sábado, janeiro 31, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 7 Um compromisso com o acaso

Alguns chamam de sorte. Os freudianos chamam de sincronicidade, de sincronia, ou sincronismo, tem a ver com tempo. Cronos engole seus próprios filhos, a poeticidade na interpretação da cronologia, essa fome sinistra. Outros chamam de coincidência, enfim, existem vários nomes para o acaso – fado, destino, sina, ventura, sincronia, simultaneidade, concomitância. Pode escolher. Esse último, o acaso, segue um movimento caótico, acidental, quase mórbido, de suspense, batimentos cardíacos, adrenalina, alívio. Transcendental, percebe?, um movimento não retilíneo e não constante em velocidade. Só não se pode mesurar, medir, criar, inventar ou fabricar um conceito novo capaz de explicar os porquês etimológicos da natureza humana e quantificar e qualificar (o que fazem por ética, grosso modo dizendo, valores universais - não matar, sexo não consensual também vai contra o senso-comum de civilidade) e tudo aquilo que foge da natureza simplesmente humana, demasiadamente humana, a imaginação, abstração. Roubaram-me uma crença, quando eu era criança. Como roubam-te cá e lá ao longo da vida. Mesmo Kinsey, o maior taxonomista da área (taxonomia – ciência da classificação) e suas pesquisas revolucionárias sobre o sexo e as relações, não conseguiram qualificar, quantificar, medir, criar a equação sexo/amor. Lembra-me o mito grego mais antigo de Psique em busca de Eros.
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(s e g u e...)

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 6_____m e i o > > d e j o g o

Saímos da Grécia. Foi uma longa viajem até Basel na Suíça, fronteira com França e Alemanha. De Basel, fomos de trem até Frankfurt (o caminho mais próximo) parando em Stuttgart. Em Frankfurt conseguimos um vôo direto para Nova Yorque, sem escalas. Ao todo passamos um bom tempo viajando, algo em torno de um mês e meio. Nessa altura dos acontecimentos eu chegaria em NY somente pra assinar os contratos.
Foi em Basel que a Gi negociou os diamantes com uma contrabandista ucraniana, Svletlena Fiodorova. Um metro e oitenta e cinco de altura, chamava a atenção de todos por onde passava, mas carregava espontaneamente sempre um sorriso de turista. Vejam que conhecia o mundo, dos rincões agrestes da Europa - as tundras do Cazaquistão, às selvas Colombianas.
Ela então transitava com, digamos, ‘mercadorias ilegais’ pra cá e pra cá, sem ser incomodada pela Interpol, Scotland-Yard ou outro serviço qualquer de inteligência. As autoridades deviam estar muito pouco preocupadas com essa mulher, mas não pensem que sempre foi assim. A russa tinha se tornado uma verdadeira profissional. Pois é verdade que nem cheguei a ver a negociação, tamanha a descrição das duas. O fato é que essa história estava começando a parecer um conto mal contado de Sherlock Holmes.
Pousando em Flushing Bay víamos a silhueta da estátua da Liberdade ao longe sob o poente. Lembrei-me de Samba do Avião, mas dessa vez não era o Cristo que víamos e eu já não me lembrava do Brasil.
Naquele momento, todas as lembranças, toda dor, toda mágoa, tudo que sofremos que sonhamos que vivemos todas as mazelas do passado, deixamos para trás. Agora tínhamos a chave da America. Sem querer ou sem saber vivíamos o sonho americano. Estávamos em um jogo de xadrez, calculando cada movimento. Sós, eu, a Gi e o resto do mundo. Eu, a Gi e o resto do mundo estávamos um pelo outro. Mas nesse jogo ninguém perde nem ganha, e agora? qual seria o próximo lance? De repente íamos nos afastando enquanto o tempo nos afastava. Tínhamos interesses diferentes. Eu me embebedava no Bowery, bairro tradicional da antiga boêmia, Certa vez tomei cerveja com Neal Cassidy, herói e Adonis de Denver. Era hora de cruzar a América de automóvel verde. Contratos que firmei me renderiam um bom tempo sobrevivendo. Meu caderno de notas não tinha quase nada escrito. Alguns poemas, datas, horários, ab flug, jogadas de xadrez, o número da minha conta escrito em letras, um poema do Maiakovski que copiei. Estávamos em NY há quase seis meses.

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(s e g u e...)

Noites Adentros, NY

P a r t e 5

S o n h O

Manhã de primavera, férias. Eu e meu irmão brincávamos no gramado em frente de casa. Meu pai trabalhava a 15 Km de Minsk, onde morávamos. As lembranças são como uma película de oito milímetros com as cores estouradas, lindos tons de luz, do sol alegre do inverno, vermelho e amarelo do vestido da minha irmãzinha. O azul do céu, a imagem com o atraso (ou delay) do projetor, menos de 24 quadros por segundo. Aos domingos íamos ao Teatro Nacional. “Vamos Klaus, mama ruft uns. Mamãe está chamando.” Passa por nós um senhor de idade avançada. O velho caminha lentamente de bengala e conversa consigo mesmo. Estou parado na porta de casa observando... Quandoestá exatamente na minha linha de visão, ele lança-me um olhar que ainda lembro até hoje. Pareceu-me o olhar da morte. No fundo dos seus olhos ocos.
Sonho que a vovó, sempre de luto, está na beira de um pântano infestado de crocodilos (ou seriam jacarés?) e tenho que salvá-la. Mas eu só tenho oito anos. São as histórias de onça que meu pai contava. Vejo os bichanos, olhos atentos observando. Aparece uma canoa e pessoas levam minha avó para o outro lado do rio. Observo eles atravessarem a remo, até a outra margem, ficam cada vez menores em perspectiva, e mais longe. Quando forço os olhos de miopia, vejo que todos estão vestidos de branco, homens e mulheres. Seriam anjos? Eles a ajudam a descer na margem. Somente ela está vestida de preto. A expressão de pânico silencioso em seu rosto desaparece. Ela aceita que a levem. Via tudo acontecendo como se usasse um binóculo, e tudo acontecia em um lugar onde eu nunca vi e nunca fui. Durante vários anos tive esse sonho. Carregava-o como paisagens flutuantes.
Muti, porque aquele homem é tão velho?”
“Porque o inverno ainda não chegou pra ele, meu filho”


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(s e g u e...)

Seu Jorge



quinta-feira, janeiro 29, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 4

Sexo. Sinto o cheiro de sexo. Sinto o cheiro do meu próprio sexo. Sexo primitivo sexo com beijo sexo com amor sexo sem amor sexo na sua voz sexo na imaginação e no sonho. Você em pé de lado deitada de lado em cima em baixo em volta entre. Diz que me ama, nena. Ainda não estou saciado desse amor que procurava. Ainda me faltava alguma coisa que sinto que nunca mais vou ter – inocência. Meu coração parecia um músculo atrofiado. A inocência infante, pura e delicada, às vezes infausta. Feliz aquele que vê, mas não enxerga. Felizes os cegos de alma, pois eles herdarão a ignorância do mundo. Meus olhos não brilham mais, meus olhos não brilham mais. Felizes aqueles que se emprestam se vendem e se contentam, pois suas almas serão salvas em algum asilo de luxo. Matamos a própria sorte. Não acredito mais em nada. O sonho acabou - The dream is over. O Destino se transformou numa entidade, assim como as virtudes, a Justiça e a Temperança. Sem leis, salvo as quânticas. Sem regras. O sol brilha de novo, mas a paisagem continua tediosa. Era como se... Tenho a impressão que estou tentando contar um sonho – uma tentativa, porque nenhum relato é capaz de transmitir a sensação onírica, onde aflora essa mistura de absurdo, surpresa e encantamento num frêmito de emoção e revolta, essa impressão de ser capturado pelo inacreditável em que consiste a própria essência dos sonhos. Vivemos como sonhamos – sós.


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(s e g u e...)

Noites Adentros, NY

P a r t e 3 ________ Á g u a_d e_b e b e r
__Hello, mister Josef – disse a Gi, depois de entrarmos na loja.
__Hello, Frau Hildgert – respondeu o velho, de olhos azul-sem-graça.
__Frauleine – Fez questão de corrigir – senhorita. – tinha pânico de ser chamada de senhora. Eu disse que esses judeus não estavam de brincadeira. Percebi porque o senhor foi muito simpático. Até me confundiu com um dos “da turma” – “Shalom! Shalom” – disse olhando pra mim. ‘Shalom, seu Josef’ – às vezes falava português ao deus-dará. Será que pareço judeu? ou foi apenas uma camaradagem fingir que me confundiu? tipo, você parece ser um dos nossos, rapaz, ou, poderia ser um dos nossos... Sou um tipo comum.
Era uma pequena loja na 51 Leste, perto da Park Avenue. Parecia uma loja de fachada, e era. Fomos conduzidos pelo senhor Josef para outro cômodo, iluminado apenas por alguns raios de sol que caíam verticalmente sobre a mesa, através de uma janela de vidro. O senhor Josef sentou-se de costas pra janela e ergueu a mão como dizendo ‘Venham! Venham’. Sentamos diante dele e acendeu-se um abajur. Plic! Pude ver todas as curvas de suas rugas. “Deixe-me vê-los, senhorita Hildgert” – ordenou o velho. Então a Gi abriu a bolsa, pegou um pequeno saco de veludo vermelho e despejou as pedras sobre a mesa, em um pequeno bojo de vidro.
A voz da Gi me pareceu um pouco dissimulada, mas pouco importava minha opinião. Eles queriam mesmo era saber do dinheiro. A palavra enxerga assim enfileirada, tal qual o vil metal da espada. E era por esse vil metal que estávamos ali. Trocando pedras preciosas por money. O velho Josef examinou as pedras uma por uma, cuidadosamente.
Eram 33 no total. “Número cabalístico” – disse Josef Schorsch. E o que isso queria dizer, afinal de contas? Acho que eu era mais desconfiado que eles que sempre respondem uma pergunta com outra pergunta. Fiz o teste.
__ “E “o que isso significa senhor Schorsch?” – And what das that means, mister Schorsch?
__ “E por que isso te interessa, filho?” – respondeu perguntando. Viu? Estava provada minha teoria. Passou um tempo examinando as pedras, uma por uma. Os raios de luz que vinham da janela, ele deixava trespassar pelas pedras, como um sábio ilusionista. Seus olhos me pareceram de uma obscuridade sinistra.
__ “Pois não senhor Schorsch” a Gi tomou a palavra depois alguns minutos de silêncio. “... assim que o dinheiro estiver na minha conta os diamantes serão seus.” – disse como se fosse mulher de gangster italiano sem Família, e mostrou o celular.
Okay, miss Hildgert. Vamos transferir o dinheiro” - então chamou por alguém, em hebraico. Logo apareceu uma mulher que parecia um feixe de ossos. Conversaram tão rápido que só podemos entender o ‘Yes... Yes’ e o ‘schnell’ rápido! Então começou a surgir um monte de gente. Primeiro um jovem sarnento, de cabelos loiros encaracolados, que parecia ter uns dezesseis anos no máximo. Conversou com o vovô e também saiu rapidinho. Depois veio um homem mais velho, de camisa branca e suspensório.

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(s e g u e...)

Miles Davis

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 2__S u b j e t i v i d a d e
As palavras são apenas um conjunto de letras e as frases uma junção de palavras, um parágrafo, a conjunção dessas frases e um texto, um bilhete para a eternidade. Ouvir com os olhos a palavra escrita. A semiótica busca o começo para encontrar o fim. A cor tenta retratar a realidade (Van Gogh, Gaugin) assim como a palavra tenta nomear a cor. A habilidade de interpretar a própria realidade está na subjetividade do olhar. A filosofia e de cada um.
Não é difícil começar pelo fim, contanto que haja meios de entender. Não é difícil tentar entender o fim, sem meios nem começo. É fácil observar os meios, sem fim nem começo. É triste esperar o fim, que sempre vem. Pelos meios que me trouxeram até, só posso acreditar que o sofrimento chega sem aviso o amor a sorte o destino.
Soho. Flamenco Sketches. Chegamos ao apartamento onde Lloyd recebia seus convidados. Ele havia nos cedido durante o tempo que fosse necessário passar em NY, e finalmente saímos daquele hotel barato no Harlem. Não conseguia escrever uma linha, fazia uso de um dicionário. Uma revista em Madrid aguardava um texto meu sobre contemporaneidade e... Eu queria me jogar do prédio, mas quando olhava a vista do entardecer lá fora, mudava de idéia.
Um crítico da revista The New Yorker escreveu que “... sua maneira de escrever, even vaguely, refers to the classic Of Human Bondage, do escritor britânico W. Somerset Maughan.” ainda que vagamente remete ao clássico Da Servidão Humana. Um dos meus livros preferidos. Terá sido influência?
O Lloyd me pediu pra por comida no aquário, pra uma espécie de peixe elétrico, e tomar cuidado com a escultura da Nossa Senhora de Guadalupe (mais conhecida como a Virgem de Guadalupe) que ele ganhou do Burroughs. “ah, cuidado na hora de entrar e sair”- últimas recomendações e foi dormir na casa do namorado, o pintor contemporâneo Nicolas Hunger.
No dia seguinte, eu e a Gi, fomos até Midtown, no bairro judeu, judaico... encontrar senhor Josef
Schorsch.

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(s e g u e...)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Noites Adentros, NY

S e g u n d a_P a r t e
Dramas, Tramas e Conflitos

Finalmente chegamos ao Trípoli, em Litlle Italy. “Vamos comer comida árabe aqui?” - Nova Yorque podia surpreender. Logo ali ficava Chinatown, então eu podia até beber sangue de uma cobra se quisesse. “Vamos sim.” – respondi.
Meu tempo estava passando muito rápido. A Gi comprou diamantes da Antuérpia, que valiam muito mais na América, e os transportou ilegalmente na bagagem. Em uma palavra – contrabando. Em um casaco grosso, escondeu cuidadosamente cada um dos pequenos diamantes. Assim passou facilmente na alfândega. Ela queria vendê-los a um velho judeu que fazia negócios no mercado de ações. Eu dizia “Calma Gi, esses judeus de Midtown não estão de brincadeira” – e ela respondia “Você tá pensando que eu sou algum personagem de desenho animado?”. Bem que ela parecia uma heroína dos quadrinhos. Bastante destemida, não o bastante pra não morrer, pelo fato de não possuir super poderes, mas habilidades ela tinha. Eu já não sonhava e não tinha mais um ideal. Ela também não sonhava e ensinou-me a como não ter ideais, não esperar, agir antes que aconteça. Voar como uma águia, com olhos de águia, correr como um lince, enxergar no escuro como a coruja, mover-me como a serpente e ter a intuição de um rato. Assim eu podia sobreviver no antro das ferinhas. Estava em estado de semi-pânico. Pesadelos me assombravam, gritos me assustavam, o jogo da tímida maldade dos coelhos brancos, vermelho groselha nos olhos de sangue do coelho, o eco do cocoricó de Bitches Brew do Miles buzinava no meu subconsciente. Era uma questão de ego. Estava representando uma coisa em minha vida que sonhava ter, reconhecimento. E agora estava sendo pago para ser o fantoche de uma pequena conspiração. Parecia pertencer a alguma sórdida farsa encenada diante de um cenário sinistro.
Não conseguia convencer a Gislene de que era ariscado negociar os diamantes contrabandeados. “Gislene Hildgert, vamos nós informar melhor. Eles sabem que esses diamantes não têm um selo de procedência.” – insistia – “eles podem te denunciar, daí vão te pegar e mandar pra Guantánamo e eu nunca mais vou te ver”. Ela respondia em silêncio, balançando a cabeça.
__Você acha interessante vender palavras? – ela perguntou. Sim, era mais interessante vender palavras, do que vender idéias. A idéia era simplesmente descortinar a realidade relativa do inconsciente coletivo como forma mais primitiva de auto defesa. As frases eram um conjunto de palavras e as palavras eram apenas um aglomerado de letras. Juntos faziam sentido faziam chorar, faziam se olhar no espelho, ver a própria face no outro, despir-se de disfarces. Escrotamente traduzindo, era isso que eu causava, sem forçosa intenção, apenas escoria. E eu apanhava com papel. A sorte não me pegou nessa vida.

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(s e g u e...)

Miles Davis



segunda-feira, janeiro 26, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 1 0
Griechenland
Karpathos – Grécia, Verão no hemisfério norte

Eu e a Gi preparávamos um ritual de passagem em nossas vidas em Karpathos, uma ilha pouco conhecida dos turistas que vão à Grécia. Toquei fogo em tudo que havia escrito até àquela hora. E ela queimou as fotos que tinha do Samie e do Paolo. Embora isso não tivesse nada a ver comigo, ela fez questão de queimar as poucas recordações que tinha do passado, nada mais do que fotos. Tudo havia mudado. Meus votos de silêncio e de pobreza nos confins do mundo. Guardei apenas os mapas da Índia, China, Nepal, com esperança de ir até lá um dia. Apesar de não querer nutrir nenhuma esperança por nada.
Aquele email era do Lloyd Schwarz, editor americano da City-Light, editora fundada pelo lendário Timothy Leary, dizendo que haviam negociado os direitos de publicação do meu livro – A Tímida Maldade dos Coelhos Brancos – traduzido para o Inglês. O meu editor no Brasil havia negociado o valor, de forma que todos iam ganhar. Depositaram parte de uma quantia que chegaria perto dos duzentos mil dólares, quando o livro estivesse publicado. Eu tinha uma conta na Suíça. A Gi também, onde guardava o dinheiro que ganhou desde os dezesseis anos de idade. Mas não era preciso gastar um tostão do dinheiro da Gi, nunca foi. O que eu recebi dava para dar três voltas ao mundo com acompanhante. Com apenas vinte e seis anos ela tinha muita vivência e era cautelosa. Deixei um bilhete para os meus amigos quando saímos de Tirano, pois presumi que eles não chegariam a tempo de me ver. Ela deixou a aliança sobre um bilhete que eu nunca soube o que dizia.
__O quê você escreveu para o Paolo? – eu perguntei. Seguiu-se o silêncio, uma pausa enquanto ela olhva para o infinito, tive medo que um dia aquilo acontecesse comigo, mas logo em seguida ela sorriu e disse
__Quando chegarmos a Atenas vamos comer Pita e Souvlaki. – Em duas semanas eu tinha que estar em NY. Queria ver minha filha Pixie, que morava em New Jersey.

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(c o n t i n u a...)

Noites Adentros, NY

P a r t e 9
Ponte sobre o rio Adda - Tirano
E lá estávamos em Tirano. Paolo se preparava para mais uma expedição. Dessa vez para os confins da Patagônia. Era domingo e a Gi apareceu logo cedo no chalé, me assustando um pouco com aquela atitude inesperada. Trazia um pão assado na hora.
__Gosta de pão quentinho? – ela disse como quem pede permissão para entrar. “Entra. Bon giorno.” disse, e fomos pra cozinha comer o pão quentinho com geléia e chá. Ela parecia ansiosa e angustiada. Senti frio, porém um frio interno, como sente quem espera uma notícia bombástica, algo que irá mudar sua vida. “Tudo passa” – ela disse “e eu não quero mais continuar aqui, onde nada acontece!”. Além do Giro d’Itália, uma prova de ciclismo que acontece uma vez por ano e que passava por ali, não havia muito movimento em Tirano. Daquele momento em diante ela se abriu completamente. Em seguida disse
__Esse puto do Paolo tá pensando que eu sou o quê? - o Paolo mal havia chegado e já ia passar novamente uma temporada fora. Fora de casa, longe da Gi. O destino daquela mulher parecia guiado pelos homens. O filho da puta mal se dava conta da insatisfação dela, e a deixava solta, quando não estava sozinha. Ouvia calado como quem ouve uma confissão. Então, ela deixou de lado toda polidez que havia aprendido, e gritou palavras que eu mesmo queria dizer
__Eu vou tocar fogo nesse passado! – e aquilo veio do sangue, dos ares ancestrais que enchiam seu pulmão. Eu, arrepiado, sentia a presença de alguma entidade dando-lhe forças para terminar aquele discurso. Foi quando ela chegou perto como um bicho e enlaçou seus braços sobre mim. Um beijo de chá, vindo de quem pede ajuda.
Bem, minha intenção era conhecer o norte da Índia, seguir até a China, beber sangue de cobra em Hong Kong e seguir até onde pudesse me encontrar. Apaixonar-me por aquela mulher, que, contudo já havia me seduzido, não estava nos meus planos.

Passaram-se dois dias e recebi um email. Dois dias em que estive compadecido com a dor da brasileira, e a solidão. Até então foi apenas aquele beijo e nada mais. O Paolo saíra voando como uma flecha, pois o estavam esperando sei-lá-onde. Agora, com esse email, quem estava agitado e ansioso era eu.

(c o n t i n u a...)

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Noites Adentros, NY

P a r t e 8

A Gi também tinha as paisagens do passado impregnadas em si. Estava submersa naquelas lembranças e era preciso emergir para tomar fôlego. Eram apenas homens comuns, o Paolo e todas as pessoas que a cercavam e ela parecia triste. Eu podia dizer que, minha última conversa com a Gi, havia mudado minha idéia sobre ela. Tinha toda a ingenuidade de uma índia sim, mas era audaciosa e tenaz como uma pantera. Exótica? Sim, sua pele tinha sempre um tom dourado que nunca desaparecia, mesmo no inverno cinzento, sua sensibilidade e maneira de enxergar a vida eram admiráveis. Eu nunca vi nada selvagem ter pena de si mesmo / um pássaro cairá morto de um galho sem jamais ter sentido pena de si mesmo*
Meus amigos foram para a montanha. Aquela semana que levariam para escalar, eu ficaria na cidade, escrevendo minhas próprias regras e cuidando do chalé. Durante o dia, saía pelas ruas à observar as pessoas do local, quase não havia turistas. As pessoas que viajam aquela época passavam no máximo 45 minutos na estação de trem. À noite, eu ia a uma bodega que me haviam indicado, longe do centro, quase escondida. Nessa bodega ninguém me perguntava nada. Sempre me sentava no balcão e conversava com o atendente através de gestos. Nunca ficava cheio e tinha ares medievais, paredes de pedra e madeira. Parecia um clube da máfia. Havia também um personagem típico dos filmes de gangster, sempre nos fundos do bar, um velho catatônico, de óculos escuro e terno xadrez.
A segunda vez que me encontrei com a Gi, foi no centro de Tirano, no Café della Villa. Conversamos bastante, mas ela hora nenhuma falou do Brasil. Contou-me a história da longa viagem de Kombi com Samuel. “Todos pareciam ter um rumo, mas um destino incerto”- ela dizia, e olhava com ares de transgressão. Ao chegarem juntos à Espanha, ao invés de continuarem subindo para França (é o que deveriam fazer para chegar a Chamonix), resolveram atravessar o estreito de Gibraltar e viajar pela costa sul do mediterrâneo, norte de África, ad infinitum rumo ao infinito. Não era entediante ouvir aquele que se tornara um monólogo. Ao contrário, ficava encantado com suas descrições, palavras que pareciam ter sido previamente escolhidas, sem remendar retalhos ou partes fragmentas. Havia sempre um enlace, muito bem elaborado, ligando a trama à descrição geográfica, e a alegria ao drama. Perguntava-me se haveria um começo-meio-e-fim, como numa partida de xadrez, para aquela história. Em pouco tempo eu já podia perceber o caráter do Samuel. Ele era tipo irresistível cafajeste. “Sedutor, ao ponto de ser um romântico à moda antiga” - ela dizia – “Italiano da Calábria”. Ainda estava apaixonada por esse cancioneiro francês de talento confuso. Eu era o prisma desse cabedal de histórias e ela era o feixe de luz que iluminava minha imaginação naqueles dias cinzentos. O porto de Tanger ao entardecer era laranja, o Marrocos me remetia aos tons da areia. O norte da Argélia era âmbar, e o pôr-do-sol era vermelho. Em Oran, conheceu e teve contato com conflitos políticos, causa e efeito. A Tunísia fazia lembrar o verde do mar e águas claras. Passaram pelos confins do mundo. Viram cidades abandonadas, tribos indígenas, pequenas comunidades, metrópoles grandes e confusas. Quando ela falava, parecia querer voltar no tempo. Parecia sentir saudades, mas não era nostálgica, queria seguir a diante, sentia-se estagnada, fazer da vida uma aventura errante, como dizia o poeta. Apesar de altamente civilizada e com requintes Alla tedesca, ela era o mais próximo de uma criatura selvagem que eu já havia chegado.

(c o n t i n u a)

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sexta-feira, janeiro 23, 2009

Noites Adentros, NY

p a r t e 7 Samuel
Fiquei sozinho na cozinha. “Dez minutos” – disse a Gi olhando pro forno. As pessoas entravam me olhavam, mas não me cumprimentavam. Pensei que eu fosse alguma atração exótica. As pessoas dirigiam-se para a varanda da frente. A casa era grande, dois andares, uma sala grande com lareira, dividida em dois ambientes, a cozinha, e um deck de madeira na frente que dava vista para a cidade. Até que ela chegou para preparar tudo “desculpe-me a demora” – disse com voz de dona-de-casa “e grazzi pela ajuda”.
__ Por nada – me diverti muito aqui, pensei.
Assistimos à exibição dos slides do Paolo. Ele quase não aparecia porque era o fotógrafo da equipe. Aparecia aqui e ali e as pessoas ah... Oh!... marcou-me uma - ele no cume com a foto da mãe (falecida) dando tchauzinho.
Depois do jantar, um tradicional e prático assado, próprio para comer nessas ocasiões, porém regado a um bom vinho francês, Bordeaux, safra especial. A Gi cozinhava bem, e fazia bem comidas típicas da montanha, no entanto era contra os hermetismos da tradição. Eu e Gislene conversamos na varanda, apesar do frio. A Gi entra nessa história porque também sofreu, na França. Sofreu como a Costa do Marfim sobre protetorado francês. Depois de uma viajem em fuga pela Europa e pela África, estacionaram a Kombi na casa do Sam (que morava com a avó) em Le Lavancher, e foram para Chamonix. O Sam logo arrumou um emprego no restaurante cuja especialidade era o típico alpino
tarte a flet. Ela, depois de mostrar que sabia arrumar uma cama, dobrar os lençóis, limpar um banheiro e pronto! estava contratada. Mais uma vez foi por conta de sua beleza, ela tinha uns vinte e três anos, foi promovida à recepção. ”De tanto falar oui oui merci de rian... aprendi o francês. Da noite pro dia soltei a língua e comecei a falar. Isso ao invés de ajudar, me rendeu mais dor de cabeça." e depois de um grande suspiro disse "Um ano se passou e o Samie não ligava mais pra mim. O lance dele era ser adolescente e praticar snowboard, beber vinho e mais nada. Até que o Paolo apareceu no hotel pra levar um grupo de japoneses ao cume do Mont Blanc. Arrumei minhas coisas e vim embora com ele. Agora estou aqui isolada mais uma vez.”
Dados os trâmites de despedidas e agradecimentos por encerrados, fomos embora, descendo a ladeira. Nossa cabana ficava do outro lado da cidade. E era chegada a hora do silêncio.
Na cama, abro um pequeno caderno esquecido, e encontro as contas de casa com a letrinha dela – aluguel, água, luz, IPTU, telefone... As lembranças esquecidas ou jogadas fora. Arrancadas como erva daninha, danosa, enraizada. Parti, quando tive que sonhar novos horizontes. Quando você sabe que ficou para trás, velha pele? De repente a serpente que engole o próprio rabo, hiberna em estado consciente. Estando eu em mim, parindo minhas cobrinhas, sinto vontade maternal de devorá-las. Nada é tão bonito quanto aquilo que se vê pela primeira vez com encantamento, que fascina que faz os olhos brilharem. Só se deixa ser vítima quem já perdeu a inocência. Pesseguinho queria de mim algo intangível. Queria como que eu materializasse o éter, o metafísico, para provar meu amor por ela. Embora insistisse várias vezes dizendo que eu não tinha esse poder. Ela foi a primeira e única a me ajudar nos momentos que estive mal, nos momentos que estive perdido. Cuidava de mim como se cuida de uma criança. Eu queria algo novo e descobri a tristeza e o desdém. A solidão e o medo faziam par perfeito. Era preferível cair no esquecimento. Na solidão noturna do esquecimento, nas sombras de si mesmo. Descontente e contente ao mesmo tempo. Por não ter que seguir uma rotina doméstica e de trabalho. Todo dia fazer o mesmo trajeto de tempo, acordar as sete trabalhar as oito comprar pão as dezoito.
A noite tinha sido boa, mas naquela época o passado estava impregnado em mim.

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(c o n t i n u a)

moleskine.com.pt



quinta-feira, janeiro 22, 2009

Alfama

u n e _o f f r è


Agora
que lembro
nas horas ao longo do tempo

Desejo
voltar
voltar a ti
desejo te encontrar

Esquecida
a cada dia que passa
nunca mais tive a graça
dos teus olhos que eu amei

Má sorte
foi amor que não detive
e se calhar distraiu-me
qualquer coisa que encontrei

música de Alain Oulman
poesia de José Carlos Ary dos Santos

Noites Adentros, NY

p a r t e 6
Gi & Sam cold case

Na manhã seguinte ao dia em que nos conhecemos, fui o primeiro a acordar. O sol brilhava forte, iluminando o dia. Ouvi um grande alvoroço de gente, vozes de crianças subindo e descendo. Depois, um agradável silêncio. Parecia que a cidade toda acordara de uma só vez, e cada um já havia se encaminhado para os seus afazeres. Saí à caminhar pela cidade, que não era grande nem pequena, comparada às cidades alpinas que eu conhecia. Subia pelas ruas de pedra, seguindo o cheiro de gelo e madeira molhada. Mais adiante, a nordeste, a suntuosa montanha que guardava ominosamente a cidade. Branca, coberta de neve. Taciturna à escuridão da noite, lúgubre sob o clarão das estrelas. Àquela hora brilhava radiante. A Madonna de Tirano.
Quando eu voltei, meus amigos já haviam debandado. Foram comprar mantimentos para a expedição. Depois eles iriam à Via Alpina, uma espécie de clube de alpinistas, consultar os mapas da região. Chequei se haveria alguém nos fundos da choupana, mas não, com certeza deixaram-me pra trás. Não sabia ao certo, quanto tempo eu passei caminhando. Perdia-me em minhas idéias. Vagava e devaneava. O pensamento voava alto, enquanto sentia e percebia toda a atmosfera ao meu redor. Já parecia tarde. Era melhor estar sozinho ali. Assim eu poderia escrever e relaxar. Essa sensação agradou-me, aquele dia.
Estávamos em um chalé de montanha bem simples. Uma sala e dois quartos. Duas camas em cada quarto. Uma área externa com fogão e banheiro com água aquecida por serpentina. No mais, era tudo muito rústico, pelo preço mais barato que encontraram.
O dia passou lentamente. Falei com Miguel sobre a brasileira que conheci, sobre o convite para ver a projeção de slides e a oportunidade de conhecer pessoas do local. Todos aceitaram ir e lá fomos nós, seguindo para a casa da brasileira. De repente uma ambulância passou por nós em alta velocidade, naquelas ruelas estreitas, e de sirenes ligadas. Pensamos ao mesmo tempo, e em silêncio, que aquilo era um mau presságio e continuamos andando.
A casa ficava nos arredores da cidadezinha. Enfim chegamos. Paolo abriu a porta, mas a Gi se colocou entre nós. Apresentei meus amigos e nós cumprimentamos. Paolo nos tratou muito cordialmente, como um bom anfitrião. Fomos os primeiros a chegar.
Dentro da casa pude ver a paisagem do lugar. As janelas pareciam quadros vivos, porém, um pouco nostálgicos. Miguel e Angel foram ajudar o Paolo a montar o equipamento de projeção. (como fomos os primeiros a chegar, também fomos os primeiros a ajudar) Miguel e eu seguimos pra a cozinha junto com a Gi, que foi logo nos dando tarefas sem o menor pudor. Eu cortando batatas e o Miguel cortando cebola. Balbuciei como que sussurrando pra mim mesmo:
__ Enfim, como chegou até aqui? – então, como bom memorizador, lembro-me que aconteceu uma coisa incrível. Após um brevíssimo preâmbulo, Gi recomeçou a contar a historia exatamente do ponto onde parou. Como se estivesse gravada em sua memória. Pronta e finalizada, formulada e cunhada em seu idioma pátrio, que não podia ser dito por que ninguém entenderia, esperando alguém apenas apertar o play. Alguém que tivesse o mesmo nível de cumplicidade geográfica e sensibilidade. Ela dizendo tudo com a maior espontaneidade,
__ Naturlisch. Cheguei até os Alpes de Kombi. O Samuel pediu um serviço de cozinheiro no hotel onde eu trabalhava. Não conseguiu como cozinheiro, mas eles o admitiram na lavanderia. Um tempo depois eu o Samie já éramos amigos. Dias depois éramos cúmplices, entende?
__ Entendo.
__ ...uma cumplicidade de forasteiro. Depois ficamos mais do que cúmplices e nossas conversas terminavam na Kombi.
Eram nove e meia da noite. O sol se colocava lá fora sobre a vila em estado incomum de alerta. Podíamos falar o que quiséssemos, enfim, somente eu e ela falávamos português ali. Paolo deu um grito para nos chamar, em dialeto tirolês, enquanto eu descascava batata e o Miguel às lágrimas, picava cebola. E a história daquele arquivo morto ficou ali mais uma vez, congelada naquele momento.

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(c o n t i n u a . . . )

terça-feira, janeiro 20, 2009

Noites Adentros, NY

p a r t e 5A Gi falou bastante, mas não me disse muito aquele dia. Contou fatos específicos. Alguns até bem suigeneris, por exemplo, o fato de ela ter sido parida em uma tribo de índios. Seu pai, antropólogo e sertanista alemão, enquanto ela nascia na oca, participava lá fora de algum ritual-para-ser-pai com os outros membros da tribo. A mãe deu-lhe o nome de Apuã, que quer dizer água de chuva. Eu brincava que em Belém ou em Londres ela se sentia em casa, (na verdade era uma brincadeira de mau gosto porque ela nunca mais voltou, desde que saiu da tribo, quando seu pai a levou furtivamente para Belém, desde que saiu de casa, acho que ela nunca teve casa). Na cidade seu pai a registrou como Gislene Hildgert. Estudou em colégio de freiras onde aprendeu a fumar. Seu pai voltou para a floresta e já devia estar quase na fronteira com a Colômbia.
Aos dezesseis anos fugiu pra São Paulo, com um primo, ela dizia que era primo (como primo? se ela nasceu na aldeia e era a única filha de Karl Hildgert). O filho da mulher que cuidou de mim ela dizia, o Juca, João Carlos. Tudo bem, tudo bem, foram pra São Paulo. O Juca foi assentar tijolos. E tempo passou. Ela conheceu uma trupe piauiense que se encontravam na mesma situação que ela, sem dinheiro e sem trabalho. Planejavam se tocar pra Portugal. Ela juntou-se a eles e foi. Ah, o Juca também foi.
Desembarcaram em Lisboa dia dezenove de fevereiro (lembro porque é o dia do meu aniversário) de 2001. Eu completava vinte e seis anos, enquanto ela aportava em terras lusitanas com apenas dezoito. Sagitariana do dia oito de dezembro. Sei por que guardo bem datas e nomes.
Em Portugal, seu “primo” Juca, pedreiro de carteirinha, foi direto para a construção civil. Depois de um mês morando em condições subumanas (morava em um quarto de 6m² com mais três rapazes), por causa de sua beleza fora do comum, foi convidada por uma portuguesa a trabalhar em Peniche, em um Hotel. Florbela, a portuguesa, era agente de viagens e fazia esses trambiques. Também convidou a Mel, outra brasileira, para trabalhar nesse mesmo hotel.
Passaram três dias e Mel e a Gi Foram embora, sem se despedir de ninguém, como haviam combinado com a Florbela, de forma que agora ninguém mais sabia o paradeiro delas. Contavam que alguém as esperasse em Peniche. A Gi acreditou na Florbela porque se apaixonou com seu nome. Lembrava as flores da Amazônia e era uma lembrança boa.
Chegando a Peniche, um rapaz as esperava na estação de ônibus. Isso as deixou aliviadas. Foram conhecer suas instalações e seu serviço. O hotel ficava a 500 metros do centro da cidade. Coisa chique, hotel de grã-fino. As meninas adoraram. Peniche é uma cidade linda, rodeada de praias. Fica em uma pequena península ao norte de Lisboa.
Passados dois meses e a Gi criou o hábito de passear na areia da praia, depois do trabalho. Foi quando conheceu o Samuel. Sentada em um banco à beira-mar.
__ Que lindo a amar, eh? – disse Samuel à menina, tentando falar o português. Ela riu e o corrigiu.
__ “O” mar.
__ Uhm.. la mer la mer... O mar. – e disse meio que pra si mesmo como que treinando – que lindo o mar, ahm ..?
Sim, claro. Como não reconhecer a beleza do mar em sua vastidão? Ele não falava inglês. Ela, no colégio das freiras, aprendeu o inglês. Ele não falava o português, mas se esforçava para aprender. Por ser de Le Mont, nas montanhas e por conta da proximidade fronteiriça, ele falava o alemão. Ela compreendia o alemão, por causa do pai, mas não falava. Ela nunca ouvira a sonoridade do francês. Então, pela primeira vez, eles conversaram em um idioma inventado, no qual descobriram que podiam se comunicar. Ela disse que era brasileira, ele contou suas aventuras desde a França até ali de Kombi. Disse que a namorada o deixou para viajar pro Brasil. Alimentava uma espécie de amor e raiva e admiração pelo Brasil.
__ Je n'ai pás plus Geld. – Não tenho mais dinheiro. – ele choramingava. O Sam era cozinheiro profissional. Havia muitos brasileiros em Portugal, mas não em Peniche. Ela sentia-se só. Já não tinha mais assunto com a Hermelinda (era o nome verdadeiro da Mel, que jurava que matava quem contasse). Os dias de maio pareciam intermináveis.

(continua...)
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Josephine Baker

Mulher Maravilha

segunda-feira, janeiro 19, 2009

El pero del mar

Noites Adentros, NY

p a r t e 5
Eu tenho apenas um medo, mas é tão difícil de mudar. O medo me perseguia desde o começo dessa viagem. A sensação de solidão, olhando pro cume dos Alpes, acentuava esse medo. Ou talvez fosse apenas o frio que me deixava assim. Medo de me aproximar demais. Perto demais de alguém, o suficiente pra que ela pudesse ver minhas fraquezas, minhas feridas que ainda não curaram, e minhas cicatrizes, marcas eternas. O meu maior defeito contribuiu com minha maior virtude. Fujo das pessoas que não pensam a vida como arte, fujo de mim mesmo. Atavismo medieval, de quando a arte ainda não existia, de pensar-me apenas um artesão de letras, um embuste, um engodo, um disfarce.
(Essa seria uma viagem interior. Eu pretendia ir até Nova Deli, e seguir pela fronteira da índia com o Nepal até a China, até onde eu pudesse. Queria chegar a algum lugar, não sabia qual lugar. Pretendia sair caminhando, de trem, de ônibus, de balsa, de canoa, de mula, de caminhão – do que fosse. Passaria a vida viajando.)
Até então tinha chegado a Tirano que já me parecia o fim do mundo. A viagem de trem foi tranqüila e calma. Só o nome da cidade me assustava.
Mas ela me chamou com os olhos, e eu fui. Traindo a razão e seguindo os instintos. Por um instante seu sorriso lembrou-me Josephine Baker, porém muito mais belo silencioso e carismático. Olhei meus amigos, Juan, Angel, o Miguel e o Kim, de Madrid. Eles conversavam efusivamente e riam efusivamente. Eram assim, sempre que não estavam cansados demais. Então me levantei discretamente. Saí da mesa e fui até o balcão. Sentei-me ao lado dela e continuei em silêncio.
__Sua língua está roxa – ela disse. Ah... como era bom ouvir a minha língua, pensei, sem me dar conta do trocadilho. Suas palavras soaram como uma suave melodia aos meus ouvidos. Depois de muito tempo trancado no silêncio de mim mesmo, falar minimamente era difícil. Nesse capitulo da minha vida até então, estava convivendo comigo mesmo. Falava pouco com os amigos. Ria às gargalhadas, mas falava pouco. Era contido e tido como introvertido, por isso quem me conhecia não se preocupava com isso. E quem não me conhecia, muitas vezes, sutilmente, ficava sem resposta. Então eu podia curtir a minha solidão sem desgaste, mas confesso que já estava cansado disso.
__Aaaaaaa! – e mostrei a língua.
__Fale mais – ela disse.
__Falar o quê, senhorita? Ainda não disse nada.
__Você é brasileiro, não é?
__Façamos o seguinte – propus – Você fala de você tudo que gostaria de saber sobre mim. Depois falo eu, certo?
Então ela começou, desde a barriga da mãe. Ouvir a sonoridade de sua voz era um alento. Algumas breves interrupções para acender um cigarro, beber um gole de vinho, pensar um pouco e recomeçar. Suas histórias se entrelaçavam, como que querendo dizer alguma coisa além das palavras, nas entrelinhas, além das pausas, na respiração, no tom. Era uma narração bonita e poética. Até que a porta da taverna se abriu, parecia frio lá fora, um homem alto e corpulento veio em nossa direção.
__É meu marido. – ela disse baixinho como quem conta um segredo. Eu não havia percebido a aliança em seu dedo. Nem me dera conta disso, apesar de ouvir com interesse o que ela falava.
__Vamos nos reunir amanhã para ver uma apresentação de fotos do Paolo. De sua expedição ao Everest. Amanhã, oito horas na nossa casa. – prosseguiu – Pensei que você e seus amigos gostariam de ver.
E me entregou um bilhete, Via Sant’ Alberto 30.
Interessante. Já conhecia o Everest, mas, depois de tanto tempo sem ouvir meu idioma, depois de tanto tempo sem pensar em sexo, depois de tanto tempo calado, é claro que eu estava interessado. Eram onze horas e começava a escurecer totalmente. Olhei pros rapazes que estavam pagando a conta à garçonete.
__Vamonos muchacho! Mañana, un otro dia. – disse Miguelito e me puxou pelo braço.

(Continua em breve. Tudo que a Gislene me contou sobre sua vida, tentarei reproduzir)

ps: não sou um narrador onisciente.

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sábado, janeiro 17, 2009

Noites Adentros, NY

p a r t e 3
Eu & Gi Cold Case - beginnig...




Conhecemo-nos lá mesmo em Tirano. Estava em Le Mont, na casa do Vincent (o Vince), perto de Chamonix. Uns amigos de Córdoba, Espanha, me convidaram para viajar com eles até Tirano. Eles planejavam subir o monte Cima Coppi, escalando primeiro o Passo Gavia. A temporada tinha sido proveitosa para os cordobeses. Eles haviam escalado o Mont Blanc e agora íamos passear pelos Alpes e descansar. Logo ao chegarmos, apaixonei-me com a cidade, diário de bordo. Buon giorno! Parecia um fim de mundo no meio da Europa. Na primeira taberna em que fomos à procura de alimento (pane e vino, pro corpo e pra alma) dava pra ver a Madonna di Tirano, uma linda montanha alpina. Aos poucos outros grupos de viajantes e nativos chegavam. Comíamos muito e bebíamos muito, mas nunca perdíamos a altivez e de repente o bar estava cheio. Um confinamento aconchegante para esquentar essa lembrança. Quase não se ouvia a própria voz, por conta d tanta gente no mesmo lugar, pequeno e agradável. O vinho esquentava os ânimos.
__È un ateo che alzare la mano ! Quem for ateu levanta a mão falei em italiano, mesmo sem esperar resposta. Todos pararam de falar e me olharam - uns com cara de chôro outros com cara de inquisidor medieval e então alguém começou:
__Io. Sono ateo comunista! – falou em bom tom um cavalheiro muito bem vestido para ser confundido com um comunista. Apoderou-se dos olhares e começou a nos contar uma história. Disse que quando criança seu pai era comunista na época do ditador Benito Mussolini. Certo domingo ele não queria trabalhar e usou o argumento que todos aprendem desde cedo Deus criou o mundo em sete dias. No primeiro dia... e no sétimo dia Ele descansou.. e o jovem senhor continuou sua história
__e io ho detto “Papà, ma anche Dio si riposò di Domenica” até Deus descansou no domingo e continuou - e mi ha detto - e o seu pai disse
__ “Dio è un pigro” Deus é um preguiçoso – replicou o papà
Desde então o menino passou a não acreditar em Deus além de manter por Ele certo desdém, de quem deixou de jogar futebol com os amiguinhos no domingo para, sei lá, juntar lenha, cortar mato...
Bem, depois de ouvirmos atentos e emocionados a dramatização daquela história, tão bem contada por aquele homem (ele já devia tê-la contado um milhão de vezes para justificar seu ateísmo), voltamos a beber vinho.
Entramos todos então nessa infindável conversa sobre religião e cada um contou uma e outra curiosidade que sabia. Sobre o implacável Pio XII, de como a revolução protestante contribuiu para a expansão do comércio pela Europa. Eu disse que Lutero rompeu o dogmático pecado da usura quando pregou na porta da igreja suas 95 teses. Ninguém disse nada. Continuei dizendo que aquilo contribuiu muito para a evolução dos meios de comunicação. Todos começaram a falar ao mesmo tempo e parece que todos se entendiam. Foi quando eu percebi que a Gislene olhava para mim. Então olhei para ela e para aquele falatório que, ouvido de longe, parecia o início de uma briga. Olhei de volta pra Gi, e ela sustentou meu olhar.
(continua)
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Noites Adentros, NY

p a r t e 2 A Gi não tinha sotaque, ou eu não percebia mais o sotaque da Gi. Somente quando ela falava outro idioma é que me vinha a memória auditiva da sonoridade aguda e desconfiada de Belém do Pará. Mulher que mantinha no olhar sempre uma expressão muito séria. Isso não quer dizer que levava tudo a sério, principalmente a mim. Quando conversávamos, não havia estranhamento lingüístico, de forma alguma. Uma mulher forte, corpo escultural. Cuidava da saúde, apesar de dar uns goles uma vez aqui, outra ali. Acordava bem mais cedo do que eu e comia alface no café-da-manhã. Nas últimas semanas eu não conseguia dormir direito, desde que saímos do Brasil, a luta que foi até nos ajeitarmos. Agora, toda essa mídia, a TV latina querendo me entrevistar novamente e o Canal 4 também se manifestou. Depois de ter escrito sobre a maldade, escrevia agora sobre a falsa bondade, ou a boa falsidade, o que é ainda pior, todos gostaram. Pessoas demonstravam maior interesse nesse tipo de maldade velada, nem Tennessee Williams nem Nelson Rodrigues, nem Eça nem Machado. Diziam que estava inaugurando um novo estilo literário e tudo que eu fazia era apenas escrever. O que também faz parte da hipocrisia. Mas, Voltando ao assunto Gislene, ou simplesmente Gi, ela foi casada com esse italiano que falava alemão. Nunca entendi essa miscelânea toda de história (o porquê dos porquês) e também esse lance da comuna de Campione d'Italia, uma área no território da Suíça, de língua italiana, que pertence à Itália (?). O velho mundo...
(continua pela história da Gi. Dando voltas...)
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Noites Adentros, NY

p a r t e 1 _ e x p e r i m e n t a ç ã o
Grenwich Villge - Big Town, small jazz Club...
__mais um Martini! – ok, gesticula de longe o garçom como se entendesse português.
__você tem dinheiro pra pagar toda essa conta? - e dá um trago no cigarro.
Se eu não tivesse dinheiro não passaria nem na porta. Meu editor reservou a mesa, pois conhecia o lugar – o tradicional Village Vangard, na 42 com Park Avenue. Eu ia pagar com os duzentos dólares que ele me deu pra passar de quarta pra sexta. Bem, aquela seria a conta da semana.
Os músicos tocavam Flamenco Sketches enquanto eu sonhava em dormir naquele apartamento em que estava alojado, bem na ilha, e não era do Governador. Pensava na vista para as luzes da cidade e um pedacinho do mar que chegava ao porto. Ali perto, a estátua da Liberdade. Era um sonho se realizando. O Lloyd já devia ter ganhado uma nota com as entrevistas que dei pro jornal e a TV. O Steve não saía da minha cola e eu já estava claustrofóbico, não fosse a idéia de dormir naquele apê.
O jazz havia subido à cabeça, ou seria o Martini?
__Eu sou um escritor! Você acha que eu não teria dinheiro depois de publicar meu livro em quatro idiomas?
__Três.
__O Lloyd tá negociando com os franceses uma edição pequena.
__Você não odiava os franceses?
__É que agora eles pagam em Euro. E eu nunca odiei ninguém. Odiar não é um sentimento legal.
Fez-se um silêncio irritante, durante sei lá quantos minutos. Os músicos improvisavam e parecia que a música nunca mais ia acabar. Cada solo era mais longo e mais bonito que o outro, mas o trompetista não conseguia arrancar aplausos. Acho que não se usa isso mais. Estamos em decadência. High Lights from The Plugged Nikel. Era preciso dois pulmões para permanecer ali.
__Vamos embora, não aguento mais. – a Gislene, ou simplesmente Gi, já havia bebido sozinha uma garrafa inteira de vinho californiano.
__Ok. Vamos só ali, comer um pastel. – o pastel que eu dizia era um Kebab, em um restaurante 24h, o Tripoli, em Little Italy. Pegamos um táxi e fomos. A conta do bar deu 114 dólares e 94 cents. O taxista era português. é pá!
Eu estava meio cambaleando, mas a pimenta com certeza ia me deixar de pé. Depois, não era longe de onde estávamos. Dava para ir caminhando, iluminado por aqueles telões gigantescos, e, ainda àquela hora, mais ou menos duas, haveria muita gente na rua. Por volta de meia noite, quase uma, parecia meio-dia.
A Gi era paraense, neta de índios e filha de um alemão expedicionário. Carregava o mesmo espírito errante que ele levava quando foi se embrenhar na Amazônia, e no sangue, a bravura de uma guerreia silenciosa. Ela já havia morado na França e na Itália, próximo à fronteira com o cantão alemão da Suíça, em Tirano à beira do rio Adda, na região dos Alpes. Por isso falava Schweizer-Deutsch com longíncuo sotaque paraense.
(depois eu continuo com a história da Gi...)
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sexta-feira, janeiro 16, 2009

Sonora


Oi, Raposa do deserto, idéias mortas. Ontem tive um pesadelo. Quem de fato sou eu pra você? Uma gota d’água no cacto gigante? a gotícula, gota, a gotícula de orvalho que sacia e dá vida do verme aos pássaros, inclusive você. Enquanto nas florestas tropicais, grandes pererecas no topo das árvores descem pra se acasalar. O que eu significo, além dessas palavras? grandes palavras. Vergonha? enredo? coração? cheiro de medo? perceptos? afectos? translúcido opaco raro ou comum? não responda. Apenas uma cabeça agonizante cáustica lancinante, a cicatriz risonha suave e corosiva? marcado no seu corpo à carne viva? um pa de deux consigo mesma? não adianta. E se me expresso cafezinho , um pão-de-queijo bem quentinho, derretendo lágrimas & palavras no diminutivo da manteiga. Un ange en danger? Um anjo em perigo ou o perigo do próprio anjo? uma mancha de tinta? um olho? dois olhos? três olhos assim? coelhinho da páscoa, que trazes pra mim? um signo um índice um ponto ao acaso? Signos e sinais um peixe código ideograma hieróglifo? amores vão amores em vão amores vãos, caderno de notas? verdade na letrinha da tinta verde tinha trinta. Dor no gozo, tela papel e lábio silencioso. Se fosse adjetivado? temperança, desesperança, ilusão, paciência, virtude ou mal? nada dual, casual. Holocausto Haldol. A brisa gelada entre os lençóis significa a ordem das palavras. Sentia que me chupava cada vez mais e mais branca e alva pele clara entre os lençóis. Solidão e nudez, sorriso afônico.. Os entremeios fim, início. Homem de Apolo Dionisío gozo retidão, lamúria nudez loucura sonho e solidão.

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quinta-feira, janeiro 15, 2009

Capital da Rodésia

Enfim, a parafernália indecifrável e caótica do tempo deixa ferida escorrer passado. Então acende mais um cigarro. Mesmo cálido e calado o seu grito é válido. No desprazer que abisma, sua alma esvoaça, retarda o tempo, pára. Faz-se ouvir um sussurro. Um frêmito efêmero frenético que dispara. (Nas noites de domingo pra segunda, tem sempre alguém dando a bunda). Água vazando em algum canto me diz que é hora de ir. Um grito obsceno vem do alto, de onde ouço som de congado. Vendo cego meu mundo no claro - como obra inacabada. Vendo a inocência de qualquer coisa q ainda não vi. Mas que me doeu saber que existe gente assim nesse mundo. Mesmo que absurdo, jamais pensei que um ser humano fosse capaz de deixar o outro ir morrendo aos poucos, cruel, ébria, sorbeba e lento cada dia parecia noite e os horrores eram poucos comparado à madrugada. Nada mais faz mal se você se entrega ao silêncio of a dawn. A rua está deserta mas todo mundo te flagra. Você não é mais o mesmo. Você não tem mais respeito. Não é mais aquele menino-zona-sul que eu conheci, virou favelado e agora sempre será, sempre.
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Blue lines for a drunk lady

Tertúlia blues

Sofro de um mau concreto
Mal concreto verso faço
Padeço rima e plectro
Cesso meu passo

Desço ao fim
findo fundo
fim do mundo
mim desnudo

Foge de mim meu próprio fogo
água que apaga meu ego
mesmo assim
não mudo
surdo
e cego

Ressalvo Deus
pasto como animal
monossilábico eu
transcendental

rimo mim comigo
se consigo
sigo

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Sinapse

mercado central de Letícia, Colômbia - Pinhole

Sinapse

eu preciso de você
meu cérebro precisa
de você
meu corpo precisa de
você
preciso que você não
recapture a cerotonina
deixa que ela flua legal
entre os meus neurônios
pro sangue fluir legal
nas minhas veias
pra eu poder ser
um menino legal
por favor atenda o meu
pedido
Oxúm maré que espanta
o mau olhado

Rebel





Livre do dia


Nesses dias não me sinto muito bem. Sem libido, sem vontade. O sábado e o domingo passaram sozinhos. Há alguma coisa que não encontro a buscar nos instintos, a buscar nos livros, a buscar no dicionário, a espionar o abismo. Esqueço coisas que vão à velocidade infinita do pensamento. Pontes desabam entre um pensamento e outro. Outrópico. Voa livre como pássaro. De volta ao horizonte sinuoso onde nos apaixonamos. Platôs e taças, a atividade torna-se o plano de imanência. Sinto-me tentado a sair por aí, desvencilhar-me das montanhas, ir além do círculo que se fecha entorno do meu umbigo na infinidade em que voa o pensamento. O exercício de mantê-los à razão de uma atividade diária. Somos "seres lentos". Em dias como hoje, ouvi barulho de avião, atendi duas vezes o telefone, e vi, com peculiar distorção, algo que parecia ser Realidade. Na tentativa vagarosa de me adaptar a isso.

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8205 Nova Granada


Diante de Deus somos igualmente idiotas, igualmente sábios.

O tolo olha pro dedo, o sábio olha pra Lua. É preciso ser vidente.
Fulana diz:
Você eh vidente?
Gustavo diz:
Sou

Gustavo diz:
eh preciso ser vidente para intuir as relações cibernéticas.
Fulana diz:
E as outras coisas da vida?
Gustavo diz:
Sabe, nunca sei quando uma relação vai dar certo. Não avalio, calculo, planejo. Sou poeta. Mergulho muito fundo nos meus instintos. Não consigo utilizar esse traquejo tradicionalmente feminino.

(Pausa dramática)

Gustavo diz:
eu falo por mim.
Gustavo diz:
naum digo que homens são como eu.
Gustavo diz:
muitos planejam calculam e avaliam, até as mais sublimes futilidades.

(“Silêncio reflexivo” prestes a atacar)

Fulana diz:
Faz o seguinte
Fulana diz:
vai pra essa festa, vai ter um monte de gatinhas bêbadas lá, com peitiéééénho, você leva uma delas pra casa e trepa.
Gustavo diz:
vc eh taum dinâmica. Eu não ligo pra peitinho.
Fulana diz:
ah, isso é bom.
(a minha intuição é que ela não tem peitinho)

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segunda-feira, janeiro 12, 2009

Tag der Blume


Vou me despindo do passado. vou me despindo das coisas que atravancam meu caminho, eles passaram, eu passarinho. efeito cebola. vou me despindo das coisas ruins e relembrando coisas boas e fatos alegres, pequenos momentos felizes que não observei direito naquele momento.. vou esvaziando minha mente das coisas do passado foi o eu que ficou para trás. registrados meus erros e aprendizados. mágoas mútuas que hoje são pretérito. hoje minha voz fala somente o que pondera meu ser racional, creiam. não digo que me santifiquei de outra pra outra, mas, sou dono da minha fala, responsável por minhas palavras, responsável pelos meus atos perante o Deus que há em mim. Diante de Deus perante a mulher perante a lei a moral e o espelho. a casca vai saindo e deixando a velha pele pra trás. cobra que não anda não engole sapo. um corpo umedecido e renovado ao sol d Sonora. saudade assim meu remédio escreve. descompacta e desmemoriza. digo assim palavras essas poucas, cansadas de sofrer, ocas vagam. Despindo o véu da saudade em planos verticais horizontais diagonais. no silêncio da quinta dimensão. assim melhor. metas vezes a sina desde que o céu possa sonhar. assim como um vento eólico erosivo dilapidante. diga ao tempo que lálálá.
>¨<

Traum

Para ler ao som de Chet Baker - Round Midnight

Estive doente. Estou doente. Das coisas da vida. Você não sabe o que sofri. Não me interessa saber quem sofreu mais que eu, isso não é competição. Se você não se interessa por minha dor, passa com indiferença, quê fazer? foda-se. Dê-me forças para aceitar e aceitar o que há em mim, esse monólogo interminável. Psicótico, sociopata, suicida. Dessa maneira é fácil ser iconoclasta, marginal, anti-social, anormal, desencaixado. Abro a janela que dá vista para o céu. Observo o movimento das nuvens. As mãos raladas de beijar no asfalto e a língua rasgada desse mesmo beijo. As pessoas normais guardam seus problemas emocionais e suas neuroses em casa. No ostracismo do quarto, coloco fragmentos no papel ao custo de más recordações, e lágrimas. A ambientação, o percepto - a sensação de noção de percepção. A dor na coluna de ficar muito tempo deitado, sozinho. Sonhando, homo-ludens. Sinto falta de um Adeus, porque fiquei vazio de Adeus. Como se eu fosse invisível, como se eu não existisse. Uma tempestade em meu universo. O sol parece triste.
Sinto falta de mim mesmo
da metade que levou quando partiu
Como membro que se regenera
outro a ser o que era
O mundo é inerte. Abram as janelas, deixem o ar entrar. Deixaram que noite caísse lentamente, novamente. Não tente entender a minha dor. Viva sua ascensão na Francis Bacon Road. Cabedal de informações inúteis.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

sobracidade

A cidade meio nula meio morta que açoda, quando o céu escurece faz-me entristecer. Todos Esses anos, desde q mudamos, não cheguei a nenhuma conclusão. Morávamos num prédio inacabado q um dia foi uma escola, erigida para abrigar sonhos, dramas e romances das mais variadas formas. E uma dose de loucura nisso. A disposição aleatória das paredes. Não ouso chamar esse teto que nos abrigava nas noites de verão, pelo epíteto de apartamento, melhor chamá-lo de cela. O pé-direito alto evocava ares de ateliê. Onde fui à sombra de mim mesmo, sombra de uma pintura noites adentros. Pressuponho que, se te contam um segredo e você está disposto a não contar o segredo, você se sente importante. As coisas devem fluir, mas não como quer quem? sei lá... O medo é cultural? E se se abstrai dessa cultura enraizada, se se morre filosoficamente sem enlouquecer? loucura bandida acaba por aprender a sobreviver e tudo parece normal, tudo parece quase irreal, mesmo a dor ou angústia se tornam mais suportáveis. O silêncio que reverbera sem se despedir. De madrugada, a porta do quarto se abre e aponta um brilho de Lua. O sono vem novamente.

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PhD LsD

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Lip stitches


Uma espécie de horrorshow comedido aquela noite no H.P.S. em um subúrbio da cidade. Não podia imaginar que estaria ali naquele momento. Vendo aquela cena de sangue de um homem completamente bêbado com um buraco de bala na canela. Pude pescar que seu irmão, policial militar em trajes civis, puto da vida de ver aquela cena. Outro camarada, dentro da sala de sutura já havia levado uns mais de duzentos pontos corpo afora. Uma senhora velha choramingava enquanto alguns malandrinhos planejavam se vingar de quem agrediu o broder. E pééééémmm! Emergência! saem os médicos correndo para atender alguém que chegou pior que eu, pior que todo mundo. Não sei quando vou ser atendido. O meu caso era o menos grave, apenas um micro-corte no lábio causado pela insensatez da Valentina. Chamaram o médico de plantão. Por sorte minha veio uma médica que acabava de despertar. Não queria ser atendido por um daqueles médicos que já haviam costurado a noite inteira. Já eram quatro ou cinco da manhã. A bela doutora recém desperta me tratou com a maior delicadeza... Colocou o campo fenestrado. Aplicou anestesia local e suturou o meu lábio. Foi difícil explicar como aquilo aconteceu. Ninguém toma uma patada na boca por acidente. Valentina estava aplaudindo o espetáculo com indiferença. Uma heroína sexual dos quadrinhos não se choca com esse tipo de cena. Fria como um vento glacial. Dura como um diamante bruto. Depois desse dia passei a ver que nada mais a sensibilizava. Nada mais além dela mesma, além de suas próprias fraquezas, além de tentar esconder, mas não conseguir, suas emoções mais mórbidas. Foi assim que, tentando procurar o motivo dessa violência sem nexo, nas histórias que me contava, as quais eu juntava os pedaços, eu me perdi no labirinto do seu cérebro.

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Falsificação de pedigree


Sou um vira-lata. As mãos frias eram sinal da constante tensão em que vivia. Sintoma. Sintoma quer dizer também a queda, o acontecimento infeliz, a coincidência, o fim do prazo, a má sorte. As palavras agora são pó e cinza, espalhados na estrada do vento, e já se perdeu pelo ar. Sonhei que era uma sacerdotisa grega. Ria, calada e sóbria, um pouco além do padrão de maldade daquela época. E o sonho acaba. Um poeta ainda seria artista trabalhando na bilheteria de um cinema? O mundo dá-te um pouco de malícia e muita maldade. O Estado Liberal Democrático é isso. Fluxo de moeda corrente em pão e poesia não se mede. Suponho que haja coisas que retrocedem por si mesmo. A água encontra seu caminho. Devoro o que possa haver dentro de mim, raiva, ferida, mágoa, amor, dor com rima pobre. Caminhar é assim. Perco-me, às vezes, em vários personagens. Tristeza e Alegria co-existem num jogo de espelhos. Confecciono um quadro de memórias sem concepção de passado, não posso renunciar a nada. Construo uma nova roupagem para o ato da loucura. Sonhei coisas belas para o desenho da nossa trama, mas nossas almas só se encontravam na cama.

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Alphonse Gabriel Capone

Maysa

Mulher, meio bruxa meio sina meio pranto, meio deusa libertária e libertina, nessa lassidão tingida de espanto. Destino das almas pequeninas em sua grandeza, emotividade e poesia. Em busca da branca paz. Essa procura errante torna-se tola e contumaz. Almas marcadas, no fim das contas, é a própria busca que as encontra.

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quarta-feira, janeiro 07, 2009

Lei Seca


Uma festa pagã para um deus Pã. As horas passam e a dor não volta atrás, acelera. Um grito de mulher quebra o silêncio da madrugada, bem clichê. Correr como um lince, morrer no asfalto. Aquela noite não foi apenas uma noite, foi a noite da ‘lei seca’ em que uivamos pra Lua no terraço da casa da Bailarina. Sentia nas veias sujas de sangue sujo avinagrado aquele amor impossível, inviável e antagônico. Apesar de, por dentro, minha revolta com a vida, com o mundo, a minha revolta enlouquecida de álcool, de vinho, de cachaça, uísque e velho barreiro, ouvindo Billie Holiday, Chet Baker e Marvin Gaye... Não pude evitar tocar aqueles seios negros, perceber o amor estranho amor entre eles. Esse meu amigo, homossexual indefinido de muita força vital de homem, e um lado feminino estranhamente forte. Essa noite a Bailarina jogou as cartas para ele. Brindamos com belo vinho, cantamos em coro, choramos juntos à vida e à alegria. Também não podia definir That Black beauty psicanalisada, That Black beauty que já leu Feuberbach, Kierkgaard e os modernos Samuel Beckett, Vergílio Ferreira. Entende um pouco da vida, é médica e mora em Brasília. Aquela voz um pouco rouca e eu, um pouco louco. Não estava mais ao meu alcance entender aquele amor. Um amor de épocas passadas, um amor condenado, um amor tolerante, clemente, intenso e desumano ao mesmo tempo. Um amor que não encontra nada em si sobre ele mesmo. Que goza pelo cu. Que ama uma mulher e um homem. Não eu, ele.
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Pinhole Cafe

Ensejo. Continua aqui tudo aquilo que fugiu da minha cabeça pela rua, fugiu da pena e pela pena em que escrevo. Se não está aqui e se aqui estivesse e se eu estivesse aqui esse azul que preenche lacunas, mas agora você está próxima de chorar. Esse desastre doméstico e coisas mais complexas. Tudo que você prometeu sem ver. Arquitetos da Roche planejam uma pastilha-ponto-psico-caótico. Escrevo essa carta sob o crivo do olhar alheio. Falsificador de poesia para não haver censura redundante. Escrevo pensando no silêncio agora. Não digas que é o fim tentando não entender floreios e voltas, mas a dor mística encara seu fascínio. Seja minha, seja sua, seja, de quem for, do tempo vazio interior da letargia em contraponto ao tédio. Entrego-me à vida sem dúvidas e receios. Minha carta elaborada come palavras. Nada de redenção! e nenhum alívio. Mas eis que aqui estão! caídas como as harpias de Zeus, anjos do próprio demônio. Depois de algumas tantas tentativas, ter limite um tanto rebelde, a tendência de abolir o erro. Minha perda de fôlego é proporcional ao fôlego daquilo que duvido. O erro redefine a cor daquilo que propõe, secretamente. O ambiente das tragédias é o que move o mundo.

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Vertigo

Barcelona


?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪Urbanidade. ?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪0;�vanecem de soslaio. Estou semi �����������#0;0;&olhando?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪tudo e escrevo. Poeta de café, actinta em apuros. Em casa não há ao sol, E r em mim, meus olhos,a meus movimentos, meu rosto. A miséria hoje me perseguio sol, caído no chão com a língua de fora, a rádio Itatiaia informa. O homem do subterrâneo emerge nas ruas sem destino. De repente me sinto palidamente constrangido. Não com o movimento da rua e os transeuntes mas comigo mesmo. E parece transpa⨪⨪⨪⨪r em mim, meus olhos, meus movimentos?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪, meu rosto. A miséria hoje me perseguiu?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪Lá vão eles procurar sapatos e deliberam o dia com moedas com&amp;#0;��������������&#;ara mim,����������������&#
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segunda-feira, janeiro 05, 2009

Unkown

Continuação

Os pratos se quebravam e não era um casamento grego. O Cigano esteve aqui na minha casa e eu lhe presenteei com uma foto, uma revista, uma meia e uma cueca. Era noite de esquecer-se de tudo, o começo da decomposição. De esquecer você e extirpar com a navalha alguns miomas intelectuais, além de simples objetos. É domingo de outono, você vem me ver, mas a gente não se vê há dias. Não tenho coragem de dizer que conheci uma pianista. Um poema vago um verso descolocado. Você não possui mais o poder sobre mim, mas, não sei de q forma ainda me sente seu amante. Aprendi meu anjo, a te esperar assim como quem espera uma aparição do etéreo. Cansei. Nunca se acaba o ciclo da frustração. O ego viaja na brisa desse triste deletério. A mesma brisa que faz folha velha cair. Verdades que não são faladas, verdades relativas, verdades retroativas.

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