terça-feira, dezembro 28, 2010

se chorei ou se sorri

A chuva passou depois de longo tempo. Um feixe de sol brilha rápido sobre os prédios. Nuvens brancas contrastam com o fundo escuro do entardecer. Outra vez um entardecer roubado. De acréscimo, me vem à mente que não mais sentirei nostalgia. Detive-me em lembranças por alguns segundos. O olhar infinitesimal reflete no espelho do ego. As noites eram longas e os dias intermináveis nessa estranha estação do ânimo. Respeito o dia e agradeço as noites. Fiz do tempo um verbo irregular. Rodopiei nas orlas de vendaval. Andei pelos caminhos torpes da alma humana. Zonas inferiores da gleba terrestre. Arrecadei amigos mal queridos e provei veneno. Morri mais uma vez. Ao olhar pra trás, ainda não sei quais deveres ou flagelos cumpri, ou as graças q obtive no andamento do processo. Lamento saber apenas não-racionalmente. Saber apenas através do sentimento. Elaborar teorias a respeito seria dar elevado sentido à matéria. Há algo mais sublime além da matéria. Onde se rompem as crisálidas. Onde os homens viram anjos. Agora percebo que o dia emana bilhões de raios cósmicos.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

fins

Mas pelo fato de a poesia, em comparação com o pensamento, estar de modo bem diverso e privilegiado a serviço da linguagem, nosso encontro que medita sobre a filosofia é necessariamente levado a discutir a relação entre pensar e poetar. Entre ambos, pensar e poetar, impera um oculto parentesco porque ambos, a serviço da linguagem, intervêm por ela e por ela se sacrificam. Entre ambos, entretanto, se abre ao mesmo tempo um abismo, pois “moram nas montanhas mais separadas”. Agora, porém, haveria boas razões para exigir que nosso encontro se limitasse à questão que trata da filosofia. Esta restrição seria só então possível e até necessária, se do diálogo resultasse que a filosofia não é aquilo que aqui lhe atribuímos: uma correspondência, que manifesta na linguagem o apelo do ser do ente. Capito? Glückliches Neues Jahr!

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Joel?


A possibilidade de limpeza absoluta é insuperável. Sendo ela como possibilidade extrema da existência, da necessidade, do sacrifício. Mas como evitar a aceleração da impossibilidade como sendo inautêntico à morte? Tornar-se auto-referente para libertar a perda da própria morte nas possibilidades da multidão e que através da compreensão e escolhendo as primeiras oportunidades verdadeiramente artificiais que estão abaixo da oportunidade insuperável. Acelerar abre em existência, como um possível extremo auto-sacrifício e a brisa enrijecimento e tudo lá sempre alcançando. Na batida da vida, eu me preservo de cair para trás, e meu poder ser compreendido "tornou-se velho demais para suas vitórias”. A meditação evita o caminho que se oferecia a uma interpretação da consciência. Em geral, na verdade, nunca entenderemos uma ou outra das competências da alma.

terça-feira, dezembro 21, 2010

patchakanduba


Creio já ter dito que não muito me agrada esse horário de verão. A luz crepuscular se prolonga muito mais. A escuridão total aporta somente em hora avançada. O Tempo encurta a madrugada e eu amo as madrugadas. As madrugadas foram feitas para isso. O que poderia estar mais próximo de nós? Aquilo que nos aproxima ao que pertencemos? Aquilo em que somos dóceis participantes? Amo os gemidos da madrugada e o silêncio de amor. As luzes que devagar se apagam. Os ruídos sempre tão peculiares e rotineiros. Uma sinfonia de latidos distantes. A tosse seca da vizinha. O carro passa em alta velocidade. É um prelúdio daquilo que se chama acontecimento-apropriação. Hoje, quando aquilo que ainda quase não foi pensado ou pensado pela metade é logo entregue apressadamente a toda forma de mídia e publicidade. No silêncio da madrugada silence of a dawn posso voar. As ondas de pensamento logo invadem longas dimensões. Algumas vezes não sei se é choro de criança ou se é gato. Não sei se sou eu quem escreve ou sou outro eu. Um eu minúsculo que se atabalhoa entre letras, que se esconde atrás dessas palavras. Será esse o verdadeiro Eu entre os verdadeiros eus que existem? Não significa que eu também não ame os dias...

sexta-feira, dezembro 17, 2010

a noroeste da Birmânia



Sento-me mais uma vez, mister do meu ofício. O silêncio me faz sentir invisível. Sinto que estou vivendo em outro mundo. Tenho a impressão de que as pessoas não me vêem e apenas eu as vejo. Essa vagueza, esse olhar, essa nostalgia. Procuro algo intangível. Não quero nada que seja palpável. É estranho pensar assim. Passo a buscar alguma letra algum gustavo perdido dentro de mim.


Meu devir minha filosofia

quinta-feira, dezembro 16, 2010

já superou o ideal

Puxa linha peixe anzol. Puxa anzol peixe linha. Pensei que você estivesse na minha. De pescador de repente virei gato. Morde a isca, peixe otário.

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segunda-feira, dezembro 13, 2010

o mistério da Lagoa Azul

A Lagoa Azul (Blue Lagoon) é um dos filmes mais lindos que eu já vi. Eu não tenho medo de afirmar isso, tampouco falsa ignomínia. Se fosse livro seria um best-seller certamente. Assisti esse domingo a noite, e pude reparar alguns detalhes. Não havia como essa produção hollywoodiana falhar. Não havia como “não dar certo” e por mais que tenhamos opiniões diversas, o filme tornou-se um clássico. O escritor, digo, o roteirista, utilizou uma fórmula infalível, embora já conhecida (Robson Crusoé, por exemplo). O que atrai é o apelo sexual. A forma infantil como falam os personagens já adolescentes. As investidas de Richard, frustradas pela pompa de Emmeline (a pequena Brooks Shields). O filme é um clichê do início ao fim. Desde o bigode do capitão do navio aos cachos de Richard, que se eternizaram, e a tal “lagoa” que nunca existiu. Ah, a casa, casa não, mansão que Richard (a produção) construiu poderia ter construído um navio. Eles tinham um pequeno barco que os salvou no início e no fim. Mas enfim, Rick revela seus sentimentos “coração batendo forte” “um sentimento indecifrável” “vontade de beijar”, meio bárbaro, Emmeline acaba cedendo e eles transam. Depois, cenas de amorzinho muito bem filmadas. Aliás, o filme tem tomadas que não se repetem e contam com a doce atuação da Brooks em sua mais tenra juventude. Seguindo o roteiro ela engravida e começa a dar indícios de enjôo. Há uma cena em que ela demonstra ser servil a Richard porque se recusa a fazer sexo, mas depois o convida a ver sua barriguinha se mexendo. Pura inocência. Tempo depois nasce um menino "Paddy" com um grito que cala todos os pássaros da floresta. Bem, não é minha intenção fazer uma sinopse. Assisti a esse filme desde que nasci praticamente, mas a cada vez que assisto posso enxergar por um novo ângulo de visão. Um estado espírito, um domingo à noite, um olhar. Hoje em dia os Richards são pós-modernamente descartáveis e os Paddys são produção independente.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Caixa de gordura


Como fui centrifugado pelo ralo da pia. Não sei como fazer mais, nunca soube e hoje sei menos ainda. Como um sorriso se esvaiu do meu rosto. Como a pirofagia das minhas entranhas tenta o ph ideal. Emocional. Como tentei alinhar seus glúteos e acabei parando na caixa de gordura.


minha prosa não cola


Tento me inspirar na voz interior, essa que não cessa de repetir Deus Mundo Alma. Tento que o presente seja minha força, minha chama. A ígnea flama flui em eflúvios. A razão pede calma. Aos sentimentos, um cigarro e um café. Não posso estar parado. Sou levado sem pensar. Aceito a informação a priori. Sem preconceber, saber. Deixo que venha um novo dia. Meu corpo um santuário. Às vezes um tabernáculo, ou uma arca ou uma ostra ou uma ermida. Um labirinto de informações desconectadas que unidas dizem tudo. Minha pobre condição humana é incapaz de suportar essas palavras voláteis, profundas e externas. Minha semântica não se encaixa. Meu verbo não declina. Quem disse que eu quero ser amado pelo que eu escrevo? Quero ser amado pelo que sou.

sábado, dezembro 04, 2010


Não falo agora abstratamente do Desejo. Desejo a paisagem que está envolta em uma mulher – Desejo em conjunto. Construtivismo – construir um conjunto, agenciamento, um território. Região. “Desejo construir um agenciamento”. Falam do desejo como sacerdotes. Dimensões. O estado das coisas. Território. Enunciados. Consciência como ilusão, como máquina e não como teatro. Delírio-mundo. Mundo cósmico, raças, tribos. Não o delírio-família. Isso é a multiplicidade, um agenciamento. Por onde passa o meu desejo? Um agenciamento trata sempre do coletivo. Construtivismo, etc. Por onde passa meu desejo por cem mil crânios? Por onde passa meu desejo coletivo? Em qual ponto? Qual minha posição nesse coletivo? Sou exterior, dentro ou ao centro? Todos são fenômenos do Desejo e “o” Desejo. Fluir é um agrupamento pulsante. Ela fala como uma grande queixa pó causa da castração. A castração é pior do que o pecado original. A castração é uma espécie de maldição sobre o Desejo, raramente espantosa. No inconsciente encenam Hamlet ou Édipo. O inconsciente é uma fábrica de construção. O inconsciente produz e não pára de produzir e funciona, portanto como uma fábrica. Precisamente o contrário da visão do inconsciente como teatro onde nele sempre se agitam um Hamlet ou um Édipo até o infinito. O delírio que está muito ligado ao desejo – como sobreviver ao deserto? Esse não é um problema semântico. O deserto é um delírio geopolítico. Ela nunca compreendeu esse fenômeno do delírio. Delira-se o mundo, delira-se uma pequena família. Ela atribui isso a determinações familiares. Daí a dizer que tudo está mesclado. Tão obvio que pulula.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

chamada


Aos meus amigos, aqueles que me conhecem em carne o osso, perdoem-me esse afastamento temporário, essa ausência. Estou trabalhando em uma o-ene-gê na Floresta. Notícias boas. Boas pessoas. Não importa o tempo. As pessoas te contagiam, não sei explicar. Sinto-me mais do que um pacote de qualquer coisa numa embalagem. Embora seja isso que nós somos. Essa vontade de viver mais do que wille zu macht vontade de poder, voraz vontade de poder. O tempo é apenas o movimento contínuo do minuteiro. Há momentos em que esqueço o tempo, esqueço o contágio das horas. Minha cabeça está aberta a receber essas ideias novas, nova vibração. Transformei a saga dos meus vinte anos em um conto infantil e me dei um presente, o tempo presente. Horas em que o tempo está contra mim e contra todos. Não importa.


E a chuva chegou. Chegou quando eu menos esperava. Chegou quando eu esperava algum alívio. Chovia à minha volta, mas não aqui. Agora não. Agora choveu na minha aorta. As águas do céu lavaram todos os vasos, as veias, as mágoas, as artérias.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

segunda-feira, novembro 29, 2010


Você vai esquecer aquelas lembranças ruins. Tudo está certo e vai ficar tudo bem. É preciso passar pelo cadinho da dor para se valorizar as pequenas coisas. As águas baixaram, a tormenta passou como suave vendaval. Morrer é nascer uma vez mais. Desvencilhar-se do orgulho “de não querer ser príncipe senão do seu reino”. Desconstruir conceitos. Desfazer-se do desejo pretensioso. Do pretenso desejo de ser sem medida. Eu, que sempre fui ovelha, talvez irremediavelmente desgarrada, falando aqui agora como pastor. Minhas palavras. O quê que eu posso arrebanhar com minhas palavras? Aceitar as perdas como inevitáveis. Compreender o inevitável princípio da impermanência. Mais do que aceitar e compreender, renascer dentro de si. É necessário quebrar nossas próprias tradições. Ouvir a própria voz que vós fala. Você vai esquecer. São apenas paisagens flutuantes.

domingo, novembro 28, 2010

oito e meio



Mais um fait divers


Enquanto o complexo do alemão está cercado, o carioca comum continua indo à praia.



Eu

Espero a chuva

Ela não vem

Ela virá, ela virá



Delineando sua geografia interna.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Estate

Estate sei calda come i baci che ho perduto
Sei piena di un amore che è passato
Che il cuore mio vorrebbe cancellare
Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Adesso brucia solo con furore
Tornerà un altro inverno
Cadranno mille petali di rose
La neve coprirà tutte le cose
E forse un po' di pace tornerà
Estate che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore
L'estate che ha creato il nostro amore
Lavori eccellenti i legami di dolore.

outros invernos verão

Eu sou global

Sono complessivamente

domingo, novembro 21, 2010



Esse é um exercício de vinte páginas. Sobre os fatos, as pessoas, o mundo. Um fait divers sob a ótica dessa prosódia rara. Hoje é um dia, enfim, eu realmente não gosto de domingos, mas tenho tentado sublimar. Os ares de Araraquara e o Atlético Mineiro, o “galo” venceu o Palmeiras, o “porco”, por dois a zero. Agora chove. Hey Jude, Paul MacCartney faz show em São Paulo. O Morumbi também é cultura. Quantas vezes ele deve ter tocado essa música, Jude? Acho que ele “encheu o saco” e está tocando somente composições inéditas no show. O público está meio mudo. Se eu não dormir em vinte linhas, vou ver os “melhores momentos”. Se amanhã acordo cedo, chove. faço um cappuccino e umas torradas. Chove. O Brasil é um país tropical. A esperança pela terra. Meu pequenino trabalho de pesquisar, conversar com o povo desses lugares ladeados pela vastidão de montanhas. Agradeço a oportunidade. Saber que algumas pessoas estão conscientes e em busca de seus direitos. Em busca de lutar com suas roseiras, seus lírios e delírios sob a chuva firme torrencial do verão, prontos pra mais um inverno. Ameno. Ovelhas correm chacoalhando seus sininhos pelo campo. Todas as flores estão desabrochando. Todas as manhãs encantam. Seus olhos enxergam cores de nomes que ainda não criaram os matizes naturais, a sutileza. A palavra tenta nomear a cor assim como a cor tenta “retratar” a realidade. Gaugin, Van Gogh concluíram assim. O meu amor será bom, será sincero, será sério. Seus olhos de anjo serão assim de ver com olhos de anjo. Estou aqui mais uma vez. Perdi a forma de dedicar atributos a existência. E tudo se torna mais leve, mais light, mais zen. Anamastê.

Saiu

Se foi

...

Nunca mais vil

meu amor

sábado, novembro 20, 2010

O Dia da Criação


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


Neste momento há um casamento
Há um divórcio e um violamento
Há um homem rico que se mata
Há um incesto e uma regata
Há um espetáculo de gala
Há uma mulher que apanha e cala
Há um renovar-se de esperanças
Há uma profunda discordância
Há um sedutor que tomba morto
Há um grande espírito de porco
Há uma mulher que vira homem
Há criancinhas que não comem
Há um piquenique de políticos
Há um grande acréscimo de sífilis
Há um ariano e uma mulata
Há um tensão inusitada
Há adolescências seminuas
Há um vampiro pelas ruas
Há um grande aumento no consumo
Há um noivo louco de ciúmes
Há um garden-party na cadeia
Há uma impassível lua cheia
Há damas de todas as classes
Umas difíceis, outras fáceis
Há um beber e um dar sem conta
Há uma infeliz que vai de tonta
Há um padre passeando à paisana
Há um frenesi de dar banana
Há a sensação angustiante
De uma mulher dentro de um homem
Há a comemoração fantástica
Da primeira cirurgia plástica
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo


quinta-feira, novembro 18, 2010


Realmente não tenho desejo de escrever nada. Aliás, não tenho vontade de comer, mas sinto fome às vezes. Meu apetite maior é por algo que ainda não conheci. Estou pronto.

terça-feira, novembro 16, 2010

Quando o crepúsculo se avizinha. A madrugada cai toda noite. As manhãs nunca se atrasam. O sol também se ergue. Acordo e vou viver a cena de uma organização não governamental. Estou ampliando minha visão para além das montanhas. Mariana sonda-me. A terra em transe. Qual é a transa? Quem você transa? O quê você transa? Isso tudo parece piada. Parece um sonho, mas não é. As notícias do mundo atualizadas. E vale-me intimamente, saber muitas coisas em muito pouco tempo. Como ver sua áurea de encanto e não perceber seu recato? A doutrina do Buda. Já não dou opinião em nada. Não sou mau nem Bom, bom nem Mau. A vida se ampliou a uma enorme ramificação global. Cidades do norte do Brasil assistem à novela com duas horas de atraso por conta do fuso horário. O horário de Brasília. A Bahia não adota o “horário de verão”. O mundo fragmentado em meridianos. Aberto numa página plana. Conheço você. Olhos de anjo. Mas enfim, what do you mean com “ninguém é poupado”?


domingo, novembro 14, 2010

mamy

Hoje é domingo. Em qualquer lugar do mundo o domingo é um dia bucólico. Eu detesto domingos porque as pessoas parecem estar mortas. Como naquele vôo para Rio Galegos quando as pessoas dormiam profundamente e pareciam todas mortas. Nessas minúsculas cadeiras ouvia-se só o barulho do avião. Tento fugir dessa paranóia, mas o silencio continua mórbido. Hoje devo relevar essa vagueza, essa mansidão. Hoje é o aniversario da minha mãe. Queria fazer uma homenagem, mas minha maior homenagem será me manter cúmplice desse silêncio. Ser conivente com essa morbidez infantil do domingo. Deveria ser um dia ensolarado e florido.

sábado, novembro 13, 2010

Mensagem


Desde que mudamos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira

Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos

Allen Ginsberg
Howl and other poems (1953-1960)

ups!
merda...

quinta-feira, novembro 11, 2010

quarta-feira, novembro 10, 2010

46

A tarde é quente

meus olhos cansa

Chove

Das ilhas desertas


Havia ilhas derivadas, mas a ilha é também aquilo em direção ao que se deriva e havia ilhas originárias, mas a ilha é também a origem, a origem radical e absoluta. Separação e recriação não se excluem, sem dúvida: é preciso ocupar-se quando se está separado, é preferível separar-se quando se quer recriar; contudo, uma das duas tendências domina sempre. Assim, o movimento da imaginação das ilhas retoma o movimento de sua produção, mas ele não tem o mesmo objeto. É o mesmo movimento, mas não o mesmo móbil. Já não é a ilha que se separou do continente, é o homem que, estando sobre a ilha, encontra-se separado do mundo. Já não é a ilha que se cria do fundo da terra através das águas, é o homem que recria o mundo a partir da ilha e sobre as águas. Então, por sua conta, o homem retoma um e outro dos movimentos da ilha e o assume sobre uma ilha que, justamente, não tem esse movimento: pode-se derivar em direção a uma ilha todavia original, e criar numa ilha tão-somente derivada. Pensando bem, encontrar-se-á aí uma nova razão pela qual toda ilha é e permanecerá teoricamente deserta.

segunda-feira, novembro 08, 2010

"criar uma pequena flor é um trabalho de séculos"

William Blake

Quer saber? Vou continuar sendo o que eu sou. A minha presença hoje inspira respeito. Um olhar de quem não tem forças nem fôlego para combater a Vida. Respeito de quem respeita a Vida. Respeito de quem passou as noites... Essas noites de quem chorou de quem sofreu com o que não se pode mudar de quem se desesperou. Esse “tempo” lapidou minha paciência, minhas vísceras minha alma. Reanimou minha pulsão de vida. Equilibrou minha relação com o ânima. Meus olhos buscam. Minha memória, meus ouvidos, minha pele, a arte. Estou abatido, mas acima de tudo vivo. Com minhas infinitas qualidades e pouquíssimos defeitos. “Um sábio não se elogia” um ditado chinês, mas sabe, queira o mundo ou não, eu estou cada dia mais zen. Mesmo sabendo que excesso de zen também irrita, deixa puto. Não mais dou opinião sobre nada. Tautologia. O céu é azul porque é azul. É porque é. Não denuncio meu gosto por puro desdém. M,

é tempo em que espero o resto da minha vida com toda suavidade, toda candura, toda simplicidade do mundo e até mesmo uma certa indiferença. Alheio a essa prostituição de emoções verdadeiras. Ajudando quem precisa de “pão” mais do que eu. Pão para alma, pão por um sorriso, pão para o alimento. Ajudando a mim mesmo, isso me faz muito bem. Recebendo a paz de ajudar. Recebendo paz. Forças que busco em Deus ou a Natureza. Caminhei dez dias pelo cume das montanhas. O máximo que já caminhei sozinho. Nas trilhas durante o dia e à noite nas tocas. Sehr gut. Dormindo dentro da terra, uterinamente. Sabe, o trabalho na ONG tem sido ótimo. Acho que posso ser mais do que recepcionista.

sábado, novembro 06, 2010

vostro bimbo



É difícil "ser" humano. Sinto que é difícil escrever num sábado desanimado, desassossegado. Muitos ésses numa mesma palavra me cansam. O que você está fazendo? M de menina dos olhos de anjo, M de você, o ano ainda não terminou (o ânimo também não). Ainda não se completou minha luta, esse sentimento de rispidez com a vida. Sigo passo a passo bem devagar. Ainda não acabou minha vontade de viver, essa voz intrínseca que não cessa, ainda não consigo ver. Ainda predominam desânimos com os quais tenho que lutar. Anjos e demônios com os quais sou obrigado a viver. "Problemas com o pai que se foi? Rancor com a vida?" animosidade com a sociedade? Sim, não tenho mais esses problemas, sempre odiei as massas. Aprendi a viver sozinho. Quero conquistar, mas no momento, a mim mesmo. Não é muito difícil, gosto muito de mim.Talvez a ver “de fora” e não enxergar a si mesmo e participar anestesiado do processo. O processo é lento, é pós-moderno, é cultural. A cultura é burra, é lenta, é alienada, é ignorante da mudança. Dia em que a cultura de cento e quarenta caracteres apenas diz, mas não diz nada apenas por dizer. Em casa ouço os pássaros cantando. A modulação perfeita de sons. Em mim resta ainda um desacordo, um desajuste. Gosto de caminhar na natureza no verão. Chove, mas é melhor do que essa floresta de pedras. É melhor viver do que chorar.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Sorella




allora parliamo



Esse desejo de ser clean. Essa vontade de ser cool. Sem cobiça. Seu quem eu sou. Sou quem eu sou. Sei. Sou alguém. Alguém – simplesmente nada e nada mais. O que chamam disso ou daquilo deve ter relação com qualquer coisa que se nomeia. Vilipendiando seria a palavra sem referência a nenhum sujeito, ou seja, sem me referir a nada. Apenas essa palavra substantivada. Vilipendiar, vilipendia. Vilipendia como vento vil resvalando na relva. Alto de montanha. Copiosamente subir cada passo rumo acima se resguarda no isolamento. Leva seu corpo leve, leva leve montanha acima. Cada vez mais dentro de sua alma limpando e sendo limpa por cada minúsculo, ínfimo, secreto, vilipendioso vilipendio.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Almas diluídas


A janela de onde se vê o mundo. Por onde o sol me acorda onde seus raios apontam pela manhã. O sol se ergue, eu me levanto. A luz na noite. Janela por onde vejo a silhueta dos prédios. A escuridão acessa de desvelo. A vagueza do apartamento mais alto. A silhueta desse esmo celeste. A reta onde passeiam as sete luzes. O sopro em forma de devaneio. O silêncio onde se escondem as sombras. Tão imensa a freqüência do negro, morno, insosso. Assim é a noite. A silhueta acanhada e calma na escuridão das árvores. Modesta fleuma pousada nas galhadas, sem vento. Estrelas flutuam como meninas tímidas gordas que comeram chocolate escondido.





São pincelas rápidas. Palavra de brisa, de vento. Vento de chuva, conto de fadas. Tempo de pensar lúdico e ser simples – um hábito infantil. E ser aqueles olhos de criança amada que enxerga a Vida sobre o manto azul das parábolas e adivinhações. Hoje concluí que nada está “certo”. Nada está previamente marcado na distância que percorremos. A vida é um enigma. Pois sim. Vida.



Sonhei que havíamos feito um pacto de bondade com uma anja gordinha estilo Disney que nos levava de mãos dadas pelo ar até o teto. Ganharíamos uma pequena fortuna sorteada no dia de ação de graças. Minha mãe, uma garota e eu. Ganhei um pequeno relógio, feito um estojo de madeira. Em uma fazenda americana fizemos amizade com o Senhor e a Senhora Brown, dois bons velinhos. Feitos para serem merecedores da nossa bonança. Um filme da sessão da tarde. Eu rodava o relógio e conseguia saber o futuro, ir, viver, ver o futuro e voltar ao tempo real. Eu voltava ao passado também. Andei com James Dean e ele era menor do que parecia. Andamos juntos. Ele fumava cigarros de filtro vermelho e não era o ator famoso de Hollywood. Era apenas um cara franzino, mas agraciado com traços perfeitos. As meninas reverenciavam Dean como um astro do rock nos Estados Unidos dos anos de 1920, também uma festa Alla Sessão da Tarde. Ele era o cara. Acendia um cigarro com aquele seu sorriso maroto, moleque, pivete. Comprei para nós duas cervejas quentes. Eu estava ao lado do cara e de repente estou em um programa de auditório no “tempo real”. Dean estava escondido na platéia, digamos, à paisana. Velho. Anônimo. Acompanhado de uma old pin-up. O programa era sobre um ator popular dos anos do cinema em preto e branco. Eu toco uma espécie de sanfona. Freqüento concertos de música clássica e os protagonizo também. Meu instrumento é pouco requisitado na orquestra, mas eu vivia novas histórias no passado. Rodando o reloginho. As horas se vão e pela manhã está chovendo. De repente meu pai me liga, são sete horas da manhã. Onde está o carro? “Desculpa, mas eu estou ouvindo a última música da Elizete Cardoso.” No telefone meu pai fala com alguém sobre aquele delírio. Na verdade, eu chegara atrasado. Era um grande concerto em que ela participava apenas no último ato. Eu estava emocionado. “O carro está a caminho”. Meu carro “novo” se transformava em um modelo antigo, com detalhes em de madeira, vintage. No tempo real minha mãe não se lembrava do feitiço. Fiz voltar o tempo rodando o reloginho. Levei mamãe a um desses concertos. Contei sobre a história da manipulação do tempo. Entreguei a ela essas amostras grátis de perfume pra ela distribuir. Quando as luzes se acendem logo ela encontra umas cocotas que falam as mesmas gírias do passado. “Não te disse, mãe?” “Meninas! Oi Leni!”. Cadetes em roupa de época distribuem essa mesma amostra de perfume. O cheiro, o gosto, a sensação, eram todos próprios do passado, mas minha mãe vê alguma contradição no ar. Ela desce e senta-se ao lado da autora da peça. Porque você escreve sempre a mesma peça? – pergunta. Com uma feição bastante enigmática, a famosa escritora de novelas da rede Globo, responde, como que perguntando o mesmo a si mesma, com aquele ar vago disse pausadamente “Eu não sei...”. A obra tinha força sobre a sua criadora. Predominava, erguia-se sobre si mesma e tomava sempre fórmula que a própria escritora não conseguia explicar. Saio do teatro e ouço no rádio uma crítica sobre a estréia da peça dizendo que a autora estaria se utilizando da fórmula criada por “Von alguma coisa”, algo assim. A peça considerada pedante e prepotente e o autor um célebre enganador. Desmascarado, desconsiderado, entrou pra história como falastrão. Soldados estariam sempre manipulando a realidade verdadeira, pingando aquelas gotinhas. Os militares enfeitiçando e controlando a vida das pessoas. Estaríamos vivendo sempre o mesmo passado. Depois dessa, admito que fiquei em dúvida sobre a veracidade do relógio. Sobre a verdade-realidade, sobre o passado-presente, mas não me desfiz do reloginho.





“Mas poxa, Gu, você sabe que aldeia é “tudo”, não é?” – ela diz. “É...” – respondo, e tento ficar calado. Veio-me à cabeça aquela história da fogueira de Platão. Uma caverna e uma fogueira, uma caverna e uma fogueira... Aldeia é “tudo”. Certo, naquele momento eu já queria entrar em Alfa. Transmutar. È que aldeia demais me faz mal. “Você não perdeu nada.” – digo. O consolo maior era ficar ali, quietinho dentro daquele quarto, daquele sossego, olha pra mim. Dentro daquele aposento mágico eu rodopiava e girava pelo teto, pendurado pelos ombros em um elástico, onde havia uma fogueira artificial com luz alaranjada. Ficamos ali deitados, de barriga pra baixo, na cama. Ela repara alguma coisa que eu não vejo mais. Enxergo apenas as sombras do que acontece do lado de fora da “minha” caverna, em contraste com o brilho da fogueira. Lá fora venta e faz frio como se não fosse “aqui”, como no conto daquele escritor russo... Mas ficar aqui dentro? Melhor ficar aqui dentro. A fogueira agora está fora do alcance dos meus olhos, fora do meu campo de visão. Enxergo apenas reflexos.



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quinta-feira, outubro 07, 2010

diáfano


No frio fio da navalha, onde o corte é sangrento e a dor incomoda. Isolado, em contato com os novos colegas. Com os novos loucos que ali estávamos reunidos no sufoco do claustro e numa disfarçada auto-aceitação. Contenção – verbo e substantivo – também fazia parte do negócio. Ó amada contenção! Mª da Conceição. Pelos pés, pelas mãos, pelo pescoço que fosse. Era como ver-se atado a um símbolo de condenação, de recalque de quem usa, de material acusação e material confissão de culpa. Era sangrento por dentro viver à base de tanto remédio. Barbitúricos que até hoje meu corpo tenta expulsar o resquício do fósforo que desce pelas pernas. É difícil voltar a ser, mas faço crioterapia na água. Um dia minha contenção, nas últimas por um desastre, virou uma tramela patética e solta para trás como um rabo. A acadêmica diz “estou com medo de pisar no seu rabo. Porque você não dá um nó?” eu disse “melhor viver assim solto. Dentro do possível” – diálogos impessoais. O castigo.

quarta-feira, outubro 06, 2010

Ceps

As pernas flexionadas. Como ajoelhado diante da Impotência.

chess game

Stop that machine

Eu mantinha meu maior orgulho, a humildade. Essa voz rouca, essa vontade de sair. Descubro que meu maço de cigarros que sumiu já ia se tornando um Gate, um caso. “de repente as coisas somem” ele disse. No início você duvida da frase, mas depois constata que isso acontece. Como perguntar quem viu um maço de cigarro e um isqueiro branco? De fato coisas somem. Dinheiro. Era o melhor que você pode. Eu tinha ganhado um maço novo de uma amiga lá de dentro e tentava achar um outro lugar pra esconder dentro daquela sensação de claustrofobia de quarto. Aconteceu esse impasse de ser roubado pelo colega de quarto encontrei o meu maço que “sumiu” dentro da mala-de-aeroporto do amigo onde eu buscava novo esconderijo. Recolhi o produto afanado. Coloquei num terceiro e escondi em mais sagaz lugar. Ele disse que “Sumiu um maço de cigarro meu. Devolve meu maço de cigarro”. Eu disse “é, as coisas somem aqui”. Eu estava fumando. Ele acabava de fumar, se levantou e saiu do quarto. Dois segundos depois a Besta-Fera, modo como apelidei a chefe da enfermagem “Auschwtiz contra a sua honra”. Entrou no meu quarto e me pegou com um cigarro na mão. Eu já sabia como era aquela cena desmoralizante de mexer na suas coisas, de desmoralizar humanamente. Saí na captura desse imbecil e uma fortaleza se firmasse no que me talhou o sangue e eu pulei de elogios alegres espontâneos sobre ele, descendo a fúria. Cacoete, ƏŌ6 @۞ Ỹ ‰ § Ladrão º! غ##$ filho-da-puta. ξ#& %~7¨% \! Moleque! E o ácido biotrônico deixou o achacalhador calado, frustrado, sem cigarro. Eu também fiquei sem o maço novo, mas consegui levar o cigarro do mocô temporário para o novo imediato quarto que nós separaram. Uma gaveta, um gabinete e um armário. Tudo que você tem, levado às pressas, remexido, revirado. Minhas costas ficam tensas pra caralho. Ficam duras a musculatura das costas e a paciência um estopim. Longo. Uma pulsão de vida quando se pensa que já se está derrotado.

nice to meet you...

terça-feira, outubro 05, 2010

Eva Herzigova






Caderno de um Interno









A Fúria descontente







Após incansáveis dias com um companheiro de quarto, cujo perfil sociológico só conseguiu ver depois da fúria que despertou em mim. Meus olhos estavam cansados, meus assuntos já eram desesperadores, minha energia parada em tabletes de remédio. Dopado, estagnado, flexionando passos contra distância desses “algos” talvez irreverssíveis. Refeições feitas sem apetite. O calor seco do confinamento. Sudorese e sonhos de inicio ao fim. Sonhos de risada sem rumo e megalomaníacos, alucinógenos. Incansável recomeçar e recomeçar o mesmo dia diferente, mas do mesmo e mesmo cotidiano. Nenhum dia de rara monotonia, apesar de serem os dias todos iguais, com tempo medido a relógio e não vivido. Salve a fadiga de ter fadiga. E eles querendo preencher nossos dias com atividades que soam de forma tão inerte. Ah, meu bebê, e o dia da chegada? Esse foi um dia por demais cruel contarei mais tarde. Teve a sensação desse nunca mais ver-te. Teve a Fúria descontentada desse corte e a faca afiada de Carmem.





Don Galeano

quinta-feira, agosto 26, 2010


Por que essa iniquidade? por que essa distância? esse sentir-se perto, se longe? e esse longe se perto. Se de dentro de mim ainda simboliza a linha de passagem da crueldade, do despojo, do desdém e da derrota saboreada pelo papel que o seu você, esse seu útero infantil e seu leite negro protagonizaram tão bem.


Lindo!
E eu me sinto enfeitiçada
Correndo perigo
Seu olhar
É simplesmente
Lindo!...

Mas também não diz mais nada
Menino bonito
E então quero olhar você
Depois ir embora
Ah! Ah!
Sem dizer o porquê
Eu sou cigana
Ah! Ah!
Basta olhar prá você...


E eu me sinto enfeitiçada
Correndo perigo
Seu olhar
É simplesmente
Lindo!...


Mas também não diz mais nada
Menino bonito
E então quero olhar você
Depois ir embora
Ah! Ah!
Sem dizer o porquê
Eu sou cigana
Ah! Ah!
Basta olhar prá você...


Depois ir embora
Ah! Ah!
Sem dizer o porquê
Eu sou cigana
Ah! Ah!
Basta olhar prá você...



terça-feira, agosto 24, 2010

ei, onde você vai?



Essa trama novelesca que me dá fome e tédio. Essa trama novelesca que se desvela entre cigarros de menta e soluços. Peito engasgado, mudo. Silencioso por dentro, cappicci? Essa interface High Low, Low profile, escuso, esse monitor velho perdido no tempo da fogueira, essa chave do conhecimento, dez anos sem celular, essa é a minha preocupação, essa ladainha, esse lamento, essa dor sem fim, esse gesto. Esse contradicto ao inverso dentro de mim, essa rara capacidade de não dizer nada, de voltar ao mesmo ponto, de não ser catedrático, blasfêmico. Na academia não há como fugir das hienas, não há como sair da caverna. A cena novelesca mais uma vez. Reluto em ser contaminado pela política. Cada um, eu sei, em seu canto, cada vez mais dentro, minha fogueira, cada vez menos o mesmo eu, caído em contradição reverbero oco vazio do eco. Alheio ao hipertexto, ausente, sem asas, sem redbull. Uma cena sem tema, sem gritos e sem áudio, diante da velharia, diante da minha própria descontaminação, diante de um trabalho feito só.

vesúvio jazz cafe

Vou voluntariamente,vôo. (com acento)

domingo, agosto 22, 2010

re-completando

Não se sabe qual dor a garganta abafa, comprime o diafragma. O quê fazer com o choro adulto?

sorriso e lágrimas


Linda ragazza,




Sou um homem do mato, mas eu estou "por dentro", da minha forma. As cavernas. Sou o homem de hoje sou o homem de ontem. A roupa de ontem, esse jeito de não ter medo de andar, confiante em si só. Esse depojo de estrangeiro alheio, vilipendioso. Apenas um estar entre a gente não sou popriamente. Em busca da realidade. Não tenho mais problemas com a tarde, a madrugada, o espelho e sigo escrevendo meu próprio manual de felicidade. Conceitos freudianos me lembram você, Petit. À merda com todos esses conceitos. Mamãe, papai, a lei – transgressão. Esse tolo sentimento de culpa que te devora, essa culpa social, antropológica, urbana. O meu maior medo é de cair em esquecimento, obliterado pelos olhos alheios, sem reminiscência, sem memória. A Natureza (ou Deus) me consola. Sozinho. Do riso a gargalhada, do choro ao pranto. Coragem. Lavando a alma, acima da terra, a água que brota. Isso que me assola esse desconforto, esse medo que me faz recuar. A natureza é um enorme útero. Auf wiedersehen. Adeus...









Qual seu medo mais pavoroso?

quinta-feira, agosto 19, 2010

completato, chiuso



No início da primavera as pequeninas orquídeas do serrado florescem em suas "batatas" nas pedras, longe do alcance do fogo. Parece ser atávico eu querer me refugiar no alto das montanhas seguindo uma trilha em s ao contrário. A toca onde cabe exatamente uma pessoa. Parece um grande pequeno útero. Algumas aranhas, embaixo de uma pedra. O buraco se estende pra dentro onde eu coloco algumas velas e as coisas pequenas. O calor faz jus ao eufemismo. Pela entrada, olho as estrelas na amplidão. Observo todo o trajeto da lua. A noite é única, especial. Todos estão a salvo, aquecidos como pinto e galinha. Cavalinho de madeira corre com a boca seca e morro acima e se esfola e relincha e segue. Aliás, sabe seguir adiante, livre e galopante, cavalo sou. Galopa bicho doido, se apruma. Conserva o eixo nas curvas, segue seu instinto. Sua própria imagem. Deve ser isso. Associado à força bruta, é um bicho meio “burro”. Pasta, dorme, corre sem solto, sabe onde vai beber água do riacho, aquecer o pasto, ocupar espaço. Volto a fruir a Natureza lugar vazio de seres humanos. Do cume observo a Serra do Espinhaço, sigo em s ao contrário. Uma hora dessas, quebro meu jejum e tenho que descer ao mosteiro. Pólvora e tabaco.


Ele te ama

7:27 O rei pranteará, e o príncipe se vestirá de desolação, e as mãos do povo da terra tremerão de medo. Conforme o seu caminho lhes farei, e conforme os seus merecimentos os julgarei; e saberão que eu sou o Senhor.

quarta-feira, agosto 18, 2010

O restaurador de quadros. Um códice sagrado, profano, esquecido, mas de quê vale a História? Queimemos os museus! – diz o Nada. São Jorge olha pra espada. Aí foi que eu sambei, cumadre. Doce bárbaro bem-comportado. Um gentil, um homem das montanhas. De dia eu ando nas trilhas, a noite eu durmo nas tocas. Um lugar meu lugar é sumir no mundo (? mim-mesmo? la fêtte, la merde?). Sempre rasteja em meu coração. Difícil entrar em harmonia comigo. Enlouquecido-zen por algum feitiço lançado "de flash" por um chapeleiro. O veneno, o remédio, a linha reta e a mad hatter. Antes de colocar sua maquiagem, diz alguma coisa boa pra mim. Livre, voa pássaro livre. Livre como passarinho. Olha que lindo. Mais que isso, só um samba de roda...

mmmmmmmmmmmmm

Before I put up my make-up...

sábado, agosto 14, 2010

Criança esperança





Qual será a parte do meu DNA que revirou alianças do passado, que trouxe comigo essa busca louca desenfreada? Então é assim, um homem na horizontalidade, na amplidão, na verticalidade. Então é assim, um mundo novo pra mim. Todo feito de plástico. Todo feito e de pessoas novinhas “em folha”, distantes, intubadas. No caminho torpe dessas adentanhadas, acumpinzadas, cuspidouras e mal traçadas linhas.

domingo, agosto 08, 2010

Estética


Eu não posso postar coisas que me despertam. Eu posto coisas que me dão esperança. Espero que o pêndulo esteja balançando longe do terrível. Eu cobiço a beleza idiossincrática, a criatividade, a inventividade. Estou cansado de pessoas compiladas em retratos que a beleza do macaco como o monstro de Frankenstein é vida. A beleza é um maníaco na corrida armamentista. Apenas me dê uma pessoa bem fotografada. No clichê, pois é um talentoso fotógrafo é aquele que pode fazer qualquer assunto cativante. Ninguém é tão bom no Photoshop quanto eles pensam que são. Eu acho que não estou sozinho em meus pensamentos também. Polaróides são quadril. Polaróides estão perdoadas em suas manchas e cores suaves. Polaróides não podem ser pós-processadas. O mesmo vale para os mais velhos 35 milímetros “ponto-e-disparar”. As câmeras atualmente estão desfrutando de um ressurgimento graças a fotógrafos como Terry Richardson. Esses são todos os atalhos de autenticidade, porque nos fazem lembrar o quando éramos mais jovens e menos cansados. Eles enfatizam o momento capturado, falhas e tudo. Falhas em especial, talvez. A nudez em si me dá esperança. Não é pornô nudez, não a nudez da linha de montagem. A nudez do lúdico, ou pelo menos a nudez honesta. Eu busco a nudez que me faz pensar que poderíamos eventualmente derrubar o último dos puritanos (culpa e vergonha) que ferem a nossa cultura.

sábado, agosto 07, 2010

Solidão é uma coisa intrínseca


Deixa que meus olhos descansem após viverem tão gentilmente o dia. Deixa que eu corra sobre o meu eixo. Catequiza meus exús. Ajuda a dizer a eles que eu quero caminhar no caminho do bem. Ajuda a prosseguir viagem nessa jornada tão curta, por mais que a espera seja longa. Às vezes lembro-me de você e até choro. Dá-te forças ó Gustavo, ou pede uma ajudinha na subida - uma mão amiga. Estou cansado desse Sun set, meus olhos estão aguados como quem pula da sombra pra luz feito um gato, bichano sagaz, espreguiçoso. Sou como eu sou, sou o que fui o que eu era. Sou você sou eu, é. Amanhã serei meu pai, minha mãe e meus irmãos.


..........

quinta-feira, agosto 05, 2010

fogo in chico


ou fucking shit

Então é assim um mundo desconhecido pra mim. Então é assim matando o tédio um saro no play, arranhões na cobertura Flamengo Sketches. A vista da amplidão, da verticalidade, simplicidade. Miles Davis diz que não e toca sua corneta feito uma galinha choca. Chet Baker, dopado de heroína, (e quantas foram nossas indestrutíveis heroínas?) dopado de algum sonho qualquer de viciado. Pungente. Mas deixa o Chet fora disso. O que vale é um sonho feliz, cheio de realizações, cheio de alegria. E se eu disser que a felicidade está dentro de nós mesmos? E já que estamos presos a nós mesmos. O budista encontra estado pleno de consciência então choca. Seu pau está duro. A minha mente (nossas) disvirtuada, disvituosa, disvurgulosa, hipofágica. Sua mãe não devia deixar você falar assim tanta bobagem quanto às mulheres, menino. Obrigado Francisco, luz evangelizadora no caminho torpe dessas, adentanhadas, destracejadas, acumpinzadas, cuspidouras e mal traçadas linhas. Life on pianinho. Leva no pianinho... Na flauta-piano. Hermeteia. Pascaleja.

((nada(s))

quarta-feira, agosto 04, 2010

qué que eu sei?




Constato, aos trinta e dois anos, que “momentos” desenham linhas de ruptura em nossa vida. Aos trinta e três anos Jesus saiu para pregar. Pelo deserto passou sua prova mais íntima. Morreu na cruz. Oito vezes morri na cruz dos braços de uma mulher que muito amei. Essa é a ruptura. Posso traçar uma linha sísmica, além do tempo, além do outro. Através da minha experiência. Hoje é como se eu não devesse nada ao mundo feminino, portanto, quase nada ao mundo. A não ser, os filhos. Uma extensão genética provinda de apenas dois pares de cromossomos. Uma meia-cópia de mim, adulterada pela indústria cultural. Um minuteiro que gira sem o ponteiro das horas. Gira porque é inexorável por aproximadamente cem anos. Daqui a duzentos anos nenhum de nós estará aqui no planeta, vivo pra poder dizer.

terça-feira, agosto 03, 2010

Imagem para Caio Campos

Stanislaw Wyspanski,
vulgo, Caio Campos.





Vivícius


Forma de expressar uma dor inexprimível. A infantilidade leva a isso. O infante ou infantil não tem voz. A criança, de acordo com uma reação atávica do pensamento, não é ouvida. A voz de um esquizofrênico também, mas a vocalização infantil simplesmente não ouvida. Não é válida. É absurda e puramente contraditória como a de um louco.

domingo, agosto 01, 2010

La Carmen tiene un cutillo.





Sim, suicidado pela sociedade. Interno, Artaud, pequeno. Carmen, suave vendaval, como uma bulerías. Sacou seu punhal e não se viu. Uma tedesca, uma grega, uma persa. Quê esforço faço ao traçar tais linhas, se todas essas moças foram minhas? Foram “minhas”, tantas moças belas, agora que sou essa besta-fera. Uma coisa é certa, todas elas tinham um cutillo.

p.2


Ah, Lua minguante, é difícil encarar, te encarar. Ah despojamento... uma barata passa em cima dos papéis e voa pela janela, maldita. Como descobrir a poesia na mulher que me fez desfazer amar? Como lidar com isso? Uma auto, auto, auto auto, auto... Esse é o lenço que eu mais tenho gosto. O que minha mãe escreveu as iniciais A.P. em tons de cinza xadrez claro me apega a esses pequeninos predicados. Talvez um coração dilacerante esse esquecimento sem fim, essa falta, esse vazio que se fez. Sigo. Sozinho, mudo, cheio de pequenos absurdos. Enganchado nesse poema, nessa prosa, mesmo que me doam as costas, os músculos, enquanto gotas salgadas infladas pela garganta querem saltar. O estômago vazio. Ouvindo ópera, sozinho, num sábado à noite. E ouvindo os clássicos. O piano. Franzino, zen, maluco, louro, insano. Homens muito valentes foram meus avôs diretos. Alguém me disse que eu era um ótimo ser humano. Minha mãe diz para honrar a estirpe, mas alguém diz que você não existe.