quinta-feira, março 12, 2009

F4b sem você

Minha cama está vazia. Deito na minha alma e você me ama. Deixo meu corpo voar em sua direção, embora não saiba o rumo ao certo. Conhecem tantos prédios tantas ruas tanto trânsito tanta fumaça tanto espanto e caos tanto pop um tanto vazia, pós-moderna factory nada de novo acontece. Quero um pouco do paraíso. Preciso navegar nos meus sonhos e encontrar algo de real. Arrancar as pequenas raízes que começam a brotar no solo sobre mim. Eu quero o mundo quero você quero a felicidade quero estar onde eu prometi estar quero ajudar a quem prometi ajudar, mas escolhi o caminho difícil. Meus planos são íngremes como subir uma montanha. Sinto-me cansado, pois acabei de cruzar uma montanha e atravessar o longo vale das minhas trevas. É como não ter nada sobre os pés, em um lugar onde não se desejava estar, que de súbito flutua sem se dar conta. Eu que aprenda a levantar. E agora tento, na linha entre choro e riso. Agora, menina vai delimitar bem riso & choro. Porque nada ficou pelo ar nada ficou por dizer nada sem tudo que há, se falamos ao nosso íntimo. Nada é tudo que tenho a dizer. Desejava um sorriso, sim se desejava. Mas nesses tempos, o máximo que consigo é sorrir de lado. Vou pra cama sozinho, ardendo de desejo. Desejava um beijo, um beijo real, desejava sua pele, desejava sua cama, sua serenidade, desejava. E juntas, nossas almas iluminadas cheias de sossego à luz do sol que descansa no mar. Sonho com essa brisa suave. Sonho com outros ares, pois esses estão a me sufocar. Então respiro fundo e peço a energia curadora das florestas amazônicas e uma luz verde inunda meu quarto de paz. Eu quero um pouco do paraíso, mas até o paraíso cansa. Imagino se dá pra pescar, pescar mais essa ilusão e por quanto tempo. Sou então um grão de areia que se apaixonou pela lua. Despida de luz se esconde no céu, se esconde de mim. Voa ó vento divino. Sabe como é, é como se meu avião pudesse cruzar o oceano, mas não há combustível. Então vou remando cada dia nessa terra árida. Embriagado pelo algo que todos sofremos, certa nostalgia. Minha cama está vazia e estará amanha e depois de amanha e depois. Zero hora um nada se enche de sopro no som do sax tenor. Vou pegar um café, fumo mais um cigarro e vejo a cama em que estarei de olhos fechados no escuro. A lua brilha lá fora. Procuro algo – profundo mergulho no inexorável festim do tempo. Parece que as horas não passam e já não tenho mais passado. Fui apagado da memória e também quero varrer da minha mente todo lixo que me incomoda nessas noites quentes. Desejava dizer objetivamente o que desejo e não ser tão prolixo, mas minha bússola está em parafuso, e cego sigo somente um mesmo rumo. Sem indagar, sem lugar na fila, sem pretensão sem disputa de rivais sem sobrepor nenhuma metafísica. Derivações do quinto sentido.
__ Faz-te a vida – ela diz.
__ Só um instante. Estou a ler as três Críticas de Kant.
Em breve eu termino. Dois anos, imagino. São duas bolhas que estouram no ar, mas até lá o ar não se dissipa. O vento não vem varrer meus miasmas e continuo a ler. A solidão que assustava tanto, vem me ver, mas já somos amigos. Menina, não venha me roubar a dor e as lágrimas. É único vulto do retrato de mim mesmo que ainda tenho. Sim, estou pronto, eu acho, para encher nossas taças vazias e brindar. Brindar apenas por mais um dia que nos aproxima ou nos afasta um do outro, para nos reencontrarmos numa esquina. Capaz de não me ver, mas eu estarei por todos os lados. Se não me reconhecer ou souber que não sou. Reencontramos um dia do passado. Penso com o coração. Porque eu sou tão dramático? responda você. Sou apenas a estrutura mental da minha imagem. Cada um dá um sentido à
própria vida. O meu é amplo e nenhum. Quero viver o presente intensamente, e não dessa forma monástica e ordeira. Mas só consigo pensar no futuro, brevissilencío. Uma longa tarde a olhar o céu e as nuvens. Sonho acordado enquanto leio. Quero fazer você me amar e te amar também docemente se nesse sonho eu me iludo e acredito. Meu mundo começou hoje. Tranquilo como no primeiro dia da criação, ou no último. Sem alucinações. Um dia vou de vez e talvez nunca mais volte para os meus que já não me pertencem. Pertencem a seus próprios mundos particulares e seus próprios futuros. Quero o amor, nasci para isso, quero você comigo agora. Quero arrancar as raízes desse tubérculo rizomático que teima em crescer. Dance me to the children who are asking to be born…

11 comentários:

Papagaio Mudo disse...

"Eu creio! Auxilia-me Senhor, em minha descrença."

Karla disse...

palavras que cativam...

Liberté disse...

Minha cama está vazia. Deito na minha alma e você me ama.

o material e o espiritual
um encontro em partes

uma arte

um amor

um sonho

uma solidão

em companhia.

sereno.

BAR DO BARDO disse...

Sem alucinações? Impossível.

Papagaio Mudo disse...

tens razão, Bardo.

será que foi só um sonho?
abs,

>¨<

Liberté disse...

qual é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras?

Papagaio Mudo disse...

qual é a cor do cavalo branco de Napoleão?

Liberté disse...

Atirem-no no fogo!

Liberté disse...

causa e efeito

hume

Papagaio Mudo disse...

onde estará o meu futuro?

Gustavo

Menina do mar disse...

Que coisa mais linda...
Que ser foi esse que acordou o poeta adormecido?
Brindemos...