sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 2 O deus-menino

Desceram os anjos do céu.
Bem, eu desejava que tudo fosse muito breve, rápido, passageiro. Esse foi talvez o meu primeiro erro. Como se tivesse pressa para atingir a iluminação, percebi que ainda não estava preparado para enfrentar as areias do deserto, cruzar montanhas escarpadas, vales, rios e bosques, e novamente viver como um andarilho, passando frio em noites geladas. É certo que sempre encontrei abrigo onde andei, mas às vezes, você está sozinho na cidade, na praça, nas ruas desertas, sem saber pra onde ir. Parece que o seu julgamento não vale nada, que sua moral não vale nada, o seu dinheiro não vale nada. Sua sabedoria é que vale nessas horas. Conseguia me esgueirar bem, em países com tendência à xenofobia. Tentando sempre ser observador invisível, mas como isso não é possível, participando, às vezes, consegue-se não se fazer notar. Um observador participativo é como Baudelaire que bebia apenas meia garrafa de vinho. O suficiente para deixá-lo um pouco ébrio, mas sóbrio o suficiente para observar como se comportavam os bêbados. Percebendo da forma como percebem, tentando sentir o que sentem. Tentando que falem com você como se já te conhecessem, da forma mais natural. Sem que você se force a nada, mas sendo humilde e no final da noite, tentando não ser o alvo das madrugadas escuras. Isso não é esperteza, é maldade é auto-preservação. Subindo as ruas da cidade da cidade, sem luz até Saint-Denis. A cidade luz ficava pra atrás, nas minhas costas, de modo que quem vinha pela frente era como que saindo do nada. Um vulto negro de repente se transformava em gente. Não devia ser bom também ver somente os contornos da minha figura em contra luz. Em Saint-Denis a chapa é quente. Até que finalmente cheguei na casa do minha amiga, Adele. Ela não estava. Deixou a chave embaixo do tapete com um bilhetinho com o um endereço pedindo que eu fosse até lá. O lugar era próximo ao cais da marina, perto do canal. Não cheguei a entrar em casa. Sem dispodição, fui descendo direto, pois já conhecia aquele endereço Taverne Orlando. Adele sabia que eu gostava das tavernas, mas não aquele dia, não aquela noite. O sol já se punha.

c o n t i n u a...

5 comentários:

Alice Salles disse...

Não naquele dia...

Eduardo P.L disse...

Aguardo a continuação!

Danitza disse...

Tenho comentado pouco, mas lido sempre.
O alinhavar tem sido perfeito. Magnificamente observador. Circunspecto!

Abraços

Papagaio Mudo disse...

uau!
muito obrigado Danitza! principalmente pelo "alinhavar" que poucos entedem ou quetionam muito. Interatividade. Quase nunca faz-me mudar o rumo do relato dessa expedição.
um Beijo Grande,

Gustavo

Papagaio Mudo disse...

Alice,

não aquele dia, mas logo em seguida a vida deu uma guinada!
verás..
bjos,


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