sábado, abril 16, 2011

Um pé de tênis velho





O silicone não tem a mesma consistência da carne humana. Estou reservando um lugar na cabeça, palco do novo lar. Cortejo festivo de open house. Furtivos serão os desejos que ficarão aqui. Furtivas serão as auguras. Começo a vislumbrar o simples e grandioso arranjo de todas as coisas. Essas que sairão que ficarão que morrerão a circular as artérias da vida que somos cobaia. Minha letra ficou mais bonita, meus traços estão mais firmes. Um pé de tênis velho traçando os mesmos velhos lugares. A sorte me pegou nessa vida. A busca da verdade ainda divide opiniões. Em menos de um mês estaremos desacastelados. Não há cascos de navio boiando na superfície do mar, não há evidências de naufrágio. Pelo contrário, cada minuto de remição parece uma eternidade de paz. Creio que é assim que se provome uma mudança. Jogando fora tudo aquilo que não serve mais pra nada. Livrando-se do exesso de coisas que caracterizam a síndrome de um compulsivo obsessivo. Um bando de ferro-velho, coqueiro, cadeira de piscina, sofá, mesa, movél. Uma eternidade de coisas dos quatro filhos que foram e voltaram algumas vezes. Passei nove anos fora. Meus pés de tênis ficaram velhos. Abeirando a noite adentro e mais escura, se avizinha também meu sono precoce a sonhar com as novas projeções. Minha mãe me disse que sou cigano; minhas coisas já estão arrumadas há dias, semanas. Está difícil encontrar um livro, ou uma cueca. O quarto está cheio de mim, cheio de planos, cheio de quadros, obtusos de realidade e vontade.

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