segunda-feira, fevereiro 28, 2011

the good and old Chet

À sombra dos olhos

Hoje eu estaria completando, em mil novecentos e setenta e oito, dez dias de vida desde separação ventral. Uma analepse. Alguns anos depois de existência terrestre, imagino meu pai e minha, cada um de um lado, lindos seres humanos, dando-me a mão e caminhávamos. Lenir-jovem imantada de uma luz-energia força poderosa emanando do plexo solar em sentido dos olhos erguidos sempre na altura do horizonte. Um trompete sussurrando ao fundo o compasso da nossa caminhada. Um passeio idílico que nunca existiu. O sonho é uma sequencia em branco e preto como num filme de Truffaut. Passados alguns anos, vejo-me jovem escalando rochas um tanto longe de tudo e próximo de si. Ao sul das Américas caminho livre entre as montanhas de gelo. Os ares da véspera onde nascem os ventos do pacífico sul. Próximo de conhecer sua estatura íntima moral. A sensação de consciência de existência. Carrego agora, como um velho amigo, o sorriso suave na face de quem viveu noites inglórias, perdas inevitáveis e conquistas interiores inenarráveis. Sigo para as frentes. Então estou deitado sob a sobra de uma árvore observando lindos cordeirinhos...

domingo, fevereiro 27, 2011

A ideia de gênese na estética de Kant

Analítica do belo como dedução: meta-estética material do belo na natureza do ponto de vista do espectador. Se o juízo de gosto reclama por uma dedução particular, é porque ele se reporta pelo menos à forma do objeto, de outro lado, ele tem, por sua vez, necessidade de um princípio genético para o acordo das faculdades que ele exprime, entendimento e imaginação.
O Sublime nos dá um modelo genético, é preciso encontrar um equivalente dele para o belo, com outros meios. Procuramos uma regra sob a qual estamos no direito de supor a universalidade do prazer estético.
Enquanto nos contentamos em invocar o acordo da imaginação e do entendimento como um acordo presumido, a dedução permanece fácil. O difícil é fazer a gênese desse acordo a priori.
Ora, precisamente porque a razão não intervém no juízo de gosto, ela pode nos dar um princípio a partir do qual é engendrado o acordo das faculdades nesse juízo. Existe um interesse racional ligado ao belo: esse interesse meta-estético incide sobre a aptidão da natureza em produzir belas coisas, sobre as matérias que ela emprega para tais “formações”.
Graças a esse interesse, que não é nem prático nem especulativo, a razão nasce para si mesma, alarga o entendimento, libera a imaginação. Ela assegura a gênese de um acordo livre indeterminado da imaginação e do entendimento. Reúnem-se os dois aspectos da dedução: referência objetiva a uma natureza capaz de produzir coisas belas, referência subjetiva a um princípio capaz de engendrar o acordo das faculdades.
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me and my friend Marlon

a friend from San Pablo



sábado, fevereiro 26, 2011

Proust e os signos

Nos subúrbios da memória ou
"The Queen of the underground"

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Disposto a fazer uma analepse de todas as nossas memórias idas. Comi algo que não me fez bem e passei um ano inteiro vomitando. As meninas brincam de prazer, em busca do tempo perdido e Proust te despreza. Desprezo a promiscuidade que o momento histórico delega. Aprender é ainda relembrar, mas, por mais importante que seja o seu papel, a me­mória só intervém como o meio de um aprendizado que a ultra­passa tanto por seus objetivos quanto por seus princípios. A “busca” é voltada para o futuro e não para o passado. Aprender diz respeito essencialmente aos signos. Os signos são objeto de um aprendizado temporal, não de um saber abs­trato. Aprender é, de início, considerar uma matéria, um obje­to, um ser, como se emitissem signos a serem decifrados, interpretados. Não existe aprendiz que não seja "egiptólogo" de alguma coisa. Alguém só se torna marceneiro tornando-se sen­sível aos signos da madeira, e médico tornando-se sensível aos signos da doença. A vocação é sempre uma predestinação com relação a signos. Tudo que nos ensina alguma coisa emite sig­nos, todo ato de aprender é uma interpretação de signos. Do signo extrai-se sua unidade e seu surpreendente pluralismo. Volto o tempo e me redimo. Rimo memória que não evoco (conscientemente) vem a mim sem aviso, sem que eu peça, de surpresa e como um raio, é voz tonitruante.

criptogramas

Escrever é como colocar na página o diálogo interno. Obedeço a regras gramaticais assim como obedeço à nova regra de conduta dos meus pensamentos. Código interno. O que nos mantêm no chão. Quis “voar”, mas não consegui. A Natureza não dá saltos, princípio hermético. Hoje percebo que minha mente quis desvencilhar-se do corpo de matéria densa. Deus, Mundo, Alma são as três ilusões de transcendência e a cabeça de boi que reverbera Eu Eu Eu. O riacho pouco profundo das cotidianas realidades e a grande roda dos esquemas. De repente, a .............. cala minha voz, oblitera minha visão, tampa meus ouvidos.

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sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Com prozac, com afeto

__ As coisas que ela escrevia na parede e tal. Ela gosta de você.
__ Então quer dizer que ela gostava de mim ao menos um pouquinho?
__ Claro que sim.
__ Mesmo com todos os meus defeitos?
__ Não. Com todos seus defeitos, não.
__ Pois é... grande merda é essa.

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Vamos ver. 2010 foi um ano ruim. Ruim no sentido de sofrimento, sofrimento coletivo. Angústias a serem curadas em estágio terminal. A dor, o sofrimento novo que se tornou velho, e o sofrimento desconhecido a priori. Deixemos de lado o dualismo hermético entre Bom & Ruim. Aliás, foi também um ano de dualismo. Um ano que dividiu minhas metas e minhas metades e juntou tudo no que eu era antes. Então voltei a ser o outro quem eu era. Como parte do corpo que se regenera. Abandonei o detalhismo de certos ambientes. Comecei a sonhar repentinamente. Sonhar muito. Sonhar que voava sonhar com meninas que eu nunca vi. Seus olhos brilhavam como se eu devesse responder, como se me conhecesse há séculos. “Mas poxa, Gu, você sabe que aldeia é tudo” reclamando nossa fogueira particular. Sonhar com o elástico no teto do quarto, rodopiando, girando, subindo e descendo. Sonhar com the Fat Old Sun. Verde é a cor em decomposição então hoje é mais um ano. Quando parte do todo se ilumina, o Todo se mostra em sua plenitude. Eu faço parte desse ciclo que se reinventa. Que juntou as metades rasgadas em não-sei-quantos pedaços. Ensangüentada rasgada punhalada camisa molhada. Deixo que as borboletas pousem em mim, em busca do sal do meu suor. Isso não é uma alucinação. Uma delicia sonhar. Ponderei, resumidamente, profundamente, o EU SOU em comunicação com o Todo. Ou seja, viajei pra outro planeta e volto banhado de cores, luzes, energia, harmonia psicodélica dos anjos das esferas astrais superiores e “aquele que se eleva”, mas veja Zaratustra, nunca serei um super homem übermensche embora a águia e a serpente sejam igualmente minhas amigas. Esse telescópio-pra-dentro-de-si vendo mais do que um céu estrelado. Essa lente de aumento foi minha ferramenta do alimento autofágico meu alimento autofágico, autofagia. E se você ver não faça barulho.

Eu sou real

...era o que eu não sabia. Quero fazer algo novo. Sair do velho marasmo. Quero expandir meu vocábulo, meus olhos. Estou cheio desse mesmo sarcasmo. Quero isolar-me do prefácio e começar a ler a página trinta e três. Sem dicta ou contradicta. Quero viver, ser, ainda que mergulhado até a goela dentro de mim. Além de mim e que se expande por todos os lados, ao longo do meu corpo causal. Prece. Parece que vive alguém aqui dentro, um pequeno Jesus.

domingo, fevereiro 20, 2011

Aforismos

Toda Noite & toda Manhã

Alguns para a Miséria Nascem

Toda Manhã & Toda Noite

Alguns Nascem para o doce prazer

Alguns Nascem para o doce prazer

Alguns Nascem para a Noite Infinita

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William Blake

Danse sur la merde

Le petit va te faire foutre com cigarro de menta. Como é que a música sertaneja faz sucesso na Croácia? O compromisso com a vida continua. O Ritmo não pára. Tudo faz parte do Todo e o Todo faz parte de tudo. Um faniquito Rita Rayworth de rancar os cabelos da axila. Como estabelecer uma relação de duelo entre homens e mulheres? Somos párias que maquinam coitos e biscoitos. Vidas, ideais, Vidas ideais. Vai uma vem dezoito. Jamais seria juiz de direito, pois não sei arbitrar, não sei julgar. De qual lado estamos? Se os homens somos inseguros? Não sei. Não sei de que lado está “a” verdade, pois as verdades estão dentro em cada futilidade, injustiça, ignorância, desfaçatez que seja (crew) possível. Não sei o que a mente inconsciente de cada um concatena a respeito de sua realidade urbana cotidiana mundana. Sei que rompemos as barreiras da moral. O ser que somos transformou tudo em frozen shit. Inventou o mundo de plástico. Cenas perfeitas de vida nas maçãs do rosto das pobres meninas transviadas. A Barbie empregada doméstica e mãe solteira.
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noite de sábado


Hoje, sábado dezenove, foi meu aniversário natalício. Completei trinta e três anos. Meu melhor amigo e sua noiva vieram jantar comigo. Creio que em breve formarão o lindo laço do matrimônio, enfrentando os percalços da vida. Minha irmã, minha única e mais querida irmã veio me felicitar. Minhas tias queridas, como os três reis magos deram-me incenso. Sem planejarem, fizeram-me sentir um pequeno Jesus. Meu tio a quem tanto admiro – ele que já foi à Índia, não sabia... Minha prima continua linda. Muito obrigado pelas boas energias e bons fluidos, que essa noite recebo com gratidão. Morrendo pra renascer eternamente.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

__Como foi a sua caminhada? – perguntou.

__ Foi longa e cansativa.

__ Mas você foi sozinho?

__ Fui... – dali em diante seguiu-se um silêncio de que ambos foram cúmplices. Durante duas longas horas, subindo e descendo e fazendo curvas numa estrada de terra. A paisagem em volta era de floresta. Passaram por um pequeno povoado, as casas com as luzes acessas. Duas meninas na janela fitavam os passantes. Não passava quase ninguém, mas mesmo a cinquenta por hora, elas nos olharam dentro dos olhos.

__ Chegamos. – disse o chefe. Essa aqui é a pensão do Abílio – e rufou – Laerte! Apareceu um homem que lhe figurava uma criatura primitiva e atarracada.

Lembrou-se da vez que foi a um casamento com Mildred. A cachacinha de côco no tonel, a primeira vez que comeu umbigo de banana, a lua cheia no quintal, sentados na escuridão num banco de madeira. O pensamento voa longe, fértil, resguardado, anônimo e único. Cada flash remexia seus neurônios e testículos, mas a terra, a ferrugem da estrada e o cansaço repovoavam sua mente.

A estrada congestionada, os carros tão devagar quase parando, pessoas vendendo água “olha a água, olha a água!” e nós paramos para comprar umas bananas. Beira-de-estrada mesmo devagar logo chegaríamos. Aproveitei para pedir uma pinga e um velho bêbado se acercou de mim. “Que porra de pinga ruim!”.

__ Que pinga ruim – falou sem pensar.

__ Você achou? – disse a dona do bar.

__ Arrr, achei sim. Mas tá bom...

__ Obrigado – pegou a caneca vermelha fumegante e continuou – Shri Krishna, no Bhagavad-Gita, diz ao príncipe Arjuna “O sábio não lamenta nem morto, nem vivo. Pois nunca houve um tempo em que eu não era, tu não eras, ou esses príncipes eram. Nem haverá um tempo em que deixaremos de ser” – depois de horas, quando já estavam a caminho, Francisco perguntou – “o que houve àquela hora?”

__ Nada. Apenas me lembrei de uma coisa ruim e minha memória emocional aflorou. – parecia que queria saber sobre as lágrimas. – Pois Tagore, poeta hindu, escreveu em Gitanjali “O viajante tem que lutar pelos seus direitos a cada porta estranha e saber que é preciso caminhar sem rumo pelos mundos exteriores, para chegar ao altar do seu Eu mais profundo. Meus olhos vagaram longe e se perderam antes que os pudesse fechar e dizer, em lágrimas, que se tornaram torrentes de água e inundaram a terra, EU SOU” – falavam sobre os versos mais antigos que a humanidade conhecia. Já estavam a caminho quando Francisco perguntou,

__ O que você anda lendo agora?

__ As Upanishads.

__ Caramba! Só pinta maluco nessa ONG. A Roberta tá lendo um livro do Stephen King e acho que foi por isso que ontem ela quase brigou comigo por conta de uma reportagem sobre a venda ilegal de lotes de assentamento na Amazônia. Porra, o movimento é uma máfia. O quê que “eu” tenho a ver com isso?

__ Você devia ter uma opinião a respeito, mas não sei, não presenciei a discussão. Como é que eu vou saber?

__ ...

__ Isso é que dá se preocupar com tanta coisa. – falou isso porque sabia que estavam preocupados em salvar o planeta. Enquanto viajavam, ele contemplava o entardecer. A luz do sol se inclinava sobre a serra. – sabe, seu Chico, por que a gente não organiza a guerrilha?

__ Você ligou pro Brant?

__ Liguei várias vezes. A secretária disse que ele tava “em reunião”.

__ ?

__ ...

Alla Tedesca!

Lembrou-se de quando estavam se separando e do momento em que não tiveram tempo para se despedirem juntos daquela casa. Aquela casa que representava para eles o palco das perdidas ilusões. Lembrou-se de um último beijo, escondidos no quarto, dois minutos a sós, o perfume da pele, o adeus, o carro buzinando tiranicamente. Lembrou-se de como tudo lhe foi arrancado de repente. Seus olhos se encheram d’água e começou a chorar.

__ Ou você chora ou fuma – disse Francisco, delegando rapidez na ação.

Num movimento ágil, como que acordado das profundezas do sonho, fez o sinal da cruz com a mão esquerda porque a direita estava ocupada. Levantou-se e enxugou as lágrimas que lhe escorriam verticalmente, delineando o rosto. Voltou e sentou-se diante do computador, seu lugar de trabalho. Não havia nada que o impedia de fazer isso, pois estava a dez passos da área externa da casa. Francisco, preocupado em saber contas e horários, aproximou-se e perguntou,

__ Que horas sairemos?

Ainda meio zonzo respondeu,

__ Às seis.

__ E o que você está fazendo agora?

__ Nada. Nada especial.

__ Bem, são três horas da tarde. Faz um café pra gente?

__ Faço.

Levantou-se e foi até a cozinha. Colocou a água pra ferver na chaleira e tirou da estante duas canecas vermelhas. “O café confere às elas um ar de utilidade” – imaginava – ”o liquido pra qual foram feitas”. Caía-lhe bem ver o café naquelas canecas rubras. A casa colonial, verde oliva descascado, era bem arborizada e exalava o perfume das palmeiras, dos coqueiros, das folhas das plantas, das flores, das ramagens, das gramíneas, das trepadeiras. O telhado de madeira dava o tom de interior, mas por dentro as paredes eram brancas e as pessoas mais ou menos sérias. Logo o aroma de café contrastava com o perfume de relva, invadindo o interior da casa.

__ Às vezes fica-se pendurado no abismo com uma mão só – disse Chico.

domingo, fevereiro 13, 2011

p.leminski

__que tudo se foda
disse ela,
..e se fodeu toda
....desmantelar a
máquina do amor
....peça por peça
onde luzia flor e flor
....não deixar nem promessa
isso sim eu faria
....se pudesse
transformar em pedra fria
....minha prece
....A morte, a gente comemora.
No meu peito, cai a Roma,
....que, caída embora,
nenhum bárbaro doma.
..
.
....As romas que assim tivermos
e os esplendores da pessoa,
....a impropriedade dos termos,
a quem doer, doa.

menina afogada no poço

Que tipo de região desértica é essa em que transitam meus pensamentos? Quero escrever? Sim. Estou fazendo uma revisão de textos que pretendo publicar, mas sinto-me igual Arturo Bandini. Tão remisso e inocente quanto. Perguntar à poeira das prateleiras das estantes do esquecimento, ou do conhecimento, da sabedoria de se sentir mais forte, não sei. Por onde anda minha memória? Encontrei mais um fio de barba branca bem no meio do queixo. So what? Desculpem-me essa punheta inglória que é regurgitar reminiscências do passado e ficar se lamentando, ai ai. Ai minhas costas, ai a putaqueopariu, porque ela ainda não evoluiu? Medo do sexo, medo da força, complexo de pobreza. Eu não mereço me lembrar de certas noites. A impressão que resta de ser incompreendido, de ter deixado a imagem de um bárbaro que aflige medo. Medo. Você se sente segura apenas perto da sua mãe e eu me seguro pelo mundo, e sinto muito, adeus. Quero esquecer de vez e esquecer o que você me fez. Estou cansado de tanta rima pobre. É isso, eu que me considero tão passional, tornei-me blasé, Petit. E mau poeta. Minha consonância declinou muito. Sem rima, sem métrica, sem estrutura. Indiferente, apático. Fock,

fumando espero

...alegres vendavais. Madrugada de sábado pra domingo. Paro diante da tela. O vazio dela parece estacionar o espaço-tempo. Preencho com minhas palavras a cada linha. Pingo letra por letra meus dedos querem dizem. Derramo as falas que foram às favas porque a melancolia me pega tem hora e... O quê dizer sem se repetir? Sem repetir o mesmo lamento, o mesmo clichê? Consigo esquecer. Cada dia parece haver menos espaço para esse vazio dentro de mim. O vazio e a desilusão se tornam zona de conforto, de tristeza. Deitar sobre mágoas dói em meu plexo solar, meu peito. Tensão em minhas costas e meu corpo corresponde. Cada dia e cada noite, fumando espero. Alguma coisa fugiu-me às mãos na hora passada. Mergulhou lentamente no vazio, rumo à escuridão do abismo. Mais um ano em minha vida. Ah, Manuel...





Pneumotórax



Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Manuel Bandeira


sábado, fevereiro 12, 2011

Vox populi, vox Dei


Allahu Akbar! Deus é grande! Imagine que os jovens no Egito reuniram forças para se manifestar publicamente, comunicando-se através da internet – esse dragão alado de Rá, essa besta divina. O ditador Rosnin Mubarak, há vinte e cinco anos no poder como chefe geral de estado, cortou a internet, celulares, redes de TV, tudo! Mas claro, a notícia “vazou” para a imprensa internacional e mesmo sem essas interfaces de comunicação eles lançaram mão das tradicionais táticas de guerrilha urbana. Delicados pronunciamentos e manobras apenas faziam reverberar a ira popular. Enfim, após dezoito dias de manifestação, o povo forçou a renúncia de Mubarak que hoje virou notícia internacional. Viva la revolución! Agora eu vou poder visitar as pirâmides.

Assistam no YouTube ao som da Cal Poly Jazz Band.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

O Princípio de Ritmo

"Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação."

Salue Marie


Dobalé, laroye Exu. Sua mãe é professora de literatura da rede pública. Todos os dias à hora do anjo, seu irmão canta a Ave Maria de Gounod. A casa georgiana tem uma coleção Os Pensadores e obras de arte espalhadas por todo lado. Sua avó mora com eles e recebe cuidados especiais. Todos os dias ele convive com a deterioração humana que eu apenas imagino. Tenho uma vaga imagem do que seja. Não visito asilos. O cotidiano deve ser uma plena convicção da vida ou uma plena convicção da morte. A presença muda. Seu suave mundo ausente, representamem. As aflições da alma dentro de um corpo. O invólucro material. O etéreo. Não haverá esquecimento, pois as células vivas pulsam na linhagem de um teto, e séculos. A aura etéria.

princípio de polaridade

"Tudo é Duplo; tudo tem pólos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados."

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É difícil estar perto das pessoas que a gente gosta, mesmo no plano espiritual, e é o que mais queremos, por ligações de afeto e afinidade, apego. Difícil “matar pessoas” dentro de nós quando alguma quintessência nos liga por tênues fios mentais. Cada qual estará vivendo seu inferno, sua fortuna, seu paraíso. Assim como tal nada é real, parece. Estou em busca de axiomas herméticos que exprimem esse fluxo e refluxo.

oesquema/

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

A hora do anjo

Os guerreiros se preparam para adquirirem destreza, mas
quando conseguem já não estão mais preocupados com ela.
Carlos Castaneda

Fogo Interior



As chuvas de verão, especialmente as chuvas de janeiro desse ano, pintaram a paisagem como eu nunca tinha visto. Pelos meus cálculos, se alguém esteve nos picos em julho do ano passado, já faz seis meses que não passa ninguém por onde eu passei. Nunca vi o mato crescendo nas trilhas. Parece que foram abandonadas. Sei que poucas pessoas não causam impacto visível na vegetação, mas teriam deixado alguns pequenos rastros humanos. Rastros que me meus olhos, há nove dias dialogando com a natureza, seriam capazes de ver. Perceber a nuance de mudanças na atmosfera relativas ao tempo. Desci o pico rezando pra não me perder. Pedindo que eu ainda tivesse forças para enxergar o caminho de volta. Pois quando parte do Todo se ilumina, o Todo aparece em sua plenitude.

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dentros mais de ventre que de abraço

Oitavo dia. Reflito sobre a noite em que ouvi as sirenes da mineradora buzinando incessantemente. Trabalhando para remover o espaço-físico e transformá-lo em coisas cotidianas. O contágio das horas em função do espaço, desde a pasta de dente ao cimento a natureza geme. Mundo invisível. Na cumeeira o mato está alto. O capim cobriu as trilhas. O bambuzinho virou arbusto e o arbusto está florescendo. Um mar de ciganinhas, melastonas tasias, laelia caulensis, tepalansas, os pés de arnica e suas flores roxas, canelas-de-ema, carqueja, sempre-vivas e drosófilas carnívoras, macela branca e uma florzinha chamada xoxota de freira, nos campos rupestres a perder de vista. Em meio a todo esse bioma uso as reservas de minhas forças. Uma batalha constante para manter meu moral em alta. Rasgo a picada pela crista até atingir a montanha em seus campos. Passo direto pela canela-de-ema centenária em que Dom Pedro II pendurou a cueca pra secar. Uso as minhas reservas essenciais para atingir aquela cachoeira em que acampávamos, Pesseguinho, chegando lá realmente esgotado. Senti a ígnea chama, a centelha divina em mim. Intensifiquei a minha crença e juntei as últimas forças para seguir até o cume. Meu batimento cardíaco acelerado e o corpo superaquecido pelo sol escaldante. Entrei na água e ao primeiro vento tive que me agasalhar pra não sofrer um choque térmico. Consegui descansar por meia hora onde não existia sombra, após sete horas (faço o cálculo mental) de caminhada quase ininterrupta. Minha intenção é atingir o alto para não dormir exposto ao tempo e cada passo torna-se um sacrifício. Meu corpo responde a um reflexo mental de sobrevivência. Chego ao cume, onde há aquela pedra que parece muito um cavalinho de carrossel. Lembro perfeitamente a trilha, mas a vegetação está tão alta para andar dez metros no mato, lutando pra andar um passo a cada três. Tudo é mistério, mas lembro-me de JJ caminhando sobre as rochas. Identifico o vale, mas preciso ir pra esquerda. Ando a beira da fenda, evito olhar para baixo e nunca encaro o abismo. Pulo nietzschianamente sobre o penhasco, de uma para outra rocha. Dez segundos entre pensamento e ação, puro instinto. Consigo chegar até a plataforma que me levará até a toca. Não quero ver a vista, não quero ver o sol se esconder. Quero eu me esconder dentro do saco de dormir, no útero das terras altas, e que a luz do sol se apague. A noite cai em minutos enquanto eu tenho meu derradeiro colapso. Mais ou menos uma hora depois, minha cabeça pára de doer e o meu corpo se desaquece naturalmente. Acendo uma vela. Consigo comer um pedaço de pão com queijo e um pedaço de chocolate. A escuridão é absoluta não fosse a luz das estrelas que incide por entre a fenda.
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terça-feira, fevereiro 08, 2011


Imagino que o grande irmão olha para mim todo o tempo. Descobri que cada lugar continha um pequeno baú de lembranças que eu deveria abrir para que elas saíssem voando num rodopio rápido como o vento. Descobri que o que sinto pela pequena Carmen é mais pena do que amor. Necessário me despir de velhas paixões e vestir a túnica branca do Cristo. Descobri que não preciso de nada para ser feliz. Descobri o EU SOU de uma visão periférica. No sábado, meu coração estava divido entre andar até o cume do Inficcionado ou descer para o conforto do parque, voltar pra casa, acabar com a brincadeira. O que pulsava mais alto era seguir adiante, e assim o fiz sem olhar para trás, com o risco de virar uma estátua de sal como a mulher de Loth (Genesis, capítulo XIX, versículo 26).

Oi Pesseguinho



Escrevo pra você esse relato, pois sei que conheces cada passo. Continuando a saga... Retorno ao sétimo dia de expedição - dia em que tomei a decisão de subir ao pico do Canjerana. É ali que a gente descobre que a vida é feita de “altos e baixos”. A subida segue uma ondulação que me leva até aquela casinha inútil – uma agressão, uma ofensa ao cucuruco da montanha. Mas enfim, eu tinha quatro litros de água e resolvi, a contragosto, fazer desse quartinho minha casa. Tive um pequeno entrevero com um lagarto, uma pequena guerra territorial. “Cleber” esteve lá e deixou inclusive o email. Escreveu o nome nas quatro paredes por todo canto. Aproveitei a lenha que havia no outro quarto menor e a lua em seu quarto crescente fazendo do céu um show de estrelas. Vi o pôr do sol sentado na laje do quartinho menor. Foi quando percebi que tinha visão de 360 graus ao meu redor. Maravilhosa visão das montanhas rumo ao infinito. Quando ocaso do sol se deu desci para acender a fogueira dentro do “barraco”. Fizeram um buraco no teto para sair a fumaça. Vejo o lagarto na parede iluminada pelas chamas “Ei, enquanto você estiver aí e eu aqui, tudo bem”, mas ele se aproxima demais. Ele é destemido. Tento tocar o bichano, mas parece que ele não se afronta com o pedaço de pau na minha mão. Eis que dou-lhe uma porrada, Pá! e o pobre caí de costas no chão. Dou-lhe outra! E com a faca na outra mão levo o lagarto morto pra fora do quarto e penduro no arame farpado, bem no alto. Pensei em Jack Kerouac, meditação Za-Zen, meu livro dos Chakras... Eu estava fazendo uma bonita catarse. Conhecendo a mim mesmo no imo. A águia ou o gavião, sempre estiveram bem próximos de mim em todas as etapas do percurso. Eu podia ver detalhes de sua plumagem e sentir a corrente térmica em que eles plainavam. Verdadeira brisa a limpar minha alma. Assim falou Zaratustra. Acordo na manhã de sábado, primeira informação: “Cleber”.



(continua...)

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Quer perder peso?

Acabo de chegar de uma longa caminhada. Estou exausto, exaurido, sentindo uma estafa corporal realmente grande, mas uma leveza na alma inigualável. Fiquei dois dias no pé da serra onde eles plantam batatas dormindo na toca e me preparando para enfrentar minha meta de ir até o Inficcionado sozinho. Foi uma tarefa hercúlea, uma façanha. Quero descrever algumas passagens. No terceiro dia, enfim, resolvi dar início à caminhada e subir o Batatal. Foi árduo. Subi praticamente rastejando, de joelhos. O mato está incrivelmente alto. Creio que seja por conta das chuvas de janeiro. Meus braços estão com as marcas dos arranhões apenas superficiais. No fim da subida, depois da pedra triangular (foi uma escalada bem original) eu me perdi. Tracei um rumo reto ao cume e o último lance foi realmente um golpe de sorte. A verticalidade, medo e o cansaço fizeram com que eu tivesse meu primeiro colapso. Antes que meu corpo esfriasse, caminhei incessantemente até a pedra-do-jacaré. Depois até aquelas águas do Córrego das Flechas, isso a mil e oitocentos metros de altura, nos famosos campos de altitude. Lá permaneci por mais um dia antes de prosseguir, no quinto dia. É muito bom respirar o ar puro da montanha. A vista... Como de costume não levei relógio de nenhum tipo. O céu estrelado foi minha bússola. No quinto dia, finalmente, segui em direção ao Campo de Fora já em território pertencente à Reserva Natural do Caraça. Nadei nas águas calmas dos riachos, onde elas nascem e tomam forma. Dormi na toca onde eu e Oscar, o colombiano, tiramos a ossada inteira de uma vaca. Por isso ficou batizada de Toca da Vaca. Percebi pelos rastros deixados, que alguém esteve por lá. Aproveitei os restos da lenha deixada por esse “alguém”. Descansei mais um dia para me recuperar. Encontrei um remanescente osso da vaca parecido com a taça Jules Rimet. Bateu uma onda de homem primata e aquilo virou meu tacape. Nessa última noite matei com esse bastão, uma aranha negra que procurava abrigo embaixo do meu saco de dormir. Depois verifiquei suas presas, finas e afiadas como agulha. Continua...