá. Não tenho nenhuma ligação com esse bando de idiotas pseudo-higienistas-radicais. Mas também não gosto de animal de estimação e nem gosto de gato. Não tenho nenhuma predileção por branco, malhado ou vira-lata.

3. Alguma relação com os felinos?

Relação não. Talvez seja pretensão. Qnd alguém te pergunta q bicho vc gostaria de ser a gente sempre responde: um tigre, uma borboleta, uma águia... Alguma coisa cheia de simbolismo.
Gato branco? é tipo “bom cabrito num berra” . Dá pra imaginar, gato é um bicho safado, mas branco é vazio, é possibilidade, onde tudo se projeta, surge.
(!)

4. Katze, assim vou te chamar, ok? O que você está fazendo nesse momento da sua vida? O que está criando?

Bem, tenho escrito um pouco aqui e ali e nada mais. Tenho coisas mais íntimas guardadas q eu não publico no blog. Afinal de onde eles pensam q sai a literatura?

5. Katze, como vai o mundo hoje, na sua perspectiva?

Um verdadeiro caos. Mas Deleuze diz q o caos se auto-organiza, com a água mais rápida q corre no meio do rio, que não é o rio - símbolo, nem a margem do rio mas a própria corrente.
Que cresce desordenadamente todo mundo já sabe. Mas, no Brasil, o cara nasce querendo duas ou três coisas que são mais ou menos fundamentais. Pois é, o pior é que tardam a conseguir e por isso e crescem vidrados no capitalismo consumista.

6. Como anda a questão dos blogs pra você? Seus textos tem repercutido na rede?

Sabe cara, nem tudo q cai na rede é peixe. O que eu tenho visto é uma atividade maior nos blogs. As pessoas acompanhando, realmente seguindo e vendo e lendo imagens e textos. Além disso, as pessoas se comunicam com o blogueiro, dizendo o que acharam daquele Post e tal, mandam abraço de feliz ano-novo, marcam encontro. Ou seja, o blog, incluindo a temporalidade, é uma interface de comunicação social. Porém, agora reverbera no campo da retórica.

7. O que a gente ganha com essa interação? Como isso funciona?

O objeto Post (Postagem) está ali virtualmente, sujeito a alterações no texto e na imagem. Sujeito a correções, variações de tempo em q foram publicadas... Isso por que estamos falando do q considero apenas uma página rolada, onde aparece na tela da última publicação em diante, mas q não é estático.

8. Alguma consideração final sobre o assunto que você gostaria de ressaltar?

Só um alerta, embora ocasional. Se o ônibus pode ser um objeto imediato (mediador) entre Trabalho e trabalhador (enquanto objetos dinâmicos), o blog pode ser uma interface ainda pouco explorada. Ou seja, gerando sin-signos infinitos (textos, idéias, imagens, ridiculezas, bobagens, pensamentos) que serão interpretados, sentidos, vividos, de maneira a construir-criar uma nova janela desse hipertexto.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Firmeza no Nada

Firmeza no Nada-análogo antagônico paradoxal pernóstico divino presunçoso. O que pulsa está engasgado, essa música ridícula, meio surrealista. Memória cada dia se renova, preenchida de novas memórias sem você. Nas aulas de semiótica fui com choro embargado. Exílio particular. Escrevo para justificar meus atos. A falta fabrica meu medo que faz minha ânsia que justifica minhas noites mal dormidas. Meia noite sem você meus dias são todos iguais. Um dia q foi-se embora um do outro. Um silêncio cruel domina minha alma e todo o resto q se manifesta menospreza minha dor. Escrevo como se escrever fosse um remédio, um paliativo. Escrevo como se fosse superar essa cris.
Isso não é um prelúdio do fim. É o próprio fim. O fim dos nossos planos tão bem elaborados, de tudo que ainda permanece de pé. É um algo que se aproxima. Já lembrei tantas coisas, boas e ruins, q me levaram ao fracasso e não consigo me sentir vitorioso nem um segundo. E esse algo se aproxima, quando objeto se ilumina, vejo o quanto é impermanente transitório. Mas insiste nos meus pensamentos, fragmentado. Portanto lembrar o começo é o fim, numa sempre diversa realidade.
Nunca mais sentirei o seu cheiro. Seu busto e seu pescoço. Seus braços me acalmando. Isso, nunca mais vou sentir. É difícil deixar você ir, mas você nunca vai me seguir.

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Ouve aí

Ideologia


Uma pessoa me perguntou porque até agora não falei sobre juventude. Quis fazer uma super breve contextualização do cenário político-ideológico. Daquela forma em que nenhum de nós entende completamente, tudo em todas as áreas do conhecimento, de como chegamos a esse cenário mundial, global. Chegarei lá, na juventude atual, mas antes gostaria de esgotar a pouca informação que tenho (que talvez seja muita para muitos e pouca para poucos) de como estamos sendo governados. Sendo governados em todos os sentidos: político, capitalista, midiático, artístico, tecnológico, religioso e etc. Por isso gostaria de falar mais sobre mim, eu-mesmo, quem eu penso que sou, como eu seria rotulado pela sociologia e até mesmo analisar o que é o eu-indivíduo para mim e o eu-indivíduo como o outro e que representa isso para mim (?), para depois contextualizar esse indivíduo dentro do alcance de meus belos horizontes e até onde possa realmente emitir uma opinião, em busca da verdade que se dispõe diante dos olhos e da razão proferida e criada por mim.
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sexta-feira, janeiro 11, 2008

Diálogo pai e Filho

__Você bebe pra ficar bêbado?
__ Sim.
__ Não faz sentido.
__ Às vezes faz.
__ Esse drama que você está vivendo é muito pequeno pra tanto sofrimento.
__ Eu não sofro só por causa desse amor, mas por tudo que envolve esse amor.
E ainda envolve na relação direta com a minha vida diária, de outras formas. A realidade se apresenta feito morte lenta e suave, às vezes torpe e amarga. Azedume de ralo dos botecos-de-beira-de-estrada. Alguma coisa que morre dentro de mim, mas um sentimento reluta em sobreviver.
__ Você acha que bebendo vai esquecer?
__ Não.
__ No dia seguinte o problema continua aí, do mesmo jeito e ainda pior.
__ Eu sei. Mas toda morte é um renascimento. Preciso morrer pra viver novamente. Aos poucos começo a me recompor, a cada hora que passa. Ontem fui sozinho ao jazz. Sozinho sou um risco a mim mesmo.
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Síntese

O começo foi um tanto quanto inusitado. Um dia, no passado, eu havia feito um coraçãozinho à caneta no seu braço. Esse dia se dispersou em outros vários dias em q nem me lembrava q ela existia. Mas uma noite eu a vi trabalhando no bar, não sei por que poetas-de-café tendem a gostar das garçonetes. Então, no fim da noite, quando ela parou de trabalhar e pôde sentar-se um pouco, eu lhe propus que ficássemos juntos. Alguns dias depois, quando nos encontramos naquela travessa, nos demos um beijo de café.
Lembro quando fomos pra cama a primeira vez. Ainda me sentia perdido quanto à Pesseguinho. Lembro quando você participou daquela feira de Northeinwestfallen e trouxe de lá uma champagne, umas cervas e um monte de salgadinhos. Fizemos a nossa festa. Estávamos ébrios de nos conhecermos e alegre de estarmos juntos. Talvez juntos mais uma vez.
Sonhei um dia com você com um neném no colo. Roupas de quem mora em uma aldeia de norte, na pós idade-média. Eu indo embora pro mundo e sumindo pra sempre de sua vida. Mas aqui estive novamente se isso não passa de um sonho. A solidão é como um vento refrescante nas faces de um pássaro livre.

Então, prodigiosamente nos apaixonamos.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Geraldo

Não sei q horas são e nem q dia é hoje. Tenho uma vaga noção das horas pelo brilho do sol. Obviamente não tenho relógio. Acordo com o sol e durmo com as estrelas. A lua minguante não apareceu, o que faz desse lugar um breu. Aqui venta bastante e é onde eu gostaria de estar, naturalmente. No meio da Natureza ou Deus. Venta em todas as direções, em todos os ângulos e é impossível manter uma vela acessa. Ontem estava bastante eufórico e ansioso. A toca onde durmo cabe apenas a mim. Ao lado há um monólito onde, em cima, as pedras se encaixam como um berço, ventre sem vento, leito. Gostaria de ter adormecido lá... Sei que as horas passam, pois as estrelas se movimentam. A terra gira conforme as estrelas vão pontilhando o contorno da montanha. Também me informam as horas.
Depois de quinze dias morando na montanha, os caras da mineradora vieram
me perguntar se eu estava morando aqui. Respondi que estava passando férias. Plantei ventos fortes, agora colho tempestade. Quero a brisa suave e o sol aquecendo levemente as minhas costas.
Essas palavras são para Mildred, Valentina, Pesseguinho e Pearl. O que em mim é plural constitui um Uno. Único breve e profundo contato com a alma. Tristeza vive na qualidade da minha escrita e não garante nada.
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segunda-feira, janeiro 07, 2008

O fim dos enfins

Sinto ao lembrar aquele dia que saímos para comprar a cortina do chuveiro. E outros momentos de alegria q passamos juntos. Dar uma volta no parque com Iákov numa manhã de domingo. Quando saíamos de casa a clientela do bar em frente a nossa casa já estava toda a postos, percorrendo com o olhar nossa a disposição de ser saudável.
E eu pensando em como criar situações q me trouxessem esse conforto da abstinência. Pensando em como sair daquele lugar. Como escapar da armadilha q criei pra mim mesmo. o sentimento imbecil em q fui envolvido me deixa incapaz de prosseguir sem mágoas.
Sou só um mim sem eu mesmo. Está consigo, mas não é ele quem está ali. Tem a si mesmo, mas não se pertence e usa aquele eu. Esse sou eu que não é aquele. Esse é o outro, que tenta ser você. Que tenta ser eu. E você é uma mulher que eu nunca conheci. Perdida em tu niñez de cinco anos. Enfim me canso de decantar tanta merda. Agora q finalmente, apesar dos choros esparsos e diários, já me sinto mais leve, mais livre e só. Você me disse uma vez ”ninguém gosta de sofrer”. Uma gota de olhar e uma lembrança imprópria. Falava com ar de quem sabia das coisas.
Quando você me disse que há uma está usando aquela camisa que era minha porque tem o meu cheiro. Bem me lembro o apego q você tinha por aquele pequeno travesseiro que, para mim, representava simbolicamente a figura do seu pai como objeto inanimado e soft touch na lembrança. Distantemente rodeado de falésias em uma praia do sul ele pesca. Ele e o velho mar. Penso nele, apesar de nunca tê-lo conhecido. Pelo menos creio q já fomos índios em outra vida.
O que eu deveria pensar quanto à camisa?
Vou tentar mostrar assim, através de palavras, normalizadas e por mim transformadas em frases, código de recriação e registro permanente, o que estou sentindo. O que bastante difícil. Mas o meu sentimento significa e tem significado. Não só o de q estou sofrendo essa dor, mas é signo da água pura da palavra tentando retratar a imagem de um sentimento, ou seja, algo metafórico. Tenta significar. Quando a relação de vampirismo se instalou, eu, como boa vítima q sou, me senti atraído. Eu,como vítima, deixei a janela aberta. Como boa vítima, abracei, mas principalmente fui abraçado. Eu como bom civilizado tendo a ceder facilmente à chantagens.
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domingo, janeiro 06, 2008

Gustave Caillebotte plays

Blue Rondo a la Turkey

Por que minhas reflexões te causam angústia? A dor da separação traz consigo o sentimento de perda, impotência, fracasso. O infortúnio, a miséria, o drama, o golpe. A tristeza, o luto.
Agora vejo com outros olhos a nossa relação. Agora as pessoas me falam de você. Sinto q você sofre timidamente como mulher e não como mãe. Talvez sofra os olhares de repreensão como neta, como sobrinha, como filha, mas não como mãe. Sabia q adotei Iákov como filho? Minha fé é que estava abalada. Eu estava tentando fugir de uma situação que criei para mim mesmo. Esses dias que me trouxeram outros mais, de escrita, de solidão e introspecção, de medo e lamentação. Gritos agudos do papagaio exclamados ao vento de uma tarde fria. Notas esparsas de um quebra-cabeça de melancolia durante o dia. A chuva q cai leve anuncia q a juventude tardia está morta, que resta apenas pesar.
Menina triste. A chuva q cai leve te mostra a certeza de estar perdida. E como dói em mim, pelas entranhas de uma forte ressaca. Ei vem comigo pela praia, pela costa do mar, eternamente.
(Mais um dia esperando outro dia).
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Ouça
com Tim Maia
Preciso aprender a ser só

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Capítulo negro de mim

Crises existenciais são as piores. Nada se define enquanto se definha. Não sabemos como negociar o resgate de uma vida roubada. Tomou de assalto emprestado e por alguns meses emprestei aquela, volto a dizer, q era a minha própria. Estava eu entregue cento e dois por cento. O mundo ficou pequeno de repente. Limitado àquela maldita rua. Não tenho vergonha de maldizer aquela rua e nem temo a Deus por isso. Agradeço a experiência mesmo que, cedo ou tarde, eu fosse pagar a conta e Ele, nessa hora, pouco me poderia ajudar. E realmente não pôde, portanto fui trans(ferido) para casa de minha mãe. As cicatrizes ainda doem. Afinal, foi uma longa e breve história. Longa em sua transcendência e breve em sua brevidade. Estava fraco, drogado, bêbado, perdido sem direção, sem esperança.
Espero que agora, escrevendo tais palavras, um dia eu volte a sorrir.
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Donnerstag

Tentei inclusive trabalhar num subemprego q me foi oferecido como auxiliar de chaveiro. E então lá eu ia, todos os dias. A loja se encontrava em uma rua em que os carros, ônibus e caminhões subiam acelerando forte.
A monotonia dava-me tempo suficiente para ler o quê quer que fosse. No entanto, me deixava tonto e amuado de tanto ruído. Sem brilho nos olhos, escrevi dois artigos daquela disciplina que inclusive não concluí. Ganhando dez reais por dia de trabalho, e por estar perdido no morro fumando pedra com os noiado.
Ainda tentar manter aparência de “bom menino” aos próprios olhos. Uma coisa destrutiva q se faz consigo mesmo. Quando percebi, agia inclusive da forma q não era a minha. Eu participava daquela, claro, q era a minha própria vida. Ela mergulhava em mim e sentia orgulho imbecil de me ver saindo cedo pra fazer nada na lojinha do chaveiro. Esse orgulho durou pouco. Duas semanas apenas, que se prolongaram em maledicência de buteco...
Traurige Katze >¨<