quinta-feira, junho 30, 2011

Nietzsche

use se precisar



89
As aventuras terríveis nos fazem pensar se aqueles que são por elas tocados não são também algo terrível.


92
Quem ainda não se sacrificou pelo menos uma vez pela sua própria reputação?
98
Quando se amestra a própria consciência, esta acaricia ao mesmo tempo em que morde.
109
O delinqüente de modo muito freqüente não está à altura de seu delito: ele o empequenece e o calunia.
124
Quem na fogueira exulta ainda, não triunfa da dor, mas de felicidade de não sentir a dor que esperava. Um símbolo.
132
É se punido principalmente pela própria virtude.

Turandot



A Nobre Verdade da Impermanência

Nada sobre a terra permanecerá. Tudo passa, nada fica em seu lugar. Dos monges tibetanos aos filósofos modernos, astrônomos e físicos quânticos, todos reconhecem a impermanência de todas as coisas. O sol abrangerá a Terra, engolindo e transformando todo nosso sistema planetário, mudando e configurando um novo modelo cósmico em permanente mutação, ao bel-prazer do Criador, as ambições do Caos, à ordem de atração das forças e sua polaridade, ao ritmo de algo que é como questionar Deus: proliferam-se as respostas mais enigmáticas que as perguntas. Seria Deus um equívoco do homem? Ou será o homem um equivoco de Deus? Ouço Billie Holiday nesse dia lindo quando silêncios de nostalgia pairam no ar. Perdi totalmente toda a minha volucubrência. Adeus Carlos Aguiar da Costa Pinto, baiano de origem, amigo de tantas referências, nobre colecionador de arte... Até nunca mais.

quarta-feira, junho 29, 2011

Belo Horizonte, 29 junho de 2011

Caro Caio, magistral dublê de poeta,


Hoje, mais cedo, li seu último texto e confesso que fiquei refletindo até agora. Refletindo sobre as coisas que realmente temos, guardado o sentido relativo de realidade, aquilo que de fato, talvez, sejamos os únicos possuidores. Os livros de francês, a literatura que guardamos, pequeninas coisas à que estamos fisicamente entrelaçados, ao doce passar do tempo, quando se desfruta a solidão das horas mortas. Hoje, não escrevemos mais para ninguém, não temos passado triunfante que revele glórias e vitórias. Ao contrário, temos algumas batalhas perdidas. No entanto, continuamos em campo, vivendo em nosso pequeno mundo. Ali vejo a luz do abajur, vejo o bonsai que resplandece indiferente a mim,
vejo que acolá também
resplandece o vazio, que morre o mito, que soçobra a revolução que fizemos em nós mesmos, a título de reforma, reforma íntima. A janela, primeira noção de percepção, que foi muitas vezes minha inspiração. Não mais me pertencem as cores do céu através desse vão que eu chamava de meu. O que somos hoje? Hoje sinto a terra seca. Sinto como se estivesse morando em um navio que encalhou nas areias do deserto. Ainda que por poucos dias, sinto que nosso barco naufragou. Acho que vamos encontrar águas mornas e terras menos desérticas, mas iremos a nado. Hoje pesa sobre mim a lembrança daquelas tardes de domingo em que éramos bajuladores de Dionísio. Contagem regressiva. Faltam dois dias para a mudança. Não importa mais o que eu tenho, mas a lúgubre lembrança apenas das coisas que deixarei pra trás. Sou forte candidato a tornar-me estátua de sal.

heterogênese social invisível

03:14 amAto contínuo. A lua mostra seu sorriso trôpego e amarelo.
Sem dentes.
Penso que encontrei conexão entre:




Virginia Woolf



Marguerite Yourcenar



Henrik Ibsen – A Casa de Bonecas
Edward Albee – Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?



A mesma linha que liga Spinoza, Nietzsche e Deleuze...
O caso das minorias. Abordar somente o caso das minorias seria restringir o assunto a um só ponto de vista e ficar insensível à pluralidade possivelmente abrangível. Ou seja, é estar apático à extensão do objeto em sua totalidade, sem esgotar cada tomo à maneira dos geômetras, da forma clássica. O implexo dos fios dessa contextura é como enviesar o caso (de dualidade) das minorias com a linha que prende um botão que se encerra em si mesmo, para no final, somado ao complexo geral da organização, concordar com o objeto em sua linearidade. Pretendo criar conceitos concludentes sobre os conflitos humanos que rasgam o tempo, confrangendo almas infantis, aniquilando vidas amantes da própria Vida, rompendo valores metafísicos.

terça-feira, junho 28, 2011

poesia

Deus é um grito na rua. Não gosto de lamber páginas velhas nem novas. Deixo isso para os críticos. Eu quero fazer o que faço baseado nas minhas pequenas referências e em minhas intuições. Sou, ou seja, já fui rotulado, um poeta intuitivo. Poesia Intuitiva historicamente falando. Esses termos são bons por que existem várias maneiras de ver. Pode ser tudo. Eu sei que a razão pela qual eu, a razão pela qual, eu sei que... podia ser circular. Eu sei que, na verdade, não sei a razão pela qual



..escrevo
vivo



..durmo
acordo
levanto


..tenho fome
como
bebo



..falo
calo
reflito


....conflito...

Abra aspas

Será a revolução, a era do aglutinamento do cretino-fundamental; eles que antes se resvalavam pelas paredes, recolhidos na consciência de sua inépcia. Ponha um cretino-fundamental em cima de um caixote de querosene “jacaré” ele dá um berro e milhares cretinos fundamentais se organizam, se arregimentam, se aglutinam. Fecha aspas. Vaticinou Nelson Rodrigues.










segunda-feira, junho 27, 2011

Jenseits von Gut und Böse

4.




A falsidade de um juízo não pode constituir, em nossa opinião, uma objeção contra esse juízo. Esta poderia ser uma das afirmativas mais surpreendentes de nossa linguagem. A questão é saber em que medida este juízo serve para conservar a espécie, para acelerar, enriquecer e manter a vida. Por princípio estamos dispostos a sustentar que os juízos mais falsos (e entre estes os "juízos sintéticos a priori") são para nós mais indispensáveis, que o homem não poderia viver sem as ficções da lógica, sem relacionar a realidade com a medida do mundo puramente imaginário do incondicionado e sem falsear constantemente o mundo através do número; renunciar aos juízos falsos equivaleria a renunciar à vida, a renegar à vida. Admitir que o não-verdadeiro é a condição da vida, é opor-se audazmente ao sentimento que se tem habitualmente dos valores. Uma filosofia que se permita tal intrepidez se coloca, apenas por este fato, além do bem e do mal.



F.Nietzche

Jenseits von Gut und Böse

Billie Holliday - by Rich Pellegrino



3.


Terminei por acreditar que a maior parte do pensamento consciente deve incluir-se entre as atividades instintivas sem se excetuar a pensamento filosófico. Cheguei a essa idéia depois de examinar detidamente o pensamento dos filósofos e de ler as suas entrelinhas. Ante esta perspectiva será necessário revisar nossos juízos a esse respeito, como já o fizemos a respeito da hereditariedade e as chamadas qualidades 'inatas'. Assim como o ato do nascimento tem pouca importância relativamente ao processo hereditário, assim também o "consciente" não se opõe nunca de modo decisivo ao instintivo. A maior parte do pensamento consciente de um filósofo está governada por seus instintos e forçosamente conduzido por vias definidas. Atrás de toda lógica e da aparente liberdade de seus movimentos, há valorações, ou melhor, exigências fisiológicas impostas pela necessidade de manter um determinado gênero de vida. Daí a idéia, por exemplo, de que tem mais valor o determinado que o indeterminado, a aparência menos valor que a "verdade". Apesar da importância normativa que tem para nós, tais juízes poderiam ser apenas superficiais, uma espécie de tolice, necessária para a conservação de seres como nós. Naturalmente, aceitando que o homem não seja, precisamente, a "medida das coisas"...
F. Nietzsche


domingo, junho 26, 2011

Além do Bem e do Mal

1.

O amor pela verdade que nos conduzirá a muitas perigosas aventuras, essa famosíssima veracidade de que todos os filósofos sempre falaram respeitosamente — quantos problemas já nos colocou! E problemas singulares, malignos, ambíguos! Apesar da velhice da história, parece que acaba de acontecer. Se acabássemos, por esgotamento, sendo desconfiados e impacientes, que haveria de estranho? É estranhável que essa esfinge nos tenha levado a formular toda uma série de perguntas? Quem afinal vem aqui interrogar-nos? Que parte de nós tende "para a verdade?" Detivemo-nos ante o problema da origem dessa vontade, para ficar em suspenso diante de outro problema ainda mais importante? Interrogamo-nos sobre o valor dessa vontade. Pode ser que desejamos a verdade, mas por que afastar o não verdadeiro ou a incerteza e até a ignorância? Foi a problema da validade do verdadeiro que se colocou frente a nós ou fomos nós que o procuramos? Quem é Édipo aqui? e quem é a Esfinge? Encontramo-nos frente a uma encruzilhada de questões e problemas. E parece, afinal de contas, que não foram colocados até agora, que fomos os primeiros a percebê-los, que nos atrevemos a confrontá-los, já que implicam um risco, talvez a maior dos riscos.

Sentenças e Setas

Em todos os tempos os grandes sábios sempre fizeram o mesmo juízo sobre a vida: ela não vale nada... Sempre e por toda parte se escutou o mesmo tom saindo de suas bocas. Um tom cheio de dúvidas, cheio de melancolia, cheio de cansaço da vida, um tom plenamente contrafeito frente a ela. O próprio Sócrates disse ao morrer: "viver significa estar há muito doente - eu devo um galo a Asclépio curador". O próprio Sócrates estava enfastiado da vida. O que isso demonstra? Para onde isso aponta? Outrora teria-se dito (ó! Disse-se e forte o suficiente; e avante nossos Pessimistas!): "Em todo caso é preciso que haja algo verdadeiro aqui! O consensus sapientium prova a verdade." Ainda falaremos hoje desta forma? Nós temos o direito a um tal discurso? "Em todo caso é preciso que algo esteja doente aqui" - eis a nossa resposta. Em primeiro lugar temos de observar mais de perto esses mais sábios de todos os tempos! Todos eles talvez não estivessem tão firmes sobre as pernas? Talvez estivessem atrasados? Cambaleantes? Decadentes? Talvez a sabedoria apresente-se sobre a terra como um corvo, ao qual um pequeno odor de carniça entusiasma?...




trecho de Crepúsculo dos Ídolos - Friedrich Nietzsche

Homens e anjos








Uma vida hedonista. O que eu mais desejo, intimamente, com todas as forças do meu único desejo? O que, enfim, define a felicidade? Por que a vida é assim, pai? Por que esse “drink, all you happy people” enquanto nenhum olhar de anjo? É o riso? É o gozo? É a grana? É um mundo perdido. É o tempo perdido. É o signo de Deus que não conheço mais. Hoje parece que carrego um fardo antropocêntrico inefável.

Drink ma' last zumzum

Fluem mais de fato que de acaso, mais de afeto que de abraço.
Morna é a fragrância da
Madrugada.

Fragmentos harpejados, naquele teclado de sopro que se toca como flauta, herméticos de Fátima e
agulhas náuticas
no mar de Malta,
maltês

Amalgamada
farfalha
n'alma
fleuma
flora.

murmurejando
ciciando
não
sei
se
ocorre
ou corre
eu canto

rumorejando
negro
pardo
e santo
meu lamento
meu salamaleque
meu breque

meu zumzum

A ígnea flama flui em eflúvios

Volto às redundantes e recônditas reticências das curvas... às dissonâncias, aos ruídos, às fraquezas e delas nada quero. Renascendo verso sem pedir licença, sem preferências, acredita. Confusa me ataca, fico mudo, fico puto e no fim da festa os Josés se vão. Detesto despedidas. Detesto funerais. Eu gosto da vida. Detesto e simultaneamente amo as caras de espanto que vi na noite noir. Haja caras, haja metáforas. Acostumei-me com essas caras de tanto operar cirurgias morais. Noites de opulência onde os fins, ao amanhecer, eram apenas meus. Fizeram dos lampejos verdadeiros frangalhos. Vagavam ao sabor das palavras que lambiam vulvas flamejantes.

sábado, junho 25, 2011

heterogênese social que existe mas é invisível

Virgínia Woolf

Marguerite Yourcenar


Ibsen, Henrik - A Casa de Bonecas
Albee, Edward

Esses são os temas que tento conectar porque sinto que há uma ligação entre eles sem nem mesmo que eu tente, e o fato de existir essa ligação sem que eu saiba me faz querer saber, estar cônscio dos fatos e ilações sobre o tema, que trata essencialmente da questão da mulher como individuo nas sociedades, a forma como ela desponta, e como as artes identificam a essa mudança.
Marguerite, que me parece a mais distante na trama que pretendo enlaçar, aprendeu latim aos sete anos de idade e grego aos onze, ensinadas por seu pai. Pode haver ligação maior numa relação de intercambio cultural? O contato com a mitologia greco-romana levando a uma inevitável análise desses deuses humanizados, bêbados, bárbaros, capazes das façanhas mais incríveis assim como aos atos mais absurdos e paradoxais (comparados aos ou orixás, africanos, por causa da semelhança de suas características antropocêntricas mais marcantes) tal qual o próprio ser humano. Ao mesmo tempo em que vivia em conflito com a tradição católica da velha Europa. O conflito marxista. Yourcenar foi a primeira eleita à Academia Francesa de Letras. O livro Memórias de Adriano, escrito em primeira pessoa, revela parcialmente o conflito de um “homem” (indivíduo) entre a crença no panteão dos deuses e a expansão do cristianismo em priscas datas. Vejam que a narrativa como recurso, (assim como em África a narrativa oral transmitida através das gerações) foi usada para contextualizar um romance épico e, mais do que isso, reescrever a agitação humana que perdura através dos séculos.
Virgínia Woolf, assim como Sylvia Plath, suicidou-se. Apesar de épocas distintas e respectivas razões, sempre percebo por detrás do ato desesperado da fuga cruel e covarde, uma espécie de opressão que não consigo definir se é totalmente externa ou totalmente íntima, portanto individual e singular.









Busco apenas conexão onde houver, que haja.

sexta-feira, junho 24, 2011

pesquisa


Sobre as relações de invisibilidade.

Deve ser mais uma sexta-feira só, talvez a primeira das últimas. Nunca mais estarei só entre as janelas. Entre as janelas, as pessoas e a proximidade de olhares que se esgueiram. Estou tentando descobrir alguma verossimilhança entre A Casa de Bonecas (do fundador do teatro norueguês, Henrik Ibsen, na seqüência histórica da dramaturgia, onde começam a figurar temas como adultério, calúnias, dilemas sociais) que a conecte à outra peça escrita em 1962 pelo americano Edward Albee e filmada em 1967, com a finada Elizabeth Taylor - Quem tem Medo de Virgínia Woolf?




Casa de Bonecas

Por Gustavo Perez


É uma obra da dramaturgia trágica norueguesa do final do século XIX, de autoria de Henrik Ibsen. Escrita em 1897, ela representa nos palcos as
atitudes hipócritas e as convenções sociais vigentes da época. A mulher deste período não é mais submissa as suas paixões não têm os mesmos elos de dependência com o sexo masculino, tão comum em suas antecessoras. Nesta peça apresentada em três atos, não há nem leves indicações da presença do adultério entre Nora e o Doutor Rank. Ibsen insinua essa possibilidade, para em seguida negá-la, deixando claras as transformações pelas quais as mulheres estão passando no final de século XIX. Não é este o obstáculo que se interpõe entre o casal Helmer, mas sim a conscientização gradual de Nora, que percebe o quanto abdicou de sua própria vida, primeiro em benefício do pai, depois do marido e de seus filhos. Aqui está em jogo a tradicional renúncia e o sacrifício quase obrigatório da mulher em prol da família. Casa de Bonecas é um reflexo dos movimentos de liberação feminina. Neste sentido, pode-se dizer que é uma criação profundamente subversiva e polêmica. Na época foi amplamente debatida em todo o continente europeu, provocando celeumas e severas críticas à protagonista, rejeitada por ter deixado tanto o marido quanto os filhos. Nora Helmer, com o auxílio de Cristina Linde, passa a ter consciência de sua existência, de tudo que abriu mão em nome dos outros, das suas potencialidades e do quanto ela é capaz de viver sozinha, sem a ajuda de ninguém. Ela decide se afastar de todos justamente para ter um encontro consigo mesma, e assim descobrir quem é realmente, se emancipando, então, enquanto sujeito. Desta forma, o autor põe em cheque as tradições que envolvem o matrimônio. Ele se inspirou em uma matéria jornalística que abordava a falsa elaboração de uma nota promissória pela esposa de um indivíduo que agia como se ela fosse uma boneca, mantida no total desconhecimento da vida. É justamente o que sua protagonista não deseja: continuar a viver em uma casa de bonecas, mas ela conclui que a única saída é destruir esse castelo de areia.



Fogos

Livro de poesias escrito em prosa por Marguerite Yourcenar.
. . .
Palavras da autora sobre "Fogos"


. . .
"Em Fogos, onde eu acreditava não fazer mais que glorificar um amor concreto, ou talvez exorcizá-lo a idolatria do ser amado se associa visivelmente a paixões mais abstratas, mas não menos intensas, que prevalecem às vezes sobre a obsessão sentimental e carnal..."



Fogos (Feux) (1936, poemas em prosa)


quinta-feira, junho 23, 2011

Como te chamarei?
aquele que saiu do abismo



Na tarde calma da eternidade
enquanto eras vida e fogo em expansão
eu vivia em tua mente



Tu me acariciavas como um sonho
e tinhas meu nome escrito na palma da mão
e eu não merecia



Mas tu me amavas sem um porquê
com os olhos vendados
na noite da minha solidão

o melhor amigo do homem

clique na imagem


O homem diante do relógio enxerga a eternidade. Horas anestesiadas, Eus perdidos, vôos sem destino, rotações da Terra. Giro sobre o próprio vértice, horas de leitura, fases da lua.

Sou águia e você, um pedaço de carne. Sou Ícaro.


Cala, voz interior, cala! O que dizes não consigo suster ou assimilar. És boa ou má?

Finalmente um sorriso amarelo da Lua.
Essa voz meio rouca meio louca.
Afinal você,
enfim eu.

domingo, junho 19, 2011

Changes






Mudanças são necessárias, preciso ir, não posso mais. Lindas foram as cores irradiadas pelas luzes que incidem na paisagem diante dessa janela, mas como no mito, preciso sair da caverna. Adeus. Tenho que ir. Talvez eu volte para buscar os meus restos, talvez eu tenha dançado uma música que eu detesto, portanto as coisas vão mudar. Me ajuda, Bowie.

sábado, junho 18, 2011

Contemplava o poente, belo como costuma ser nas tardes de outono, quando se unem num abraço estreito as tristezas do inverno e os esplendores do verão. O inverno que promete ser frio para os nossos padrões tropicais. Hora de tirar do armário aquele casaco de lã cheio de ácaros. Um deles foi logo encontrado pelo laboratório, em pleno decúbito dorsal. Hora de encontrar, como eles, na metrópole, algum






Refúgio



Urbano

sexta-feira, junho 17, 2011

seios como os seus



Fazendo aquela força de soltar um grito peremptório. Extravasar? Como colocar pra fora essa voz interior? Voz que ecoa nas paredes do cérebro, intermitentemente. Som que não diz nada, sem parar sem parar sem parar. Voz que é o som do ponteiro dos minutos. Voz que não tem ponto nem vírgula, voz que não faz ruído. A voz que é o silêncio íntimo ressoando a cada instante. Essa dorzinha que eu sempre tive no tendão do dedo mindinho do pé direito... Esse estado de ossificação que nada atrai nem repele. Um instante pode ser um segundo ou um século. Momento que não se pode medir pelo tempo das horas. Um sopor que vislumbra quadros mentais onde fulguram campos escondidos. Raios de sol colorem o céu que se confunde com a terra. Não sei onde estou nem quanto tempo eu passei nesse estado de torpor letárgico. Volto embrutecido.




A vida é um sucedâneo infinito de novelas da Globo.

quinta-feira, junho 16, 2011

Chet Baker

O desejo imortal da criança




Procurando um nome para o seu bebê?


Como pode um poeta da (segundo os glossários) “segunda geração do romantismo” renascer não na renascença, o que seria um retrocesso no Tempo, física-quanticamente falando, mas sim numa época que nem mesmo tem definição adequada, chamada tão somente de “pós”. Algumas características do ultra-romantismo. Apesar de dizerem “não usa isso mais”, esse comportamento “retrô” compassivo também nós faz insensíveis ante essa realidade a que somos arremetidos, como pedra de estilingue na mão de um menino. Tal qual esse pequeno objeto que voa sem direção, não me importa o que digam sempre disseram isso, em outras épocas, quando estavam mais ocupados em perceber o que não entendiam, a consagração no “novo” na Arte, no Belo, no esquecimento. Tento traduzir o que a minha sensibilidade (dos cinco sentidos) traz a essa realidade que desponta sobre o meu nariz, meus olhos, minha boca, meus ouvidos. O comportamento humano sempre foi cruel. Desde a noite dos séculos, sempre houve erros e mazelas atrozes de competência humana. Todavia não me nego a ser cruel, embora essa adesão por simpatia de vibração não me possa redimir, ser cruel com o mundo-cruel custa-me ainda alguns “porquês”.


Desafio pós moderno.

quarta-feira, junho 15, 2011

Seriam alucinações?

Aquelas noites que dormia esperando o amanhecer para esperar a noite e esperar outro dia e assim novamente. Cada dia era diferente e minha mudez entre estranhos foi uma experiência e tanto. Cada passo era um movimento de paciência, uma forma de arte. Meus sonhos adentravam a noite como uma coruja em alerta. O corpo descansava, mas a mente não. Meu espírito experimentou as mais estranhas alucinações. Seriam alucinações? Ouvia a trilha sonora que marcava o fundo daquelas cenas em cenário inopinado. Uma trilha de elefantes belamente adornados cruzava a Praça da Savassi ao som de Tchaikovsky, enquanto uma trupe circense os seguia. Eram sonhos de remédio, sonhos de clínica de repouso. Sonhos de quem não dormia. Meu espírito vagava por entre essas imagens. Buscava uma interpretação que me fosse viável, posto que, de forma intraduzível, aquelas “cenas” que se entrecortavam como sonho, eram de fato reais. Eu sentia o gosto do ambiente, o cheiro do ar. E conversava com velhos amigos naqueles momentos em que eu mais gostei de estar sentado numa mesa do bar, entre lágrimas e pingas, as bochechas vermelhas de inspiração...

terça-feira, junho 14, 2011

Calor sem humidade

Viver é desfrutar do trabalho e do bem-viver, eu espero, desejo, quero. Mas de repente, tudo se me nega, fujo pra Eritréia ou vou pra Rodésia do Sul, onde tenho amigos cativos. O sol de outono aquece docemente, mas em África todo calor é mais. Já não bate em meu peito amor por um mundo velho pleno de novas formas de comunicação. Já não sabem que existe um mundo invisível. Eu quero estar incomunicável para conversar com o Deus que eu criei. Falar e ouvir a mim mesmo. Depois, reaprender a falar com o tom vocal que nunca se esquece. Não tenho pesados livros para carregar no caminho, nem chagas, nem mágoas. Não tenho janela pra rua, não tenho mulher seminua. Não tenho laços afetivos, senão de família, que me prendam ao belo e resplandecente horizonte, onde ainda se vê estrelas cadentes, mas nada foi como antes nada será adiante onde não há mais ranger de dentes. Somente o verbo cravado na pele crua. Estou contente de estar salvo e estar sobre a crosta do “mundo”. Interconexões que vocês nem imaginam... resquícios da alma, recomeço, nova prosa noites adentros.

segunda-feira, junho 13, 2011

voragem sem remissão

Desde quando mesmo, comecei a escrever esses textos? Diálogos, conversas, meditações sobre o mesmo eixo, às vezes alternando platôs. Sob o ponto de vista que agora estou, observo mais serenamente a reação dos outros. “Os outros” não têm face. Eles comemoram a satisfação que há em volta de si e se rejubilam. Mas dentro de si não há nada. Somente um peso imenso e a vida, esse conto de fadas. Como há dois pesos e uma só medida não há erro. Portentosa, quão belo nos parece o abismo quando temos por companhia somente a solidão! Aos primeiros passos rumo ao desfiladeiro, percebo. Quero-me uno. Sinto-me como duas metades da laranja. Hoje, sobre o céu das margaridas ando. Hoje, o contrapeso, ontem o descanso, amanhã o mesmo. O mesmo cotidiano que se move movimenta o senso de tempo. O tempo é o signo de Deus.
Quão belo nos parece o abismo quando temos por companhia somente a solidão!








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domingo, junho 12, 2011

disse o poeta





Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo fátuo encerra.


Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
Que ânsia distante perto chora?

Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

non-sense
















Dia das Namoradas

Deus macho/fêmea






quarta-feira, junho 08, 2011

resquícios da alma

Deve ser quem descansa em meus braços, onde cabem todos os meus sonhos. Vejo seus olhos refletindo calma e mistério. Vejo-te descansando sobre mim e essa visão se encera na sua tranqüilidade enigmática. O que podemos ser além de nós mesmos? O que haveremos de fazer? Essa imagem figura como quadro mental de vidência ou realidade. Esse lugar do etéreo em que você se encontra. Talvez seja um gosto, um toque, uma fragrância talvez. Talvez seja esse olhar que se perde na brisa, e eu que perco em minhas próprias digressões. Não é uma surpresa não saber mais, não ter uma noção exata de tempo, da passagem das horas. A órbita em que vivemos. Perdido que me sinto na gleba céfalo-metropolitana. Não as prendo, deixo que as horas passem sem me aperceber do dia da noite do entardecer. Somente quando andar falar e comer, como somente para mover-me e me manter em movimento, mas sem saber o fim, senão o meio para atingir o pálido esboço de um novo fim. Como gaveta dentro de outra gaveta ad infinitum. Assim como eu, essa análise patológica acrescenta jus à minha biografia. O celibato, a fé, a temperança. Nesse mercado livre de sentimentos minhas alvas palavras voam soltas ignorantes dos limites da página do universo onde cada um escreve seu deus, onde cada história se repete.

One in love




O quê que eu posso fazer? O quê que eu posso falar? O quê que eu tenho pra dizer? Se tudo que eu quero é beber? Se tudo que eu quero é fumar?


Let’s get together and feel all right...



terça-feira, junho 07, 2011

Para Iákov

Eu me pego sonhando com o futuro próximo. Aquele que chega quando você menos espera. Que já é hoje ou amanhã quando a gente não espera. Um ano, três anos, dez anos passam com fortes ventos e suave brisa de outono se torna o Tempo. E os anos tem passado em números cabalisticos me surpreendo quando quatorze são duas vezes sete e mais sete vinte e um, enquanto meus trinta e três anos suspeitam quarenta e aparentam vinte e cinco, não fossem meus cabelos brancos. Acho que o tempo, em algum tempo, realmente pára dentro de si. Depois de alguma coisa muito... alguma coisa que te paralisa por dentro. Alguma coisa que te faz querer mover-se como uma máquina. Mein klein Prinz, tantos anos esperei para ter o prazer de cuidar de ti. Estamos na mesma Terra, na mesma cidade, no mesmo ambiente em que conheci sua mãe. Agora somos amigos, eu e Mildred. E você, você meu pequeno Iákov, você pertence aos sonhos que sonhei acordado em tempo de priscas e longínquas datas. No frio e na fome, lamentavelmente, lembrava-me de você e da ausência minha que não foi capaz de cativar. Agora estarei sempre aqui, meu pequeno.

Processo de Criação

segunda-feira, junho 06, 2011

resquícios da alma

A possibilidade de limpeza absoluta é insuperável. Sendo ela como possibilidade extrema da existência, da necessidade, do sacrifício. Mas como evitar a aceleração da impossibilidade como sendo inautêntico à morte? Tornar-se auto-referente para libertar a perda da própria morte nas possibilidades da multidão e que através da compreensão e escolhendo as primeiras oportunidades verdadeiramente artificiais que estão abaixo da oportunidade insuperável. Acelerar em existência como um possível auto-sacrifício sempre alcançando a brisa. No beat da vida, preservo-me de cair pra trás, mas poder ser compreendido "tornou-se velho demais pras minhas vitórias”. A meditação evita o caminho que se oferecia a uma interpretação da consciência. Em geral, na verdade, nunca entenderemos uma ou outra das competências da alma (nesse lugar).

Mas onde está o amor, agora?

Será que ele ainda se lembra dos seus velhos amigos?
..




Der langsame rote Band von einer Schlange durch die Gassen mit seinem Gift, auf der Suche nach einer kleinen Nagetieren zu schützen. Der langsame Wind in den Morgen.




sábado, junho 04, 2011

Sozialkultur

Nem tão devagar nem muito rápido. Tento entrar no ritmo, mas já estou dentro. Tento não sair e me manter no ritmo e a vida vem em ondas como o mar. O bonde ainda anda em cima dos trilho e já é sábado. Peço licença novamente para escrever algumas verdades particulares. Há muitos séculos tenho sido vítima e algoz desse estado físico ou mental, a que damos o nome de solidão. Dar-se conta da condição humana é ver-se diante do espelho. É ver-se resultado da complexidade (muito embora não meramente genética) é ver-se efeito do pensamento complexo. Dar-se conta de si mesmo, intimamente, é ver-se diante da humanidade. O ethos.






quinta-feira, junho 02, 2011

Não quis assediar ou constranger ou contristar. Quis entretecer conversa amigável. Saber se você gosta de cores, de música e de palavras, mas o sensualismo sempre entrava esse tipo de conversa. Acho que vou fazer um café...Adicionar imagem

Página rasgada



“Der Mensch als Masse ist eine verwirrte Masse die die Schöpfung mit Füssen treten um konsumieren zu können."


A esfera pública engloba a indústria cultural. A esfera pública é a dimensão na qual os assuntos são discutidos por atores públicos e privados, processo que culmina na formação da opinião pública que age como força oriunda da sociedade, transformando tudo em uma festa de Babette. A arte está inserida na esfera pública, assim como a mass media janta com o traidor.

Dê-me licença de dizer, mas eu conheço esse olhar que se esgueira e que se perde dentro de si mesmo. Que me faz perquirir seu espírito vendo esse olhar que avança contra si mesma, de improviso, conduzindo-a ao labirinto intrínseco. Conheço de algum lugar as linhas que traçam esse rosto, essa persona que tateia as paredes do cérebro na aparente obscuridade, a caixa dos sentimentos secretos. Que preza por sua dignidade quando o sol os ilumina. Conheço essa cegueira passageira de quem sai da escuridão-para-a-luz intensa irradiante. Quem não conhece? Deixe-me dizer, antes de recostar a cabeça sobre mais uma noite e o pretenso merecimento de mais um dia, que esse silêncio não durará para sempre. A voz intrínseca se externará como toda palavra que cala e toda mudez que silencia. Não faltarão perguntas a te impugnar inexplicáveis porquês.

Mensagem



Desde que mudamos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira

Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém pra pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos

Allen Ginsberg

Uivo e outros poemas (1953-1960)
Howl and other poems