terça-feira, novembro 22, 2011

miraculosamente inútil

Bem, tenho assistido e vivido cenas deploráveis, a globalização da ignorância. As coisas andam pra frente, eu, feito caranguejo, pareço andar pros lados. E, enfim, entro no buraco do manguetown. A Vanessa Carvalho, doutoranda, disse não entender meu raciocínio. Talvez porque eu raciocine, ao invés de saber profundamente, de forma que chega a dar medo. São os ditos glosadores, segundo Deleuze, que além de acumular informação, glosa o que já oi dito, escrito, falado, registrado, pintado. Eu é que não entendo a velocidade do raciocínio dela; a fluidez, a rapidez e a memória maquinal. Eu sou a ponta do meu próprio iceberg. Será que ela entende isso? Será que fujo completamente do análogo conceito que um iceberg, enquanto mecanismo, pode ser socialmente vivo? Não sei não, nada como um dia após o outro. Exercitar a mente é diferente de um raciocínio abstrato, mas não supera o próprio raciocínio. Tenho preguiça de glosadores. Outros tantos imbecis existencialistas, como Kierkegaard, como Luís Lorenzo, como Camus. Do argelino, acho encontro apenas um prognóstico da acolá-modernidade, pra não dizer “pós”. No livro A Peste, o Nada, personagem ébrio, marginalizado, solitário, largado, porém sóbrio de lucidez antropossocial, e que sempre desmembra o raciocínio da multidão, ao fim, suicida-se. Foi um alerta, talvez inconsciente, dos tempos vindouros, pois hoje no fim, nada importa.
Não tenho a pretensão de entender a forma como as pessoas compreendem o mundo. Muito amiúde, outros já fizeram isso. Não quero pensar o mundo. Cheguei à conclusão que tornamos as interfaces ainda mais fáceis entre o cão e o gato. Domesticamos feras, rompemos o amor incondicional, por exemplo, com a arte contemporânea. Nomeamos tudo que ainda não sabíamos e demos nome a tudo que não comunica e, portanto, não serve pra nada. Que almejar? Importa-se que eu não receba títulos, nem homenagens, nem nada? Isso vai contra os meus princípios. Balança daqui, ajeita de lá e o dinheiro que sobra dá pra ser feliz sorrindo. Eu garanto que esse emaranhado de pensamentos desconexos proporciona mais prazer que a própria dor.
Quero descer, sim, mas isso significa deslizar verticalmente até as águas geladas de algum mar polar que criei e naveguei até ele. Um mar cheio de fofocas, belugas, biólogas e leões marinhos. Enquanto o tempo passa, espero que esse iceberg me leve a conhecer o ogunzelê das cabo-verdianas e mais nada.
Por amor a humanidade,

Gustavo


2 comentários:

Adriana Godoy disse...

"Quero descer, sim, mas isso significa deslizar verticalmente até as águas geladas de algum mar polar que criei e naveguei até ele. Um mar cheio de fofocas, belugas, biólogas e leões marinhos."


Não sei o que dizer...mas esse techo especialmente me tocou. Beijo

Papagaio Mudo disse...

Oi Adriana,

Pulsão de vida, mas a àgua não colabora...
Beijo,

Gustavo