quarta-feira, dezembro 31, 2008

Cronos


Dia 31 de dezembro de 2008. Dezenove horas e vinte e cinco minutos. Hoje é quarta? As pessoas estão fazendo planos para o ano que vem e eu estou fazendo planos pra sábado. Amanhã é o amanhã, e daí? O quê muda? Não muda nada, apenas um número no calendário. E as pessoas comemoram esse aniversário como parturientes do Tempo. Hoje mais cedo conversei com o Caio pelo telefone. Falávamos desse paradigma e, muito bem lembrado, ele disse Einstein provou que o Tempo não existe. Pois eu nem me lembrava disso, nessa minha intolerância com as falsas alegrias. Eu poderia contar o tempo com os fios de cabelo branco que nascem em minha barba. Seria bastante subjetivo ao invés do racional, inexato e opressor Tempo Tempo Tempo Tempo. Já estamos em um planeta que gira, onde as populações vivem os dias e as noites. Já existe esse dueto maquinal, automático, inconsciente, involuntário. Mesmo na estrada pra lugar nenhum precisamos ter o controle das horas. O Tempo corre o Tempo voa o Tempo é um atleta! O Tempo não pára, não pára nem pra descansar, dar um tempo. O Tempo não dá Tempo ou dá de sobra, ou dá justo apenas naquele exato momento. Deleuze sabe disso. Sabe, obviamente, da crítica de Nietzsche aos filósofos naturais, mas coloca os mestres da arte e da filosofia no mesmo bojo atemporal. Serpenteando numa linha onde cada um encena um personagem. E ainda me condenam por isso. A dor existencialista é muito mais visceral iconoclástica, muito mais meu estilo, admito. Identifico-me com o Nada, personagem de A Peste do Camus. O Nada interrompe os discursos da Peste para proferir ao povo obviedades, o Nada suicida-se no fim da peça. O melhor fim ao nada. Riu-se de improviso e tristeza. Se quiseres saber, fodam-se Nietzsche Camus e Deleuze! Quero viver a mística transgressiva do Olímpio, Brancas bêbadas bacantes o beijam. Cronos engolindo seus próprios filhos. Amanhã é (foi e será) apenas amanhã, quando parar de chover. O declínio da matéria a degeneração progressiva das notas new age do Miles Davis, as rugas da Dona Lili Marinho, os quantos maços de cigarro. Se fumei ou se bebi, ou se dormi na véspera sem aderir ao sistema, Adeus Ano Velho. Já vai tarde. Que eu sinta menas tristeza, que eu fique menos miseravél, que eu continue anti social ao invés de antissocial, depois te mando as reformas da gramática...
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terça-feira, dezembro 30, 2008

Mildred

Mediterranean Sundance

Código de palmas, castelo de cartas. O clown do jogo das contas de vidro, the glass bead game, o lirismo na fila das capitais. Não houvesse a paciência e a tolerância não haveria filas. De noite em Copacabana a vida é uma luta. Em cada esquina um pivete, em cada janela um olhar, em cada cama uma puta. Tentar destruir um ar soberano sobre si, sobre eles e sobre mim. Obstruindo o fluxo de estrangeiros preocupados com seus dinheiros e roteiros turísticos. Idiota e disforme contorcionista acrobata da dor estilo feliz. Sou o palhaço do jogo das contas de vidro, senhor Herman Hesse, mein freund. Nunca vi tantos eus em suas palavras.

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to be continued

segunda-feira, dezembro 29, 2008

dicionário de antônimos


um senão

Um esclarecimento: o Tempo não existe. Foi o homem (raça humana) que o inventou para pontuar o envelhecimento, o declínio da matéria, a impermanência constante. Se Tempo não existe digo portanto que mais um elo de matéria se fecha nesse momento, como uma cicatriz. Dar destaque a linha temporal, é como "dar-se conta" de que somente o Tempo demarca, delimita e conta essa aventura, da matéria ao espírito, do concreto ao abstrato. Micronizamos o contagio das horas, exterminamos o Tempo que hoje* é somente uma questão global. A interface, a linha que me liga à essa realidade particular via cabo. Como uma torre torta, uma tocata, o hino estadunidense num dedilhado de Hendix, e depois, um palco vazio. Porquês.

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*temporalidade

pas de deux

Lecuona - Grupo Corpo

Eu não te vi passar
mas agora você está distante
eu estou distante
na ilusão de Tempo e no Espaço

sinto falta muito embora
falta de qualquer coisa desordenada
falta sentir seu alarde
depois de te esperar toda tarde

falta de você
e da metade que levou quando partiu
mas como membro que se regenera
outro a ser o que era

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Para Cynara Jácome

VOLLMOND von Pina Bausch

domingo, dezembro 28, 2008

My Favorite Things

A verdade é que ainda não consegui me desprender por completo das relações humanas. De você que me deixei arruinar, perdoa-me por me traíres. A calma agora plaina no ar da noite, nos intervalos, nas pausas, no silêncio e na música. Eu quero falar sobre você, e daí, nada me impede fazê-lo. Somente a ética, um pudor parnasiano e a lucidez. Eu quero me lembrar das coisas boas e acabo lembrando-me da minha condição atual. Tenho vontade de te matar, não só no sentido figurado. Mas isso seria muito sério, muito shakespeareano, nelson-rodriguiano, tennessee-williamsiano, jean-genetniano, nietzscheniano e deleuzeano. Enfim, só conhecendo os marginais franceses para tentar definir como seria. A noite nessa cidade não há nada noir, nada horrorshow na noite. Só o que me empeça de sair o monstro no armário. E quem ganha com isso? O único show de horror é você, e é nauseante que isso ainda me atraiu.

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Wo bist du?

Há pouco mais de um ano me separei de minha mulher. Ela é descendente de alemães assim como minha namorada antes dela, Pesseguinho. Sempre fui um errante, nada do que fiz em minha vida foi certo. Sempre cantei aos quatro ventos minha miséria minha sabedoria, a prepotência, também minha e humana. Sempre me embriaguei dos venenos mais torpes, e me safei com audácia, como um Hobin Wood underground, das situações mais caudalosas. Estou me sentindo Giaccomo Casanova a descrever suas aventuras desde que foi expulso de Veneza. Mas, prosseguindo em meu relato pessoal. Essa experiência foi-me um tanto traumática. Foi e está sempre sendo para mim. Minha senda caminha na alma do nevoeiro. Isso acaba envolvendo todos que estão em volta. Isso acaba por mitigar cada dia a imagem que formo de mim mesmo. Sonho ser o que não verdadeiramente sou. Poeta e marginal sempre a margem daqui e dali também. Disse-me Mildred certa vez que eu tinha uma enorme vontade de ser aceito, mas não aceitava ninguém. Até hoje não entendi o que parece simples. O que é de fato aceitar alguém? É não ter olho crítico? Não saber sair dos lugares onde não me sinto bem? Eu é que nunca fui aceito por esses olhos pouco fugazes, e às vezes nada inteligentes. Ficamos juntos dois anos, eu afogado na germanofilia. Nem na Alemanha são tão germanófilos. Nunca os alemães me perseguiram tanto. E eu fui de encontro a eles, a ela. Com minha espada em riste e o coração na mão. Sem disfarçar pequenas emoções, tentando não me desesperar com grandes tristezas. Mas desse passado em que vivemos, sangue do meu sangue espanhol, ativado através dos genes de meu pai, essa novelística quase mexicana. Viva Frida Khalo, mas imagino que nos confins da Galícia, em Ribeiro de Bandi os dias são de tonalidade gris e sem cor, e até os dias de sol são tomados por algum pudor católico que não os deixa ser alegre. Existe uma grande diferença entre festejar e ser feliz. Quanto a verter a si mesmo, se divertir, não vejo lógica, com todo meu pessimismo, para isso. Mesmo assim o faço. Por pessimismo. Quando não tenho para onde ir. Cair morto para mim é a rua, é a chuva, sem destino certo, sem pausas e sem parágrafos. Saio como um Jack Pollock, de gola roleux e jaqueta. Os tons são frios, o dia é branco. Não tenho para onde ir, saio a flanar. Ocorre que tenho que deixar essa estação. Sair da casa de meus pais, da qual passei fora dez anos, da qual todos os irmãos já debandaram. Como disse minha mãe nascem dois morrem dois. Um novo paradigma contradiz esse dito popular. No caso geral seria nascem dois e morre um pra cada lado. Mas no nosso caso, está se cumprindo a sua profecia, o que ela, minha mãe, vaticinou. O problema é que não tenho para onde ir, por isso passo os dias perdido. Por isso passo os dias assim, com a mesma toalha que limpei minha porra, enxugo minhas lágrimas. A mesma paisagem, um voto de silêncio, outro de castidade. Lágrimas são de cristal e la leche és santa.
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sexta-feira, dezembro 26, 2008

Leonardo hyper

Distante e somente no dia do começo e no meio do fim do dia. Veruska, sua calcinha francesa e suas várias personalidades me comovem. Quisera eu um dia também estar longe daqui, mas quando longe significa estar longe das pessoas que você gosta.
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quinta-feira, dezembro 25, 2008

deformati mezzi

Cai devagar a noite de natal. Com uma chuvinha fina Yundi Li executa Escherzo N.1 Op. 30 de Chopin, entrecortado pela tosse de um velho senhor, meu pai. Quero recostar minha cabeça no travesseiro para admirar os inumeráveis tons de cinza, enquanto as notas são condolentes comigo. Enquanto acordes não me fazem dormir. O Escherzo zomba de minha tristeza anunciando o Noturno e a noite que vem pela frente. Ainda zombando de mim, diz adeus em uma escala transversal tão transgressiva que o próprio Rachmaninoff, especialista na obra de Chopin, aplaudiria. Scherzo N. 2 me chama, mas o primeiro tinha razão as notas não mentem e escolho mesmo ouvir Noturno Op. 66 enquanto a noite cai. Nas mãos do mesmo Yundi Li, bom garoto, de gravata borboleta ao rigor da decadência dos salões nobres e miséria da doença do pobre Chopin que, entre mazurcas e polcas, derrama sua melodia no esplendor das noites, notívago e sempre taciturno. Fantasie improptus em C Op.66, ele se ri de nós deixando escondidas lágrimas entre as teclas duo cromáticas.
Mas vejam essa japonesa, Hiromi Uehara, tocando com o Chick Corea (que deve atrair os orientais por causa desse nome). Vejam como é sexy ao piano, e como toca bem! Tocam um arranjo de Summertime. O arranjo que em si é a maior das gloriosas apropriações, a maior das libertações poéticas, a paráfrase em seu sentido mais explicito. Ah sim, isso lembrou-me d escrever um conto dentro desse conto, ou seja, um pequeno conto. Chama-se Desvirginando Oli. Depois de um samba ela veio parar em minha cama e não se lembra como. Pratiquei entre suas pernas o esporte do qual me tornei insigne praticante, succhiare buceta. No calor eminente da carne, chegou a hora de fazê-lo. De fato, eis que uma hora esse momento que um dia nada servirá, seja esquecido.


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saudade que ri e chora

Der Sänger Amel Brahim

Bachiana N. 5 Heitor Vila Lobos

Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente.
Sobre o espaço, sonhadora e bela!
Surge no infinito a lua docemente,
Enfeitando a tarde, qual meiga donzela
Que se apresta e a linda sonhadoramente,
Em anseios d'alma para ficar bela
Grita ao céu e a terra toda a Natureza!
Cala a passarada aos seus tristes queixumes
E reflete o mar toda a Sua riqueza...
Suave a luz da lua desperta agora
A cruel saudade que ri e chora!
Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente
Sobre o espaço, sonhadora e bela!

quarta-feira, dezembro 24, 2008

downtown


Como exterminar de vez essa lembrança? Como assassinar em público essa dor? Somente matando a si mesmo? A dor física dói menos, distrai. Cadê o espírito imortal do Capão? Será que só choro eu? Chora você? Hey Joe. Quando criança tinha um sonho, mora no Blues que não desejo a você. Sabe sobreviver com outro homem, sozinha. Por quê me dói essa dor consoante dor-de-corno? Será que ainda te amo? Ou sinto falta da possibilidade de wohlgeratenheit, daquilo que deu certo, de ter dado certo, mas tudo é incerto. Que ridículo a possibilidade ser uma lacuna, uma falta, uma saudade, uma dor. Estive fora e as sirenes tocam mais um labirinto, lamento mais uma vez aqui ensimesmado. Trocando valores por maços de cigarro e cerveja. Eu me escondo da chuva fumando meu baseado, dando a minha risada mais profunda. Gargalho e rio e jogo bola, com os pés descalços. Eu sou do povo, embora muitos me critiquem. De domingo pra segunda tem sempre alguém dando a bunda. But the wind cries mary..
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segunda-feira, dezembro 15, 2008

Meu sobrinho saiu de casa por uns tempos está na casa da Tia. Minha irmã chora todo dia. Sinto falta de um amigo de outras vidas um ex-namorado que partiu de Belo Horizonte de quem não tenho mais notícia não se sabe onde. A última notícia que tive foi que ele havia se retirado pra morrer como fazem os elefantes. Sendo carcomido a cada instante pelo câncer, resolveu ter uma vida tranquila no ostracismo do sítio sem solidariedade sem espalhar a notícia incógnita. Essa informação vazou através de um amigo em comum... Espero que esteja bem. Às vezes penso nele. I hope he is okay. Penso que quando penso nele é porque ele está pensando em mim, mas longe de mim, longe de mim tentar entender física quântica. Um abraço. Amém.

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ps: e choro...

sábado, dezembro 13, 2008

The Great Gatsby

para ler ao som de Chet Baker, de preferência Moon and sand.

Eu com o lábio costurado, como disse minha irmã “meia boca”, Liberté me chama pra sair pra jantar na sexta. Tento entender aquele poema do Drummond João amava Tereza que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém (segue...). Poxa, como a vida pode ser assim e ninguém efetivamente conseguir amar ninguém? Amei certo tipo de pessoa de quem guardei ódio e amor no coração, que, como todo ser humano, tem a necessidade de meter, andar de moto, beber, se divertir - sair de si. Pena que eu ainda sinto algo por ela ter me revelado minha profunda ignorância de levar uma vidinha mais ou menos. Estou usando óculos. Descobri minha pequena e profunda miopia, mas nesse caso, o ano de 2007 foi para mim um caso de cegueira total. Estive fora do meu habitat natural, sei lá qual ele é.
Pesseguinho me chama para jantar, hoje é sexta e não fomos, numa cantina italiana que queremos ir desde que nos conhecemos. Pedacinho-de-carne-tentação chama para me jogar na Mary’s in Hell. Sei lá onde fica o inferno. De qualquer forma sinto-me ligeiramente pround. Esgotam-se as forças, acaba energia, mas no fim não há fim não acaba. Segue em compreensão na linha do bem, do religare ao etéreo ao ser menos cético. A fé é um veneno-medicamentoso, como o curare. Tudo depende da dose. Te paralisa te anestesia te dopa te mata. Nesse momento de pleno desespero é que se começa a pensar no etéreo, no que vive além da vida. Minha meta freudiana de agora em diante é “se perdoe e vá em frente” (ou paras as frentes). Sem mais esse amor romanticuzinho entre a lua e areia,
Oh, wheeeeen shall we meet again?
quer saber?
Fick dich!
ps: uma dose de ganância também não faz mal.

terça-feira, dezembro 02, 2008

heuters


Um dia nublado é para nos lembrar que o sol está atrás das nuvens, mas também pode ser o prelúdio de uma tragédia cataclísmica.

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