domingo, fevereiro 13, 2011

fumando espero

...alegres vendavais. Madrugada de sábado pra domingo. Paro diante da tela. O vazio dela parece estacionar o espaço-tempo. Preencho com minhas palavras a cada linha. Pingo letra por letra meus dedos querem dizem. Derramo as falas que foram às favas porque a melancolia me pega tem hora e... O quê dizer sem se repetir? Sem repetir o mesmo lamento, o mesmo clichê? Consigo esquecer. Cada dia parece haver menos espaço para esse vazio dentro de mim. O vazio e a desilusão se tornam zona de conforto, de tristeza. Deitar sobre mágoas dói em meu plexo solar, meu peito. Tensão em minhas costas e meu corpo corresponde. Cada dia e cada noite, fumando espero. Alguma coisa fugiu-me às mãos na hora passada. Mergulhou lentamente no vazio, rumo à escuridão do abismo. Mais um ano em minha vida. Ah, Manuel...





Pneumotórax



Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Manuel Bandeira


2 comentários:

Gabs disse...

Gosto muito da sua conclusão:
"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino".
Um bom domingo!

Papagaio Mudo disse...

Oi Gabs,

Sabes que pensei em ti ontem? Engraçado acordar e ler seu comentário.
Que também tenhas um bom domingo!
Abraços,

Gustavo