segunda-feira, junho 22, 2009

Desejar é construir um agenciamento. Não se pode falar abstratamente do desejo. Não desejo uma mulher. Desejo a paisagem que está envolta nessa mulher. Não a paisagem de sua mente e a geografia de seu corpo. Desejar é construir um conjunto, um agenciamento, uma região. Desejo em um conjunto. Desejar é o construtivismo e o desconstrutivismo, a territorialização e a desteritorialização. Os psicanalistas falam do desejo como sacerdotes e apenas eles. Os psicanalistas nunca entenderam o desejo. O deserto é um delírio geopolítico. Não há desejo sem contexto, não há desejo que não flua. Fluir é um agrupamento vivo e pulsante, um agenciamento. Mas a psicanálise fala do desejo como uma grande queixa por causa da castração. A castração é pior do que o pecado original. A castração é uma espécie de maldição sobre o desejo, verdadeiramente espantosa. A psicanálise atribui isso à determinações familiares. O inconsciente não é um teatro. O inconsciente produz. Não pára de produzir, e funciona, portanto como uma fábrica. Precisamente o contrário da visão psicanalítica como o teatro em que nele encenam Édipo ou Hamlet infinitamente. O delírio está muito ligado ao desejo. Como sobreviver ao deserto? Todos esses são fenômenos do desejo. Daí a dizer que tudo está mesclado. Eu não desejo uma mulher, uma paisagem que posso não conhecer e que sinto de tal sorte que se não se implanta a paisagem que ela envolve, não estarei contente. É dizer que meu desejo fracassou... meu desejo ficará insatisfeito. Mulher – paisagem. Reafirmo que não há desejo sem contexto. O desejo está em constante fruição. Desejar é de certo modo delirar. Desejamos abstratamente. Extraímos do objeto o que pensamos ser o objeto. Nunca desejamos alguém ou algo. Qual a natureza dos elementos para que haja desejo, para que sejam desejáveis? Nesse contexto existem três dimensões. O estado das coisas, a consciência como ilusão, como máquina, não como teatro, os enunciados – o delírio como delírio-mundo, delírio cósmico, raças tribos, não o delírio-família. O desejo sempre se instala e constrói agenciamentos e introduz sempre vários fatores, enquanto a psicanálise constrói um único fator, umas vezes o pai, outras vezes a mãe, o falo, etc.. Bah. Ignora os agenciamentos, as construções. “Sou um animal, um negro.” Rimbaud.

9 comentários:

Papagaio Mudo disse...

oi

Karla disse...

oi

Gi Freire disse...

"...quer eu esteja louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado...:" A.G.

Adorei o Link e o texto ta uma maravilha! :)

Ariane Rodrigues disse...

o que cantar...?
lindo texto,
desejei tê-lo escrito...

BAR DO BARDO disse...

A isto chamo síntese: "Não desejo uma mulher. Desejo a paisagem que está envolta nessa mulher."


E isso dá margem a muitas e muitas análises...

Valei-me, Santo Gus!

Papagaio Mudo disse...

saravá! Bardolino.

Papagaio Mudo disse...

oi Gi,

adorei que visitaste o Link...
beijos,


Gus

Gicelle Archanjo disse...

Belo texto e isso me lembra um pouco Fernando Pessoa, no seu livro do desassossego. Belo mesmo!

Papagaio Mudo disse...

okay
câmbio