segunda-feira, janeiro 26, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 8

A Gi também tinha as paisagens do passado impregnadas em si. Estava submersa naquelas lembranças e era preciso emergir para tomar fôlego. Eram apenas homens comuns, o Paolo e todas as pessoas que a cercavam e ela parecia triste. Eu podia dizer que, minha última conversa com a Gi, havia mudado minha idéia sobre ela. Tinha toda a ingenuidade de uma índia sim, mas era audaciosa e tenaz como uma pantera. Exótica? Sim, sua pele tinha sempre um tom dourado que nunca desaparecia, mesmo no inverno cinzento, sua sensibilidade e maneira de enxergar a vida eram admiráveis. Eu nunca vi nada selvagem ter pena de si mesmo / um pássaro cairá morto de um galho sem jamais ter sentido pena de si mesmo*
Meus amigos foram para a montanha. Aquela semana que levariam para escalar, eu ficaria na cidade, escrevendo minhas próprias regras e cuidando do chalé. Durante o dia, saía pelas ruas à observar as pessoas do local, quase não havia turistas. As pessoas que viajam aquela época passavam no máximo 45 minutos na estação de trem. À noite, eu ia a uma bodega que me haviam indicado, longe do centro, quase escondida. Nessa bodega ninguém me perguntava nada. Sempre me sentava no balcão e conversava com o atendente através de gestos. Nunca ficava cheio e tinha ares medievais, paredes de pedra e madeira. Parecia um clube da máfia. Havia também um personagem típico dos filmes de gangster, sempre nos fundos do bar, um velho catatônico, de óculos escuro e terno xadrez.
A segunda vez que me encontrei com a Gi, foi no centro de Tirano, no Café della Villa. Conversamos bastante, mas ela hora nenhuma falou do Brasil. Contou-me a história da longa viagem de Kombi com Samuel. “Todos pareciam ter um rumo, mas um destino incerto”- ela dizia, e olhava com ares de transgressão. Ao chegarem juntos à Espanha, ao invés de continuarem subindo para França (é o que deveriam fazer para chegar a Chamonix), resolveram atravessar o estreito de Gibraltar e viajar pela costa sul do mediterrâneo, norte de África, ad infinitum rumo ao infinito. Não era entediante ouvir aquele que se tornara um monólogo. Ao contrário, ficava encantado com suas descrições, palavras que pareciam ter sido previamente escolhidas, sem remendar retalhos ou partes fragmentas. Havia sempre um enlace, muito bem elaborado, ligando a trama à descrição geográfica, e a alegria ao drama. Perguntava-me se haveria um começo-meio-e-fim, como numa partida de xadrez, para aquela história. Em pouco tempo eu já podia perceber o caráter do Samuel. Ele era tipo irresistível cafajeste. “Sedutor, ao ponto de ser um romântico à moda antiga” - ela dizia – “Italiano da Calábria”. Ainda estava apaixonada por esse cancioneiro francês de talento confuso. Eu era o prisma desse cabedal de histórias e ela era o feixe de luz que iluminava minha imaginação naqueles dias cinzentos. O porto de Tanger ao entardecer era laranja, o Marrocos me remetia aos tons da areia. O norte da Argélia era âmbar, e o pôr-do-sol era vermelho. Em Oran, conheceu e teve contato com conflitos políticos, causa e efeito. A Tunísia fazia lembrar o verde do mar e águas claras. Passaram pelos confins do mundo. Viram cidades abandonadas, tribos indígenas, pequenas comunidades, metrópoles grandes e confusas. Quando ela falava, parecia querer voltar no tempo. Parecia sentir saudades, mas não era nostálgica, queria seguir a diante, sentia-se estagnada, fazer da vida uma aventura errante, como dizia o poeta. Apesar de altamente civilizada e com requintes Alla tedesca, ela era o mais próximo de uma criatura selvagem que eu já havia chegado.

(c o n t i n u a)

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6 comentários:

Adriana disse...

Li a primeira parte, agora, a segunda, um texto quase selvagem, quase poético, interessante.
Vai continuar?

Papagaio Mudo disse...

Oi Adriana,

Vai sim, vai continuar. Legal que você esteja acompanhando.
Já tenho todo o enredo pensado, o que não significa que não possa mudar, como por exemplo, matar algum personagem no decorrer da história.
Agora termino esse "flash back" e começo a misturar passado com presente.

roserouge disse...

Querido Gustavo,
estou a adorar esta história, mas posso fazer uma pequena sugestão? Pores os textos um pouco mais curtos...senão às tantas uma pessoa não tem tempo de ler tudo...digo eu, sei lá...

Papagaio Mudo disse...

Querida Roserouge,

A questão é que agora o texto está fluindo. Se eu interromper a idéia da passagem, do momento, corre o risco de parecer uma postagem sem nexo.
Tento dar continuidade àquilo que já está pensado, o resto flui. Mas vou seguir a sua sugestão e colocar postagens mais concisas.
Beijos,

Gus

roserouge disse...

Ah, já percebi. Cada postagem é um capítulo. tens razão, pronto, esquece. Entchuldigung!

Papagaio Mudo disse...

nicht zu!

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