segunda-feira, setembro 21, 2009

Hyundai Anápolis

Domingo. O fino da bossa. Sento-me em frente página em branco. Ah que esse cara tem... Começo a acreditar em Jota-Pê (Sartre). Aos trinta e poucos anos o homem, o indivíduo, o Sujeito, inserido nas sociedades modernas pós Revolução Industrial, entra na Idade da Razão. Até então todo o resto do mundo era lúdico, inatingível, distante das minhas experiências como sobrevivente da máquina capitalista. Quero que ela venha comigo com lágrimas de cortar cebola. Está provado, quem espera nunca alcança.
Sento-me com necessidade premente ou somente um hábito explicito e muitas vezes inadequado (para mim, claro), mas necessário e descomedido. Ou seja, nenhum editor vai podar polir retalhar pôr vírgula, censurar e ponderar em cima de nenhuma dessas palavras. Também não ganho vírgula por escrever. Nem bilhé-de-loteria (é assim que mineiro fala) nem um mass cigar nem nada. O Google não me paga nada. Para percorrer correndo todas as palavras e abrir as janelas para os insetos. Entorno realidade nos descaminhos do jardim. Onde os urubus passeiam a tarde inteira, entre os gira-sóis.
Vejamos. Não tenho deadline, prazo para publicar, essa é uma vantagem (?). Certa vez um colega de faculdade entregou um trabalho de sociologia com esse titulo “deadline”. Acho que ele classificou como uma espécie de trabalho acadêmico. Quando o professor dizia “o deadline é para o dia tal...” Claro! o deadline. E não “a linha morta, ou mortal, que seria deadly line, a hora fatal, mortal, terrível” ou apenas uma simples palavra, o prazo. Esse aluno criou uma nova modalidade de trabalhos escolares. Pra minha surpresa ele abandonou o jornalismo. Acho que fui cursar publicidade. Estrangeirismos e migrações...
Sabe. Preciso tomar mais banho. Aprendi com os alemães a tomar pouco banho. Preciso sair mais na rua, sentir seu cheiro, como diriam os Mutantes. A cotação das ações de empresas brasileiras subiram, na bolsa de valores, e agora somos nós (eles) que estão comprando empresas fora do Brasil - antiga República das Bananas. Está rolando um dumping ao inverso. Pequena revanche de quem tem seus 30 milhões investidos. E o povo continua rangendo os dentes, mas Política e Religião me dão uma preguiça da gota. O carnaval é agora, a vida é agora. Não me importa mais que as faculdades sejam fábricas.

Há dois anos atrás escrevia um ensaio que ia se chamar Profissão e Sacerdócio, inclinado pela saudade que sentia de meu pai, que nessa época exercia o papel de quase-sacerdote no sertão de Minas. Meu ensaio se limita hoje a isso: quais são os poderes numa cidade do fim do mundo? Quais poderes são capazes de atuar sobre o cidadão, efetivamente? O judiciário? Eles se matam entre si e isso nem é considerado crime, portanto é um poder fraco. Conclusão. Se ele mata e vai se confessar com o padre pra ser perdoado, pelo menos diante de Deus – poder espiritual, poder sobre o espírito, sobrenatural, subjetivo. E o meu pai, como médico, tinha poder (se é que posso usar essa palavra) sobre a vida. Não “o” poder, mas poder de trazer à vida, ou tentar evitar a morte. Doutor me ajuda. Acho que o poder o prefeito e merda eram a mesma coisa, tirando os repasses do governo Lula - o marido que dá a mesada e nunca reclama. O pai exemplar. O prefeito como representante Bolsa-família, Bolsa-escola, bolsa-seqüela. Quanto mais secularizadas, mais importância detém esses simples (pelo menos numericamente) dois poderes, que nas tribos indígenas são um só, o cura, o shamã, o pajé. Pois é, então. Aqui nessa terra todo vagabundo é artista. Nascem cem artistas e morrem cento e um. O semi-árido...
Então, você está preparado para ser mais um escravo ou escrava da indústria cultural? da sociedade pós-industrial? da pós-modernidade? Não está mas já está vivendo. As guerrilhas culturais estão se formando, bem ou mal, guerras pessoais. Ouça, se você não fizer a revolução ninguém vai fazer por você, mas isso é tão óbvio e ululante que chego à ter vômito ao dizer. Obrigado, Google, por me deixar existir. Ao menos aqui nos andaimes pingentes do plano virtual. Deus lhe pague. Será que a vida é um Cotidiano? Eu quero que você venha comigo. A intensão que interessa pra si,

coração navega...

vaga e se agara ao poderoso Creonte. monólogo do povo em out-cuts

23 comentários:

Papagaio Mudo disse...

Hoje é o dia da graça, hoje é o dia da caça e do caçador! A música está se intrometendo no texto, mas vá. Tenho que ir, não sabe se preguiçoso ou se covarde. Vou pra rua e bebo a tempestade. Devagar não se vai longe. Minha cultura hoje está limitada, ou embalada, pelo Chico Buarque. Tô me guardando pra quando o carnaval chegar. Ninguém vai me seguir. Enquanto eu puder cantar, enquanto eu puder...

betina moraes disse...

!!!!

bendito bardo do bardo para me trazer até aqui!

tem marc chagall, chico buarque, hermeto pascoal, felinos...
texto genial,...

"agora falando sério, eu queria não cantar, falando sério"...

...

Carla Martins disse...

Passando pra desejar uma ótima semana!

BAR DO BARDO disse...

... cara, é tipo assim, ó, os cursos de jornalismo sempre foram fábricas de sacerdócio (estou desvirtuando o seu texto, tá?) e os de publicidade e propaganda fábricas de gênio; o subliminar da parada, escola de Frankfurt, coisa e tal, está na...

Papagaio Mudo disse...

Bardô,

mora na filosofia... esqueceu?
die neuer alt Philosophie,
só é possível filosofar em alemão...

ξגע٣ٸ

Silvania disse...

Bem interessante teu blog. Gostei.
Sobre a pergunta, no que se refere a distância-presença seria ele longe mas continuamos juntos?
Se sim, essa é a resposta...namoro a distância sabe? primeira experiência...é difícil, mas não é impossível.
bjoo

Gicelle Archanjo disse...

Sem palavras para esse texto. Muito bom!

Deise Anne disse...

esse pós-moderno tão falado, buscado e nunca encontrado, por isso mesmo caviar... nunca vi nem comi, eu só ouço falar...

lendo seu texto lembrei da minha última leitura: Memórias do Subsolo, do Dostoiévski... Satre e ele sabem bem o que você sente. Recomendo!

Papagaio Mudo disse...

Oi Deise Anne,

sabem o que eu sinto! com certeza eu sinto muito!
Notas do Subterrânio, tenho uma edição portuguesa.
sou tarado por literatura russa. Esse que você citou é um clássico que remonta à ideia dos complôs para a Revolução Comunista. Obrigado pela indicação.
Confunde com Kerouac (o título)
... sempre reticênte,
seja no canto, seja no centro, fique por fora, fique por dentro,
seja o avesso, seja metade, se for começo fique a vontade! Procure saber o que é a pós-modernidade por seus próprios meios, sem deixar que "te falem" somente.
Você acha que o mundo é mesmo, como era há 10 ou 15 anos?
Você já usava essa caixinha de comments para se comunicar?
Não confundir anvanços tecnológicos da pós-modernidade com a realidade instaurada por eles, somados a uma mudança de costumes. Sociedade pós-industrial, o Twiter. A Modernidade já Era (com o perdão do trocadilho)

Gustavo

Caiocito disse...

Diria um primata: "no meu tempo que era bom, comia carne fresquinha, que eu mesmo caçava".

Batendo na cabeça com o monolito de kubrick... "não sabia que a vida seria assim.

abç

Caiocito disse...

Muito soco e pouca cara, gusta.

Nydia Bonetti disse...

cantiga de acordar

Num jardim fugaz
De espirais sem fim
Eu corria atrás
De mim
O homem se distrai
Dorme em boa fé
Sua sombra sai
A pé


Mas
Foi uma ilusão
Uma insensatez
Há que pôr o chão
Nos pés

Chico contamina... :)

Papagaio Mudo disse...

Caio,

não tem soco nenhum :^(
somente cara,
"o" cara
... à tapa...

Papagaio Mudo disse...

concordo com o primata, ou melhor, concordo com você.

abç

Papagaio Mudo disse...

Nydia,

Chico Buarque hoje me contaminou...
Deus dono as nozes deu ao dono deu seus nós sonhou se desatar de tantos nós, a louca escorregava nos lençóis... será que é minha a voz? para vós?
abraços,

Gustavo

ps: obrigado pela cantiga;)

Papagaio Mudo disse...

Betina!

seja bem-vinda.
abçs


Gustavo

Desi disse...

"de médico, escritor e louco, todo mudno tem um pouco".

(ditado popular)

Diego Yorkes disse...

"Está provado, quem espera nunca alcança."

definitivamente,

Abraço.

.::Li::. disse...

Adorei!
Engraçado como a nossa cabeça de jornalista não para 1 minuto se quer, não?

bjs

Papagaio Mudo disse...

"de médico, escritor e louco, todo mundo tem um pouco".

(ditado popular)
yes indeed!
mas fico pensando o que o Ferreira Gullar diria disso...

Papagaio Mudo disse...

é Diego,

"devagar é que não se vai longe"

(contra-dito popular)

abç

Gustavo

Papagaio Mudo disse...

Li,

Um segundo é igual uma eternidade... sem fim.
abraços,

Gustavo

Papagaio Mudo disse...

é difícil definir o Tempo, hoje em dia. Eu diria que Segundo sem Fim é um bom nome para um conto.