quinta-feira, outubro 07, 2010

diáfano


No frio fio da navalha, onde o corte é sangrento e a dor incomoda. Isolado, em contato com os novos colegas. Com os novos loucos que ali estávamos reunidos no sufoco do claustro e numa disfarçada auto-aceitação. Contenção – verbo e substantivo – também fazia parte do negócio. Ó amada contenção! Mª da Conceição. Pelos pés, pelas mãos, pelo pescoço que fosse. Era como ver-se atado a um símbolo de condenação, de recalque de quem usa, de material acusação e material confissão de culpa. Era sangrento por dentro viver à base de tanto remédio. Barbitúricos que até hoje meu corpo tenta expulsar o resquício do fósforo que desce pelas pernas. É difícil voltar a ser, mas faço crioterapia na água. Um dia minha contenção, nas últimas por um desastre, virou uma tramela patética e solta para trás como um rabo. A acadêmica diz “estou com medo de pisar no seu rabo. Porque você não dá um nó?” eu disse “melhor viver assim solto. Dentro do possível” – diálogos impessoais. O castigo.

quarta-feira, outubro 06, 2010

Ceps

As pernas flexionadas. Como ajoelhado diante da Impotência.

chess game

Stop that machine

Eu mantinha meu maior orgulho, a humildade. Essa voz rouca, essa vontade de sair. Descubro que meu maço de cigarros que sumiu já ia se tornando um Gate, um caso. “de repente as coisas somem” ele disse. No início você duvida da frase, mas depois constata que isso acontece. Como perguntar quem viu um maço de cigarro e um isqueiro branco? De fato coisas somem. Dinheiro. Era o melhor que você pode. Eu tinha ganhado um maço novo de uma amiga lá de dentro e tentava achar um outro lugar pra esconder dentro daquela sensação de claustrofobia de quarto. Aconteceu esse impasse de ser roubado pelo colega de quarto encontrei o meu maço que “sumiu” dentro da mala-de-aeroporto do amigo onde eu buscava novo esconderijo. Recolhi o produto afanado. Coloquei num terceiro e escondi em mais sagaz lugar. Ele disse que “Sumiu um maço de cigarro meu. Devolve meu maço de cigarro”. Eu disse “é, as coisas somem aqui”. Eu estava fumando. Ele acabava de fumar, se levantou e saiu do quarto. Dois segundos depois a Besta-Fera, modo como apelidei a chefe da enfermagem “Auschwtiz contra a sua honra”. Entrou no meu quarto e me pegou com um cigarro na mão. Eu já sabia como era aquela cena desmoralizante de mexer na suas coisas, de desmoralizar humanamente. Saí na captura desse imbecil e uma fortaleza se firmasse no que me talhou o sangue e eu pulei de elogios alegres espontâneos sobre ele, descendo a fúria. Cacoete, ƏŌ6 @۞ Ỹ ‰ § Ladrão º! غ##$ filho-da-puta. ξ#& %~7¨% \! Moleque! E o ácido biotrônico deixou o achacalhador calado, frustrado, sem cigarro. Eu também fiquei sem o maço novo, mas consegui levar o cigarro do mocô temporário para o novo imediato quarto que nós separaram. Uma gaveta, um gabinete e um armário. Tudo que você tem, levado às pressas, remexido, revirado. Minhas costas ficam tensas pra caralho. Ficam duras a musculatura das costas e a paciência um estopim. Longo. Uma pulsão de vida quando se pensa que já se está derrotado.

nice to meet you...

terça-feira, outubro 05, 2010

Eva Herzigova






Caderno de um Interno









A Fúria descontente







Após incansáveis dias com um companheiro de quarto, cujo perfil sociológico só conseguiu ver depois da fúria que despertou em mim. Meus olhos estavam cansados, meus assuntos já eram desesperadores, minha energia parada em tabletes de remédio. Dopado, estagnado, flexionando passos contra distância desses “algos” talvez irreverssíveis. Refeições feitas sem apetite. O calor seco do confinamento. Sudorese e sonhos de inicio ao fim. Sonhos de risada sem rumo e megalomaníacos, alucinógenos. Incansável recomeçar e recomeçar o mesmo dia diferente, mas do mesmo e mesmo cotidiano. Nenhum dia de rara monotonia, apesar de serem os dias todos iguais, com tempo medido a relógio e não vivido. Salve a fadiga de ter fadiga. E eles querendo preencher nossos dias com atividades que soam de forma tão inerte. Ah, meu bebê, e o dia da chegada? Esse foi um dia por demais cruel contarei mais tarde. Teve a sensação desse nunca mais ver-te. Teve a Fúria descontentada desse corte e a faca afiada de Carmem.





Don Galeano