terça-feira, março 31, 2009

noites adentros

Em Campinas fui em busca do amor pela primeira vez. No fim das contas descobri a liberdade. O poder sobre a própria vida e o medo da morte. Andarilho, forasteiro, outsider. Sempre fui poeta de cafés. No Bar Esperança, no centro cultural Vitória, andava pelas beiradas. Vimos o Brasil ser campeão mundial de futebol em 1994. Andamos pelas ruas, fomos ao Zoológico... Promessas que fizemos entre os bares. Ficou gravado na memória. Voltei até sair novamente de novo. Morei em uma vila em que dividia um banheiro (sem azulejos) com mais dezessete pessoas. Isso mesmo, 17. Eram quartos minúsculos onde eu cabia muito bem. Éramos uma pequena tribo – com rituais de confraternização, de espera, com atos de solicitude e somente assim podíamos conviver. Lembro da loira que namorava o playboy da moto envenenada. Lembro da bicha velha que tinha um gato chamado Tom. Lembro do gerente-de-restaurante que morava no quarto a esquerda do meu. Lembro das meninas lésbicas. Lembro do doente mental que tocava violão e me ensinou a tocar “... o verme passeia na lua cheia...” Flores Astrais, e me ensinou também a fritar ovo na frigideira esquentando com uma vela apenas. Lembro, enfim, do cacique que me mandou embora. Fui morar em um lugar literalmente underground. Se, de uma hora pra outra, os raios se sol matassem, lá eu sobreviveria. Passava pela lateral do prédio, descia dois lances de escada retos, saindo virava à esquerda depois à direita, abria um portão e então chegava. Na porta dos quartos (ah, que tinham banheiro. Um luxo) que deviam medir uns oito por quatro. Excelente. Cabia uma geladeira cheia de garrafas de água. No quarto ao lado, morava um travesti. Fernando. Não tinha nome artístico. Aparecia nas colunas sociais (e tudo mais, é...) com o nome verdadeiro. Quantas vezes eu, de madrugada já salvei de se perderem boais, salto alto, peruca. Vi, por curiosidade quase infantil, pela porta entreaberta, aquela criatura louca, deitada, jogado, surrada de pó, do vodca, da noitada, na cama feito um boneco. Sem movimento. Havia deixado apenas seu rastro de acessórios.


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11 comentários:

Menina do mar disse...

Forasteiro, poeta de cafés,... que delícia Gus, belo texto!

Anita Mendes disse...

"Andamos pelas ruas, fomos ao Zoológico... Promessas que fizemos entre os bares. Ficou gravado na memória."
essa parte do texto me fez lembrar da musica perfect day:
"And then later, when it gets dark,
We go home.
Just a perfect day,
Feed animals in the zoo...
You just keep me hanging on,
You just keep me hanging on."

ps:o amor muda o nosso destino ou o destino que muda de amor?
gostei do trágico sabor "Noir" que tem o texto.

saludos pra ti,
Anita.

nina rizzi disse...

amor, também te amo :) apesar de não saber o que procurar, nem onde está meus f(o)und(o)s... limitadinha, não? rsrsrs...

nascida em campinas, já dividiu quarto com 96 pessoas. isso mesmo, 96.

gosto desse beat marginal :)
beijo.

expressodalinha disse...

Grande filme esse do Ridley!

Adriana Godoy disse...

Seu texto com jeitão beat imprime muita força. Força a pensar e a combinar ideias e palavras. Gosto disso.

Dulcineia (Lília) disse...

Gus,
Um texto incrível!
A revelar emoções que consolidaram a memória!
Abraços de lisboa, com carinho
Lília

Adriana Godoy disse...

Agora que vi a imagem; Blade Runner, o meu filme preferido de todos os tempos. Uau........

Papagaio Mudo disse...

Rsrsrs
Adriaaannnaaaaa!
uhuuu!

>¨<




ps: é um dos meus também... Ridley Scott

Papagaio Mudo disse...

neun

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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