sexta-feira, agosto 28, 2009

poesia sonora



Gilles Deleuze junto com a banda Heldon cita Nietzsche:


O andarilho Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem. Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar. Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos. Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: - eles buscam a filosofia da manhã.

6 comentários:

Nydia Bonetti disse...

que texto, gustavo. a imagem do andarilho em busca de manhãs iluminadas é um espetáculo. quem sabe amanhã, a manhã vai ser assim. somos todos adarilhos em busca do canto da manhã...

Cafeína Desvairada disse...

A manhã, o caminho. Obrigada pela passagem e por gostar do meu café. Sê bem vindo. Abraço.

tossan® disse...

Fantástico, aqui não há nada de velho você já esta no século 21 e meio. Gostei muito! Abraço

Liliana disse...

O viajante apenas vê a meta final da sua viagem, o errante aprende a ver cada etapa dessa viagem. Afinal, o mais importante é o que vamos aprendendo ao longo do percurso, não a data em que chegamos.

Esta citação de Nietzsche faz-me lembrar o poema "Ítaca" de Konstantino Kavafis.

Efigênia Coutinho disse...

Gustavo Perez

Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe.

É POR ISSO QUE EU NÃO DEXISTO!!!
ADOREI ESTE ESPAÇO CULTURAL,
Efig~enia Coutinho

Papagaio Mudo disse...

Fico grato pelos comentários. Gostaria de fazer observações sobre cada um deles, mas sigamos em frente. Obrigado mais uma vez.
Abraços,


Gustavo