sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 5 Umwertung aller Werte

As necessidades animalescas do além-homem, ominosamente somem quando se toma consciência das ilusões duradouras. Mares e oceanos, desertos e florestas, ventos que sopram sobre a face da Terra, tudo é impermanente. Uma massa anônima e sem herói que tudo sintetiza e faz girar a roda dos esquemas. Além das ilusões de transcendência, vão encontrar traços genéticos no amarelo ouro-enxofre do tempo dos meus alfarrábios esporrados. O primado das éticas deontológicas busca apenas o bem-estar, e passa longe do tema felicidade. Não quero fazer uma longa digressão sobre cada lugar que percorri. Da mesma forma como não posso ser breve na descrição do caminho desconhecido. Pode-se começar uma história pelo meio, avançar e retroceder, desembrulhar ousadamente um teorema, um teorema edipiano. Pode-se eliminar toda e qualquer menção a tempo e distância, e no final proclamar, ou deixar que alguém proclame, que na última hora resolveu-se o problema do espaço-tempo. Syed, o paquistanês, estava me esperando em Barabanki. Em um veículo multicolorido e após dez dias de viagem, consegui chegar a esse vilarejo indiano na fronteira com o Nepal.
Nova Yorque agora figurava apenas como um nome no meu caderninho financeiro e fazia lembrar minha filha, a Pixie. Não sei se ainda podia chamá-la de minha, my sweet little doll, minha bonequinha. Disse que um dia a levaria ao Tyffany's para tomarmos café da manhã.

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L e t z te K a p i t e l...

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Seulement à donner

O véu que encobre nossos pensamentos. Sabe como quando você procura uma coisa e não percebe que ela está na sua mão. Apenas uma voz, apenas palavras. Apenas um desafio de deduções pairando no ar, um vazio. Como as águas turvas do rio, feito o silêncio da madrugada coração batendo, lágrima se expondo vento soprando. As pessoas não se aproximam não se comunicam não se permitem porque a desgraça humana já se instaurou, e a miséria psicológica. A cabeça despedaçada, as emoções em frangalhos e uma gigantesca colcha de retalhos. Cada pedaço conta uma história, que só eu sei. É humilhante comparado a muita dor e muita dor que não há como comparar. Cada pedaço foi bordado sem ritual sem concessão sem benção de padre ou pastor alemão. Em nosso castelo, as ilusões que o camburão levou algemado, que o gato comeu a cabeça do passarinho. Momentos roubados em que eu mesmo fui o ladrão de cada entardecer. Como não consigo, deixei de tentar ser humano. O ser humano deixou de tentar ser amado, no ciclo da frustração. Sentimentos imensuráveis, à contradição inexaurível. Conheci uma menina incrível, amável, mas como é possível? Como é possível que nem possa ver através dessa tela? Como é possível que a micronização do tempo tenha assombrado tanto nossa cabeça que nada entra apenas pelos ouvidos porque tudo está poluído, tudo é substituível, tudo é revestido de tabu e erotismo, tudo é subvertido e descartável.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Beijo Salgado

Todas as minhas histórias de vida e de morte em vida são um tango rasgado, um nó na go-e-la, uma ruptura sem gesto, gosto sem o vodka, um tiro sem disparo. Dias em que meu desjejum era ao sabor amarelo do Bourbon, ao gosto das várias gerações do Tennessee, ao meu gosto irlandês contumaz. O café, a manhã, o dia. Então uma noite se acabava no recomeço da outra. Anjo invisível no véu cor-de-laranja, das nuvens, bêbado de ilusão. Cada um de nós dois cometeu seu ato autodestrutivo. Meus olhos não escondem mais nenhum segredo. Brevissilenciando um cenário que EU jamais veria. Tenho tido dias ótimos.
__Vai à merda! – falei com as mãos.
Sensação de ter perdido as origens. Não importa.


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domingo, fevereiro 22, 2009

Noites Adentros, NY

p a r t e 4r u m o a o i n f i n i t o
Encontrei-me com
Adele a meio caminho de casa. Ela não explicou nada, mas contou-me que sempre coisas estranhas acontecem em Saint-Denis, apesar de aquilo ir além do estranho, além do próprio além. A minha vida sempre foi escrita ao contrário, em um vôo inacabado enquanto há footprints no ar, indicando o caminho de volta. Há muito tempo Adele não dançava profissionalmente. Fazia parte de uma companhia holandesa itinerante. Morou algum tempo em Amsterdã e acompanhou a trupe por cinco anos, até que um dia cansou-se. Cansou-se das gaitas de fole, cansou-se das trombetas que tocavam pra anunciar a entrada da princesa fada, cansou-se das labaredas e dos cuspidores de fogo. Aquilo estava ficando mambembe demais pra qualquer pessoa de sã consciência. Apesar de que na sua época ainda não havia acrobatas, apenas coreógrafos. O Cirque du Soleil aproveitou o CD e adicionou os acrobatas, os panos e etc. quando a companhia quebrou. Os antigos donos, Edwin e Adda van Hanegem, mudaram-se pro Rio em pleno carnaval. Agora o grande mágico suspendia no ar o sorriso amarelo da lua, meio triste. Defeitos e mazelas, realidades paralelas, objetos inanimados, palavras, homens, mulheres, meninos. Hoje eu me senti mais velho quando acordei. As pessoas estavam desertificadas. Eu já tentei de tudo, além do que eu meu estômago podia aguentar, além dos costumes, além dos cabelos loiros, além da colonização ocidental, nas quentes entranhas das florestas subtropicais para além dos desertos gelados. Talvez essa ligação eterna, impermanente e de face ao infinito, mas acho que os tibetanos não iam gostar mesmo de mim. Ou sim. Por isso me desliguei dessa obstinação e fui encontrar com Frank Delfino, um camarada que vendia perfume francês falsificado na capital da Rodésia, e de lá levava pra Genebra um pacote de heroína batizada. Era um tráfico miúdo, além de outras transas inofensivas, como cambio de moeda, venda do ouro derretido de objetos roubados... Ele passou-me o precioso contato de um guia paquistanês. Estou novamente na estação, fumando um cigarro e esperando o trem.

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c o n t i n u a...

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Noites Adentros, NY

p a r t e 3_A d e l e
Na terra desceram os anjos.
Trouxeram consigo o deus-menino. Essa criança de olhos profundos, tão fundos que refletiam a face da morte, assim como o brilho da Criação.
Na Taverna éramos cinco, no total de bêbados, contando comigo. Quisera
aquela tivesse sido apenas uma alucinação ou um holograma, um engodo. Os anjos pareciam um pouco bons e um pouco maus, encarregados de fazer girar a roda da fortuna.
Até o momento havia tomado apenas um cálice de vinho, certo que bem cheio, mas a embriaguez não era tanta para me fazer ter alucinações, que inclusive seria uma alucinação coletiva. Como tudo aconteceu? Nos fundos da Taverna havia uma antiga adega dos girondinos, antes de populares armados invadirem o Arsenal dos Inválidos, e em seguida a Bastilha - portal que os aprisionava. A revolução estendeu-se ao campo e com maior violência. Camponeses saquearam propriedades feudais e queimaram castelos. Poético... queimaram castelos. E ali, naquela bodega estávamos. Aquele fora ponto estratégico dos jacobinos que tentavam impor a democracia (assim como as democracias hoje elegem seus ditadores).
Orlando era um homem circunspecto, cauteloso e prudente, quase sisudo. Foi ele uma das testemunhas essenciais pra que depois daquala experiência sui generis, não fóssemos tidos como loucos. O bigodudo Orlando presenciou o instante fugaz, que durou apenas alguns segundos - se é que se pode mesurar a presença inexorável, cruel e desapiedada do tempo, diante do Eterno.
Um minuto perdido na imensidão do Espaço.
O que vi nos olhos daquele menino, é que ainda tentava sensações que me levassem à viagens intra-uterinas. Queria estar fechado em um quarto escuro para apenas sonhar em desvendar o mundo. A cegueira que me consumia revelou no tato que ainda segurava a mão do papai. Sonho acordado que também sou uma criança, que anda se equilibrando de braços abertos sobre um paralelepípedo. A mão do papai dava o equilíbrio.
Era noite de fevereiro.
Então, quando me perguntavam sobre essa noite e porque só agora resolvi confessar tal fenômeno, eu lhes digo – é porque desejo arrancar o véu que encobre o enigma dessa visão. Única claridade espectral que fez-se conhecer sobrenaturalmente, bem diante dos nossos olhos que não podiam crer.
Quando saímos ainda pasmos, passeamos à meia-lua suspensa no ar derradeiro, como um sorriso torto a vigiar nossos passos.

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C o n t i n u a...

Post Scriptum: Peço emprestado um verso de Augusto dos Anjos
Brancas bacantes bêbadas o beijam
Evoé!

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Functivos e Conceitos


1. O "Eu penso" com cabeça de boi, sonorizado, que não cessa de repetir Eu = Eu.

2. As categorias como conceitos universais (quatro grandes títulos): fios extensíveis e retrácteis seguindo o movimento circular de 3.

3. A roda móvel dos esquemas.

4. O pouco profundo riacho, o tempo como forma da interioridade na qual mergulha emerge a roda dos esquemas.

5. O Espaço como forma da exterioridade: margens e fundo.

6. O eu passivo no fundo do riacho e como junção das duas formas.

7. Os princípios dos juízos sintéticos que percorrem o espaço-tempo.

8. O campo transcendental da experiência possível, imanente ao Eu (plano de imanência).

9. As três idéias, ou ilusões de transcendência (círculos girando no horizonte absoluto: Alma, Mundo e Deus).

Giles Deleuze & Felix Gattari - O Que é Filosofia? Editora 34, São Paulo 1997 (pág. 141)

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 2 O deus-menino

Desceram os anjos do céu.
Bem, eu desejava que tudo fosse muito breve, rápido, passageiro. Esse foi talvez o meu primeiro erro. Como se tivesse pressa para atingir a iluminação, percebi que ainda não estava preparado para enfrentar as areias do deserto, cruzar montanhas escarpadas, vales, rios e bosques, e novamente viver como um andarilho, passando frio em noites geladas. É certo que sempre encontrei abrigo onde andei, mas às vezes, você está sozinho na cidade, na praça, nas ruas desertas, sem saber pra onde ir. Parece que o seu julgamento não vale nada, que sua moral não vale nada, o seu dinheiro não vale nada. Sua sabedoria é que vale nessas horas. Conseguia me esgueirar bem, em países com tendência à xenofobia. Tentando sempre ser observador invisível, mas como isso não é possível, participando, às vezes, consegue-se não se fazer notar. Um observador participativo é como Baudelaire que bebia apenas meia garrafa de vinho. O suficiente para deixá-lo um pouco ébrio, mas sóbrio o suficiente para observar como se comportavam os bêbados. Percebendo da forma como percebem, tentando sentir o que sentem. Tentando que falem com você como se já te conhecessem, da forma mais natural. Sem que você se force a nada, mas sendo humilde e no final da noite, tentando não ser o alvo das madrugadas escuras. Isso não é esperteza, é maldade é auto-preservação. Subindo as ruas da cidade da cidade, sem luz até Saint-Denis. A cidade luz ficava pra atrás, nas minhas costas, de modo que quem vinha pela frente era como que saindo do nada. Um vulto negro de repente se transformava em gente. Não devia ser bom também ver somente os contornos da minha figura em contra luz. Em Saint-Denis a chapa é quente. Até que finalmente cheguei na casa do minha amiga, Adele. Ela não estava. Deixou a chave embaixo do tapete com um bilhetinho com o um endereço pedindo que eu fosse até lá. O lugar era próximo ao cais da marina, perto do canal. Não cheguei a entrar em casa. Sem dispodição, fui descendo direto, pois já conhecia aquele endereço Taverne Orlando. Adele sabia que eu gostava das tavernas, mas não aquele dia, não aquela noite. O sol já se punha.

c o n t i n u a...

Saint-Denis

Vista de Saint-Denis ao entardecer
registrada a exatos três anos atrás

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Noites Adentros, NY

T e r c e i r a & Ú l t i m a P a r t e New York – Paris, 19 de fevereiro de 2010
Última Chamada


Vieram os anjos pousar na terra.
Convidei a Linda e a Pixie para irmos à exposição do Nicolas, namorado do Lloyd, meu editor em NY. O Nick tinha a estranha mania de pintar o rosto das pessoas. Gostava de mostrar com a sua tinta, o quanto era capaz de nos exaltar ou humilhar, e nos transformar em anônimos. Pegue o cup-cake e me passe a navalha – era o título da exposição, traduzindo Take the cup-cake and pass me the razor. O Lloyd me disse, durante o vernissage, que onde eu estivesse que continuasse a escrever e me desejou boa sorte. Mandou que eu me cuidasse como se fosse meu pai e como se eu fosse um menino. Disse que jamais me esqueceria como se jamais fosse me ver, e prometeu depositar aquela grana na minha conta (eu vivia da pequena herança que recebi de meu pai). Na verdade, o Lloyd queria mesmo explorar qualquer rascunho que eu escrevesse, na primeira oportunidade. Aquela talvez fosse a última noite que passaríamos juntos, eu, a Linda e a Pixie. Sentiria falta daquele pedacinho de mim que estava deixando ali, mas ela ainda me amava. Comeríamos pizza em Little Italy e ciao, arivederti. Desculpas, era o que queria dizer para a Pixie, mas estava cansado dessa palavra. Minha vontade era voltar e pedir a Linda que a deixasse morar comigo por uns tempos, mas dessa vez eu não toquei no assunto. Essa foi a nossa despedida, não mais.
Na manhã seguinte voaria pra Paris, com intenção de recomeçar a viagem de onde eu parei. Lembro-me o exato momento em que me perdi em minha senda. E lá estava eu no aeroporto, um abraço no vazio, um beijo do vento. E os anjos desceram do céu.


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(c o n t i n u a...)

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 1 0
F i m d a S e g u n d a P a r t e

Paguei nosso aluguel durante esses quase dois anos eu no Brooklyn, mas agora estava sozinho, vivendo do fruto abençoado das minhas malditas palavras. Blue Train, Coltrane, okay okay (trilha minha sina)… no silêncio of a dawn nada mais me faz mal. Tornei-me imune à madrugada e fragilmente vulnerável à opressão autocrata do dia.
E nada mais me restava a não ser estar sozinho. Eu comigo mesmo e só nós dois. Eu, monossilábico eu, estranhamente eu. Um sonho acordado, quase transcendente, na difusa fronteira entre a matéria e o etéreo. Abstração de ser humano. Marco o livro que es
tou lendo, A Palavra Pintada, de Tom Wolf – sobre arte contemporânea nos Estados Unidos - e acendo mais um cigarro. Atrele sua carroça a uma estrela – disse Ralph Emerson.
Se tua cabeça cansada e muda encarar o escuro com visão linear, enlouquecida por algum feiticeiro com a sua maldição, sonhada em algum leito loquaz. E se a escura cabeça ensaiar o quinto ato da noite agonizante, ora, corta-a pedaço a pedaço, e joga fora o duro córtex. Ordem do dia, ou da madrugada.

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(c o n t i n u a...)

Cortex

Eu havia lutado com a morte. É o combate mais desinteressante que se pode imaginar. Acontece numa impalpável zona cinzenta, com nada sob os pés, nada ao redor, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem grande medo da derrota, numa atmosfera doentia de tépido ceticismo, sem fé em nossos próprios direitos. Se tal é a forma da última e definitiva sabedoria, então a vida é um quebra-cabeça maior do alguns de nós supõem que seja.

O Coração das Trevas – 1902.
Joseph Conrad (1857 – 1924)
(Coleção Pocket L&PM, 1997)

domingo, fevereiro 08, 2009

Noites Adentros, NY

Pixie
A Linda não era mais a mãe que eu conhecia. Andava praticamente ausente com a Pixie. Uma mulher que entrou para o mundo, muito muito ocupado, do busyness. Ela como designer de moda deveria se dedicar mais a ser artista, mas curava-se à Industria. A moda havia atingido status de Arte depois de ser reservado um espaço completo a moda, na Documenta Kassel 2005 (reconhecida mostra quinquenal de arte contemporânea, que acontece em Kassel, na Alemanha). Enfim, não bastasse todo estímulo étnico que NY gera na moda head-to-use, prêt-à-porter, durante quase dois anos tive que trazer isso pra casa, tornei-me observador, tirei conclusões antropológicas, lembrou-me Sartori “o ato de telever muda antropogeneticamete a natureza humana”, Kant, de certo ponto de vista, até fala bem de moda usando diversas vezes a palavra invólucro para se referir ao vestido da mulher. E seria esse invólucro uma forma de se expressar? Porque afinal a necessidade de se expressar? Porque existe a inexorável vontade do tempo. Do homem no Tempo sobre qualquer aspecto, desde o pré-colonial em retratar-se, desde o primitivo dos adereços e ornamentos, marcas, símbolos. A necessidade humana de nomear.
Chegava do trabalho em Manhattan e conversava com a Pixie só o necessário. Eram como companheiras de quarto, room-mate, mais do que mãe & filha. Em Nova Jersey então, como eu podia cuidar disso? Sei que tentar estreitar os laços afetivos entre as duas seria difícil. Além do que, existe um histórico milenar de páreo duro entre mães & filhas (em certa idade ou em certas ocasiões).
O que acontece com as crianças? elas crescem! Em um determinado ponto da vida elas mudam radicalmente, o funcionamento hormonal, os pensamentos e a necessidade de afirmação, a cabeça gira e dá voltas e voltas. Esquecemos que já passamos por isso uma vez.
__Pai, eu vou fazer quatorze. – disse com toda placidez do mundo. Eu permaneci em silêncio por algum tempo, perplexo. Como havia omitido um ano da minha vida, ou melhor, da vida da minha filha? Onde eu estava? Onde estava, afinal, esse ano perdido? Onde estávamos? Ela repetiu:
__ Pai, você ouviu? Eu vou fazer quartoze anos e daqui a dois, eu já posso tirar licença de motorista. – ela falava como adulta. Sério que não senti, não vi a puberdade passando. E o que se há de fazer? Eu não sabia o que falar.
__ Sim, filha. Claro que eu ouvi. – tentei lembrar-me as palavras básicas. Acho que falei qualquer coisa – Sprichst du noch Deutsch, Mausi? – Você ainda fala alemão, ratinha? Era como nós a chamávamos carinhosamente.
Então ela ia fazer quatorze... Acho que as teenagers em NY eram mais despojadas, um pouco cruéis até. A Pixie estava se tornando uma suburbana malvadinha, vendo todo aquele glam da mãe.

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(s e g u e...)

manuscrito

clica na imagem pra ver minha letra,
que cada dia é de um jeito aliás...

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 9
New Dehli - London - Salisbury

Impossível falar da Pixie sem falar antes da Linda. Eu ainda sentia a ausência da Gi, mas tinha certeza que ela estava bem, em algum lugar do mundo. Sentia que um dia nos encontraríamos de novo, assim como, por força do destino (e minha consciência de pai) estava revendo a Linda. Ainda guardava boas lembranças de nós dois e a Pixie.
A Linda Bernstein graduou-se na Thobias School of Art, em Londres. E logo em seguida decidiu fazer sozinha a tal viajem ao oriente, na qual nos conhecemos. Eu me formei na Vida Escola de Arte e trabalhava como vigia de estacionamento em Londres, naquele tempo. Naquele ano tinha juntado dinheiro suficiente para ir pelo infinito até o oriente, quem sabe dando voltas e voltas no mundo até ficar tonto. Eu tomava umas com erva e já via o mundo girar. A Linda tinha vinte e um pra vinte e dois e eu já tinha vinte e dois (sou do começo do ano, fevereiro), éramos livres como pássaro. Até que um ano depois vivíamos em Salisbury, eu como ajudante em uma fazenda, e a Lin era voluntária, numa escola de crianças. Vivíamos de vento, fora os alimentos que nos davam o dono da fazenda, os amigos da comunidade e o pessoal da escolinha, o resto era apenas o pequeno salário que recebia. Como ajudante de fazenda fazia coisas que vocês podem imaginar, remover excrementos de vaca e por aí vai. A Linda vivia sem neuras a exuberância de sua juventude como professorinha de artes e estávamos completamente apaixonados. Foi então que Deus nos agraciou com a pequena Pixie. De repente, de back-packers que iam dar a volta ao mundo, nos tornamos pai & mãe. Ela nasceu ali mesmo em um hospital em Salisbury. Os meus pais e os pais da Linda só souberam dois ou três meses depois, quando ela já havia sido batizada. No dia do solstício, quando fazem uma celebração, a vestimos de fadinha verde e a pequena parecia fazer parte daquele universo!
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(s e g u e...)

Para Alice Salles

1. Escolher uma cidade, atual ou da antiguidade, cujo nome ache o mais bonito entre todos os nomes de cidade que você conhece.

2. Postar uma foto dessa cidade

3. Escrever algo, ou alguma referência sobre a cidade escolhida.

4. Indicar três pessoas para fazerem a mesma coisa.

Beijos & good lucky!
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quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 9Há dois dias pairava sobre o mim o silêncio de dúvidas, do particípio passado obnubilado. Dois dias para pensar no futuro, sem esquecer-me de cuidar do peixe elétrico do Lloyd. Um dia obnubilado, e me lembro do último grito de Naomi. Tento colocar cada peça em seu lugar, porém, como se não soubesse a figura que esse puzzle de fragmentos imprecisos vai formar. Tentava traduzir ou fazer tangíveis essas qualidades. Materializando mais do que palavras. No início foi difícil a aproximação com a Pixie. Como eu disse, parecia estar chegando atrasado, mas queria fazer do nosso encontro uma alegria. A primeira coisa que fizemos juntos foi ir ao Central Park, onde podíamos oxigenar as idéias que surgem de certa sensação de liberdade. Precisamos de um sinal harmonia, sinal de que Deus ou a Natureza estejam sempre por perto.
Conheci Linda, mãe da Pixie, esperando ônibus no Afeganistão. Pensei que fosse norte-americana até perceber seu sotaque britânico e também o jeito como se comportam aquelas pessoas dos países gelados. Linda Bernstein nasceu em Viena, Áustria. Éramos os dois únicos caucasianos naquela estação precária em Kandhar, portanto o diálogo surgiu naturalmente. Naqueles anos de paz, antes do Talibã assumir o poder, podia-se viajar sem preocupação, salvo os cuidados étnicos a serem tomados. Não era preciso usar a terrível burca, que cobre completamente o rosto, mas era de bom alvitre que as mulheres cobrissem o cabelo. Por isso, a Linda usava um lenço que a tornava ainda mais bela. Viajamos juntos pelo oriente, chacoalhando em todo tipo de veículo, atravessando Paquistão. Em nossas mochilas já se misturavam roupas e objetos pessoais, até que ficamos íntimos. Foi uma experiência mágica vislumbrar a paisagem daquelas montanhas áridas e desertas descendo até Nova Delhi, na Índia.
Em meio à turbulenta confusão da capital indiana, gurus e homens comuns, dervixes e mascates, mulheres e crianças, animais e pessoas por todos os lados, chegamos à conclusão de que já éramos íntimos o bastante para voltar à Europa como um casal de namorados. E assim fomos juntos para Londres, cúmplices de uma longa viagem, como dois forasteiros. Resolvemos abandonar a grande metrópole, turística e caótica, e fomos morar em Salisbury.

(s e g u e...)
um tempo depois nasceria a pequena P i x i e...

Noites Adentros, NY

P a r t e 9
D e p a r t u r e
FLight ▲
Dia 13 de janeiro, recebo um postal da torre Eiffel dizendo “Morro de saudades, mas resolvi viver. Os franceses continuam pouco cordiais. Beijos, Gis”. Muito ou pouco? Adorava suas frases inconclusivas ou que suscitavam incômodos debates. Parece que eu e ela éramos água que fluía em duas direções ao mesmo tempo. Um dia ela escreveu “Nosso amor é o melhor do mundo, não fosse também o pior e o mais distante.” E deixou pregado no espelho do banheiro, o que me pareceu uma declaração de amor. Conhecendo-a como eu a conhecia, pensei mesmo que fosse uma declaração de amor. Amor inexato, infundado, falsificado. Mais uma vez ela esatava fugindo com um homem. Percebi que fazia transações de contas da Suíça, de cá pra lá, direto do meu computador, sem a menor descrição, o que podia deixar rastros "...mesmo assim, você não sabe de nada" - ela dizia, e realmente não sabia. Até que um dia resolvi colocá-la contra parede pra saber o que, de fato, estava acontecendo. Incrivelmente ela me contou com riqueza de detalhes o organograma de sua trama. Seu plano de partir com o Robert Cohen, que estava desviando dinheiro de um cliente milionário, e que em breve iria partir, iriam embora, mas não disse pra onde. Ela me parecia ter certeza de que jamais seriam descobertos. Eu não disse nada. Aceitei tudo normalmente. Ela queria, ela era livre, o quê eu podia fazer? amarrar no pé da cama? Conformei-me que ela saísse no mundo naquele passeio andejo, zíngaro, desorientado, perdido, desnorteado, errático, cigano. Quando a vi disfarçando o brilho nos olhos, ao falar das praias do paraíso. Que praias seriam essas? Certamente as praias de algum paraíso fiscal. Há muito vinham acontecendo histórias que só acontecem no cinema ou na literatura, em romances baratos de quinta categoria, mas o cenário de golpe mexia comigo. Não conseguia dormir. Uma revoada de pombos levantava minhas pálpebras quando transitava entre o sonho e a realidade. O Lloyd me havia cedido o apartamento por tempo indeterminado porque, enfim, ganhava dinheiro com a minha presença, e sabia que um dia eu ia partir. Então fico mais um tempo em Nova Yorque.
A Pixie, minha filha, estava com doze anos de idade. Meu maior medo era que ela não me amasse mais. Já fazia dois anos que eu estava fora. Dois anos, vez e outra eu mandava um cartão postal. Admito que estava sendo o que jamais havia me permitido ser - um pai ausente... No começo foi difícil. Parecia que eu era o príncipe encantado que chegara atrasado na historia. Fui sozinho até Jersey City. A mãe da Pixie era (...)
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(s e g u e...)

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Noites Adentros, NY

Para ler ao som de




F r a g m e n t oAlone together

Há quatro anos não vejo minha mãe. Desde que meu pai morreu, quatro anos. Do leito de solidão ao berço eterno. Parece pouco tempo, dizendo, mas pra mim, parece um século. O tempo não volta atrás.
Hildgert, mesmo sabendo que eu não acredito mais em nada, você sabe, sem esperar que você responda que também me ama, que ama meus defeitos, minhas
diversas densas infrutíferas qualidades e toda essa baboseira poética, que o mundo tá farto. Como conviver com materializações irreais? do quê que eu tô falando? Todo tempo que a gente ficou junto. Mesmo que sozinhos juntos. As poucas vezes que sorrimos porque nos sentimos felizes de verdade, até que descobrirmos a Grande e Falsa Verdade. Pra quem acredita, estivemos ligados por algum mistério do destino. Então parece que eu quero te envolver nos meus braços. Parece que eu quero sentir seu calor novamente, sua pele...

Essa noite fizemos amor como nunca fizemos antes. Meu corpo sobre o seu corpo, olhos nos olhos. Nos amamos com a cumplicidade de fugitivos, trepamos com a cumplicidade de vagabundos cães-sem-dono. Aquela era a última vez, intuímos. Nunca mais ficaríamos juntos, ligados como um casal de amantes. Seu orgasmo veio às lágrimas. Última consagração do nosso encontro – marcado com a ternura um coração, desenhado com minha caneta tinteiro em seu antebraço, no dia em que nos conhecemos em Tirano. Não tivemos tempo de nos despedir. Ficar não era seu verbo predileto nem se importava que eu permanecesse em terra estrangeira. No dia seguinte suas malas estavam prontas. Tomamos café gelado, da noite anterior, antes de um chôro latente, beijos com dese
spero desajeitado e lágrimas de ambos os lados.

(s e g u e...)

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Noites Adentros, NY

P a r t e 8 O ínicio do fim

Parecia que um abismo se abrira entre nós. Há tempos não estávamos intimamente ligados. Eu passei a amá-la sem que me desse conta. Passei a depender da sua presença, mesmo que ocasional. Passei a desejá-la cegamente, como se deseja saciar a fome, como se deseja curar um mal, como se deseja tratar de uma ferida do passado. Havia nos olhos dessa, meio índia meio alemã, razão e paixão mescladas de forma incompreensível.
A Gi não precisava mais trabalhar. Depois de negociar os diamantes com o velho Josef, investiu metade da grana que recebeu na bolsa de mercadorias e a outra metade estava novamente na Suíça. Ela contratou um corretor de valores que cuidada do dinheiro aplicado. Era da turma do East Village que o Steve nos apresentou.
Steve Kovalinsky – assessor e menino-de-recados do Lloyd, filho ou neto de imigrantes, rosto imberbe de garoto e pequenos olhos azuis – levou-nos, certo dia, dois convites para um espetáculo off Broadway. Disse que o Lloyd queria nos ver, mas sempre estava muito atarefado para isso. Steve trazia notícias de como estava o andamento das coisas - publicações, pesquisas, negócios e etc. – que eu não prestava muita atenção. Ele tem participação importante nessa história que vocês vão saber mais adiante.
Eu agora passava a maior parte do tempo sozinho, lendo, escrevendo. Minha vontade era mesmo sumir. Vocês não imaginam até onde os pés desimpedidos de um homem são capazes de conduzi-lo, por força da solidão.

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(s e g u e...)

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Chet Baker



Chet Baker - Bye Bye Blackbird 1964

Meme

Foi-me passado um meme pela jovem blogueira Camila Ribeiro, autora do blog Vaga-Lumens

>agarrar o livro mais próximo
>abrir na página 161
>procurar a quinta frase completa
>colocar a frase no blog
>repassar para cinco pessoas

“Na ante-sala, o médico e o juiz sacudiram a neve dos ombros e bateram com os pés no chão; a seu lado estava o velho Ilia Lochadin, o ajudante de policia da aldeia, que os iluminava com um lampião de folha de flanders, erguido na sua mão.”

Frase do conto Em Serviço
Anton Tchekhov: O assassinato e outras histórias

(São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2002)

os indicados:

> Roserouge – Absolutely
> Alice Sales – Ilumine o meu espaço e tempo...
> Thaís Weick – Liberté
> Renata Ferri – ótimas mentiras
> Menina do mar – Volta da maré