segunda-feira, novembro 29, 2010


Você vai esquecer aquelas lembranças ruins. Tudo está certo e vai ficar tudo bem. É preciso passar pelo cadinho da dor para se valorizar as pequenas coisas. As águas baixaram, a tormenta passou como suave vendaval. Morrer é nascer uma vez mais. Desvencilhar-se do orgulho “de não querer ser príncipe senão do seu reino”. Desconstruir conceitos. Desfazer-se do desejo pretensioso. Do pretenso desejo de ser sem medida. Eu, que sempre fui ovelha, talvez irremediavelmente desgarrada, falando aqui agora como pastor. Minhas palavras. O quê que eu posso arrebanhar com minhas palavras? Aceitar as perdas como inevitáveis. Compreender o inevitável princípio da impermanência. Mais do que aceitar e compreender, renascer dentro de si. É necessário quebrar nossas próprias tradições. Ouvir a própria voz que vós fala. Você vai esquecer. São apenas paisagens flutuantes.

domingo, novembro 28, 2010

oito e meio



Mais um fait divers


Enquanto o complexo do alemão está cercado, o carioca comum continua indo à praia.



Eu

Espero a chuva

Ela não vem

Ela virá, ela virá



Delineando sua geografia interna.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Estate

Estate sei calda come i baci che ho perduto
Sei piena di un amore che è passato
Che il cuore mio vorrebbe cancellare
Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Adesso brucia solo con furore
Tornerà un altro inverno
Cadranno mille petali di rose
La neve coprirà tutte le cose
E forse un po' di pace tornerà
Estate che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore
L'estate che ha creato il nostro amore
Lavori eccellenti i legami di dolore.

outros invernos verão

Eu sou global

Sono complessivamente

domingo, novembro 21, 2010



Esse é um exercício de vinte páginas. Sobre os fatos, as pessoas, o mundo. Um fait divers sob a ótica dessa prosódia rara. Hoje é um dia, enfim, eu realmente não gosto de domingos, mas tenho tentado sublimar. Os ares de Araraquara e o Atlético Mineiro, o “galo” venceu o Palmeiras, o “porco”, por dois a zero. Agora chove. Hey Jude, Paul MacCartney faz show em São Paulo. O Morumbi também é cultura. Quantas vezes ele deve ter tocado essa música, Jude? Acho que ele “encheu o saco” e está tocando somente composições inéditas no show. O público está meio mudo. Se eu não dormir em vinte linhas, vou ver os “melhores momentos”. Se amanhã acordo cedo, chove. faço um cappuccino e umas torradas. Chove. O Brasil é um país tropical. A esperança pela terra. Meu pequenino trabalho de pesquisar, conversar com o povo desses lugares ladeados pela vastidão de montanhas. Agradeço a oportunidade. Saber que algumas pessoas estão conscientes e em busca de seus direitos. Em busca de lutar com suas roseiras, seus lírios e delírios sob a chuva firme torrencial do verão, prontos pra mais um inverno. Ameno. Ovelhas correm chacoalhando seus sininhos pelo campo. Todas as flores estão desabrochando. Todas as manhãs encantam. Seus olhos enxergam cores de nomes que ainda não criaram os matizes naturais, a sutileza. A palavra tenta nomear a cor assim como a cor tenta “retratar” a realidade. Gaugin, Van Gogh concluíram assim. O meu amor será bom, será sincero, será sério. Seus olhos de anjo serão assim de ver com olhos de anjo. Estou aqui mais uma vez. Perdi a forma de dedicar atributos a existência. E tudo se torna mais leve, mais light, mais zen. Anamastê.

Saiu

Se foi

...

Nunca mais vil

meu amor

sábado, novembro 20, 2010

O Dia da Criação


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


Neste momento há um casamento
Há um divórcio e um violamento
Há um homem rico que se mata
Há um incesto e uma regata
Há um espetáculo de gala
Há uma mulher que apanha e cala
Há um renovar-se de esperanças
Há uma profunda discordância
Há um sedutor que tomba morto
Há um grande espírito de porco
Há uma mulher que vira homem
Há criancinhas que não comem
Há um piquenique de políticos
Há um grande acréscimo de sífilis
Há um ariano e uma mulata
Há um tensão inusitada
Há adolescências seminuas
Há um vampiro pelas ruas
Há um grande aumento no consumo
Há um noivo louco de ciúmes
Há um garden-party na cadeia
Há uma impassível lua cheia
Há damas de todas as classes
Umas difíceis, outras fáceis
Há um beber e um dar sem conta
Há uma infeliz que vai de tonta
Há um padre passeando à paisana
Há um frenesi de dar banana
Há a sensação angustiante
De uma mulher dentro de um homem
Há a comemoração fantástica
Da primeira cirurgia plástica
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo


quinta-feira, novembro 18, 2010


Realmente não tenho desejo de escrever nada. Aliás, não tenho vontade de comer, mas sinto fome às vezes. Meu apetite maior é por algo que ainda não conheci. Estou pronto.

terça-feira, novembro 16, 2010

Quando o crepúsculo se avizinha. A madrugada cai toda noite. As manhãs nunca se atrasam. O sol também se ergue. Acordo e vou viver a cena de uma organização não governamental. Estou ampliando minha visão para além das montanhas. Mariana sonda-me. A terra em transe. Qual é a transa? Quem você transa? O quê você transa? Isso tudo parece piada. Parece um sonho, mas não é. As notícias do mundo atualizadas. E vale-me intimamente, saber muitas coisas em muito pouco tempo. Como ver sua áurea de encanto e não perceber seu recato? A doutrina do Buda. Já não dou opinião em nada. Não sou mau nem Bom, bom nem Mau. A vida se ampliou a uma enorme ramificação global. Cidades do norte do Brasil assistem à novela com duas horas de atraso por conta do fuso horário. O horário de Brasília. A Bahia não adota o “horário de verão”. O mundo fragmentado em meridianos. Aberto numa página plana. Conheço você. Olhos de anjo. Mas enfim, what do you mean com “ninguém é poupado”?


domingo, novembro 14, 2010

mamy

Hoje é domingo. Em qualquer lugar do mundo o domingo é um dia bucólico. Eu detesto domingos porque as pessoas parecem estar mortas. Como naquele vôo para Rio Galegos quando as pessoas dormiam profundamente e pareciam todas mortas. Nessas minúsculas cadeiras ouvia-se só o barulho do avião. Tento fugir dessa paranóia, mas o silencio continua mórbido. Hoje devo relevar essa vagueza, essa mansidão. Hoje é o aniversario da minha mãe. Queria fazer uma homenagem, mas minha maior homenagem será me manter cúmplice desse silêncio. Ser conivente com essa morbidez infantil do domingo. Deveria ser um dia ensolarado e florido.

sábado, novembro 13, 2010

Mensagem


Desde que mudamos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira

Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos

Allen Ginsberg
Howl and other poems (1953-1960)

ups!
merda...

quinta-feira, novembro 11, 2010

quarta-feira, novembro 10, 2010

46

A tarde é quente

meus olhos cansa

Chove

Das ilhas desertas


Havia ilhas derivadas, mas a ilha é também aquilo em direção ao que se deriva e havia ilhas originárias, mas a ilha é também a origem, a origem radical e absoluta. Separação e recriação não se excluem, sem dúvida: é preciso ocupar-se quando se está separado, é preferível separar-se quando se quer recriar; contudo, uma das duas tendências domina sempre. Assim, o movimento da imaginação das ilhas retoma o movimento de sua produção, mas ele não tem o mesmo objeto. É o mesmo movimento, mas não o mesmo móbil. Já não é a ilha que se separou do continente, é o homem que, estando sobre a ilha, encontra-se separado do mundo. Já não é a ilha que se cria do fundo da terra através das águas, é o homem que recria o mundo a partir da ilha e sobre as águas. Então, por sua conta, o homem retoma um e outro dos movimentos da ilha e o assume sobre uma ilha que, justamente, não tem esse movimento: pode-se derivar em direção a uma ilha todavia original, e criar numa ilha tão-somente derivada. Pensando bem, encontrar-se-á aí uma nova razão pela qual toda ilha é e permanecerá teoricamente deserta.

segunda-feira, novembro 08, 2010

"criar uma pequena flor é um trabalho de séculos"

William Blake

Quer saber? Vou continuar sendo o que eu sou. A minha presença hoje inspira respeito. Um olhar de quem não tem forças nem fôlego para combater a Vida. Respeito de quem respeita a Vida. Respeito de quem passou as noites... Essas noites de quem chorou de quem sofreu com o que não se pode mudar de quem se desesperou. Esse “tempo” lapidou minha paciência, minhas vísceras minha alma. Reanimou minha pulsão de vida. Equilibrou minha relação com o ânima. Meus olhos buscam. Minha memória, meus ouvidos, minha pele, a arte. Estou abatido, mas acima de tudo vivo. Com minhas infinitas qualidades e pouquíssimos defeitos. “Um sábio não se elogia” um ditado chinês, mas sabe, queira o mundo ou não, eu estou cada dia mais zen. Mesmo sabendo que excesso de zen também irrita, deixa puto. Não mais dou opinião sobre nada. Tautologia. O céu é azul porque é azul. É porque é. Não denuncio meu gosto por puro desdém. M,

é tempo em que espero o resto da minha vida com toda suavidade, toda candura, toda simplicidade do mundo e até mesmo uma certa indiferença. Alheio a essa prostituição de emoções verdadeiras. Ajudando quem precisa de “pão” mais do que eu. Pão para alma, pão por um sorriso, pão para o alimento. Ajudando a mim mesmo, isso me faz muito bem. Recebendo a paz de ajudar. Recebendo paz. Forças que busco em Deus ou a Natureza. Caminhei dez dias pelo cume das montanhas. O máximo que já caminhei sozinho. Nas trilhas durante o dia e à noite nas tocas. Sehr gut. Dormindo dentro da terra, uterinamente. Sabe, o trabalho na ONG tem sido ótimo. Acho que posso ser mais do que recepcionista.

sábado, novembro 06, 2010

vostro bimbo



É difícil "ser" humano. Sinto que é difícil escrever num sábado desanimado, desassossegado. Muitos ésses numa mesma palavra me cansam. O que você está fazendo? M de menina dos olhos de anjo, M de você, o ano ainda não terminou (o ânimo também não). Ainda não se completou minha luta, esse sentimento de rispidez com a vida. Sigo passo a passo bem devagar. Ainda não acabou minha vontade de viver, essa voz intrínseca que não cessa, ainda não consigo ver. Ainda predominam desânimos com os quais tenho que lutar. Anjos e demônios com os quais sou obrigado a viver. "Problemas com o pai que se foi? Rancor com a vida?" animosidade com a sociedade? Sim, não tenho mais esses problemas, sempre odiei as massas. Aprendi a viver sozinho. Quero conquistar, mas no momento, a mim mesmo. Não é muito difícil, gosto muito de mim.Talvez a ver “de fora” e não enxergar a si mesmo e participar anestesiado do processo. O processo é lento, é pós-moderno, é cultural. A cultura é burra, é lenta, é alienada, é ignorante da mudança. Dia em que a cultura de cento e quarenta caracteres apenas diz, mas não diz nada apenas por dizer. Em casa ouço os pássaros cantando. A modulação perfeita de sons. Em mim resta ainda um desacordo, um desajuste. Gosto de caminhar na natureza no verão. Chove, mas é melhor do que essa floresta de pedras. É melhor viver do que chorar.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Sorella




allora parliamo



Esse desejo de ser clean. Essa vontade de ser cool. Sem cobiça. Seu quem eu sou. Sou quem eu sou. Sei. Sou alguém. Alguém – simplesmente nada e nada mais. O que chamam disso ou daquilo deve ter relação com qualquer coisa que se nomeia. Vilipendiando seria a palavra sem referência a nenhum sujeito, ou seja, sem me referir a nada. Apenas essa palavra substantivada. Vilipendiar, vilipendia. Vilipendia como vento vil resvalando na relva. Alto de montanha. Copiosamente subir cada passo rumo acima se resguarda no isolamento. Leva seu corpo leve, leva leve montanha acima. Cada vez mais dentro de sua alma limpando e sendo limpa por cada minúsculo, ínfimo, secreto, vilipendioso vilipendio.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Almas diluídas


A janela de onde se vê o mundo. Por onde o sol me acorda onde seus raios apontam pela manhã. O sol se ergue, eu me levanto. A luz na noite. Janela por onde vejo a silhueta dos prédios. A escuridão acessa de desvelo. A vagueza do apartamento mais alto. A silhueta desse esmo celeste. A reta onde passeiam as sete luzes. O sopro em forma de devaneio. O silêncio onde se escondem as sombras. Tão imensa a freqüência do negro, morno, insosso. Assim é a noite. A silhueta acanhada e calma na escuridão das árvores. Modesta fleuma pousada nas galhadas, sem vento. Estrelas flutuam como meninas tímidas gordas que comeram chocolate escondido.





São pincelas rápidas. Palavra de brisa, de vento. Vento de chuva, conto de fadas. Tempo de pensar lúdico e ser simples – um hábito infantil. E ser aqueles olhos de criança amada que enxerga a Vida sobre o manto azul das parábolas e adivinhações. Hoje concluí que nada está “certo”. Nada está previamente marcado na distância que percorremos. A vida é um enigma. Pois sim. Vida.



Sonhei que havíamos feito um pacto de bondade com uma anja gordinha estilo Disney que nos levava de mãos dadas pelo ar até o teto. Ganharíamos uma pequena fortuna sorteada no dia de ação de graças. Minha mãe, uma garota e eu. Ganhei um pequeno relógio, feito um estojo de madeira. Em uma fazenda americana fizemos amizade com o Senhor e a Senhora Brown, dois bons velinhos. Feitos para serem merecedores da nossa bonança. Um filme da sessão da tarde. Eu rodava o relógio e conseguia saber o futuro, ir, viver, ver o futuro e voltar ao tempo real. Eu voltava ao passado também. Andei com James Dean e ele era menor do que parecia. Andamos juntos. Ele fumava cigarros de filtro vermelho e não era o ator famoso de Hollywood. Era apenas um cara franzino, mas agraciado com traços perfeitos. As meninas reverenciavam Dean como um astro do rock nos Estados Unidos dos anos de 1920, também uma festa Alla Sessão da Tarde. Ele era o cara. Acendia um cigarro com aquele seu sorriso maroto, moleque, pivete. Comprei para nós duas cervejas quentes. Eu estava ao lado do cara e de repente estou em um programa de auditório no “tempo real”. Dean estava escondido na platéia, digamos, à paisana. Velho. Anônimo. Acompanhado de uma old pin-up. O programa era sobre um ator popular dos anos do cinema em preto e branco. Eu toco uma espécie de sanfona. Freqüento concertos de música clássica e os protagonizo também. Meu instrumento é pouco requisitado na orquestra, mas eu vivia novas histórias no passado. Rodando o reloginho. As horas se vão e pela manhã está chovendo. De repente meu pai me liga, são sete horas da manhã. Onde está o carro? “Desculpa, mas eu estou ouvindo a última música da Elizete Cardoso.” No telefone meu pai fala com alguém sobre aquele delírio. Na verdade, eu chegara atrasado. Era um grande concerto em que ela participava apenas no último ato. Eu estava emocionado. “O carro está a caminho”. Meu carro “novo” se transformava em um modelo antigo, com detalhes em de madeira, vintage. No tempo real minha mãe não se lembrava do feitiço. Fiz voltar o tempo rodando o reloginho. Levei mamãe a um desses concertos. Contei sobre a história da manipulação do tempo. Entreguei a ela essas amostras grátis de perfume pra ela distribuir. Quando as luzes se acendem logo ela encontra umas cocotas que falam as mesmas gírias do passado. “Não te disse, mãe?” “Meninas! Oi Leni!”. Cadetes em roupa de época distribuem essa mesma amostra de perfume. O cheiro, o gosto, a sensação, eram todos próprios do passado, mas minha mãe vê alguma contradição no ar. Ela desce e senta-se ao lado da autora da peça. Porque você escreve sempre a mesma peça? – pergunta. Com uma feição bastante enigmática, a famosa escritora de novelas da rede Globo, responde, como que perguntando o mesmo a si mesma, com aquele ar vago disse pausadamente “Eu não sei...”. A obra tinha força sobre a sua criadora. Predominava, erguia-se sobre si mesma e tomava sempre fórmula que a própria escritora não conseguia explicar. Saio do teatro e ouço no rádio uma crítica sobre a estréia da peça dizendo que a autora estaria se utilizando da fórmula criada por “Von alguma coisa”, algo assim. A peça considerada pedante e prepotente e o autor um célebre enganador. Desmascarado, desconsiderado, entrou pra história como falastrão. Soldados estariam sempre manipulando a realidade verdadeira, pingando aquelas gotinhas. Os militares enfeitiçando e controlando a vida das pessoas. Estaríamos vivendo sempre o mesmo passado. Depois dessa, admito que fiquei em dúvida sobre a veracidade do relógio. Sobre a verdade-realidade, sobre o passado-presente, mas não me desfiz do reloginho.





“Mas poxa, Gu, você sabe que aldeia é “tudo”, não é?” – ela diz. “É...” – respondo, e tento ficar calado. Veio-me à cabeça aquela história da fogueira de Platão. Uma caverna e uma fogueira, uma caverna e uma fogueira... Aldeia é “tudo”. Certo, naquele momento eu já queria entrar em Alfa. Transmutar. È que aldeia demais me faz mal. “Você não perdeu nada.” – digo. O consolo maior era ficar ali, quietinho dentro daquele quarto, daquele sossego, olha pra mim. Dentro daquele aposento mágico eu rodopiava e girava pelo teto, pendurado pelos ombros em um elástico, onde havia uma fogueira artificial com luz alaranjada. Ficamos ali deitados, de barriga pra baixo, na cama. Ela repara alguma coisa que eu não vejo mais. Enxergo apenas as sombras do que acontece do lado de fora da “minha” caverna, em contraste com o brilho da fogueira. Lá fora venta e faz frio como se não fosse “aqui”, como no conto daquele escritor russo... Mas ficar aqui dentro? Melhor ficar aqui dentro. A fogueira agora está fora do alcance dos meus olhos, fora do meu campo de visão. Enxergo apenas reflexos.



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