sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Carta para Mildred

Escrevo essa carta em agradecimento a sua promessa de passar por aqui, talvez a última e derradeira comunicação por enquanto. Talvez um dia eu ainda diga Seja bem vinda minha amiga, mas por ora não sei como reagir às suas palavras e suas lágrimas tão somente minhas.

Como coisa que se regenera
outro a ser o que era

Um pedaço de mim que estava mudo, preso na garganta, saiu como fumaça preta de rancores, raiva, desejos de vingança, alucinações. Vociferando ao léu, no púlpito das minhas trepidas memórias, palavras ordinárias contra a dor que dilacera em falta de compreensão, saudades e ódio, para inutilmente tentar fugir de um desmoronamento, túneis e pontes, conexões entre o passado e o presente numa cachoeira onde dormimos. Paro para esperar a chuva, fumar um cigarro e beber a pinga que comprei no caminho sob a única pedra que pode me abrigar à beira do poço.
Lembra? quando os seus olhos de menina vulnerável e frágil à sombra de um desdenhoso e trágico arcanjo libertário quis fazer parte dos vários tons de verde tranquilizadores? Lembra que planejamos levar Iákov naquele lugar?
Confiar em mim foi como mentir uma traição cotidiana que nos acometeu durante um tempo demasiado denso desde o princípio. Amei apaixonadamente o quanto pude me afogar em seu cabelo loiro e beijar sua pele rosada enquanto fazíamos amor.
Mildred, agora, aurora após aurora, quando ainda nenhuma manhã sublinha essa lembrança, evolve-me a falta de mim mesmo. Falta-me o seu ventre junto do meu ventre, as suas coxas nas minhas coxas, o seu misterioso e quente e forte riso de mulher. Falta-me a nossa cama para o meu longo cansaço. Falta-me a sua vagina ensolarada para ancorar a minha vergonha de ternura. Espera Mildred, na espessa noite da sua casa.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Eletric chair

Que tanto um fato pode te assombrar? Por quanto tempo? Eu achava legal naquela moça júpteriana o jeito com que zombava da minha dor, como se conhecesse a fundo os mistérios do coração.

Fui a seu aniversário (os júpterianos também comemoram o dia do nascimento e um monte de outras coisas, de forma bem peculiar). Ela me disse alguns dias antes que achava estar apaixonada por um jovem terráqueo. Pois bem, em seu aniversário, eu não participava do assunto, mas ouvi e pude ver quando lhe disseram que o rapazola estava com uma gatinha do minimal. Vi seu jeitinho. Céus! como seus olhinhos tristes ficam feios, à laia das feras conformadas com o confinamento monótono e eterno. O que faz dela uma principiante no que se refere ao amor, esse sentimento abstrato e demasiado humano, como uma criança terráquea.

Por isso eu ria do seu jeito de zombar da minha dor. Como se risse de um pobre moribundo que finge as dores de um velho. Foi-se embora uma casa decimal, uma biografia do Chet e o peso de um pequeno dicionário alemão.

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terça-feira, fevereiro 26, 2008

tout jour

Cheguei a um ponto tão intenso de negação e abominação do meu passado com Mildred que, inevitavelmente, fiquei doente. Tão doente que melhor seria evocar o poema-de-porta-de-banheiro que Rimbaud recitava:

Estive doente
estou doente
Das coisas
e da vida

De negação a mim mesmo, de como foi possível, de como eu me permiti que tudo acontecesse. Hoje pensando em como é intolerável suportar as conseqüências de um erro por um ano. As conseqüências de uma atitude errada posto que somos imor(t)ais.

Afirmo mais uma vez uma pequena vez quais são os sentimentos de uma separação. De uma história mal vivida e mal curada, impotência, fracasso, derrota, perda.

Sofro por ser tão apaixonado por tudo que me faz mover os desejos. Por isso amo tão profundamente a minha dor e me entrego a ela de várias formas e sou somente dela.
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quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Sua cabeça


Vivendo dias de letargia, inércia, paradeza, monotonia, lentidão, paciência. Que passam (na insistente luta contra um processo depressivo) tentando fazer melhor uso das palavras a mim mesmo e pago com suor-do-bem a malandanza. Impagável são os risos e sentir-se um trapo, largado e sem uso. Ali meus desejos choram a sua falta e ao mesmo tempo agradecem. Esconde-se nas sombras de minha casa mental e essas visões me confundem. Cafuné, caso eu inda caiba no círculo dos tempos verbais. Caso eu inda caiba quadrado no cubo obtuso. Na sintaxe, na desforra, na aurora da minha palavra. Os peixes voam a favor das horas.
É noite de dopar, dopar.
Fica valendo a regra
passam
passam

passam

passam

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Conversa com Bruna

Há quanto tempo não consigo dormir? Entro na noite como um vagabundo furtivo com bilhete de segunda classe numa carruagem de primeira, passageiro clandestino dos meus desânimos encolhido numa inércia que me aproxima dos defuntos e que a vodka anima de um frenesi postiço e caprichoso, e às três da manhã vêem-me chegar aos bares ainda abertos, navegando nas águas paradas de quem não espera nenhum milagre, a equilibrar com dificuldade na boca o peso fingido de um sorriso.
Há quanto tempo de fato não consigo dormir? Se fecho os olhos, uma rumorosa constelação de pombos levanta minhas pálpebras descidas, vermelhas d conjuntivite e cansaço, e a agitação das suas asas enrola-se na colcha numa umidade de febre, por dentro da cabeça uma chuva de Outubro tomba lentamente sobre os gerânios tristes do passado.
Uma tarde chuvosa de carnaval nessa cidade deserta, tomar um café. Depois nos render à insistente garôa de um Café ao outro. Caminhas como onça em passos largos para atravessar as poças da calçada e beber de suas palavras ou silêncio. Navegar onde refletem os seus sonhos, perdido no deserto das idéias. Em fim de um breve e silencioso adeus, um coração vazio, o coração palpita, um leve choque na ponta dos dedos que se encontram se despedindo, se despindo.
Em seguida os carros voltam a circular com desinteresse sonâmbulo na quarta-feira de cinzas...
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