segunda-feira, outubro 05, 2009

Nova prosa

Pessoas não vêm nos ver. Não se lembra de mim? Estive doente estou doente, dos garotos magricelos que jogam felizes na praça, dos heróis que nunca morrem desse jeito. Eu era um pouco mais jovem. Pequenas catástrofes internas. Acontece que ninguém é doido de dizer verdades à tona quando elas vêm rasgando vísceras e magoadas pelo tempo e a solidão incompreendida, incompreensível e aparentemente indecifrável. Edição limitada de sua própria doença. A vontade do caramujo era fugir de casa, foi quando Dimitri chegou à sala de repente, onde estavam sentados na mesa seu pai, seu antigo irmão e irmã. Qual foi a última vez que os viu sentados naquela mesa, naquela casa? Dimitri achou estranho porque estava muito cansado pra lembrar. Você não pode evitar essa fragilidade, e os olhares de desprezo, não importa. Tenho um presente pra você, ele disse – o desfecho da festa, o fim da alegria. Depois a chuva as coisas perderam sua monotonia. Um patíbulo se abriu e o mais velho sorriu e se foi, correndo rápido e sem resposta àquela uma obra de arte. Suponho que nunca tenha se ferido como quem fere. É inexplicável como Dimitri sobreviveu milagrosamente bebendo dessa água de forma pictórica, quando abriu os olhos e constatou novamente que estava vivo, e conhecia gente como a si mesmo, sobreviventes de um acidente fatal. Profundez inferior, assim meu querido Dimitri se relacionava consigo mesmo. Podia ser outras dez mil coisas, fazer dez mil coisas, vieram as crianças de Angola buscar tristeza morta, os anjos pousaram em um pau de galinheiro. Ficava cada vez mais bizarro qual pelo menos se retribui a cuspida, e Dími não fez por menos quanto seu instinto russo. Sua irmã, Anastácia distribuiu-se a cada espaço para consolar o pai dos Romanov. Entre gregos e troianos, desfez-se a sorte da comédia bufa e por garantia os menos invisíveis se aproximaram enquanto os demais se distribuíram pela arena numa festa pagã o quanto foi. Eu poderia continuar, se a medicação prescrita não fosse manter ou evitar a mesma mesmice anestesiada por um acidente, o silêncio, uma ausência, uma vida, o oposto, a violência, a jogada, a parte do copo que doía, a falta que ele me faz. Sob aquelas palavras desde então, juntando as peças de quebra-cabeça de uma estrada ensolarada, mais do que uma probabilidade de relativa verdade - nenhum sobrevivente.
Boris

7 comentários:

Papagaio Mudo disse...

queria ver um filme chinês antigo de kung-fu...

BAR DO BARDO disse...

Estou gostando muito dessa prosa, Dími!

Papagaio Mudo disse...

Senhor Bardovisky,

Olá, como vai? Tive acesso ao diário de Dimitri e agora estou a transcrevê-lo. Intento transcrevê-lo na íntegra, em honra aos meus antepassados austro-húngaros.

здоровье!

Mikail Vladvoskov
ou apenas Mika...

Papagaio Mudo disse...

Bardo,

acho que você é o único que se interessa pelo diário de Boris...

abç

Gustavo

Menina Misteriosa disse...

Ouvi dizer que Dimitri era um "Don Juan"... que venham muitas histórias...
Boa semana,
Beijos

Papagaio Mudo disse...

sim, sim. Hoje mesmo Mikail transcreveu mais ua do russo para o português. Vou publicá-la.
Menina Misteriosa,

Beijios

Adriana Godoy disse...

Também gosto. Bj