sexta-feira, janeiro 28, 2011

o torvelinho de ouro


Pink, não fique brava comigo. Eu não fiz nada. Mas por que tem que ser esse yeyeye tempestuoso, essa aprendizagem? fazendo de cada dia um dia mais absurdo que o outro? Faz o meu entardecer um pouco mais brando. Consigo acalmar essa solidão de looking for your eyes. Afeição perdi há tempo, por qualquer coisa que se mova. Meu peito está engasgado, constantemente. Essa dor, essa cachaça, esse tormento. Deito fumo, durmo, sou parte do universo, fantasma na sombra. Continuo dizendo, não fique brava comigo. Estou aqui. Eu quero essa bossa and Beatles. Nada de apito de guarda policiando nossas vidas. Desdenho quem nos queira comprar. Estou um tanto estropiado pela vida, mas não vejo nisso uma desculpa par não viver essa noite. Sustentar o peso de um sorriso frágil, mediano, calmo. Reviravoltas no lençol da cama. Louvado seja o homem invisível, o tal fantasma na sombra. Caminhos do passado que nem me lembro mais. Não é uma noite ruim, apenas mais uma noite de paz. Eu te darei o torvelinho sagrado.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

as horas que se foram



Tem hora que você respira fundo, pensa, conta até três e os olhos se enchem d’água. Sem medo encaro a multidão, sorrindo. Eu aqui, cheio de pontos. Você aí, cheia de vírgulas. Eu não podia dormir, mas continuei tentando. Quando não pude mais dormir, aprendi a escrever. Na aurora dos tempos é chegada a hora do entardecer das tristezas. Um abraço delicado no plexo. Meu peito às vezes dá umas fisgadas. Observo meu corpo diante do espelho. Por uma fração de segundo vi outro Eu. A carne costurada feito couro de vaca. Você cuida de mim, passa pomada sobre os cortes, coloca as gazes, passa o esparadrapo, sem esquecer-se da estética. A arte é linear. A linha é curva. O vento leve passa por mim. Passarinho pousa em frente à janela. Não tenho certeza de possuir (tirânico, possuir). As multidões querem alguém qualquer pra crucificar. O eterno sábado de aleluia. O dia de encher o Judas de porrada e depois tacar fogo. Já se passaram dois mil anos! vamos lá meu Deus – implora com violência o Teu rebanho. Não sou digno de correr, fico e me pegam. Pensava você não declinaria o meu convite. Então, fico e mais uma vez, mais mil vezes. Hoje tenho os olhos pisados de cansaço. Eu gozaria e dormiria em teus braços você nos meus braços, até sair sem eu saber. Morreremos jovens para sempre. Desculpa essas lágrimas que brotam do nada. O que quer que me possua, ignore. Você me possui mais. Eu sou o vento. Desculpa se te faço gemer e mesmo assim sou passível de profunda averiguação. Lembro que eu nunca existi que eu nunca fui, portanto nunca jamais o era. Estou apenas, na impermanência de todas as coisas. Na língua dos poetas, no bisturi dos estetas e na poeira dos anos e das letras. Sexo café jazz. Deslizo no céu como um sonho. Lambo seu umbigo e ainda discuto contigo sem querer que esse sonho se acabe. Quero tragar a fundo esse Você simbólico e um milhão de sonhos se torna realidade. Não se perca de mim. Sou mais um Ouriço do jogo de croqué da Rainha do País das Maravilhas.


Vem, minha criança.

quarta-feira, janeiro 26, 2011


Minimiza a sensação de dor, a conciliação amigável. Foi um longo e silencioso dia. O subtexto preenche o deserto. O tempo me arrasta. Juntar camada a camada. Por acidente mordaz e sem saber em absoluto que as sombras de outrem se encontram consigo em momento incerto em que dependerá estar entregue à Rainha do Céu para que, de onde a árvore ferida fosse guiada por um eco redundante e rotundo subir as veias de sangue, regando as fibras do inverno que tomaria conta das raízes retorcidas. A transvaloração e começo das nervuras humanas capazes de superar qualquer tribunal da razão. Sempre a rotina. Pois hoje eu começo a me preparar para deixar esse emplastro de miasmas onde particípio pretérito do findo desde que observei e vi – seus modos de descobrir, para mostrar como sobreviver. Não seremos vítimas, não somos vítimas. Não posso deixar lágrimas translúcidas embaçar a visão da imagem instantânea. Como a fonte da radiola, a cadência da gramática proferindo síntese sem nexo. O verbo suga suas nesgas e segue suas regras, eu me desinvento. No barulho ou na escuridão, girando como água no miolo do caos tubular. Vou fumar meu último cigarro com o gole de café que nunca mais vou beber. Bárbaros berberes bêbados geram mais de quatro mil e trezentos tipos de gemidos variáveis. Observo a suspeita recair sobre meus ídolos. Absorto pela exoticidade da cidade-sangue-quente foi pela transfiguração da mulher-gorila.


terça-feira, janeiro 25, 2011

antinomia
s. f.
Contradição entre leis (e, por extensão, entre pessoas ou coisas).

Dialética do Juízo do Gosto –
Antinomia do Gosto.
Crítica do Juízo ou Crítica da faculdade do Juízo.

A beleza é
Universal objetiva? ou


Tem acento privada e subjetiva?

A resposta se encontra
no racionalismo estético dogmático? ou
no empirismo estético irracionalista?

Enunciado estético cognitivo – Fundado em conceitos. Fundado em leis da razão e do entendimento de todo Sujeito em regras que supostamente não variam de homem para homem, de cultura para cultura, de época para época.
Enunciado estético subjetivo – Juízo de agradabilidade, juízo estético empírico, de valores meramente privados, subjetivos e pessoais. Juízo empírico estético irracionalista – Não reivindicam universalidade. Opinião subjetiva, de “gosto pessoal” instranferível.

As duas afirmações assumem forma de tese & antítese
Irracionalista ≠ conceitualista

TESE
(A Arte) Não se funda em conceitos, caso contrário, poderíamos disputar acerca da beleza. (Opinião subjetiva).
________

ANTÍTESE
Funda-se e conceitos, caso contrário, sequer poderíamos discutir a beleza. (Fundamentação judicativa).

Juízo estético cognitivo significa de conhecimento teórico ou prático.
Dá o direito de disputar acerca do Belo. Disputar significa decidir através de demonstração lógica, cálculos exatos.
Juízo cognitivo, portanto, universal – precisa estar conectado a conceitos universais
.

.

noções de literatura

Por onde passa meu desejo? A literatura é um assunto privado de ninguém. Um devir infantil meramente pessoal de nossos pequenos assuntos. Não passa de um arquivamento desprovido de subjetivismo. Ai minha dor... escrevemos. Todo escritor sabe disso. Daí, dias de furiosa criação proferindo palavras e mais palavras. A literatura não passa de um arquivamento pessoal do tempo que constrói multiplicidade de ilusões. Criando afetos, sensações, sabores. Tessituras pulsantes, tácteis. Ilusões de paisagem. Minha ressalva de que as questões morais e a paisagem podem ser transmutadas em cruel despejo de brilhantes construções para execrar sensações novelísticas em ruminação de Nadas objetivos. A construção de um agenciamento sempre trata de um coletivo. Essa não é uma questão semântica. Sim, todos esses fenômenos do desejo, “são” o desejo.

sábado, janeiro 22, 2011


O Homo sapiens (a nossa espécie) surgiu há aproximadamente 150 mil anos atrás, possivelmente na África, como resultado de adaptações de Homo erectus ao meio em que eles viviam. Desde então o Homo sapiens vem evoluindo e aumentando seu número cada vez mais, extinguindo todas as espécies que se opunham a ele, se tornando o " animal " dominante do planeta.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Surge mais forte de fatos que de afeto
Morna é a fragrância da
madrugada

Fragmentos harpejados,

herméticos de Fátima e
agulhas náuticas
no mar de Malta


Amalgamada
farfalha
nalma
e a fleuma
aflora.

murmurejando
ciciando
não
sei
se
canto

rumorejando
negro
pardo
e santo
meu lamento
meu breque

meu salamaleque


meu zumzum

O mistério que envolve esse teorema envolve esse enigma e sempre se repete à mesma volta, minha Lolita. Você bebe a água e eu te bebo. Fico ébrio. Você coloca suas pernas sobre as minhas coxas e eu sinto o seu sexo. Quero engolir sua boca, mas você me beija mais do que eu te beijo e eu adoro. Sinto teu seio pequenino de ninfeta, arrepiado e duro no escuro. Você embriaga-me como quem nada quer e bebe pra matar minha sede. Parecem intermináveis as horas feito minutos. De tudo esqueço. O trabalho inexistente esquece-me de hoje de ontem de antes de ontem. Esqueço que me maldiçoou com sua soberba, sua irracionalidade, com seu atavismo. A vida importa. A vida importa porque suas maluquices de ninfeta fazem-me ter mais responsabilidade. Adoro seu cabelo todo lindamente atrapalhado sobre seus olhos sobre o meu rosto. Seu beijo é o gostoso no caminho percorrido ao instante eterno, efêmero e derradeiro em que te quero. A paisagem, essa fogueira elétrica ao lado da cama e você. A Lua lá fora espreitando nosso desejo com sorriso de Gato. Nesse momento quero esquecer meu passado. Quero esquecer outras luas, outras primaveras, outras trepadas, outros beijos. Nessa hora você se entrega e sobe sóbria sobre mim. Eu, bêbado de ti. A palavra, nada diz. Não importa que devore sua alma.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Prognóstico. Eis o dia, meus amigos, que eles acharam nunca ia acabar. Decidido a sair do monastério, o guru de pijamas veste a túnica branca e sai a andar pelas ruas respirando o que chamam de Vida, e sonhando acordando vai calculando cada passo antes de avançar em sua direção, em qualquer direção. Viemos aqui pra chorar ou pra viver? Preciso passar o arado sobre a ossada dos mortos. Os pássaros cantam, mas as folhas das árvores ainda não se movimentam. Pelas ruas volto ao meu DNA. A vista da janela e o olhar perdido no infinito talvez o auspicioso início de uma grande ilusão. O infinito enquanto dure, enquanto der. Enfrento o papel de riscos e rabiscos com galhardia quixotesca. A proximidade distanciou-me das pessoas que eu mais gostava. A distância preserva a imagem do mito. Preencho minha ficha médica. Paciente, data do nascimento, horário. Embaixo está escrito – História Clínica. Não sei o que estou fazendo aqui, nessa sala de espera. Sim, esperando. Podem me dar um café? A menina me deu um cigarro superlongo ultrafino. Na pós-modernidade, tudo que esta no ar se solidifica. Tudo que é profano se consagra. Existem várias verdades para a mesma mentira. Verdades e mentiras juntas lado a lado. Boca nervosa grita um soco na buceta. Primeiro beijo na testa, primeiro chute na bunda e a quinta mulher que não presta. Somos um grupo de individualistas. No dia internacional da mulher sobrevivo das falas amorfas. No páreo pelo pódio que entorpece, meu falo foi sua desculpa feminista para o estresse. Vou-me embora para Loveland porque no país do futebol tudo termina empatado e ninguém marca gol.


Diante de Deus somos igualmente idiotas, igualmente sábios.

O tolo olha pro dedo, o sábio olha pra Lua. É preciso ser vidente.
Fulana diz:
Você eh vidente?
Gustavo diz:
Sou

Gustavo diz:
eh preciso ser vidente para intuir as relações cibernéticas.
Fulana diz:
E as outras coisas da vida?

Gustavo diz:
Sabe, nunca sei quando uma relação vai dar certo. Não avalio, calculo, planejo. Sou poeta. Mergulho fundo em meus instintos. Não consigo utilizar esse traquejo tradicionalmente feminino.

(Pausa dramática)

Gustavo diz:
eu falo por mim.
Gustavo diz:
naum digo que todos os homens são como eu.
Gustavo diz:
muitos planejam calculam e avaliam, até as mais sublimes futilidades.

Fulana diz:
Faz o seguinte
Fulana diz:
vai pra essa festa, vai ter um monte de gatinhas bêbadas lá, com peitinho, você leva uma delas pra casa e trepa.
Gustavo diz:
vc eh taum dinâmica. Eu não ligo pra peitinho.
Fulana diz:
ah, isso é bom.

...

(a minha intuição é que ela não tem peitinho)


Digamos que a Discórdia não foi convidada, mas dispôs à Mildred a sensualidade de uma Vênus de Milo, mesmo que por algumas horas. Diga-me então, quem eu sou? Verbalize o que há na mais profunda escuridão da sua alma. Comece pelos elogios, deixe as críticas para o final. Deixa que a chuva que acaricie nossos corações tão secos. Mas parece que só a cerveja molha nossos lábios e só o cigarro sacia nossos ares.

Pequenas paisagens guardadas nas gavetas da memória, fazendo alusão ao título das noites passadas. Pequena menina azul, você agora descansa em outros braços. Agora a noite dança em seu compasso. Melodia previsível sem palavras. Digo-te em segredo que há um altar quando acordo, durante do sono cortado por uma poesia subconsciente. A situação de vulnerabilidade física talvez não seja consciência de todos nós. Duas estrofes, de três versos e se perdeu em alguma gaveta. Nada desabona as palavras. A mesma paisagem de prédios e janelas, luzes acesas, lua minguante. Zomba de mim com seu sorriso amarelo. Você liga pra me procurar onda anda minha vida? Quem é essa galera? Você se esconde. A quem mostraria sua realidade? Como tentar esquecer uma sina, um acidente climático. Feito tentar esquecer a realidade, feito rasgar uma carta antiga, um recado que mais nada significa. Os sinos tocam à mesma hora, um dia mais.

terça-feira, janeiro 18, 2011


Há quanto tempo não consigo dormir? Entro na noite como um vagabundo furtivo com bilhete de segunda classe numa embarcação de primeira, passageiro clandestino dos meus desânimos encolhido numa inércia que me aproxima dos defuntos e que a vodka anima de um frenesi postiço e caprichoso, e às três da manhã vêem-me chegar aos bares ainda abertos, navegando nas águas paradas de quem não espera nenhum milagre, a equilibrar com dificuldade na boca o peso fingido de um sorriso. Há quanto tempo de fato não consigo dormir? Se fecho os olhos, uma rumorosa constelação de pombos levanta minhas pálpebras descidas, vermelhas de cansaço, e a agitação das suas asas enrola-se na colcha numa umidade de febre, por dentro da cabeça uma chuva de outubro tomba lentamente sobre os gerânios tristes do passado. Em seguida os carros voltam a circular com desinteresse sonâmbulo.

..........

segunda-feira, janeiro 17, 2011



Diálogo Pai e Filho


__Você bebe pra ficar bêbado?
__ Sim.
__ Não faz sentido.
__ Às vezes faz.
__ Esse drama que você está vivendo é muito pequeno pra tanto sofrimento.
__ Eu não sofro só por causa desse amor, mas por tudo que envolve esse amor.
E ainda envolve na relação direta com a minha vida diária, de outras formas. A realidade se apresenta feito morte lenta e suave, às vezes torpe e amarga. Azedume do ralo de botecos de beira de estrada. Alguma coisa que morre dentro de mim, mas um sentimento reluta em sobreviver.
__ Você acha que bebendo vai esquecer?
__ Não.
__ No dia seguinte o problema continua aí, do mesmo jeito e ainda pior.
__ Eu sei. Mas toda morte é um renascimento. Preciso morrer pra viver novamente. Aos poucos começo a me recompor, a cada hora que passa. Ontem fui sozinho ao jazz. Sozinho sou um risco a mim mesmo.

A Tímida Maldade dos Coelhos Brancos

Nos arredores de um educandário deparei-me olhares mortos, no meio triste de vazio, onde os alunos não fazem alusão a nada. Antes fosse o nada existencial pensado em suas minudências, mas nada. Viviam como se a vida fosse uma loja em oferta. Sinto ter visto tanto contentamento em pensar na vida sem sentido. A ilusão um dia se torna realidade. Livra-me da imbecilidade triste e preponderante que nos assola. Toda falsidade ideológica que esteja entre nós. Nada mais imoral do que ter olhos e não querer enxergar, ter ouvidos e não querer ouvir. Vivem somente o que está ao seu redor. Isso não me impede de refletir a primeira impressão que tive. Nada me impede de criticar quem eu bem quiser inclusive a mim mesmo. Esses talvez sejam alguns exemplos que eu citarei mais tarde nas minhas considerações finais, mesmo assim, ninguém está imune a imbecilização da indústria cultural protegida pelas elites e quanto menos elite mais careta, pois passará pelo crivo da hierarquia da caretice que ainda governa pelas rédeas, que ainda domina pelo poder econômico, que ainda destrói ao invés de criar. Juventude miserável de cultura, história, lazer e ética.

Hei cara, o quê há com você? Parece que não me conhece. Você não me conhece. Você acha que me conhece? Sei que nenhum sofrimento do passado justifica as coisas que fazemos agora. O quê você pensa que eu sou? Na sua idade eu já tinha um passado. Existe uma lacuna entre o que existe. Tudo que você acha sem saber que o Espaço muda as pedras. As águas mudam a imagem em movimento, percebe? Há uma distancia entre você e a realidade. A realidade é retornável, é um fio em espiral sem fim. A realidade é um conceito relativo. Em cada espaço que você não conhece há uma realidade. Em Pato Branco existe um professor de esperanto. Quando nos perguntamos o que é normal, isso é uma afirmativa? Existe uma prelação por isso ou aquilo, por aquela morena alta, magra. Você tem um nome, você tem uma história que não me importa saber. Eu troquei de pele. Rasguei a máscara que trazes e que vês. E as pessoas olham. Como posso ser invisível? É importante que tenha a resiliência, mas que seja leve. Vamos caminhar juntos pelas ruas cultivando estrelas. Um minuto, uma estrela. Muda a perspectiva, muda o quadro celestial. Há um ponto de fuga dentro da minha casa mental. Do estranho como numa pintura. Faz parecer fauvista ou surreal, mas mergulho em um campo de trigo impressionista.

domingo, janeiro 16, 2011

Pesseguinho


O entardecer de verão, sonho. Noite que nunca chega. Grande merda quando tudo isso acontece. Hoje, lendo as suas palavras, me emocionei mais uma vez. Sempre tão lânguidas, tão assertivas, tão banais como quando você fala do passado. Tão loucas, tão sem sentido, tão sem direção, tão aleatoriamente lânguidas e verdadeiras. E esse último estado das palavras toma o brilho da verdade, que me toca. Faz-me sentir quem sou. Faz-me me dar conta de mim mesmo. As nossas almas se nutrem de poesia de uma doce ilusão.

passeio

Saio da minha casa para dar uma volta, sem rumo nem motivo. A inspiração talvez seja um cancioneiro francês que, ao fundo, canta seu lamento confuso e minguado. Então saio para a rua e ando pelo mercado, vejo as pessoas e caminho. Vejo as pessoas. Todas parecem ter um rumo certo e um destino incerto. Vou flanando, pairando pelo ar como se não tivesse pernas. Como se fosse só olhos. Como se meus olhos se pusessem a comer cada cor, cada movimento, cada imagem. Fico aqui na varanda. Último refúgio tridimensional para mim. Palavras escorrem da pena. Eu me pergunto se deve haver um começo-meio-e-fim, como numa partida de xadrez. Apesar de não vermos, existe uma estrela que brilhará mais forte quando o sol se puser. Devo esperar o sol se por? Minha caverna chama-me e como Curupira não voltará sem deixar rastros invertidos. Meus olhos queimam. Talvez seja a claridade. Me proibido de sair à noite por conta das feras que rondam a cidade. Esse texto fragmentário. Hoje é sexta-feira. Berros, ruídos e sons enlouquecidos. Impossível traduzir as nota do piano em um pentagrama invisível. Chega. Daqui eu me vou. Dialogando com um pensamento débil. Enquanto dentro de mim sentimentos eclodem organicamente como uma colônia de bactérias em colônia de férias. Ouço vozes.
Perdi minha identidade já faz algum tempo. Não tenho tempo de procurar. Acho que foi em algum buraco, algum bueiro. Talvez em alguma gaveta do inconsciente. Preciso me ver de perto. A luz do firmamento, as estrelas. Dormir embaixo da pedra, ouvir os ventos de inverno. Passar o dia a peregrinar sozinho. Desintoxicar-me dos ares viciados da cidade. Ver outras cores, outros cenas. Desintoxicar-me desse bar, desse bairro, das novelas da vida urbana e de você. Escapulir das conversas sem sentido, dos meios de comunicação, da sensação estúpida de me sentir um rosto branco no papel. Como se apaga branca em muro branco.

sábado, janeiro 15, 2011

Confissões de um cunilíngue

O idiota associou suas palavras de quinta sinfonia, não disse de quem, como Dionísio na crista da onda. Uma espécie de suicídio de momento. Matando o meu Édipo antigo. Meu novo Eu é indivisível. Apenas coexiste. Coexiste com uma relação fria, distante, secreta, escondida, segura, anônima. Então conseguiu ficar e manter-se mimetizado. Seus porres são invejáveis, amigos singelos, sinceros na nossa alegre boemia. Andando pelas ruas da cidade, sem pressa, sem medo. Sentindo os ares da Praça da Liberdade. Suas árvores, com seus jardins, com suas fontes. Lançado no esquecimento. A distância afetiva é como ontem. Noites nos butecos de jazz. Madrugadas sem fim e o tempo parece não passar. As horas do relógio engolem os minutos. O tempo afetivo teima em continuar o mesmo. Vomitei meu passado, o vi fugir de carro. Casa casa não tenho mais depois de dez anos fora. Fui fraco assim tão desalmado. Um verbário. Calado, afônico ou monossilábico.

anjo mal

Calma! Dá-me um segundo e diz quando será o momento oportuno. Aquele momento exato em que meus olhos irão redescobrir o mundo, e talvez mude minha apatia diante de tu e de tudo. O campeonato em África meus dedos minha barba meus pensamentos. Quando me olho no espelho não sou mais o mesmo. O mesmo homem diante da vida, o mesmo menino enlaçado em seus braços. Não mais me reconheço no espelho. Recomeço através desse “outro” que não vi nascer. Surgiu “do nada” como ousou passar o tempo. Assim se esquece uma pessoa e repentinamente. Olho e não me vejo então, atravesso o espelho.

mmmmm

sexta-feira, janeiro 14, 2011

peixe espada do sertão


Peixe espada, assim caminho
com a luz no coração...
não quero chorar sozinho
,,,
gosto do seu carinho, do seu abraço e de brincar
talvez seu coração para compartilhar gosto de ficar quieto e sentir meu (Jesus) bom amigo
Perto de ti ele nos cerca
eu morro em seus carinhos
(...)
,,,,,,,,
Caminhar comigo?
aonde for eu vou
e seus pés são um lar



(dicionário do sapateiro)

quinta-feira, janeiro 13, 2011

baby

Peço que não se sinta mais dolorida que tarde caliginosa, os olhos pisados de cansaço.

......

......


terça-feira, janeiro 11, 2011

Outono passado

Embriaguei-me dos venenos e safei-me com audácia das situações mais caudalosas. Minha senda se perdeu na alma do nevoeiro. Envolve o que está em volta. Acaba por mitigar a imagem que fomos. Sonho ser. Poeta e marginal sempre a margem daqui e dali também. Eu que nunca fui aceito por olhos fugazes. Com minha espada em riste e o coração na mão. Sem disfarçar as pequenas emoções, tentando não me desesperar grandes tristezas. Saio como Jack Pollock. Os tons são frios, o dia é branco. Não tenho aonde ir, saio a flanar. Ocorre que tenho que deixar essa estação. Dez anos fora. Todos os irmãos já debandaram. Nascem dois morrem dois. Um novo paradigma contradiz o dito popular. Está se cumprindo a sua profecia que se vaticinou. O lance é que ainda não tenho para onde ir. A mesma paisagem. Um voto de silêncio. Lágrimas são de cristal. La leche és santa. Esse passado em que vivemos sangue do meu sangue. Essa novelística mexicana. Os dias são de tonalidade gris. Inclusive os dias de sol são tomados por algum pudor católico. Quanto a verter a si mesmo não vejo mais lógica. É a chuva, sem destino, sem pausa e sem parágrafos.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Hoje

deixa a página em branco. Deixa ocultas as palavras que não fazem mais sentido repetir. Deixa apenas a doce melodia da caminhada. Deixa apenas a lembrança das coisas boas e triviais que fazem os casais. Deixa essa noite seguir e dá o conforto que necessitamos. Deixa-me tragar o vento e calar as perguntas prementes. Deixa cair segunda-feira as formas gloriosas de rememorar. Deixa os problemas de lado. Deixa a fluoxetina fazer efeito. Deixa que apenas essas palavras invadam nossa alma, nosso coração, nossos sentimentos. Deixa o peso no lugar que ficou, vivamos a leveza. As coisas brandas e sutis. A estrela que nos vigia. O nome dos filhinhos. A afetividade que ficou no ar.. Afastar os problemas que existem tão fugazes. A vida nos abate, mas Chet e um baseado nos acalmam. Dormir me faz bem. Sem conhecer os segredos, mas acreditando nos mistérios. Derrama a esperança em nossa busca interior e pessoal. Nenhuma dor mais. Apenas o sono dos anjos. Nenhuma ansiedade mais se aproxima. Os ventos estão calmos. Passou a tempestade. Sentir prazer nas coisas pequenas, na espera delas. Ser humilde. Estamos mais fortes. O silêncio cai sobre nós graças ao amanhã.

sal de fêmea

Enfim, a parafernália indecifrável e chamada tempo deixa escorrer o passado. Então acende mais um cigarro, mesmo calado o seu grito é válido. No desprazer que abisma, sua alma esvoaça e retarda as horas. Faz-se ouvir um sussurro. Um frêmito efêmero frenético dispara. Água vazando em algum canto me diz que é hora de ir. Um grito obsceno vem do alto, de onde ouço um som de congado. Vendo meu mundo no claro - cego como obra inacabada. Vendo a inocência de qualquer coisa q ainda não vi. Doeu-me saber que existem pessoas assim. Jamais pensei que um ser humano fosse capaz de deixar o outro morrer aos poucos, cruel, ébria, sorbeba e lentamente a cada dia. E cada dia parecia noite e os horrores eram poucos comparados à madrugada. Nada mais te faz mal se você se entrega ao silêncio of a dawn. A rua está deserta, mas todo mundo te flagra. Você não é mais o mesmo. Você não tem mais respeito. Não é mais aquele menino-zona-sul que eu conheci, virou um favelado e agora sempre será, sempre.

.......
Blue lines for a drunk lady

moldura

Não sou mais refém do meu passado. Desilusões. Dores e desilusões. Agora também sou vil em toda minha vileza. Se não te amarrei como querias, é uma pena. Suavemente a sua pele. No espectro da carne não há carne. As sombras apagaram seu passado impregnado em mim. Espero que algum pedaço de sonho meu chegue até você. Sou consciente dos meus atos. Compreendo que nasci em um ambiente fértil para a violência. Mas poder falar e poder escutar. Condenação social. Faz tempo que sou um país, uma ilha. Se não há opção, mesmo atravessado o sinistro da vida, gostaria de retratar em meus símbolos plásticos, desaparecer e aparecer. Espanto as nuvens. Mesmo assim, acerta disso é o que capto. Peço que algum rastro chegue até você. Deixo-me te perder, tem hora. O coração agora é o ninho espinhento da memória, onde lá eu te coloco em pensamento.

domingo, janeiro 09, 2011

ciciando baixinho

Garotas más não choram. Observo, enxergo, vejo, analiso, sigo em frente. Hoje me importo mais, portanto sigo só. Quero desconhecer quem eu conheço. Quero esquecer, deixar de ser invisível e anônimo. Quero começar mais uma vez. Equilibrar na linha do horizonte. Chorei como se fosse vítima. Alvo da armadilha inescapável. Chorei no escuro. Lágrimas não sensibilizam as mulheres. Nunca mais quis essa gente por perto, embriagada de conversas tolas. Ela rabisca cores que pairam na brisa e flutuam no ar. Os rabiscos além do papel fogem desses ares viciados. Não interessa quem viveu quem morreu. Sem mentiras nem meias verdades. O presente que desejo merece uma Ode. Minhas veias estão saturadas dessa velha tristeza. Fábula de um novo amor, silvestre e pagão, ao sabor mágico dos ventos. Uma linda borboleta caleidoscópica pousou em minha janela, atraída pelo sal da existência.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

quarta-feira, janeiro 05, 2011

um pequeno infinito

A subida da montanha é lenta e silenciosa. Observo com calma minha natureza íntima. O sol acalenta suavemente. A brisa sopra em meu rosto. Estou atento a cada passo, mas a minha alma voa. Estou alheio ao tempo, mas controlo minha repiração. Já não sou mais a mesma pessoa que pisa na terra. Relva resplandece sobre os ares da primavera. De repente o vento sopra mais forte. Os últimos passos ao topo. Ouço o bater de asas da águia. Quando me aproximo e olho pra cima, vejo o grande pássaro que ali observava sublime, imponente. Ao ver aquele pássaro perder-se no horizonte torno minhas costas e somente àquela hora tive uma visão de onde estava. O quão alto aquele pássaro de visão aguçada podia ver qualquer minúcia. Uma vista completa da serra que contorna o vale, e o vale. Campos verdejantes que criam matizes incríveis. Sento-me para descansar e observar a geografia. O rio serpenteando, as quedas d’água criadas pelo relevo. Um momento de sonho. Silêncio.

segunda-feira, janeiro 03, 2011


anda Lola

Alguém que nunca me falou de onde vinha ou pra onde queria ir. Tento entender e penso que sei do momento presente. Reminiscências de passado. De surpresa um rabisco. O mundo gira e não estamos mais no mesmo lugar. A mesma casa, os mesmos quartos, a mesma imensidão vazia dos meus atos. As portas agora são outras. O apartamento é pequeno. As coisas acontecem tão perfeitamente que chegam a ser sábias. O mesmo estado de ânimo agora que estimula a novas construções mentais. A visão está aberta para novas paisagens. Considero um alívio o peso da liberdade. A geladeira está vazia, mas meu coração está cheio de expectativas. Novas realizações, apesar das inevitáveis aflições da vida.

o afeto

Como estabelecer um centro de equilíbrio exato, diante dos percalços da vida? Como não tropeçar diante dos obstáculos invisíveis? Vivemos momentos de impotência diante dos fatos. Sofremos às vezes alucinados pela dor. Gozamos a existência em pequenos goles ou em grandes golfadas. Quê fazer frente aquilo que não podemos mudar? Discernimento para cumprir a rotina diária e uma paz que luta contra as adversidades. Esse ano de dois mil e onze todos os personagens se conectam em um só expectador diretor de sua própria obra. Muito embora ainda seja invisível aos olhos alheios, diz minha voz interior que o ano será proveitoso. Eu desejo harmonia em todos os sentidos. Que o homem não seja mais o lobo do homem. Que não tenha medo da própria espécie. Que palavras e sentimentos se modifiquem. Transmutando transmutando transmutando. Consciência de que a tarefa nos espera. Quando o servidor está pronto o serviço aparece.

domingo, janeiro 02, 2011

Papel verbal

Não sei por onde começo a organizar os textos que pretendo publicar esse ano. Parece que as palavras se repetem e os personagens se confundem com a própria realidade. Sonhar com o passado e reviver. Lembrar sem delírios de amargura nem sombra de tristeza. Tantas paisagens e lembranças. Tantas realidades que eu já esqueci. Fico contente e apavorado ao mesmo tempo. São pinceladas de emoção. Foram dias de ninguém, noites adentro. Devo manufaturar aquilo que, afinal, já está publicado no universo virtual. A transliteração daquilo que ainda importa e tudo que ficou para trás. Ainda não sei como fazê-lo, mas quero fazer de forma concisa, sincera e agradável. Muito embora não consiga deixar de ser ácido e diletante. Se de fato não sei como começar, creio que já comecei. Estou convidado ao trabalho. A devida distância que me separa dos fatos me fará excluir os repetidos clichês e ladainhas repetitivas. O nexo da minha busca aparecerá. Então poderei acalmar esse feiticeiro loquaz que me açoita. Estarei mais uma vez riscando um passado assombrado e belo, único e atônito. Um espectro do que vivi. Verbal papel.