terça-feira, dezembro 28, 2010

se chorei ou se sorri

A chuva passou depois de longo tempo. Um feixe de sol brilha rápido sobre os prédios. Nuvens brancas contrastam com o fundo escuro do entardecer. Outra vez um entardecer roubado. De acréscimo, me vem à mente que não mais sentirei nostalgia. Detive-me em lembranças por alguns segundos. O olhar infinitesimal reflete no espelho do ego. As noites eram longas e os dias intermináveis nessa estranha estação do ânimo. Respeito o dia e agradeço as noites. Fiz do tempo um verbo irregular. Rodopiei nas orlas de vendaval. Andei pelos caminhos torpes da alma humana. Zonas inferiores da gleba terrestre. Arrecadei amigos mal queridos e provei veneno. Morri mais uma vez. Ao olhar pra trás, ainda não sei quais deveres ou flagelos cumpri, ou as graças q obtive no andamento do processo. Lamento saber apenas não-racionalmente. Saber apenas através do sentimento. Elaborar teorias a respeito seria dar elevado sentido à matéria. Há algo mais sublime além da matéria. Onde se rompem as crisálidas. Onde os homens viram anjos. Agora percebo que o dia emana bilhões de raios cósmicos.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

fins

Mas pelo fato de a poesia, em comparação com o pensamento, estar de modo bem diverso e privilegiado a serviço da linguagem, nosso encontro que medita sobre a filosofia é necessariamente levado a discutir a relação entre pensar e poetar. Entre ambos, pensar e poetar, impera um oculto parentesco porque ambos, a serviço da linguagem, intervêm por ela e por ela se sacrificam. Entre ambos, entretanto, se abre ao mesmo tempo um abismo, pois “moram nas montanhas mais separadas”. Agora, porém, haveria boas razões para exigir que nosso encontro se limitasse à questão que trata da filosofia. Esta restrição seria só então possível e até necessária, se do diálogo resultasse que a filosofia não é aquilo que aqui lhe atribuímos: uma correspondência, que manifesta na linguagem o apelo do ser do ente. Capito? Glückliches Neues Jahr!

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Joel?


A possibilidade de limpeza absoluta é insuperável. Sendo ela como possibilidade extrema da existência, da necessidade, do sacrifício. Mas como evitar a aceleração da impossibilidade como sendo inautêntico à morte? Tornar-se auto-referente para libertar a perda da própria morte nas possibilidades da multidão e que através da compreensão e escolhendo as primeiras oportunidades verdadeiramente artificiais que estão abaixo da oportunidade insuperável. Acelerar abre em existência, como um possível extremo auto-sacrifício e a brisa enrijecimento e tudo lá sempre alcançando. Na batida da vida, eu me preservo de cair para trás, e meu poder ser compreendido "tornou-se velho demais para suas vitórias”. A meditação evita o caminho que se oferecia a uma interpretação da consciência. Em geral, na verdade, nunca entenderemos uma ou outra das competências da alma.

terça-feira, dezembro 21, 2010

patchakanduba


Creio já ter dito que não muito me agrada esse horário de verão. A luz crepuscular se prolonga muito mais. A escuridão total aporta somente em hora avançada. O Tempo encurta a madrugada e eu amo as madrugadas. As madrugadas foram feitas para isso. O que poderia estar mais próximo de nós? Aquilo que nos aproxima ao que pertencemos? Aquilo em que somos dóceis participantes? Amo os gemidos da madrugada e o silêncio de amor. As luzes que devagar se apagam. Os ruídos sempre tão peculiares e rotineiros. Uma sinfonia de latidos distantes. A tosse seca da vizinha. O carro passa em alta velocidade. É um prelúdio daquilo que se chama acontecimento-apropriação. Hoje, quando aquilo que ainda quase não foi pensado ou pensado pela metade é logo entregue apressadamente a toda forma de mídia e publicidade. No silêncio da madrugada silence of a dawn posso voar. As ondas de pensamento logo invadem longas dimensões. Algumas vezes não sei se é choro de criança ou se é gato. Não sei se sou eu quem escreve ou sou outro eu. Um eu minúsculo que se atabalhoa entre letras, que se esconde atrás dessas palavras. Será esse o verdadeiro Eu entre os verdadeiros eus que existem? Não significa que eu também não ame os dias...

sexta-feira, dezembro 17, 2010

a noroeste da Birmânia



Sento-me mais uma vez, mister do meu ofício. O silêncio me faz sentir invisível. Sinto que estou vivendo em outro mundo. Tenho a impressão de que as pessoas não me vêem e apenas eu as vejo. Essa vagueza, esse olhar, essa nostalgia. Procuro algo intangível. Não quero nada que seja palpável. É estranho pensar assim. Passo a buscar alguma letra algum gustavo perdido dentro de mim.


Meu devir minha filosofia

quinta-feira, dezembro 16, 2010

já superou o ideal

Puxa linha peixe anzol. Puxa anzol peixe linha. Pensei que você estivesse na minha. De pescador de repente virei gato. Morde a isca, peixe otário.

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segunda-feira, dezembro 13, 2010

o mistério da Lagoa Azul

A Lagoa Azul (Blue Lagoon) é um dos filmes mais lindos que eu já vi. Eu não tenho medo de afirmar isso, tampouco falsa ignomínia. Se fosse livro seria um best-seller certamente. Assisti esse domingo a noite, e pude reparar alguns detalhes. Não havia como essa produção hollywoodiana falhar. Não havia como “não dar certo” e por mais que tenhamos opiniões diversas, o filme tornou-se um clássico. O escritor, digo, o roteirista, utilizou uma fórmula infalível, embora já conhecida (Robson Crusoé, por exemplo). O que atrai é o apelo sexual. A forma infantil como falam os personagens já adolescentes. As investidas de Richard, frustradas pela pompa de Emmeline (a pequena Brooks Shields). O filme é um clichê do início ao fim. Desde o bigode do capitão do navio aos cachos de Richard, que se eternizaram, e a tal “lagoa” que nunca existiu. Ah, a casa, casa não, mansão que Richard (a produção) construiu poderia ter construído um navio. Eles tinham um pequeno barco que os salvou no início e no fim. Mas enfim, Rick revela seus sentimentos “coração batendo forte” “um sentimento indecifrável” “vontade de beijar”, meio bárbaro, Emmeline acaba cedendo e eles transam. Depois, cenas de amorzinho muito bem filmadas. Aliás, o filme tem tomadas que não se repetem e contam com a doce atuação da Brooks em sua mais tenra juventude. Seguindo o roteiro ela engravida e começa a dar indícios de enjôo. Há uma cena em que ela demonstra ser servil a Richard porque se recusa a fazer sexo, mas depois o convida a ver sua barriguinha se mexendo. Pura inocência. Tempo depois nasce um menino "Paddy" com um grito que cala todos os pássaros da floresta. Bem, não é minha intenção fazer uma sinopse. Assisti a esse filme desde que nasci praticamente, mas a cada vez que assisto posso enxergar por um novo ângulo de visão. Um estado espírito, um domingo à noite, um olhar. Hoje em dia os Richards são pós-modernamente descartáveis e os Paddys são produção independente.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Caixa de gordura


Como fui centrifugado pelo ralo da pia. Não sei como fazer mais, nunca soube e hoje sei menos ainda. Como um sorriso se esvaiu do meu rosto. Como a pirofagia das minhas entranhas tenta o ph ideal. Emocional. Como tentei alinhar seus glúteos e acabei parando na caixa de gordura.


minha prosa não cola


Tento me inspirar na voz interior, essa que não cessa de repetir Deus Mundo Alma. Tento que o presente seja minha força, minha chama. A ígnea flama flui em eflúvios. A razão pede calma. Aos sentimentos, um cigarro e um café. Não posso estar parado. Sou levado sem pensar. Aceito a informação a priori. Sem preconceber, saber. Deixo que venha um novo dia. Meu corpo um santuário. Às vezes um tabernáculo, ou uma arca ou uma ostra ou uma ermida. Um labirinto de informações desconectadas que unidas dizem tudo. Minha pobre condição humana é incapaz de suportar essas palavras voláteis, profundas e externas. Minha semântica não se encaixa. Meu verbo não declina. Quem disse que eu quero ser amado pelo que eu escrevo? Quero ser amado pelo que sou.

sábado, dezembro 04, 2010


Não falo agora abstratamente do Desejo. Desejo a paisagem que está envolta em uma mulher – Desejo em conjunto. Construtivismo – construir um conjunto, agenciamento, um território. Região. “Desejo construir um agenciamento”. Falam do desejo como sacerdotes. Dimensões. O estado das coisas. Território. Enunciados. Consciência como ilusão, como máquina e não como teatro. Delírio-mundo. Mundo cósmico, raças, tribos. Não o delírio-família. Isso é a multiplicidade, um agenciamento. Por onde passa o meu desejo? Um agenciamento trata sempre do coletivo. Construtivismo, etc. Por onde passa meu desejo por cem mil crânios? Por onde passa meu desejo coletivo? Em qual ponto? Qual minha posição nesse coletivo? Sou exterior, dentro ou ao centro? Todos são fenômenos do Desejo e “o” Desejo. Fluir é um agrupamento pulsante. Ela fala como uma grande queixa pó causa da castração. A castração é pior do que o pecado original. A castração é uma espécie de maldição sobre o Desejo, raramente espantosa. No inconsciente encenam Hamlet ou Édipo. O inconsciente é uma fábrica de construção. O inconsciente produz e não pára de produzir e funciona, portanto como uma fábrica. Precisamente o contrário da visão do inconsciente como teatro onde nele sempre se agitam um Hamlet ou um Édipo até o infinito. O delírio que está muito ligado ao desejo – como sobreviver ao deserto? Esse não é um problema semântico. O deserto é um delírio geopolítico. Ela nunca compreendeu esse fenômeno do delírio. Delira-se o mundo, delira-se uma pequena família. Ela atribui isso a determinações familiares. Daí a dizer que tudo está mesclado. Tão obvio que pulula.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

chamada


Aos meus amigos, aqueles que me conhecem em carne o osso, perdoem-me esse afastamento temporário, essa ausência. Estou trabalhando em uma o-ene-gê na Floresta. Notícias boas. Boas pessoas. Não importa o tempo. As pessoas te contagiam, não sei explicar. Sinto-me mais do que um pacote de qualquer coisa numa embalagem. Embora seja isso que nós somos. Essa vontade de viver mais do que wille zu macht vontade de poder, voraz vontade de poder. O tempo é apenas o movimento contínuo do minuteiro. Há momentos em que esqueço o tempo, esqueço o contágio das horas. Minha cabeça está aberta a receber essas ideias novas, nova vibração. Transformei a saga dos meus vinte anos em um conto infantil e me dei um presente, o tempo presente. Horas em que o tempo está contra mim e contra todos. Não importa.


E a chuva chegou. Chegou quando eu menos esperava. Chegou quando eu esperava algum alívio. Chovia à minha volta, mas não aqui. Agora não. Agora choveu na minha aorta. As águas do céu lavaram todos os vasos, as veias, as mágoas, as artérias.

quarta-feira, dezembro 01, 2010