quarta-feira, janeiro 07, 2009

Lei Seca


Uma festa pagã para um deus Pã. As horas passam e a dor não volta atrás, acelera. Um grito de mulher quebra o silêncio da madrugada, bem clichê. Correr como um lince, morrer no asfalto. Aquela noite não foi apenas uma noite, foi a noite da ‘lei seca’ em que uivamos pra Lua no terraço da casa da Bailarina. Sentia nas veias sujas de sangue sujo avinagrado aquele amor impossível, inviável e antagônico. Apesar de, por dentro, minha revolta com a vida, com o mundo, a minha revolta enlouquecida de álcool, de vinho, de cachaça, uísque e velho barreiro, ouvindo Billie Holiday, Chet Baker e Marvin Gaye... Não pude evitar tocar aqueles seios negros, perceber o amor estranho amor entre eles. Esse meu amigo, homossexual indefinido de muita força vital de homem, e um lado feminino estranhamente forte. Essa noite a Bailarina jogou as cartas para ele. Brindamos com belo vinho, cantamos em coro, choramos juntos à vida e à alegria. Também não podia definir That Black beauty psicanalisada, That Black beauty que já leu Feuberbach, Kierkgaard e os modernos Samuel Beckett, Vergílio Ferreira. Entende um pouco da vida, é médica e mora em Brasília. Aquela voz um pouco rouca e eu, um pouco louco. Não estava mais ao meu alcance entender aquele amor. Um amor de épocas passadas, um amor condenado, um amor tolerante, clemente, intenso e desumano ao mesmo tempo. Um amor que não encontra nada em si sobre ele mesmo. Que goza pelo cu. Que ama uma mulher e um homem. Não eu, ele.
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9 comentários:

morenocris disse...

adorei o final do post e a placa do carro = 17 = 8

gus, senti uma sensação estranha agora, aqui, em seu blog. parecia o dia em que te conheci e te visitei pela primeira vez.

isso é bom. ao mesmo tempo é renovação. olhamos com os primeiros olhos os olhos já olhados. é encantamento.

estava com saudades. acompanho-te pelo blogroll.

beijinhos.

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Papagaio Mudo disse...

Oi Cris!

Que saudades da tonalidade da sua voz, sim, pois é a sua voz nessa junção de letras.
O que nós gravamos como palavra, nossos nomes, a primeira impressão semiótica que nos vem à mente.
E é à partir disso, que temos, possuímos realmente, a percepção de uma outra pessoa.
Bom sentir sua presença por aqui!
Beijos,

Gus

Caiocito disse...

Texto antigo. Gosto muito dele. A cris gostou tb. Eu e ela temos o mesmo gosto.

"parecia o dia em que te conheci e te visitei pela primeira" Cris.

Pois é.

Papagaio Mudo disse...

caros amigos,

Esse texto foi resgatado da inundação da biblioteca de Alexandria. O Vaticano liberou parte do acervo da obra de Homero junto com ele na transliteração para o português.

ass.

Tiberius Aahbran

Alice Salles disse...

amor nunca se entende ou não se extende.

Papagaio Mudo disse...

Alice,
o fato é que Drummond tinha razão

"João amava Tereza que amava Raimundo
que Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história."

e assim segue a vida...
ditosa para uns, ingrata para outros.
Abraços de cá,

Gustavo

LuzdeLua disse...

Senti-me angustiada com este maravilhoso texto. Acho que ando procurando significado para meus revezes. E a pergunta sempre fica no ar mesmo: Por quê? Porque o que que não entendemos é o que mais nos intriga e permanece em nós? Creio que, ao estar vazia, estou cheia das mesmas coisas sem querer estar. Vê o quanto as palavras são importantes? As tuas, me fizeram pensar sobre este estranho sentimento: Há amor para todos os momentos. O que quer ficar, o que quer partir, o definido e o sem qualquer definição. Muito bom. Obrigada pela visita, esto te linkando por lá para não te perder. Seja bem vindo ao meu humilde cantinho.
Um beijo com carinho

Papagaio Mudo disse...

O do poema Carlos Drummond chama-se Quadrilha, mas, veja como são as coisas:
quando dizem QUADRILHA hoje em dia, penso em um bando de marginais armados e organizados nas favela, planejando alguma ação de guerrilha.

quadrilha
do Cast. cuadrilla, grupo de quatro pessoas

s. f.,
conjunto de quatro ou mais cavaleiros dispostos para o jogo das canas;(?)
cavalhada;(?)
bando de ladrões ou salteadores submetidos a um chefe;
peça musical correspondente à contradança;
pop.,
multidão;
súcia;
corja.

fonte:
http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx

vítima da semiótica,
pobre Drummond...

Papagaio Mudo disse...

Oi LuzdeLua,

As palavras são artefacto de muito valor. Ainda são e sempre serão. Consegue expressar (dizer, mostrar, remeter à - na verdde) sentimentos, imagens, sonhos, abstrações. Arquitetos da palavra, acho que não entender faz parte do jogo, porque é entender demais.
LuzdeLua, obrigado por iluminar o meu cantinho.
Beijos,

>¨<

ps: está feita a ponte!