terça-feira, abril 29, 2008


Senhor,

Alivia a minha alma,
faze com que eu sinta que a Tua mão está dada a minha,
faze com que eu sinta que a morte não existe
porque na verdade já estamos na eternidade,
faze com que eu sinta que amar é não morrer,
que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida,
faze com que eu não Te indague demais,
porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta,
faze com que eu receba o mundo sem medo,
pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e
nós mesmos também incompreensíveis,
então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso,
mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la,
abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que como,
o sono que durmo,
faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesmo,
Amém.

(Clarisse Lispector - O livro dos prazeres)

quarta-feira, abril 23, 2008

Veja, minha gueixa

Continua, tudo aquilo que fugiu do pensamento e do pensamento fugiu pela rua, pena, mas não está aqui e se estivesse aqui e se eu estivesse aqui, talvez estivesse esse quase azul do céu que preenche lacunas en la luna, mas agora, você está próxima de chorar esse desastre, essa tragédia, essa porra, essa e outras mais complexas. Tudo que você prometeu sem ver, num ponto caótico. Escrevo a coisa sob o crivo de olhares-alheios, falsificador de palavras pra não haver censura ou redundância em qualquer ser humano ou falsa alegria. Escrevo pensando em silêncio, não entender os floreios da dor, encara o seu fascínio. Seja, de algum ponto vista vazio do tempo vazio interior da letargia quântica em qualquer-ponto do tédio, me entrego à vida. Fugiu pela pena, Bruna Gil, pela pena. Entrego carta a mim mesmo, divídas e receitas, dúvidas e receios, nada de coisa elaborada. Comer palavra, nada de redenção, nenhum alívio. Mas elas estão aqui, anjos do próprio demônio. E depois de tantas tentativas desse limite, no mínimo rebelde, fôlego proporcional ao fôlego daquilo que duvido, define a dor do que quase secretamente mística ele propõe, o erro. Carta a mim mesmo, nada de coisa elaborada, comer palavra. Nada de redenção nenhum alívio algum, mas elas estão aqui, anjos do próprio demônio. Depois de algumas tantas tentativas desse ter limite, no mínimo rebelde. . .
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madeleine peiroux

Blue Alert

terça-feira, abril 22, 2008

Naomi

O sonho da mulher do pescador
Quem de fato sou eu? Uma raposinha no deserto de Sonora no Arizona (sem vírgula pra soar menos americano). Uma gota de água num cactus gigante? gotícula, gota, gotícula, de orvalho. grandes pererecas no topo das árvores que descem pra se acasalar? O que significo além dessas palavras? Vergonha? enredo? coração cheio de sina. perceptos? afectos? translúcido, opaco, raro. comum ou raro? não responda. Apenas uma cabeça agonizante caustica lancinante, uma cicatriz? um pa de deux? se me expresso logo existo?! un ange un danger? uma mancha de café? um olho? dois olhos? três olhos assim. coelhinho da páscoa que trazes pra mim? um signo um índice um ponto do acaso? um código um ideograma um hieróglifo? amores vão amores vêm caderno de notas? verdade na letra tinta? dor gozo tela papel lábio silencioso, se fosse adjetivado? temperança, desesperança, ilusão, paciência, virtude ou mal nada dual. Holocausto Haldol. a brisa gelada entre os lençóis o significado da ordem das palavras. a ordem dos fatores não altera o produto. o fim entremeios inicio. meio fim início? apolíneo dionisíaco retidão gozo lamuria. Sonho solidão nudez.
sentia que me chupava cada vez mais alva branca pele clara
e os lençóis

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segunda-feira, abril 21, 2008

Sadao Watanabe

" I'm Old Fashioned "

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Um passo


Meu copo transborda de pura verdade, ou escopo sujo de calada mentira. Assim a vida bebo em pequenos milagres, mas também são válidas válidas as grandes golfadas, que embriagam mais rápido e eu mais rápido rápido assim concordo. Juiz do meu próprio ministério - mistério vulgar de um julgo alheio. Acordo durmo, amo, odeio. A teia da noite que se desfaz, quando o dia renasce a paz desconhecida. É tudo que jaz na lápide um dia triste. Indefeso e reprimido ignoro, o desconhecido dia indo e vinho. Indícios e falhas de caráter. Todo dia, todo dia, toda noite, na bosta do belo-bonito e lindo materialismo. Contidas irrompem avidamente as lágrimas gotas dentro abismo, de portas em pálpebras cansadas, muito rápido rapto que assim não consigo. Tão então entender o que se passa comigo.
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quarta-feira, abril 16, 2008

Dentro de mim


Retrato de um dia turvo e sombrio, como se o vento fosse prenúncio de uma onda de frio. Não fosse a chuva que vai e vem, todos os dias seriam iguais, posto que eu mesmo sou ninguém. São apenas palavras e sobrevivo da lentidão dos dias, quando me falta poesia. Livros são enfadonhos, tendo em vista a ligeireza de minha paciência. Lembro-me daquele casal de não me toques, como se em minha desolação pudesse pensar na mulher do companheiro. A imbecilização como efeito dominó, melhor ou pior como se comporta a massa. Fosse o mundo a esquina de casa, fosse um tédio poético que mata e as relações recíprocas desvanecem. Se pago minhas promessas corro o risco de me tornar um pagão e professar um mal inumano. Ouçam Hiromi Uehara ao piano.


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sexta-feira, abril 11, 2008

Sentidos inversos

Escrevo por não ter nada a escrever. Calo e quando mudo, eu sumo. Criança calma e avulsa afaga minha alma na lembrança. Não tenho nada a dizer e meus pensamentos, ossificados. Parece que de repente o mundo perdeu a cor. Os dias, as tardes e silêncio que invade a madrugada. Eu sempre eu. Mi mama me propôs que eu fosse pra Espanha, passar um tempo na casa da Tia Isabel e da minha prima Lygia, a quem eu amo muito. Depois disse a ela que isso me despertou a vontade de ir e não voltar. Preciso tomar uma decisão que influencie minha vida de forma radical. Não consigo fazer nada “de leve”. Sempre sou muito ou nada. Oito ou oitocentos. Não é fácil ser assim. A vida me ensinou a ponderar, mas meu impulso me faz decolar. Minha histamina, minha capacidade de atravessar rios e montanhas sozinho e não me sentir só. Cá na cidade me sinto mal, apático, inútil. É o meu lado eremita, anti-social. Tem dias que sinto vontade de não falar com ninguém. E eles passam... passam...
Espanha me aguarde.

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segunda-feira, abril 07, 2008

Ende

O olhar... olhar e não ver. Ver mas não compreender. Quero enxergar além do que meus olhos podem ver. Então transformo isso em imaginação. Sofro imaginando porque rejeitamos o amor. Sinto-me rejeitado assim como um dia rejeitei, também neguei alguém que me amava. Por não ser a pessoa “ideal” naquele momento. Sinto-me parte do círculo das frustrações como naquele famoso poema do Drummond. Sinto não ser a pessoa “certa”. De perto, conheci suas virtudes e seus defeitos. Monstros ainda me rondam. Ah, como eu nunca consegui o amor de Iákov. Eu não fui amigo? ou não me deixaram ser, pois a agenda do menino vive sempre lotada, ou mesmo ao lado da mãe, sóbrio, homem. Deus, em ti que muitos crêem peço o melhor caminho para essas condições atribuladas. Porque Você me parece tão injusto... sabes que creio que nunca vou encontrar, nessas tentativas frustradas, alguém “compatível”, como você mencionou. É demasiado idílica essa ilusão. Como sonhar com as atrizes de novela. O susto que levava todos os dias em acordar sem você. Sigo ligado à sua imagem, sua energia. Você continua arredia, fazendo o que quer. Tentei compensar um sai o que não fui. Devolva-me o tempo que você tomou e faz redimir um pouco de ternura por mim. Volto pra casa em frangalhos. Não é revolta, é a realidade que vivemos juntos, se ao menos te fiz sonhar e despertei em você a vontade de ser livre. Sinto-me engaiolado, e a vida essa ilusão perdida. Fragmento de um discurso além das noites. Sinto-me uma merda, assim com como todos diziam quando você me conheceu Ele não presta! por isso fujo das pessoas assim como elas fogem de mim, com medo.

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domingo, abril 06, 2008

Miau frustração

Eu quero mais. Quero seguir meu, nosso, rumo na vida, na minha carreira profissional. Não quero ter tempo para pensar. É preciso se jogar na vida sem medo. É preciso expandir nossa atuação. Nossa proposta, esse ano, é do promover um Agility. Cãezinhos correndo e saltando... imaginem o trabalho que isso vai dar. Não ter tempo para pensar em nada, ou melhor, minimizar o tempo em que penso nas coisas que estou tentando esquecer. Começo uma vida nova, e agora sinhôs brotam de uma realidade imagética e imaginária. Um devir filosófico, a criação de conceitos transitórios, a estética da retórica, o material humano continua indispensável, uma teia de aranha. Então quem somos nós, Luciana Catarina? Ok vamos dizer sempre Ok de agora em diante. Uma vez, saindo do contador, no centro da cidade, tínhamos dinheiro apenas para um cafezinho e um pão de queijo, lembra? e você vaticinou que um dia estaríamos rindo dessa situação? WOLLeR “wir sind voller ernergie”, lembra? e agora?

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sexta-feira, abril 04, 2008

Eu a mim

Meu bem, o faço dessa distância? O que faço do nosso segredo que nos distancia mais ainda? Devo deixar que o tempo se encarregue de tudo? Acho que, especialmente com você, não conseguiria isso. Eu não me perdoaria, sabe? Eu nunca senti como eu me sinto agora. Nunca me senti “em falta” com ninguém. Não tinha intenção de me casar com a Pearl, embora fomos um do outro um longo tempo. Passado isso, também isso com a Pesseguinho, apesar de achar que ia durar muito mais do que durou. Mas nunca imaginei estar ligado assim a uma pessoa, tão fortemente, você não sabe. Integrasse a isso um sentimento de perdão; à nossa ingenuidade. Continuo sonhando com os pés no chão, mas sou corajoso. Não aonde eu me sinta infeliz e pressionado, distante e cercado. Livrar-me é cuidar dos pequeninos gestos. As mulheres sabem disso melhor do q os homens. Delicadas, sensíveis, frágeis, sedentas de cainho, amor, tanta beleza em cada, tantos misteriosos segredos. É preciso estar atento e forte, fortalecido pelo medo que nos impulsiona e se transforma em coragem (ou deveria). Digo a mim mesmo: respira fundo. Calma. Fica tranqüilo. Relaxa o corpo, tranqüiliza a alma. Sente que estas no caminho e que dele nada pode te tirar. Faz dele seu e ele nunca te abandonará.
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Katze



.... Max Slevogt, Der Sänger Francisco
d'Andrade, Zeitung Lesend (1903).
© Alte Nationalgalerie, Berlin, Alemanha

quinta-feira, abril 03, 2008

Fugitivos

O que nós éramos foi preciso ser adiado no Tempo. O que nós estamos é preciso ser adiado no Espaço, já que o Tempo não existe mais. A unidade foi separada em partes. As partes foram empilhadas. Com destroços de um ferro-velho. Num canto. Sobrevivi. Ei, será que existe um termo para um vaso meio quebrado? Aproveitando a chance de estar vivo, fiz linhas nessa pagina em branco. Hoje apareceu uma cobra aqui em casa. O pôr do sol é lindo mesmo. Mesmo entre os prédios com cara de monstros mal humorados. Suave sorriso, anjo, tentei roubar a luz daquele momento. Continuo olhando pra baixo e pro lado, mas a cobra se foi. Assim foi meu dia, que o dia assim não foi meu. “Sendo fiel ao ócio com relação ao tempo de tramitação do trabalho”, Domenico di Masi, sobre grupos de trabalho. Sobre o coletivo em grupos de trabalho é imprescindível que cada indivíduo leve sua bagagem de conhecimentos, no bolso. Mudando de assunto, incrível é acompanhar, usar e ser fiel às novas descobertas da neuro-psicofarmacologia e a psiquiatria modernas. São nossas amigas, afinal. A lua minguante sorri pra mim, gato no telhado.

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quarta-feira, abril 02, 2008

Spleen

Características do Ultra Romantismo
ou segunda geração do romantismo:

Egocentrismo, sentimentalismo exagerado, morte, tristeza, solidão, tédio, melancolia, subjetivismo, idealização da mulher.

Spleen.

Vamos ver, tédio concordo. Tudo hoje em dia é entediante, a inteligência, a burrice, o cinema. Deixa ver, egocentrismo tenho que admitir, mas entraríamos numa longa discussão, sendo que cada individuo pensa em si mesmo a maior parte do tempo. Meu subjetivismo definitivamente não é romântico. Talvez apaixonado mas tende mais ao surrealismo ou algo quase caótico ou caótico. Idealização da mulher deixo isso com Freud que escreveu um ensaio baseado em Gradiva - obra de William Jensen, a busca da mulher ideal que está justamente perto de você e que nos idealizamos e vamos buscar tão longe. Solidão, tristeza e melancolia, penso que essas três coisas andam juntas. A melancolia é quem corre o maior risco de ser piegas. Tristeza é uma coisinha que sinto diariamente ou a maior parte do tempo, não sei se ser adulto é assim mesmo... Solidão são varias, diferente de abandono. Estou só. Ah, já ia me esquecendo do sentimentalismo exagerado, melhor assim.

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Milonga del Angel

A milonga originou-se de uma forma de canto e dança da Andaluzia, Espanha, que, nos fins do século XIX, popularizou-se nos subúrbios de Montevidéu e Buenos Aires. Estilo de música tradicional em várias partes da América Latina e na Espanha. Deriva da habanera, assim como o tango. É um estilo muito popular na Argentina.

Astor Piazzolla, live for BBC

Milonga de Albanoz

Alguien ya contó los días. Alguien ya sabe la hora. Alguien para Quien no hay ni premuras ni demora. Albornoz pasa silbando una milonga entrerriana; bajo el ala del chambergo sus ojos ven la mañana. La mañana de este día del ochocientos noventa; en el bajo del Retiroya le han perdido la cuenta de amores y de trucadas hasta el alba y de entreverosa fierro con los sargentos, con propios y forasteros. Se la tienen bien jurada más de un taura y más de un pillo; en una esquina del sur lo está esperando un cuchillo. No un cuchillo sino tres antes de clarear el día, se le vinieron encima y el hombre se defendía. Un acero entró en el pecho, ni se le movió la cara; Alejo Albornoz murió como si no le importara. Pienso que le gustaría saber que hoy anda su historia en una milonga. El tiempo es olvido y es memoria.

Jorge Luis Borges

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Solelad

O melhor de Astor Piazzolla- Solelad


Acreditavam que Katze era apenas um personagem até que ele se rebelou contra Hugo Lorenzo, seu autor na vida real. No início Katze recusou-se a suportar os vários humores de Lorenzo e deu-lhe um choque lacaniano citando frases de O Casamento entre do Céu e o Inferno, do Blake e os provérbios “Usai o homem e pele do leão!” - e bramia como um leão, “A abelha diligente não tem tempo para mesmices”. Mas tudo isso foi em vão, todas essas citações depunham contra ele mesmo, Lorenzo. E a cada pagina Katze insistia em não colaborar. Em um episódio em que era um gangster italiano-sem-família em Nova York, recusou-se a morrer metralhado pela gang do Bonny-Sem-Dente, que passaria de Ford 28 e dispararia balas de festim pra todo lado. Depois se recusou a falar daquela dor no joelho e falar de amor lhe embrulhava as palavras ao veaSso. Outra vez Lorenzo tentou convencer-lhe através de Lewis Carol - o sorriso do gato de Alice, nesse momento Katze mandou-lhe que se olhasse no espelho para ver o que descobria através dele. Depois partiu para as fábulas de La Fontaine, histórias sem nexo de Herman Hesse, Milan Kundera... Fez-lo ouvir tudo isso ao som de Libertango repetidas vezes, de Astor Piazzolla. Até que foi preciso apelar para O animal autobiográfico, de Jaques Derrida, usando frases de L’animal que donc je sui, do mesmo filósofo e tentando convencê-lo de que se tratava era apenas uma crise de identidade, que logo tudo passaria e sua revolta estava bundada apenas na denominação, na epistemologia, na taxonomia e não na etimologia da palavra. Essa prosopopéia toda não surtiu efeito algum. Katze odiava cada dia mais os animais de estimação. Sem que ele mesmo soubesse, odiava tudo que vinha do leste europeu e odiava também ser o Alter-ego de um escritor sem sucesso. Então uma noite, quando Lorenzo havia brigado com sua esposa e todos dormiam um sono conveniente, o velho Katze cansou-se de esperar e saiu por aí vagabundeando. Caminhou por várias regiões da cidade. Atravessou viadutos e passarelas, cruzando ruas e avenidas e descobrindo um pesadelo noturno e num mundo miserável, com seus olhos de gato. Achamos que até hoje ele não se recuperou dessa incursão pelos morros, subúrbios, becos e favelas... Foi quando Hugo Lorenzo deu "um basta" em sua lamentável vida de poeta-escritor-viciado-e-alcólatra e definiu enfim definitivamente o que tinha que ser definido. Debandou para o lado do inimigo pensando o desconhecido ser O certo. Dizia Vamos embora- e completava ansioso- tenho sono, feito um menino sonso. Quando dormia confundia-se com o próprio personagem que havia criado, pois tudo que era sólido desmanchava no ar. Nessa época Katze voltou a fumar Malboro vermelho, não tinha trabalho e passava o dia todo entediado. Foi quando começou a beber. Mesmo assim não deixou de brilhar com seu Allstar. Seis meses se passaram e há duas semanas ele passou a fumar Lucky Strike branco e parou de beber, disse que o cigarro mais fraco é mais saudável. Em janeiro desse ano, o personagem presenciou o autor em uma de suas crises de solidão ultra-romantismo spleen. Katze não perdeu tempo e voltou a circular. Subia em telhados para uivar e entrava nos quartos como um vampiro. Escalando muros altos feito um bandido, buscava suas presas: um ratinho sabedoria daqui, uma gata de responsa de lá. Enquanto Lorenzo buscava nos botecos alento para uma ilusão perdida, cada vez mais preguiçoso e lento, cada vez mais burro. O processo criativo estava cada vez mais vagaroso. Tinha tempo, mas não tinha terreno para atuar. Katze, o astro da história, o persona, o ânima, o galã, o irresistível cafajeste, o canastrão, vivendo seu momento bêbado dos clowns de Shakespeare, enlouquecido pelas palavras de Jean Genet e Artaud, ameaçou denunciar Hugo, exigindo que agisse rápido. Ele estava sob vigilância do Ibama por manter em cativeiro, e sem licença, um papagaio mudo. Ainda corria o risco de ser processado pela WWF por constar na listra negra da zebra africana. Hugo Lourenço havia sido recentemente diagnosticado por ter uma raríssima e incomum neurose urbana, recentemente descoberta pela medicina...

POr
Fleuma Rizomática

e do ébrio sorriso da raposa...

terça-feira, abril 01, 2008

Ligia

Acompanha texto. Aguardem...

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Anima

John Coltrane



Quando Deus (ou a Natureza) criou todas as coisas, os homens e as mulheres e lhes deu intelecto professou sua maior piada. Alguns não entendem essa piada divida ou fingem não entender, ou até mesmo apelam para um grau de racionalidade intransitiva, ossificada. Mas quando aqueles que acreditam nessa racionalidade materialista se vêm diante do abismo que separa a Razão do Amor, recuam. Ou seguem sofismando. Quando se encara o abismo por muito tempo ele te olha te volta. Retorna a mim sempre essa questão. Construindo pontes eufemísticas e nem sempre do outro lado dessa razão mascarada estão o Equilíbrio e a Temperança. Os vícios e as manias são compatíveis ou não em diferentes momentos do dia. Eu me divertia ao seu lado. Quando íamos juntos a qualquer lugar um orgulho imenso que sentia, com o passar das horas e dos dias. Gostei de te ver como um retrato, quase um sonho acordado, mas isso não te importa nem te comove so what? Vou dormir quando o dia acordar e morrer no sonho ou acordar para a realidade que se dispõe adiante, sem previsão, sem hora sem companheira, sem amor. Afastado o cenário dantesco que criei para mim mesmo, quando estive doente e sem forças. Livrei-me da doença e hoje estou vivendo uma seqüência de palavras, conduzindo verbos, declamando frases de um personagem shakespeariano. Dia após dia eu me despeço dessa ilusão de amor. Cruzando as ruas, no ônibus, no supermercado. Entrei na fase de te ver em outras pessoas, em todo canto e até em lugares improváveis. O fogo é sempre o mesmo se nada que faço me fascina. Por todos os lados que olho não vejo inspiração. Busco uma luz, um caminho por onde andar. Talvez uma chama de inspiração, ígnea flama flui em eflúvios.