quarta-feira, setembro 30, 2009

Alma, espelho meu, reflete realidade pelos olhos

Mas não sabia ser blasé. Apaixonado, inútil, triste, bobalegre, rasgado, dilacerado, e pelo contrário, passioanal. Tudo menos blasé. Andava mesmo com medo dos olhares de gente com cara de quem chutou macumba-na-encruzilhada. A epiderme derme em brasa e com a lucidez do fogo, Dimitri jogou-se na calçada como quem por apelo pede, de socorro. Com a garganta engasgada de ódiódiódio e uma espécie de gosma branca babada de poesiasiasias verificar ortografia e já faz tempo que em pó se desfez, o menino andava sustenido. As teclas brancas e negras negras, brancas e brancas brancas. Dimitri deitou na calçada como se fosse sua. Sua cama, sua calçada, sua caminha suja, seu berço, berço eterno, sua rua. Fez o gelo baiano de travesseiro pra descansar o sangue que jorrou do seu cabelo. Dimitri queria forças, queria a todas as moças, mas alguém especial que ficasse no caminho. Queria casar-se Dimitri, admite. Dimitri estava sozinho. Era um pé de milho no milharal, uma espiga, um grãozinho. Nem um milhão de caracteres nem um milhão de mulheres nem um milhão de amigos nem de palavras fazia Dimitri desvencilhar-se do seu próprio umbigo, nessa lassidão tingida de espanto. Na época achava que todo vazio que sentia era tudo que tinha, mas nem tanto. Que nenhuma tinta de caneta, nenhum grito, nem as raizínhass do nervo poderiam registrar seu fim, que nenhuma invenção nenhum alvitre. Dimitri morreu sem final. Suas últimas palavras foram espelho, espelho meu, quem estará nesse mundo mais viúvo do que eu? e todos em volta se calaram em sina de cumplicidade.
Seu melhor amigo,
Boris

segunda-feira, setembro 28, 2009

A Fúria


Qual a magia enigmática o olhar Martha Argerich possui? Pianista cuja agilidade técnica surpreende, excita, instiga, enlouquece. Mulher carismática, Argerich sempre fugiu das câmeras e da chatice da publicidade forçosa, ou forçada. Ela é uma intérprete cuja primeira língua é a música, pois começou a tocar quando tinha apenas três anos de idade. Com dezesseis anos ganhou o Concurso Internacional de Música de Genebra. A naturalidade infalível de fraseado permite que ela se incorpore à música, ao invés de tão somente interpretá-la. Eu diria que essa mulher nunca se deixou entrar em foco. Ela surge nas pesadas noites para tornar sua brevidade vaporosa. Sobre as teclas brancas e negras ou à frente da catedral-orquestra.
Sua mais conhecida interpretação, o Concerto para Piano nº3 de Rachmaninov, dita pelos especialistas como a versão definitiva da obra.
Aqui, link YouTube para o “explosivo” terceiro movimento.


Aqui, a jovem face da magia...
Martha interpreta a Polonaise nº6 de Chopin



Em 2008 Verbier Festival na Suíça

Dedicado a todas as mulheres que se dedicam

pulao de cenouras


Pulao de Cenouras e PVT (proteína vegetal texturizada)

2 xícaras de cenouras raladas ou bem picadinhas
Arroz cozido a gosto (usei umas 4 1/2 xícaras de Basmati)
1/2 colher (chá) de grãos de mostarda preta
1 cebola roxa grande picada
2 dentes de alho amassado e picado
1 Folha de Louro
1 pauzinho de canela
Cravos-da-india a gosto
1 baga de
cardamomo negro ou 2 do comum
1 colher (chá) de gengibre ralado
1 xícara (chá) de
TVP pronta para usar (escorrida)
Pimenta malagueta a gosto
Sal a gosto

Aqueça um pouco de óleo e coloque os grãos de mostarda. Quando pipocarem, acrescente a folha de louro e cebola. Deixe dourar. Junte o alho e a pimenta malagueta, se usar. Depois de alguns segundos, adicione o gengibre ralado, as especiarias e misture bem. Coloque a cenoura e sal. Reduza o fogo ao mínimo, tampe e deixe a cenoura amaciar um pouco. Quando estiver no ponto desejado, acrescente a PVT, mexa bem e tampe novamente. Se a mistura ficar muito seca, borrife um pouco de água para formar vapor e acrescente o arroz. Misture cuidadosamente
.

Chef responsável
Cláudia Willer

quinta-feira, setembro 24, 2009

duas entidades

Sim.

Quando eu rio, rio seco. Riso quase de lado, quando consigo, gargalha. Pode imaginar que duas almas se dediquem a um ideal de bem viver? E por esse tal ideal (volto à ideia de ideia) entendo paz, tranqüilidade, votos de feliz ano novo... que tudo se realize... e qual tudo ou quase nada, quando eu rio. Pergunto ao mim mesmo quase esmo. Quantas madrugadas esperaram? Ficava em um canto esperando. Esperando a lua que sorria triste-alegre alegre-triste a cada hora. Cheia chora e transborda, mas sempre nós encontramos. E se meu o coração também sorria? Sim, sorria. Quando eu choro a paisagem muda. Em qual parte, enfim, de mim eu te escondo? A parte vazia ou a parte cheia?

Ela é como os gatos. Vem quando nós não os chamamos, e não vem quando os chamamos.

yo jovencito

e de como que tornei um pirata sanguinário. Roubaram meu velocípede quando eu era pequeno. Meu pai me deu uma motoserra. Quem matou meu sonho não fui eu. Escolho um início, esboço de um começo. Navegando lentamente a favor do vento. Yo jovencito. Seguindo rumo como capitão da minha nau. Cozinhando as oscilações do vento, a cada momento. Levantar âncora, alçar velas e deslizar no mar, vamos voar! Um anarquista inato. Pirata que descobriu o mundo como um quarto redondo e sem portas. Não importa onde eu vá, é preciso ouvir a voz do silêncio. Com uma faca nos dentes e procurando Airuoca – a casa do papagaio. Navegando ao timão, sou capitão – da minha própria nau. Essa rota, esse plano, esse vôo é completamente meu. Um aventureiro que tem certo em mente aonde quer chegar. Confesso que saber, não é exatamente ter a certeza de que o caminho será sempre calmo. Como o azul do mar que agora vislumbro em pensamento. O consentimento de partir em busca de um sonho. Consenso entre minha identidade perdida e uma nova identidade. A cada dia creio que a loucura, mesmo sadia, mesmo a loucura criativa, é sintoma de um comportamento anormal. Sintoma também quer dizer o caso: queda, o caso, o acontecimento infeliz, a coincidência, o fim do prazo, a má sorte. O que não é normal pode não ser propriamente ruim, mas seguimos contentes. Sei onde quero chegar. Essa foi a última noite que dormimos em uma cama. O amor se mudou para algum lugar onde ainda vamos chegar. Aportar em cores e luzes a sorrir e gargalhar, afinal você já viu pirata triste? Vamos acabar com esses antropófagos modernistas, quem manda agora o meu destino. As chamas que iluminam minha senda. A força de estar sozinho, não só. Deixando as pegadas apagadas pelo vento e pela chuva. A relação com a terra... como fixar raízes plantando tomates em alto mar. Perco a identidade daquele moço que fui eu-mesmo. Reparos e consertos foram necessários, mas agora estamos, eu e eu, prontos para partir. Mais forte do que chegamos até aqui. Se quiser me acompanhar pode vir, quero te guiar, te proteger...

quarta-feira, setembro 23, 2009

badzimmer

O anjo e a pipoquet

Ouvir a música de modo não-musical. Perceber, ler sem entender. Entender não importa muito. A seqüência de seiscentas e cinqüenta palavras. Após o último telefone atirado na parede e última rosa papel amarela retorcida no cabide do armário, e até mesmo isso imaginário. Beat angelical do tempo. Perdulário de tresmil fotos semi-novas coisinhas que se encontram nos gritinhos que se perdem. Comovente ouvir o anjo, as memórias do anjo e o tilintar incessante da pipoquet. Como quando tínhamos a paisagem pendurada na parede dos olhos, e mais nenhum encanto coesão ou ação. Eram por mim meus olhos minha boca e meu nariz, orelhas-ouvido-audição. Meus rins que nunca hão de rimar com nada atrás de filtrar as vias, numa via-vai sem fim. Com o resto dos som que ali sibilam, entre o choro e o riso sempre meio simultâneo de criança, entre a cadeira e a parte que te cabe. Que você apunhala com fé!
e dança.

LaCriola


__ Oi. Traz o carpápio, por favor... e fala sussurando - o atendimento daqui caiu nuito.

Atrás daqui, trás acolá que importa? Quero morrer do meu próprio veneno. Pois nem morto eu volto para a ilha. Volto para a rua, à vida e a Cabo. Pesto mexicano no meu sanduíche, sorteando uma chance. Volta em mim esse veneno solitário. Ao apartar das horas vagas, como agora, certas como agora. Abrando a lira do caminho. Toco seus cabelos cacheados, durmo e sinto cheiro jambú com óleo de jasafá. Cabo Verde traz para ti petit pays. Espanhol nesse mundo afora.
Sonhos de um náufrago.


... ostra de rio

terça-feira, setembro 22, 2009

Poeta em Nova York


ASESINATO

¿Cómo fue?
_ Una grieta em La mejilla.
¡Eso es todo!Una uña que apreta el tallo.
Un alfiler que bucea
Hasta encontrar los raicillas del grito
Y el mar deja de movese.
_
¿Cómo, cómo fue?_ Así.
_ ¡ Dejame! ¿ De esa manera?
_ Sí.
El corazón salió solo.
¡ Ay, ay de mi!



ASSASSINATO

Como
foi?_ Uma greta na face.
Isso é tudo!
Uma unha que aperta o talo.
Um alfinete que busca
Até encontrar as raizinhas do grito.
E o mar deixa de mover-se.
_ Como foi?_ Assim._ Deixa-me! Dessa maneira?_ Sim.
O coração saiu sozinho.
_ Ai, ai de mim!

segunda-feira, setembro 21, 2009

Hyundai Anápolis

Domingo. O fino da bossa. Sento-me em frente página em branco. Ah que esse cara tem... Começo a acreditar em Jota-Pê (Sartre). Aos trinta e poucos anos o homem, o indivíduo, o Sujeito, inserido nas sociedades modernas pós Revolução Industrial, entra na Idade da Razão. Até então todo o resto do mundo era lúdico, inatingível, distante das minhas experiências como sobrevivente da máquina capitalista. Quero que ela venha comigo com lágrimas de cortar cebola. Está provado, quem espera nunca alcança.
Sento-me com necessidade premente ou somente um hábito explicito e muitas vezes inadequado (para mim, claro), mas necessário e descomedido. Ou seja, nenhum editor vai podar polir retalhar pôr vírgula, censurar e ponderar em cima de nenhuma dessas palavras. Também não ganho vírgula por escrever. Nem bilhé-de-loteria (é assim que mineiro fala) nem um mass cigar nem nada. O Google não me paga nada. Para percorrer correndo todas as palavras e abrir as janelas para os insetos. Entorno realidade nos descaminhos do jardim. Onde os urubus passeiam a tarde inteira, entre os gira-sóis.
Vejamos. Não tenho deadline, prazo para publicar, essa é uma vantagem (?). Certa vez um colega de faculdade entregou um trabalho de sociologia com esse titulo “deadline”. Acho que ele classificou como uma espécie de trabalho acadêmico. Quando o professor dizia “o deadline é para o dia tal...” Claro! o deadline. E não “a linha morta, ou mortal, que seria deadly line, a hora fatal, mortal, terrível” ou apenas uma simples palavra, o prazo. Esse aluno criou uma nova modalidade de trabalhos escolares. Pra minha surpresa ele abandonou o jornalismo. Acho que fui cursar publicidade. Estrangeirismos e migrações...
Sabe. Preciso tomar mais banho. Aprendi com os alemães a tomar pouco banho. Preciso sair mais na rua, sentir seu cheiro, como diriam os Mutantes. A cotação das ações de empresas brasileiras subiram, na bolsa de valores, e agora somos nós (eles) que estão comprando empresas fora do Brasil - antiga República das Bananas. Está rolando um dumping ao inverso. Pequena revanche de quem tem seus 30 milhões investidos. E o povo continua rangendo os dentes, mas Política e Religião me dão uma preguiça da gota. O carnaval é agora, a vida é agora. Não me importa mais que as faculdades sejam fábricas.

Há dois anos atrás escrevia um ensaio que ia se chamar Profissão e Sacerdócio, inclinado pela saudade que sentia de meu pai, que nessa época exercia o papel de quase-sacerdote no sertão de Minas. Meu ensaio se limita hoje a isso: quais são os poderes numa cidade do fim do mundo? Quais poderes são capazes de atuar sobre o cidadão, efetivamente? O judiciário? Eles se matam entre si e isso nem é considerado crime, portanto é um poder fraco. Conclusão. Se ele mata e vai se confessar com o padre pra ser perdoado, pelo menos diante de Deus – poder espiritual, poder sobre o espírito, sobrenatural, subjetivo. E o meu pai, como médico, tinha poder (se é que posso usar essa palavra) sobre a vida. Não “o” poder, mas poder de trazer à vida, ou tentar evitar a morte. Doutor me ajuda. Acho que o poder o prefeito e merda eram a mesma coisa, tirando os repasses do governo Lula - o marido que dá a mesada e nunca reclama. O pai exemplar. O prefeito como representante Bolsa-família, Bolsa-escola, bolsa-seqüela. Quanto mais secularizadas, mais importância detém esses simples (pelo menos numericamente) dois poderes, que nas tribos indígenas são um só, o cura, o shamã, o pajé. Pois é, então. Aqui nessa terra todo vagabundo é artista. Nascem cem artistas e morrem cento e um. O semi-árido...
Então, você está preparado para ser mais um escravo ou escrava da indústria cultural? da sociedade pós-industrial? da pós-modernidade? Não está mas já está vivendo. As guerrilhas culturais estão se formando, bem ou mal, guerras pessoais. Ouça, se você não fizer a revolução ninguém vai fazer por você, mas isso é tão óbvio e ululante que chego à ter vômito ao dizer. Obrigado, Google, por me deixar existir. Ao menos aqui nos andaimes pingentes do plano virtual. Deus lhe pague. Será que a vida é um Cotidiano? Eu quero que você venha comigo. A intensão que interessa pra si,

coração navega...

vaga e se agara ao poderoso Creonte. monólogo do povo em out-cuts

domingo, setembro 20, 2009

domingo...




"A falta de amigos faz pensar em inveja ou presunção. Há pessoas que devem seus amigos à feliz circunstância de não ter motivo para a inveja."

Friedrich Nietzsche


Jenseits von Gut und Böse
Vorspiel einer Philosophie der Zukunft
Além do Bem e do Mal
Prefácio para um filosofia do futuro

sábado, setembro 19, 2009

Despedida

Permite que eu deseje, agora, tomado e vencido pelas urgências que de mim exigem, um canto de sono e preguiça onde ainda não se tenham inventado o telefone e o relógio. Deixa que eu seja pessoal em mais uma crônica para, ao medo das tarefas que se me impõem, querer, ardentemente, que não tirem do rol das pessoas úteis, que me esqueçam e que me abandonem, que me larguem, enfim, onde seja lícito viver ignorado e despercebido. Sinto-me vazio de poesia, esgotado de um resto de doçura que tanto prezava e, coagido pelos que revendem minhas idéias, dói-me o tempo e o esforço gastos, os ardis e os truques que emprego para arrumar palavras e construir frases de efeito. Lamento enganar a todas. Permite que eu deseje, agora, um silêncio que me contagie de tristeza, uma calma boa e definida para, num momento espontâneo e sossegado, escrever as grandes definições, as palavras que me envaideçam, os versos e as cantigas que me elevem, querida, à glória e à resolução do teu desmesurado amor. Através dessa janela vejo coisas que, antigamente, eram poderosas e fecundas. O céu repete o azul de tantas tardes acontecidas em maio, as últimas quaresmeiras do verão agonizam na saia do morro, os homens martelam a pedreira... e eu não sinto vontade de rir ou de chorar. Na rua, arrastando uma corrente eterna e incompreensível, passa mais um caminhão da Standard Oil... e eu não sinto nenhum vexame político, nenhuma revolta social. Por isso e pela descrença que em meu espírito se acentua, permite que eu deseje ser só — ou teu somente — num lugar do mundo onde os gritos não tenham eco, onde a inveja não ameace, onde as coisas do amor aconteçam sem testemunhas. Livrem-me da pressa, das datas, dos salários e das dívidas e a todos serei agradecido, num verso submisso. Livrem-me de mim, de uma certa insaciabilidade que apavora e de todos serei escravo numa humilde canção. Permite que eu só queira, agora, esse canto de sono e preguiça, onde não necessite dos atletas, onde o céu possa ser céu sem urubus e aviões, onde as árvores sejam desnecessárias, porque os pássaros se sintam bem em cantar e dormir em nossos ombros.
Antônio Maria
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31/05/1963
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Grande estréia


foi um sucesso, friends. Eu tenho-possuo um livro, transcendência material/virtual entre, o Inverso Meu autografado. Estou feliz lendo as pequenas histórias para gente grande (subtítulo do livro). Pinceladas diárias de sensibilidade...
ah, as ilustrações da Clara Contijo são ótimas. Foi ela quem criou o header do blog. Ótima figura, só a vi sorrindo. A Sabrina então, estava super feliz. Parabéns Sabrina!

adquira pela web em www.editoramultifoco.com.br

se liga!

quinta-feira, setembro 17, 2009

quarta-feira, setembro 16, 2009

Spleen



Quando o cinzento céu, como pesada tampa,
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em húmida enxovia
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece
D'uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em frebre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os céus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!
.

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Charles Baudelaire

Josef Stalin
1878 Gori - 1953 Moscou
Culto à personalidade como arma ideológica

იოსებ ბესარიონის ძე ჯუღაშვილი

Stalin, Photo 1902 Copied from the book "Josef Wissarionowitsch Stalin - Kurze Lebensbeschreibung" (Josef Wissarionowitsch Stalin - Short Live Description) Publishing for Russian literature in foreign languages, Moscow 1947.


Nasceu em Gori, em 18 de sembro 1878. Filho de mãe costureira e pai sapateiro. Antes da Revolução Russa, Stalin era o editor do jornal do partidão, o Pravda "A Verdade". Lugar onde, provavelmente, instruiu-se na arte de manipular as verdades.

Subiu ao poder da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, aos 46 anos, após a morte de Lênin, em 1924, por ser o secretário-geral do Partido Comunista. Tornou-se, na prática, chefe de estado da Rússia durante quase trinta anos, até sua morte, em 1953. Um ditador tirano em um estado totalitário absolutista. O Funk Boss, Il Padrino, O Poderoso Chefão sem-coração, o temível e silencioso Josef Stalin.

Em 1928 iniciou um processo em massa, (tudo na Rússia é em massa) de industrialização e coletivização da agricultura. Essa reorganização social imposta pelo regime soviético provocou a morte por inanição (fome) de quase 4,5 milhões de pessoas na Ucrânia e 3 milhões de outras vítimas em outras partes da União Soviética (totalizando 5 vezes a população do Brasil). Genocídio causado por fome. Fome-genocídio. A reforma acabou por mudar a paisagem geopolítica do planeta.

Em 1934 Stalin utilizou-se da morte de Sergei Kirov - principal líder do partido em Leningrado (ou São Petersburgo) assassinado sob condições obscuras - para promover uma série de repressões que entrariam para história “O Grande Expurgo”. Como líder do sistema político soviético criou uma gigantesca máquina militar e de policiamento que mandou prender e deportar presos civis, opositores, presos políticos e fez uma limpeza étnica. Eram levados em trens para cruzar o país, em caminhões-de-boi e outras formas precárias. A maioria não suportava a viajem e morria antes de chegar ao destino. Quando venciam as viagens, eram sujeitos a um tratamento duro nos gulags – campos de trabalhos forçados na Sibéria e na Ucrânia destinados a silenciar e torturar os opositores ao regime. O gulag tornou-se um símbolo da repressão da ditadura de Stalin. Durante seu governo os seguintes grupos étnicos foram completamente ou parcialmente deportados: ucranianos, polacos, coreanos, alemães, tchecos, lituanos, arménios, búlgaros, gregos, finlandeses, judeus e outras minorias. Essas deportações fizeram surgir movimentos separatistas que geram conflitos étnicos até hoje nos países independentes do leste europeu.

Com a cartilha de Maquiavel e uma ajudinha from hell, fez alianças para alcançar seus objetivos. Assinou um pacto de não-agressão com Hitler para ganhar tempo de reestruturar seu poderio bélico-industrial, imprescindível para deter um inevitável ataque da Alemanha nazista. Hitler desviava-se de um confronto direto com a Rússia, pois naquele momento pretendia invadir a França e Reuno Unido. Quando Hitler finalmente invadiu a Rússia, Stalin uniu-se aos Aliados (e o resto do mundo...) e conseguiu fazer recuar os invasores, ajudando a vencer a Segunda Guerra mundial. Consolidou um teritório tão grande quanto a antiga Rússia Imperial, paritiu o mundo em dois. Pegou uma parte para si, deixando a outra parte com os Estados Unidos e o mundo capitalista.

Estimam que, de 3 a 9 milhões de pessoas foram mortas durante a ditadura stalinista. Entre executados, mortos por fome e privações, deportados e prisioneiros civis. A repressão política, muito embora tenha continuado na Era Khrushchov-Brejnev, não atingiu jamais, durante o restante da história soviética, os níveis de violência do stalinismo.
No dia 5 de março de 1953 Stalin morre de hemorragia cerebral.

Gulag prisiores at work 1936 - 1937

Sugiro um artigo que relata entrevista concedida por Stalin ao biografista alemão Emil Ludwig em 1931. Link

terça-feira, setembro 15, 2009

diga que estou vivo...

Walk down Portobello road to the sound of reggae

I'm alive

The age of gold, yes the age of

The age of old

The age of gold

The age of music is past

I hear them talk as I walk yes I hear them talk

I hear they say

Expect the final blast

Walk down Portobello road to the sound of reggae

I'm alive
I'm alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
Feel the sound of music banging in my belly
Know that one day I must die

I'm alive
I'm alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
In the Eletric Cinema or on the telly, telly, telly
Nine out of ten movie stars make me cry

I'm alive
And nine out of ten film stars make me cry
I'm alive

palavra ao Tempo

um presente de Deus

segunda-feira, setembro 14, 2009

Der Spaziergang

Para além daqueles em torno do hipertexto fora outsider além do ser humano, cut-throat inócuo - lugar sem lugar, colóquio sem voz, sem fala speechless mudo, calado, incapaz de falar, atônito, silencioso, extremamente ébrio. Mitigados pelo acto de desterritorialização, cada indivíduo comprometeu-se a trabalhar como um castor. A cada ínfimo Um, encontrou-se um meio de busca e a lógica trabalhou para o olhar público. Eles ainda não conseguiram elevar-se a um destino aleatório ultra-rupta. Ainda não coletaram, ou recolheram, seu final.


The Walk Marc Chagall

Exibir mapa ampliado

Ray Gun

arte Chris Ashworth

Segunda-feira, um dia silencioso para mim. Dia propício para contar, pois o silêncio me ajuda a concentrar e dispersar os fatos. Tal como rasgar fotos. O silêncio, após um indesejado terremoto, cala fundo na alma de todos. Coragem pra dizer que se faz cada vez mais silenciosa. Ações chegaram ao movimento lento. Causticante, inclemente, inexorável horas passam. Palavras desaparecem sem se reconstruírem. Poesia encera, ao som gutural dos shamans, tudo que não consigo mais dizer. A ponta dos meus dedos toca com sonoridade essas letras. Quatro anos de orfandade e as paredes a fechar-se contra si. Fecho os olhos e no sonho, vejo-me sumir entre as nuvens. O caminho deserto.

Minha senda se perde na alma do nevoeiro

domingo, setembro 13, 2009

crianças...

As capas anteriores, inclusive essa, são de autoria de Chris Ashworth - Executive creative director - publicadas na revista californiana Ray Gun.

Domingo, mais uma vez, intenso no tédio. Fomos ao Festival de Bonecos que armaram na Praça da Estação. Com vários palcos e alguma organização e várias crianças, muitas crianças! Eu e a Karla ficamos tentando adivinhar a idade dos meninos. O meu amigo Frank Berger tem, com sua esposa Isadora, uma filha recém nascida. Cinco meses (o tempo passa tão depressa...) os olhinhos lindos, alemãozinha E ele, Frank tinha um brilho de orgulho nos olhos, e carregava Olívia em uma dessas mochilas carregadoras de neném. Um sling – artefato antigo usado desde o paleolítico, que, com duas rodelas trançadas ao pano, as mulheres carregavam os pequeninos. Até hoje é usado pelas índias Cholas da America Latina. Se eu tiver um filho pretendia que ele se chamasse Vinícius, o poetinha...

sábado, setembro 12, 2009

la mia dolce bimba


acordado enquanto incomodo nossas vidas

nosso sono minha insônia a luz do computador e da TV

antes fosse só isso que incomodasse...

adoro a canção q o Chet compôs

adoro também o meu amor

adoro vocês

o Tarso casou-se

sexta-feira, setembro 11, 2009

quarta-feira, setembro 09, 2009

Os meninos

Desenvolvi meu jardim mental. Um sistema concebido como parte da busca pela racionalidade, facilmente reproduzível. Muitos jardineiros podem adotar... Estava disposto a reproduzir características exigidas pelo sistema social... quando Bang! escondi-me as dobras do espaço-tempo. Os oprimidos serão autorizados, uma vez a cada ano, a decidir quais os vínculos da opressão que irá reprimi-los. Então o porquê de buscar esse atributo mental que faz sentir mais profundamente cheio de imortalidade. Esse meu protesto significa que falo sobre uma visão consensual do establishment. Tudo está internalizado. Então, olho para mim perplexo, com o rosto cheio de expectativa, esperando uma resposta inesperada.
He desarrollado mi jardín mental. Un sistema diseñado como parte de la búsqueda de la racionalidad, fácilmente reproducible. Muchos jardineros pueden tomar... estaba dispuesto a desempeñar las características requeridas por el sistema social... cuando Bang! Me escondí en los pliegues del espacio-tiempo. Los oprimidos se les permite una vez cada año para decidir cuales los lazos de opresión que suprimirlos. ¿Por qué seguir este atributo mental que te hace sentir más profundamente llena de inmortalidad. Esta protesta es hablar de una opinión de consenso de la creación. Todo está internalizado. Entonces, me miran perplejos, con la cara llena de expectación, en espera de una respuesta inesperada.

terça-feira, setembro 08, 2009

Imagem da Chepeuzinho Vermelho, O Lobo e os 3 porquinhos de autoria de André Toma, ilustrador de alta categoria que tem um blog fantástico, onde apresenta um pouco de seu trabalho. André Shitetsu Toma formou-se pela Escola Panamericana de Arte e tornou-se ilustrador profissional em 2004. A descendência oriental exerce grande influência sobre sua vida & obra, que acredito serem duas coisas inseparáveis... Essa imagem será publicada em breve, até o final do ano. Divulgarei aqui no Papagaio Mudo.
Vale a pena conferir o trabalho dele. Cliquem no nome do André ou acessem o link no sidebar. Ah, O André também tem uma neném que é uma fofura!
Bons fluídos a todos. Começo por dizer a respeito de uma observância minha. Como é difícil enxergar a tristeza nos olhos da pessoa. Se você não conhece a linguagem corporal, o comportamento – as rotas de fuga... Torna-se complicado ver. Do meu pai já conheço índices e sinais de tristeza, em oposição tristeza/alegria. Minha mãe, em sua sutil simplicidade, raríssimas foram as vezes que a vi triste. La tristesse est une maledie. Não digo que exista uma felicidade plena, mas estamos lidando aqui com o que há de mais sutil em nossa (quase) insignificante existência. Por outro lado, enxergo a tristeza nos olhos das pessoas, consigo analisar a quem me deixe ver seus olhos. Os olhos, acredito, são a via mais fácil, o caminho mais aberto à essa observação. Vejo o mais escarrado desprezo, amargura vitimal arrogante em olhos verdes, amargura vitimal ambiciosamente tímida em olho moreno. Inúmeros outros adjetivos, claro, que são característica essencial de cada ser humano. Em mim existe um vazio silencioso e parvo protagonizando os dias. É um devir filosófico impedindo o desejo animal de se lançar ao fogo da vida, ninho de cobrinhas, antro das ferinhas, e outros animais indefesos, e outros personagens coadjuvantes, e os figurantes, e os elementos da natureza e suas ocorrências, a chuva. Isso sempre foi um desabafo. Brachtest du Zahnbürste, guey? - trouxeste escova de dente?

domingo, setembro 06, 2009

ad infinitum

Flashing Graphics


Um pouco de filosofia nesse mundo de brutos. Faz-me querer ofertar minha pequena semente aos amigos. Parar de fazer bebês para reduzir a nossa pegada ecológica. Uma visão compartilhada quanto à nossa finitude... A finitude da nossa sociedade pode ser confundida com a luz do dia. Dado o nosso nível de conhecimento coletivo, para além do meu, minha opinião sobre qualquer assunto não deve ter mais valor do que a de uma ameba. A finitude da vida na Terra parece distante. A Terra parece distante, a Lua parece distante, você parece distante... anoiteceu... anoiteci.

Chá com porrada

Dístico

Mes chers amis
les enfants du péché originel

Lamento muito o eterno Sunshine de uma spotless mind da janela do meu quarto. Eu estou vendo a mim mesmo como se sentado. Freak comportamento pálido. Palpitação, coração acelerado na direção oposta quando afirmo. Quando nesse período vimos um ser humano moderno. Olhar afiado e carismático, distante. Oferecemos a nossa gratidão como exercício diário. Quanto mais adequado ao sentido e ao significado do dia dos nossos antepassados. O coração realmente está em um sonho de infância no campo. Alguns encontros dramáticos. Melodrama é um pouco mais como aquelas meninas que eu bem sei como descrever. Minha vida foi cruzamento dramático da minha pele. Vivo muito, sem nunca respiração, numa seqüência consecutiva de eventos, ou artis artis e fui para cantinas escolares beber-los, fazer amor com eles. Meu leite é pimenta. Entretanto, um litro de suco de fruta, beber leite vida real. Ao inverno ela Shortlist minha mente apavora, pois todo profeta é triste “oh mon dieu mon dieu... Pourquoi moi?” Além disso, neste momento, embora confirmando o que tenho escrito, você sabe, minha vida é muito semelhante a isso. A obrigatoriedade de retornar a um caminho dentro de mim. Não-verbal, palavra-livre, contínua e prolongada, estendeu um caminho reto. Sem dor, sem alegria, sem nada. Nenhuma ambição sem brigas, sem nada. No riso, sem lágrimas nem nada. Sim, eu ainda posso conseguir. Digo, como o caminho é mais longo, parece não ter fim, parece tocar a mão de ninguém. Um pouco de alegria nos meus
olhos enevoados.

li no jornal

Eu tinha um amigo do colégio...
absoluto é o caminho
certa vez
eu estava registrado
momentaneamente


tinha alguma leitura
antiga da Suécia
meu rosto jovem vuruvuca frases atiradas do telhado
você sabe da minha situação
que a hiperatividade fuck
dispensado do tédio
felizmente tão dizendo
mas por exemplo
ou noite de sono e tédio
divertir-se sair de si
me perdi

quinta-feira, setembro 03, 2009

bégayer

au fil du temps j'ai appris à bégayer

Aparecendo de vez em quando olhar para o céu,
respirando o ar.
Não se preocupar em saber porque. Fico feliz em falar com você. Não sei se vou ter a oportunidade novamente. O planeta em que vivemos foi cortado em dois. Um lado de mim, um de você. Ontem à noite ao flanar como um gato disse okay ao tempo e sua entrada de certos exames de ordem. Arquivados para uma ação de wake-up! anos forçados determinado a não entendê-los. Permanecer um pouco mais a dizer sobre o vento e o vento. Em suma, é importante para o vento. Menina do vento, eu acho que sim... realmente entorpecido. Continuar a partir de onde o vento começou hoje à noite. Estranho para mim que não seja doloroso. Talvez eu tenha me preparado para isto... de agir com a lógica de que havia chegado o momento de aceitar.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Antonin Artaud

Lucudez e Loucura, Tradição e Modernidade
por Cláudio Willer

La Passion de Jeanne d'Arc - Carl Theodor Dreyer 1927
personagem Massieu

Poeta e diretor teatral francês (1896 - 1948). Ligado ao movimento dadaísta e ao surrealismo, é considerado o renovador do teatro francês nos anos de 1930. Nasce em Marselha e vive em Paris a partir de 1920. Trabalha na revista Demain e, em 1925, publica um livro de poemas surrealistas.
Em 1932 lança o Manifesto do Teatro da Crueldade, no qual defende a ruptura com os padrões tradicionais do teatro em nome do "drama metafísico". Para ele, as obras teatrais só têm sentido se expressarem o sofrimento básico do homem e liberarem as forças inconscientes da platéia.
Para dar nova dimensão à arte da representação, pesquisa as origens da dramaturgia e evoca a tragédia antiga, os mistérios e a magia do teatro da Idade Média. Em 1935 encena o drama Les Cenci, que é rejeitado pelo público. No ano seguinte refugia-se no México, onde vive entre os índios tarahumara, e publica As Novas Revelações do Ser. Teoriza sobre o teatro da crueldade em O Teatro e Seu Duplo (1938). Passa os últimos dez anos de vida internado em hospitais psiquiátricos.

Em O Teatro e seu duplo, obra na qual apresenta o conjunto de idéias que constituíram o teatro da crueldade, Antonin Artaud defende uma linguagem que pudesse exprimir objetivamente verdades secretas. Uma linguagem mais concreta que a utilizada para falar da esfera psicológica: mudar a finalidade da palavra no teatro é servir-se dela em um sentido concreto e espacial, combinando-a com tudo o que o teatro contém de especial e de significação em um domínio concreto; é manipulá-la como objeto sólido, capaz de abalar as coisas inicialmente no ar, e em seguida em um domínio mais misterioso e mais secreto.
Por isso, o teatro da crueldade é um ritual, valorizando o gestual e o objeto, trocando o lugar de palco e platéia. Em outras de suas obras, como Heliogábalo, O anarquista coroado e Viagem ao país dos Taraumaras, criou uma recíproca desse teatro, uma espécie de semiologia onde as coisas têm significado e formam discursos. A leitura de Viagem ao país dos Taraumaras, e do que escreveu depois sobre o ritual do peiote, mostra que esse rito do sol negro foi, para ele, a mais autêntica realização do teatro da crueldade.
Em uma das Cartas de Rodez, quando esteve internado nessa instituição psiquiátrica em 1945, Artaud responde a Henry Parisot, que lhe havia mandado o Jabberwocky (Jaguadarte) de Lewis Carroll (obra na qual é inventada a palavra-baú) perguntando-lhe se não queria traduzi-la. Diz que não, que Lewis Carroll não tem uma visão fecal do ser, e o acusa de haver roubado um texto seu: tendo escrito um texto como Letura d'Eprahi Talli Tetr Fendi Photia O Fotre Indi, não posso tolerar que a sociedade atual (…) só me deixe traduzir um outro feito a sua imitação. (…) Aqui estão alguns experimentos de linguagem aos quais a linguagem desse livro antigo devia assemelhar-se. Mas que só podem ser lidos se escandidos em um ritmo que o próprio leitor deverá achar para entender e para pensar:


ratara ratara ratara
atara tatara rana
otara otara katara
otara retara kana
ortura ortura konara
kokona kokona koma
kurbura kurbura kurbura
kurbata kurbata keyna
pesti anti pestantum putara
pest anti pestantum putra

Há outros exemplos dessa linguagem em Artaud, em sua fase pós-internamento. Mas ele não a inventou: o uso de fonemas não-semantizados é arcaico. Octavio Paz, no ensaio Leitura e Contemplação (publicado na coletânea Convergências), trata das glossolálias, o "falar línguas", expressão de estados alterados de consciência por gnósticos e outras doutrinas místicas. Analisa o modo como reaparecem em autores modernos – Huidobro, Khlebnikov, Fargue, Michaux, Hugo Ball e Artaud: na história da poesia moderna, reaparece a mesma obsessão dos gnósticos e dos cristãos primitivos, dos montanistas e dos xamãs da Ásia e da América: a busca de uma linguagem anterior a todas as linguagens, e que restabeleça a unidade do espírito. Embora intraduzível para tal ou qual significação, essa linguagem não carece de sentido. Mais exatamente: aquilo que enuncia não está antes, mas depois da significação. Não é um balbuciar pré-significativo: é uma realidade ao mesmo tempo física e espiritual, audível e mental, que transpôs os domínios do significado e os incendiou.
O paralelo entre a escrita de Artaud e idéias gnósticas e herméticas também é apontado por Susan Sontag, comentando as passagens, em Artaud, nas quais as palavras são tratadas primariamente como material (som): elas têm um valor mágico. A atenção ao som e forma das palavras, como distinta de seu significado, é um elemento do ensinamento cabalístico do Zohar, que Artaud estudou na década de trinta. Isso é evidente em textos como Para acabar com o julgamento de Deus, onde afirma que toda verdadeira linguagem é ininteligível, e exemplifica com glossolálias: potam am cram/ katanam anankreta/ karaban kreta/ tanamam anangteta/ konaman kreta/ e pustulam orentam/ taumer dauldi faldisti. Para acabar… é um catecismo de heresias. Afirma que onde cheira a merda, cheira a ser, perguntando, em uma suprema blasfêmia: É deus um ser?/ Se o for, é merda. São blasfêmias ditas a partir de um ponto/ em que me vejo forçado/ a dizer não,/ NÃO/ à negação. A liberdade está no avesso: Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas/ como no delírio dos bailes populares/ e esse avesso será/ seu verdadeiro lugar.
Semelhante escrita do avesso é uma sobrevivência de idéias gnósticas, nascidas nas areias da Palestina, inventadas por um concorrente do Cristo, Simão o Mago, para depois se disseminarem em remotos séculos I e II, por seitas que buscavam formar religiões secretas, principalmente no Egito, convivendo com o neoplatonismo e o hermetismo. Os crentes na criação do mundo por uma divindade decaída, o Demiurgo, e na salvação humana pela obtenção de um conhecimento resultando, não da adesão, mas da luta contra Deus. Para alguns, pela adoção de um código moral às avessas. Desapareceram diante da organização teológica e política do cristianismo, perseguidos e combatidos como hereges, para reaparecer na Idade Média como bogomilos e, no século XIII, como cátaros da Provença, exterminados militarmente. A inversão da história do Jardim do Éden, na qual a serpente é portadora, não da perdição, porém da sabedoria, além de se manter em cultos demoníacos da Idade Média e da Renascença, aparece na criação literária como adesão ao avesso, fascinação romântica e pós-romântica pelo desafio, não apenas à ordem social, mas universal. A permanência da heresia como sombra da História é a expressão da revolta contra um mundo e uma sociedade onde tudo está errado, fora do lugar. Por isso, engendrado por um ente maligno, o Demiurgo. William Blake, que acreditava em um Deus ruim e opressor, em conflito com um Deus bom, é um escritor antecipado pela Gnose, mais que pelo paganismo. Assim como, a seu modo, Baudelaire, Nerval, Lautréamont, Jarry e Artaud.
Cosmogonias invertidas, glossolálias e pensamento mágico também comparecem nos delírios, nos surtos psicóticos. Diferentes sociedades em diferentes épocas tiveram suas representações da loucura e lugares para o louco. É possível mostrar que no xamã, sacerdote tribal primitivo, os três lugares são o mesmo. Confundem-se também em William Blake, que conversava com profetas bíblicos. A loucura de Artaud consistiu em ele ter sido um personagem de si mesmo, identificando obra e vida. Inspirado em seus textos, praticou-os na vida real, como no famoso episódio, relatado por Anais Nin, da palestra (O Teatro e a peste, de O teatro e seu duplo), em que declarou que não iria falar da peste, porém mostrá-la, encarnando o empesteado, sofrendo, contorcendo-se até cair no chão, de forma tão chocante que esvaziou o auditório. Ou nas ocasiões em que afirmou que Paris era Roma antiga e ele, Artaud, era Heliogábalo.
Identificar linguagem e realidade, querer que o símbolo se torne efetivo, ativo no plano da realidade, é pensamento mágico. E também pensamento poético, busca da anulação do tempo. A confusão entre criação, idéias típicas do sintoma e temas de uma tradição esotérica chega a nós pela corrente subterrânea da história; passa a ser um dos modos da tradição da ruptura, para utilizar a expressão criada por Octavio Paz (em Os filhos do barro). Em seus elogios e homenagens a Lautréamont, Nerval e Poe, Artaud se assume como representante dessa tradição. Reescreve uma história da literatura como história de escritores loucos, que culmina nele.
É especialmente fascinante como Artaud, depois de viajar ao México para tomar peiote entre os Taraumara, de ter uma crise ao voltar e ser internado, produziu textos literariamente superiores, pela força, ritmo e riqueza de imagens. Onde se pode ver como antagônicos, em muitos escritores, um componente psicótico, destrutivo, e um componente criador, em Artaud ambos interagiam; um alimentou o outro. Sua obra culmina, em 1947, com Van Gogh, o suicidado pela sociedade, esplêndido poema em prosa onde reitera que louco é o homem que a sociedade não quer ouvir, e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis. Afirma que um dos meios de a sociedade burguesa marginalizar artistas videntes é através de bruxarias. Insiste em que seu internamento é obra de uma conjuração, pois, se o deixassem solto, mudaria o mundo. Caracteriza Van Gogh como vítima solidária do mesmo enfeitiçamento.
Assumindo a ótica de Artaud, distinguir entre categorias como normalidade e loucura, ou entre arte, sintoma e delírio, é uma falsa questão. É inevitável, ao discuti-lo, adotar a perspectiva e o tipo de epistemologia defendida por Michel Foucault na parte final de As Palavras e as Coisas, e, a meu ver, de modo mais consistente pelo surrealismo. Consiste em pensar o delírio, tanto quanto o sonho e a criação poética, como meios de conhecimento. Assim como a linguagem científica abre campos de conhecimento, a linguagem não-instrumental, não-discursiva, abre outros campos de experiência do real. Entender o inconsciente como consciência não-discursiva ajuda a esclarecer a modernidade de Hölderlin, Nerval, Lautréamont, Corbière, Germain Nouveau, Jarry e Artaud. Permitindo a intervenção do inconsciente, rompem com o discursivo e com a sociedade: rompem com o discurso da sociedade. Fazem arte revolucionária, pela radicalidade da rebelião individual, e por sua crítica à realidade: por isso falo em tomá-la como meio de conhecimento, e não apenas como algo a ser interpretado, como objeto do paradigma clínico ou de uma teoria literária. A inserção consciente de Artaud na tradição da ruptura acentua o caráter universal de sua contribuição, por mais que esta se tenha manifestado de modo particular, irredutível, que não permite uma escola ou doutrina de seguidores, apesar da sua influência em tantos campos da modernidade: teatro, poesia, contracultura, antipsiquiatria. É universal por expressar contradições fundamentais, entre o sujeito e o mundo que lhe é exterior, o imaginário e o real, o absoluto e o contingente, o poético e o prosaico.
fonte [triplov.com]

terça-feira, setembro 01, 2009