terça-feira, abril 28, 2009

Cena 1 gravando

Uma fita que não pára de correr, um filme que não pára de rodar. Vi o Jean Paul que andava olhando pra baixo. Hoje eu me senti estranho. Pensei que tudo me fosse estranho, a vida. Tudo acerca da vida. Subindo a Rua da Bahia, centro de Belo Horizonte, sozinho de dentro do carro, vi um rapaz de barba passando de bicicleta no sentido contrário. Num dia nublado, não menos agitado todavia. Ônibus e carros se entrelaçando em um mesmo sentido. Lembrei que minha barba também está enorme. Vi uma guitarrinha, uma guitarra pequena, em uma loja de instrumentos musicais, e fiquei imaginando em dar pra minha filha imaginária, Olívia. O que vocês acham? Difícil acreditar nas mudanças. Aquelas que se vê no reflexo do espelho e no espelho da alma. Difícil conceber mudanças. Conceder, concatenar, eu colocaria mais de uma centena de verbos aqui que não conseguem refrear um único sentimento. Mesmo assim tento colocar uma pitada de razão nesses verbos. Uma mão cheia, beber o melado dessa razão não me faria mais racional, não menos homem. Mesmo que eu (sujeito elíptico, eclipsado pelo caminho do não-ego, ou produto anestesiado da Indústria Cultural) tenha chegado à Idade da Razão. Então apenas sinto o cio dos meus trinta anos e admito. Então sou mais existencialista porque apenas vivo, pras frentes. Frente de batalha em que o inimigo sou eu mesmo. Eu me venço. Mais ou menos, a quantidade também não importa. Se não coloco mais nome em nada nem opino em nada, não que eu esteja aqui ou que eu não esteja aí. Eu, nós, eu e você, estamos e sempre estivemos perto nessa interface (embora muda anônima e calada sometimes). Mais do que nunca agora em pensamento e além do objeto, signo, interpretante. Eternamente a cada instante, signos da pós-modernidade índices e sinais do terceiro milênio. Não sentem na ponta da pica, a delícia que fica de um sorriso um momento, um movimento um silêncio que se eterniza, com você aqui aconchegada no meu peito misturada ao sujeito e ao verbo numa única frase sem palavra. Irradiam cores, matizes de laranja e lilás... O amor baba sua loucura cega, e mesmo a frase mais brega deságua e se desfaz em mil orgasmos imaginários inimagináveis. Difícil dizer o que todos sabem. Queria uma revelação, uma frase um quadrO risco, um todo nada quase sem sentido. Orientado pelo bem que me conduz. Não levarei cruz nenhuma. Quero morrer velho.

quinta-feira, abril 23, 2009

Caro Diário,

Parece que eu não sou eu mais. Parece que eu não se pareço mais comigo, aquele eu antigo, velho, morno e gélido. Olho no espelho e não ouço minha própria voz. Volto pro quarto com a mão doendo. Eu quebro cavalos, enquanto admiro a paisagem, eu quebro cavalos. Ao fim da tarde, a superintendência do caos procura a palavra pra poder dançar. Vieram sem nada. Senão a observação, os prédios, enquanto passo devagar, de moto. Sem nada, senão apenas as formas de âncora e também de mim. Um T atravessado nas pedras, segurando meu barco que a Tempestade Tempestade tenta levar, com os ventos tempestuosos e a força do mar. Ao tempo que torno minhas forças para o sentido que, teoricamente, menos trair-me-ia. Começo a ouví-la e vê-la com seus treze olhos. Desculpa, mas eu não falo esloveno. Ninguém me preparou para isso. Sim, deixo, deixo disso. Entro nessa sem compromisso de ter-que-ser-forçosamente-aquele, mas ser apenas - feliz. Com a mão de duas mãos aquela de pa-pa-pa-pa-pa tornando realidade aguardando a oãçarapes. Amigo, você ainda não conhece minha pequena, e isso não acontece todo dia.

>>¨<<

Pier Paolo

regime democrático...

homologar - Conjugar
v. tr.
Dir. Aprovar, confirmar por autoridade judicial ou administrativa; conformar-se com.

Oração


Que os meus olhos enxerguem somente luzes e cores
e que o brilho dos meus olhos traga somente alegria.
Que o meu coração se encha de paz e esperança
e que o meu sorriso aqueça o coração daqueles que de mim se acercarem.
Que o meu pensamento seja elevado às energias mais sofisticadas.
Que as minhas ações sejam abençoadas.
Que eu seja conduzido sempre no caminho do Bem.
Que os meus pés se recordem o caminho
e que eles sempre me levem até você.

E que assim seja!

segunda-feira, abril 20, 2009

Sex Cafe n' hav a cigar?

Diário de um fumante. Tem hora que você respira fundo e seus olhinhos enchem d’água. Sem medo encaro a multidão, sorrindo. Eu aqui, cheio de pontos. Você aí, cheia de vírgulas. Andava ainda frágil, quando quase morri quase morri. Eu não podia dormir, mas continuei tentando. Quando não pude mais dormir, aprendi a escrever. Quando você me atravessou como um suave vendaval. Na aurora dos tempos é chegada a hora do entardecer das minhas tristezas. Um abraço delicado no meu plexo. Por conta da garrafada que tomei, e essa não era pra impotência, era pra matar mesmo. Passei a noite no João XXIII sendo costurado, será que o espírito do nosso querido João XXIII estava lá do meu lado? Meu peito às vezes dá umas fisgadas. Observo meu corpo diante do espelho. Por uma fração de segundo vi outro Eu. A carne costurada feito couro de vaca. Você cuida de mim, passa pomada sobre os cortes, coloca as gazes, passa o esparadrapo, sem esquecer-se da estética. A arte é linear. A linha é curva. O vento é leve. Passarim pousa em frente a minha janela. É tudo que eu tenho: esse blog e minha janela. Não tenho certeza de possuir (sem o símbolo tirânico da palavra possuir) nada. Somente a mim mesmo e disso eu tenho a prova. As multidões andam querendo um alguém qualquer para crucificar. Já se passaram dois mil anos, vamos Deus! – implora com violência o Teu rebanho. Não sou digno de correr, fico e me explodo. Pensava que esse verbo era irregular e não declinaria o meu convite. Então fico e me explodo mais uma vez, mais mil vezes, acendo mais um cigarro. Aquele dia cantei Chet Baker pra você, hoje tenho os olhos cansados. Hoje eu cantaria e fumaria e explodiria mais mil vezes como um sapo a fumar mil cigarros e gozaria e dormiria em teus braços até você sair sem eu saber. Desculpa ser assim como eu sou. Desculpa gostar de café e fumar tanto. Desculpa seu enfisema de tabela. Desculpa meu câncer de garganta. Desculpa Deus, tocar nesse assunto e tomara que isso nunca aconteça. Morreremos jovens para sempre. Desculpa meu imediatismo, enfermeira, espírito de luz, amável e amante, ninfeta má. Desculpa as nossas vidas paralelas (como se eu fosse um pedreiro de dia e um travesti à noite...). Desculpa essas lágrimas que brotam do nada. O que quer que me possua, ignore, você me possui mais. Desculpa se você é como o vento de outono que diz que o verão acabou. Desculpa se te faço gemer e mesmo assim sou passível de uma devida e aprofundada averiguação. Se eu não quero falar nem lembrar o passado. Lembro que eu nunca existi que eu nunca fui, portanto nunca jamais eu o era. Estou, sou, na impermanência dos monges tibetanos, na previsão do tempo e dos profetas, na língua dos poetas, na faca dos estetas, na poeira dos anos. Soprado numa vocalização de faz, como você fez – sexo café jazz. Desculpa se deslizo no céu minha língua comparada a um sonho. Desculpa se lambo teu umbigo e ainda sim assim depois discuto contigo, sem querer que esse sonho se acabe. Quero tragar a fundo esse Você simbólico e um milhão de sonhos se tornam realidade. Esquece esse se vai dar certo, quero você por perto, não se perca de mim. Mantenha contato visual. Três mil palavras pra dizer que te quero e me desculpa também por isso. Sou apenas mais um Ouriço do jogo de croqué da Rainha do País das Maravilhas. Je suis Je suis Je... vem, minha criança.

sábado, abril 18, 2009

little blue girl

O mistério que embrulha esse teorema, envolve esse enigma, sempre repete a mesma coisa. Minha doce Lolita. Você bebe água e eu te bebo. Fico ébrio. Você coloca suas pernas sobre as minhas coxas, e eu sinto o seu sexo. Quero engolir sua boca, mas você me beija mais do que eu te beijo, e adoro. Sinto teu seio pequenino de ninfeta, arrepiado e duro, no escuro. Você me embriaga como quem não quer nada, enquanto bebe água pra matar a minha sede. Parece interminável, as horas passam feito minutos. Esqueço de tudo. O trabalho inexistente, a dor do passado com rima pobre. Esqueço-me da dor de hoje de ontem de antes de ontem. Esqueço que o mundo amaldiçoou-me com sua velha falta de morais, com sua velha soberba, com sua velha irracionalidade, com seu atavismo das cavernas. A dor física não me importa mais, a morte não me importa. A vida importa. A vida importa porque suas maluquices de ninfeta me fazem ter mais coisa na cabeça. Adoro seu cabelo todo lindamente atrapalhado sobre seus olhos sobre o meu rosto. Estou entregue a você, e de repente seu beijo é o gostoso o caminho percorrido no instante eterno, efêmero e derradeiro em que te quero. A paisagem, uma fogueira elétrica ao lado da cama e você. A Lua lá fora espreitando nosso amor como o sorriso do Gato. Nesse momento quero esquecer meu passado. Quero esquecer outras luas, outros invernos, outras trepadas, outros beijos. Nada mais existe. Coloco fogo na atenção contínua que mantenho em você. Sei muito bem que não sou nem nunca fui o único que já sofreu. Nessa hora você se entrega e sobe sóbria sobre mim, já bêbado de ti. Quem é você afinal, ó pequena? A palavra, nesse caso não diz nada. Não importa, sinto sua alma.
Lobo Mau

quarta-feira, abril 15, 2009

Prazer em conhecê-la

Tertúlia VirtualO prazer me arrebata em seus braços quando me abraça. Quando me envolve com doçura que não me deixa esquecer da vida, e que na vida tudo está certo e tudo vai dar certo, wohlgeratenheit. Sinto prazer em estar com você, embora nossas almas se entrelaçaram antes que os nossos corpos. Cantava um triste adeus que já se propunha a virar um moto perpetuo – eterno, infinito, inacabável. O prazer pode ser fugaz? Sim, pode e é. Principalmente aquele que sentimos no corpo apenas. A maior parte dos relacionamentos são resgates de vidas passadas. Eu mereço um presente, uma flor, uma rosa. Cansei de procurar espinhos. Quando fazemos amor nossa alma penetra uma na outra e transcendem a saliva da sua boca. Teimo em lamber tentando lamber-te a alma e assim sou feliz. Pelo puro prazer de querer só aquilo que seremos capazes de alcançar. A felicidade plena mora no prazer, a vida simples, a plena atenção, plena atitude e na consciência tranquila. Um gesto, um sorriso, o projeto de vida, o tijolo chegando, é a luz da manhã. Não existe felicidade plena. Tranquiliza seu corpo, respira. Te pego em meus braços e faço um carinho. Por algumas horas em minha cama nada mais existe. O mundo co-existe em nós, um mundo-nós, eu e você. Por horas, endeuso seu corpo de Gradiva, seus olhos de menina, em silêncio me pedem carinho. Transformo-te em anjo e você cuida das minhas asas quebradas. Mais um beijo porque sinto que devo ir. O prazer pleno e derradeiro que sinto, como se fosse um condenado à morte, está no mundo que criei para vivermos, está em mim mesmo. O silêncio gostoso que existe entre nós forma um só diamante.

>>¨<<

memorando

Com quem não se calem os dias perdidos. Com quem o céu sempre seu ao seu lado. Com quem sempre o pouco se deseja, do muito que preenche e se percebe. Contato com quem se tenha uma visão mais ampla. Com quem não me faça lembrar o passado. Com quem não me obrigue a lembrar o passado. Com quem não me julgue sem saber, sem me conhecer, sem querer viver, sem saber querer, sob a pobreza esnobe de recônditos 20 anos. Mendigos e putas, pinguços e noiados, garoto classe média usurpador, meninos e até crianças, meninas jovens droga_adictas, umas feias, outras bonitas, umas velhas e acabadas, todas na pista da madrugada, peão de obra, alemão, uma primeira visão do inferno. Andou por entre becos. Quero dizer a essas menininhas que pensam conhecer um pouquinho da vida, com seus eginhos inflados, que vão viver! antes de armazenar em seus cérebros toda a gordura que saiu de suas bundas. Cresçam, suas putinhas. Deixem de esconder ou ostentar entre as pernas essas partes pudicas da qual se vangloriam na sua juventude. Perdoem, meninas (e demais, eventuais leitores) se essa não é uma declaração de amor. Vejo anjos perdidos procurando ajuda que não vão encontrar procurando em si mesmos. Perdidos no próprio ego com olhos de peixe morto, fundo, longe, nus, meninos e meninas. Nuas, suas cabecinhas não valem nada, ninfetas da pós-modernidade. São como máquinas de manipular. Maquinas um jeito de me mandar embora. Delicia-se no meu pecado e depois entristece. Maquinas o jeito mais rápido pra que eu vá embora. Embora ainda queira o amor que ninguém deu. Sou um homem comum. Moro na casa dos meus pais, eu, minha mãe e ele. Já corri mundo, já fui ao fundo do poço - que em si é uma mola propulsora. Eu não vim aqui pra falar de flores. Enquanto uns colhem as rosas, outros os espinhos, vou me virando. Arrancando água do asfalto e contemplando... o quanto essas jovens se perderam numa visão do inferno pintada pela metrópole. Enquanto isso, os índices de violência crescem no interior, no countryside. Dizem que curtem Bukowski, mas nunca comeram um ovo frito na vela, nunca participaram de um ritual de magia ou tomaram drogas alucinógenas dentro de uma caverna. A dose cavalar de álcool que as faz lembrar de longe uma intrépida personagem do Bukowski que não sabe seus limites. Não conhecem a delicia do sexo porque estavam preocupadas demais pra isso. O Mefisto me diz que alguma coisa está ocorrendo. Esse comportamento infantil não será mais tolerado, nem por mim, nem por vocês. Portanto, sejam mulheres da pós-modernidade e vai conhecer um homem que seja também pós-moderno. Meu tradicionalismo era um ideal que se partiu em mil pedaços. Agora também não quero mais ter filho quero ter um clone. O orgasmo é válido, mas vocês nos transformaram em uns putos, que quando estamos de pé valemos quase nada. O orgasmo é valido, mesmo de pé. Confio em quem não confia mais em mim.
Atenciosamente.

Gustavo

terça-feira, abril 14, 2009

. . .

It begins to tell,
'round midnight, midnight.
I do pretty well, till after sundown,
Suppertime I'm feelin' sad
But it really gets bad 'round midnight.
Memories always start 'round midnight
Haven't got the heart to stand those memories,
When my heart is still with you,
And ol' midnight knows it, too.
When a quarrel we had needs mending,
Does it mean that our love is ending.
Darlin' I need you, lately I find
You're out of my heart,
And I'm out of my mind.
Let our hearts take wings

'round midnight, midnight
Let the angels sing,
for your returning.
Till our love is safe and sound.
And old midnight comes around.
Feelin' sad,
really gets bad
Round, Round, Round Midnight


Chet Baker sings

segunda-feira, abril 13, 2009

tente escapar!


A intenção não é chocar. A intenção é fazer amigos.

Ruptura dispéptica

Diante de mim mesmo, observo, enxergo e sigo em frente. Hoje me importo com as minhas companhias. Portanto sigo só, muitas vezes quando ando. Quero desconhecer pessoas que eu conheço. Quero esquecer meus irmãos e dar a mão a outros novos irmãos. Quero tornar-me invisível e anônimo. Quero começar uma vez mais, equilibrar-me na linha do horizonte enxergando longe, no ritmo do choque retesado, um rock íntimo e ritmado, um chope gelado sem golarinho - sem rima nem passado, na esquina dos pecados. Atravessei a rua com meu passo bêbado, sentei na contramão atrapalhando o sábado, sentei pra descansar como se fosse um príncipe e flutuei no ar como se fosse um pássaro. Amei daquela vez como se fosse a última, paráfraseando uma canção. Chorei daquela vez como se fosse vítima, alvo de uma armadilha inescapável. Chorei sozinho naquela casa naquele quarto, mas sei também que as lágrimas masculinas pouco sensibilizam as mulheres. As pessoas que estiveram no entorno, feito moscas bicheiras de engordar, ratas preenchendo o ar estagnado, de mendigo a traficante a usuário, gente que eu nunca quis por perto. Perto de mim, nenhuma tribo de Índio ou de roqueiros grupistas. Nenhum Juvenil ou Juvenal embriagado de conversas tolas. Antes fossem apenas essas que, durante noites me atormentaram. Como permiti a mim mesmo as vezes em que você pagou de gatona? Distante agora toda essa merda. Sinto o comandado dissabor de quem foi seu fantoche, um dos próprios do seu Eu. Uma gota de lágrima roubada do oceano agora não vale nada. Agora, femme fatale, não mais vou copo no carro à distância e ver-me entregue a mim mesmo ao seu desdém. Passar distante da escória, deletar da memória. Mais cedo ou mais tarde, vou começando uma nova. Sem mentiras nem meias verdades. sem interesses que não interessam, não me interessam e não nos interessam. Sigo em frente. Quero esquecer falsos amigos, quero esquecer as pessoas que conheço. Quero um novo começo, um novo mundo. Eu mereço. E o presente a quem desejo merecerá uma Ode. Então ó velha amiga, apliquemos em nossas veias uma ruptura dispéptica, a salvar nossas vidas de uma enorme catástrofe. A última gota da taça de fel. E você, ó pequena, vamos aplicar em nossas vidas, pois nossas veias estão saturadas de velha tristeza, esse estado de alegria e graça. Fábula de um novo amor, silvestre e pagão, ao sabor mágico dos ventos da física quântica. Uma borboletinha, linda e caleidoscópica, pousou em minha janela à luz de um novo Tempo. Atraída pelo sal da minha existência. Ela rabisca cores que plainam sobre a brisa e flutuam. No fundO dos rabiscOs, além do papel, as nuvens e O céu, fogem desses ares viciadOs. Não interessa quem viveu ou quem morreu. Nada mais interessa.

PS: será uma menina que sonhou ser uma borboleta?

sábado, abril 11, 2009


When a quarrel we had needs mending


"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva".

Caio Fernando Abreu

Candy

Fora os três em minahs mãos
três montanhas chinesas,
três sombras de cavalo,
três paisagens de neve e uma cabana de açucenas
pelos pombais onde a lua se abaixa sob o galo

Um

e um
e um
Estavam os três mumificados,
com as moscas do inverno,
com os tinteiros que urina o cão despreza o vilão,
com a brisa que gela o coração de todas as mães,
pelos brancos entulhos de Júpiter onde merendam morte os bêbados.

FÁBULA E RODA DOS TRÊS AMIGOS
Poeta em Nova Yorque

Federico García Lorca

(Obra Poética Completa, Martins Fontes, São Paulo 1996 pág. 417. )

sexta-feira, abril 10, 2009

moon shadow

Pink, não fique brava comigo. Não fiz nada, quando digo que nada fiz é porque afirmo que fiz, mas por que? tem que ser esse yeyeye tão violento essa aprendizagem. Fazendo de cada dia um dia. Faz o meu dia um pouco mais brando? se é que consigo abrandar minha loucura, então minha solidão looking for eyes. Eu perdi a afeição por qualquer coisa estática ou que se mova, que vibre da maneira mais branda, pode ser? Meu peito está engasgado. Essa dor essa cachaça. desassento. Deito fumo, durmo. Sou parte o universo, do Uno de Spinoza. Um fantasma na sombra. Continuo dizendo, eu sou luz. Pink, não fique brava comigo. Eu estou contigo. Eu quero bossa and Beatles, nada de apito de guarda e nenhum trânsito ferrenho. Desdenho quem quer comprar. Jovens vegetam na atitude, mas talvez seja isso que eles queiram mesmo, vegetar. Crescer como planta, com seus olhos incríveis, caleidoscópicos, mortos. Falando menos vibrando mais e talvez, colher o fruto sagrado de algum sentimento. Tudo que vive é sagrado. Estou um tanto estropiado pela vida, mas não vejo nisso uma desculpa par não viver ou apologize tonight, me desculpa dessa noite. Se o Cartola diz que um vazio se faz em seu peito, e de fato em seu peito esse ‘vazio’ ele sente, o vazio é real. Não o vazio do Eu Lírico ou do Eu lúdico. Devo estar com alguma doença pega pela loucura. De fato um desafeto me fez enojar da vida. Resta-me sorrir, você tem o direito de permanecer calado. Sustentar o peso de um sorriso fácil, mediano e cansado. As histórias os caminhos do passado, que eu vivi porque não me lembro mais, não quero lembrar mais quem fui quem sou, implica no futuro também. Sou mais um pássaro - descansa sozinho. Quase 4 e 44 a e Chet arromba minha noite, por volta da sua meia noite. Reviravoltas no lençol da cama. Não, não é uma noite ruim, não é uma noite ruim. É apenas mais uma noite, de paz. Louvado seja o seu fantasma na sombra.
O Homem Invisível

terça-feira, abril 07, 2009

Friederich - Samádhi


Meu nome é Gustavo Alvarez Perez. Gustavo. O nome que minha mãe me deu para me representar. Estou no alto de uma montanha vestindo apenas uma túnica branca, cabelos loiros anelados, as mãos abertas sentindo o vento. Essa túnica branca, agora é a minha única vestimenta. Agora não me chamo mais Gustavo. Sou um espírito, tenho um nome espiritual, mas na terra já tive vários nomes. Já nasci no Brasil, na Europa, na China. Já vive nas montanhas geladas. Nas tundras da Sibéria. Já atravessei montanhas e campos. Já fui monge, já enfrentei guerras, já fui da corte de César. Fui amigo de Robinson Crusoé. Ajudei a construir as pirâmides do Egito. Já vivi em antigas cidades, pequenas vilas. Já atravessei mares. Já me isolei das pessoas para não sofrer. Já nasci no continente ártico e antártico. Já nasci nas geleiras. Vivo na Terra desde os primórdios da existência humana. Já vivi em um navio pirata. Já fui uma mulher, muito bonita e desejada, e muito inteligente. Já vivi nas planícies, já tive filhos, netos. Já morri tantas vezes quanto vivi. Em um leito aconchegante, cercado de familiares, mas também já morri sozinho e abandonado em picos de montanhas frios e desertos. Daí o medo da abjuração, da desvalia, do desamparo. O medo da solidão foi o chip que permaneceu e prevaleceu em meu corpo. Estou no alto dessa montanha, vejo o mundo dos homens. Do alto dessa montanha vejo os homens se digladiando por poder, mulheres se digladiando pela beleza, crianças com desejos absurdamente consumistas. A terra não está em harmonia e sinto os reflexos dessa desarmonia. Nesse momento está acontecendo na Itália um tremor de terra. Muitos morreram e os que sobreviveram estão deitados. Os que estão de pé ajudam os que estão deitados. Eu estou de pé e permaneço de pé. Meu nome é Gustavo Alvarez Perez. Não tenho nome, sou um espírito. Já tive mil nomes! Eu sou luz. Se eu passo e não me vêem é porque estão cegos. Eu estou de pé.

sábado, abril 04, 2009

cat station

Distante, alheio, com pressa de mim mesmo, menos de mim mesmo. Exercitando a capacidade de permanecer calado, conversar comigo mesmo, dar-me ânimos. Capacidade de exercitar e aguentar a virtude das virtudes, a Paciência, seguida da espera, longa e demorada. O Tempo, a degeneração da matéria. Contagio dos minutos e as horas, dos dias e as semanas, um mês, dois meses, um ano, dez anos e lá vou eu. Pressa que tenho em alcançar meu enorme Nada. Pressa de encontrar-me um Eu melhor, que me basta. A cada instante uma batalha. Aos poucos o frio de outono vem chegando. Os dias mais são calmos, pois o sol é mais brando e a brisa é mais suave... em um texto de reticências. Não sei se fico puto ou se agradeço, por ainda ter esperança. Os primeiros dias de outono trazem-me lembranças, sensoriais. O frio que passamos juntos. Enigma, se eu for mesmo parte de do Uno (Deus, ou A Natureza) então sou, fui e serei eterno. Hoje ou se calhar, daqui a mil anos, ou cem mil anos, não sei nem sou capaz de imaginar. Mas hoje sim sou parte do Nada que compõe o caos cheio de Todos sincrônicos e também inigualável. Sou o pensamento. O pensamento interpretante. Essas letras e palavras que dizem por mim, o que a voz não pode agora vos dizer. Agradeço à Cultura o fato de o objeto ser incognoscível em sua totalidade. Qual é o meu objetivo? O objeto do meu desejo? O néctar da minha felicidade? O sumo do meu deleite? Em suma, venho até aqui transpor algumas sensações que me causam essa suave brisa gelada de outono. Como disse, saudade das coisas que o frio proporciona. Das coisas que fiz em sua companhia. Não era de tardar a luz do sol, que nessa época incide seus raios sobre a mais bela paisagem. As noites são mais longas a cada dia que passa esse giro esse amor essa cachaça esse cheiro de morte eu respiro forte eu desmaio eu amo demais. E como assim parar de fumar? Transformo tudo em fumaça, essas lembranças essas fotos, bilhetinhos esses alfarrábios enchem-me de enjôo e dor no cotovelo. Pego mais um café acendo mais um cigarro. O outono me lembra paz, me lembra as montanhas do Caraça que me lembra o cheiro gostoso do mato orvalhado. No outono, Deus me chama e eu deito em seu colo sobre a grama. O silêncio agradável de mim, sobre e ao redor. O barulho de pássaros, da água, da noite das estrelas se movendo, o grilo flanante, o canto cigarra, a vaga iluminescência dos lumens- verde e piscativa... Do crepitar do fogo da fogueira à beira dos meus olhos, ao alcance dos ouvidos, na tranquilidade da solidão, estar só com Deus. Na serenidade do sereno. Como não ser só feliz? Compartilhar a solidão. Meu coração estilhaçado, feito em mil pedaços, fragmentado, em várias cores e formatos. Aquele maiorzinho que eu te dei aquele dia e você negou. Quase ficou abandonado no caminho, mas eu peguei de volta. Estou a colar cada micro-pedacinho, triste ou alegremente, fodass. Ando caminho corro perco o horário me atraso, para as frentes, sempre. Dou minha cara a tapa. Tapas e bofetões daqueles que zangados, esporram aqui, e se cagar os fizesse feliz não gozavam na minha cara. Mas fora isso, eu queria muito que você estivesse ao meu lado. Eu queria muito muito ser seu amigo ser seu melhor amigo melhor melhor amigo e então, enfim who knows ser seu namorado. Um tanto blasé, quase gay essa frase, mas é a verdade. Quero uma relação serena, mas será que você aceita meus talentos, minha proteção, meus braços? Sofro de cansaço da espera. Sofro da demora, mas sofrer faz parte. Só não quero mais perder a ilusão que custei muito a reconstruir e acreditar. Só não vou perder a mim mesmo tentando te buscar, mesmo que fique só. O caminho a esmo em qualquer esquina te vejo. Eu desejava um beijo. Somos animais, afinal? Você com sua vida eu com a minha e a nossa. Transbordo de nostalgia nesses dias de frio, mas não desejo mais o passado. Eu quero você. Nossos destinos se cruzaram (bem clichê) e vou até onde eu puder chegar. Conhecer-te. Tem muita gente louca por aí, querendo que eu fique doido também. Resistir a esse sentimento (desejo? sei lá...) se me destrói mais que o pecado. Quero nunca mais te esquecer, quero-te. Bela, plena, clama. Quero beijar sua alma. Com carinho,

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sexta-feira, abril 03, 2009

Bruce Bickford

Texas chuvoso

Agora quero ser um pássaro livre, um fora da lei, um frei Vogel um Vogelfrei. Mas minhas asas ainda estão molhadas da madrugada chuvosa e só um dia o “porquê” se levanta. Tudo recomeça, nessa lassidão tingida de espanto, e a manifestação do universo como uma idéia complexa em si mesma, em oposição a estar no interior ou exterior do próprio e verdadeiro Ser, é inerente. Um nada conceitual ou um Nada em relação a qualquer forma abstrata de existência, de existir ou ter existido perpetuamente, sem estar sujeito às leis de fisicalidade, de movimento ou de idéias relativas à antimatéria ou à falta de um Ser objetivo ou a um Nada subjetivo. Há quanto tempo não consigo dormir? Entro na noite como um vagabundo furtivo, passageiro clandestino dos meus desânimos, encolhido numa inércia que me aproxima dos defuntos e que a vodka anima de um frenesi postiço e caprichoso, navegando nas águas paradas de quem não espera nenhum milagre, equilibrando com dificuldade na boca o peso fingido de um sorriso. Há quanto tempo de fato não consigo dormir? Por dentro da cabeça as chuvas tombam lentamente sobre os gerânios tristes do passado. Uma tarde chuvosa na cidade. Um café depois das cinco e um adeus sem dizer adeus, sem dizer coisas do cotidiano. Coisas que não vou esquecer. Depois nos render à insistente garoa, de um Café a outro. Caminhavas como onça, com passos de atravessar poças e bebia as palavras em silêncio. Navegava nas águas rasas onde refletem meus sonhos, perdidos na sequidão das idéias, do aliás, do inclusive, no entanto, do nada. Ao fim, pois, do nada, a noite despencou. Meu coração se perdeu na sua ingrata lembrança, voltando pra casa de madrugada.

quinta-feira, abril 02, 2009

adeus Lola

Construindo a nova imagem do próprio Eu.

Lolita,
Você respinga suas gotas de chuva na minha janela de iluminuras. Tento fabricar conceitos de felicidade, real, vida real, sonho, utopia, ideia, conjectura, acaso, vontade, desvontade, incongruência, descaminho, discrepância, desconexão, incoerência, incondizência, improbabilidade, sonho, realidade, utopia, ideal, redundância, exagero, prolixidade, difusão, pleonasmo, espargimento, recomeço, superfluidade, inutilidade, refluxo, reflexo, volúpia, volatilidade, voluptuosidade, insuportabilidade, improbabilidade, dedução, conclusão, incerto, casual, eventual, randômico, desnivelado, desigual, sina, fado, destino, ventura, coincidência, acaso, desertificação, sequidão, sede, rispidez, desgosto, amargura, descontentamento, inferência, desconfiança, infinitude, impermanência, interminável, infindável, eterno, verdade, fim. Aceitar. Tantos adjetivos e substântivos para um só verbo.

quarta-feira, abril 01, 2009

fool me


Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração