quinta-feira, maio 20, 2010

quase uma maldição


Aquele momento em que você se sente só com letra maiúscula. Agora eu tento me ver através do olhar de si, Petit. Vejo quem fui. Quem talvez ainda seja. Quem eu sou hoje. Como se visse “o outro” me olhando através dos olhos desse outro. “Eu é o outro” disse Rimbaud. Observando-me com conclusões de milésimos de segundos, instantâneos e a longo prazo. Digo conclusões triviais. Meu comportamento nunca foi “exemplar”, mas acho que a vida ao meu lado era boa. Esse olhar pra mim mesmo através do outro me assusta. Fui mau, carrasco. Nunca mais quero magoar ninguém. Sofro porque penso que se houvesse sido “melhor”, em qualquer sentido, talvez eu fosse “aceito” e tudo “desse certo”. Vohlgeratenheit – a vida que deu certo. Terno que Nietzsche criou. Mas agora a chuva passou. E fujo intuitivamente como um pássaro livre, sem “lei”. Fujo pela noite, pela madrugada, pelas noites sem sonhos, sem um pedaço. Notas de piano me seguem o canto de um instrumento de sopro... Essas melodias chorosas do frio que faz o jazz. Prometo nunca mais magoar ninguém, nem a mim mesmo. Essas pequenas coisas ou grandes desatinos que nos faz apreender a vida, o ser humano, as relações. Se eu me dispo de forma e vejo a mim mesmo só através dos meus olhos e talvez, até sem saber, eu não te veja e me vejo em você... Esse deve ser o mais egoísta dos amores. Mas nunca é “bem assim”. A sintonia entre as nossas vontades, energias e o caralho-a-quatro já não “batiam”. Não se completavam mais nessa grande ilusão de tempo. Aceitar as perdas como inevitáveis. Saber (uma força enorme nessa atitude) que as todas-as-coisas-do-mundo coisas são impermanentes. Quando estamos juntos estamos plenos. Não essa não é a verdade. É preciso mais para estar inteiro e ninguém vive só, Petit. Embora alguns creiam que isso seja possível. Estar inteiro é estar vivo. Seguindo as “lei de Deus” ou aquelas que a sua moral obedece. Sofri, sim, feito merda. Arrastando correntes, lambendo carniça, roendo osso, chutando cachorro morto.

2 comentários:

Marina disse...

http://macanudoliniers.blogspot.com/2010/05/fuerza-gustavo.html

Papagaio Mudo disse...

Gracias! Power.
muchas gracias.
besos para vos.


Gustavo