segunda-feira, janeiro 19, 2009

Noites Adentros, NY

p a r t e 5
Eu tenho apenas um medo, mas é tão difícil de mudar. O medo me perseguia desde o começo dessa viagem. A sensação de solidão, olhando pro cume dos Alpes, acentuava esse medo. Ou talvez fosse apenas o frio que me deixava assim. Medo de me aproximar demais. Perto demais de alguém, o suficiente pra que ela pudesse ver minhas fraquezas, minhas feridas que ainda não curaram, e minhas cicatrizes, marcas eternas. O meu maior defeito contribuiu com minha maior virtude. Fujo das pessoas que não pensam a vida como arte, fujo de mim mesmo. Atavismo medieval, de quando a arte ainda não existia, de pensar-me apenas um artesão de letras, um embuste, um engodo, um disfarce.
(Essa seria uma viagem interior. Eu pretendia ir até Nova Deli, e seguir pela fronteira da índia com o Nepal até a China, até onde eu pudesse. Queria chegar a algum lugar, não sabia qual lugar. Pretendia sair caminhando, de trem, de ônibus, de balsa, de canoa, de mula, de caminhão – do que fosse. Passaria a vida viajando.)
Até então tinha chegado a Tirano que já me parecia o fim do mundo. A viagem de trem foi tranqüila e calma. Só o nome da cidade me assustava.
Mas ela me chamou com os olhos, e eu fui. Traindo a razão e seguindo os instintos. Por um instante seu sorriso lembrou-me Josephine Baker, porém muito mais belo silencioso e carismático. Olhei meus amigos, Juan, Angel, o Miguel e o Kim, de Madrid. Eles conversavam efusivamente e riam efusivamente. Eram assim, sempre que não estavam cansados demais. Então me levantei discretamente. Saí da mesa e fui até o balcão. Sentei-me ao lado dela e continuei em silêncio.
__Sua língua está roxa – ela disse. Ah... como era bom ouvir a minha língua, pensei, sem me dar conta do trocadilho. Suas palavras soaram como uma suave melodia aos meus ouvidos. Depois de muito tempo trancado no silêncio de mim mesmo, falar minimamente era difícil. Nesse capitulo da minha vida até então, estava convivendo comigo mesmo. Falava pouco com os amigos. Ria às gargalhadas, mas falava pouco. Era contido e tido como introvertido, por isso quem me conhecia não se preocupava com isso. E quem não me conhecia, muitas vezes, sutilmente, ficava sem resposta. Então eu podia curtir a minha solidão sem desgaste, mas confesso que já estava cansado disso.
__Aaaaaaa! – e mostrei a língua.
__Fale mais – ela disse.
__Falar o quê, senhorita? Ainda não disse nada.
__Você é brasileiro, não é?
__Façamos o seguinte – propus – Você fala de você tudo que gostaria de saber sobre mim. Depois falo eu, certo?
Então ela começou, desde a barriga da mãe. Ouvir a sonoridade de sua voz era um alento. Algumas breves interrupções para acender um cigarro, beber um gole de vinho, pensar um pouco e recomeçar. Suas histórias se entrelaçavam, como que querendo dizer alguma coisa além das palavras, nas entrelinhas, além das pausas, na respiração, no tom. Era uma narração bonita e poética. Até que a porta da taverna se abriu, parecia frio lá fora, um homem alto e corpulento veio em nossa direção.
__É meu marido. – ela disse baixinho como quem conta um segredo. Eu não havia percebido a aliança em seu dedo. Nem me dera conta disso, apesar de ouvir com interesse o que ela falava.
__Vamos nos reunir amanhã para ver uma apresentação de fotos do Paolo. De sua expedição ao Everest. Amanhã, oito horas na nossa casa. – prosseguiu – Pensei que você e seus amigos gostariam de ver.
E me entregou um bilhete, Via Sant’ Alberto 30.
Interessante. Já conhecia o Everest, mas, depois de tanto tempo sem ouvir meu idioma, depois de tanto tempo sem pensar em sexo, depois de tanto tempo calado, é claro que eu estava interessado. Eram onze horas e começava a escurecer totalmente. Olhei pros rapazes que estavam pagando a conta à garçonete.
__Vamonos muchacho! Mañana, un otro dia. – disse Miguelito e me puxou pelo braço.

(Continua em breve. Tudo que a Gislene me contou sobre sua vida, tentarei reproduzir)

ps: não sou um narrador onisciente.

>>¨<<

15 comentários:

Abel Asvir disse...

Bonito blog, gracias por tu visita, pasate cuando quieras, mi blog tiene muchas ventanas pero ninguna puerta!!

buena semana

Anônimo disse...

este nome - GISLENE - tira a metade da beleza da narrativa

Papagaio Mudo disse...

o que eu posso fazer?
vai reclamar com Deus...

beijos confidenciais,

>¨<

Anônimo disse...

Deus dai aos pais e mães bastante bom senso na hora de escolher nomes para seus filhos e filhas
porque um nome pode mudar o destino de uma pessoa
e também pode tirar todo o seu charme e seu brilho

amém

Papagaio Mudo disse...

Oi anônimo,

Aproveito a oportunidade para também dar uma palavrinha com Deus.

Deus,
Perdoai aqueles pais que não souberam escolher apropriadamente o nome de seus filhos. Porque eles tinham amor no coração na hora da escolha. Fazei com que os filhos de vossos filhos aceitem o nome que lhes foi dado, com caridade. Assim como receberam amor e compreensão, recebem também o nome na hora do batismo. Que possam compreender mesmo a mais profunda ignorância, porque sabemos que diante de Ti somos todos irmãos.
Sabemos que um nome é apenas um nome, apenas um cnjunto de letras. Assim como o Senhor Jesus, vosso filho, mudou o nome do pescador Simão para Pedro, somos livres para abandonarmos a rede & a canoa e seguirmos o Seu caminho. Fazei com que com o brilho das pessoas com nomes menos favorecidos pelo senso comum nunca se apague. Deus, ilumine nossas almas, retirando todo mal e todo preconceito, pois sabemos que a bondade e a caridade está dentro de nós e não em nossos nomes.
Amém

Papagaio Mudo disse...

Nena,

comenta se estiver acompanhando!
bjo

>¨<

Katze

Alice Salles disse...

É gislene não é o melhor nome evah mas tá valendo! As casadas se divertem mais.

Papagaio Mudo disse...

Oi Alice,

que nome você sugere para uma personagem com tais e tais características? ainda nem escrevi sobre ela. O Paulo Coelho é que escolhe os melhores nomes, os mais poéticos e certados, diz o Mário Lago.
abs,

>¨<

ps:
enquanto a aranha
tece a trama
a mosca
reclama

Papagaio Mudo disse...

Abel,

obrigado pelo elogio!
Bonito e interessante seu blog. Passarei por lá seguramente.
LA MEMÓRIA DE CAIN


bOa SemanA !!!

>¨<

Menina do mar disse...

Deixei presente pra ti lá no meu canto... é a tua cara, procura que vais gostar.
boa semana

Papagaio Mudo disse...

presente pra mim?
êba!

obrigado, menina do mar!
beijos,

Gustavo

ps: vou lá buscar.

Nena disse...

Fiquei com ciúme.
Nada a declarar

Nena disse...

Fiquei com ciúme.
Nada a declarar

Papagaio Mudo disse...

ciúmes de mim? por quê?

>¨<

Raquel Emanuelle disse...

Oi,
Vi umas fotos da Josephine Baker. Sabe aquele negócio do eu poético, do medo e da descrição mais bonita?
Então... é isso... pra não demorar demais.rs

Bju