quinta-feira, maio 23, 2013

23 de maio de 2013





Olá, Recomeço a contar para Deus, você que está em mim, que está em tudo, que permanece em todas as coisas, ainda que seja próprio das coisas não perdurarem em sua permanência. Reinicio a contagem. 
Estou tomando uma boa dose de fôlego para iniciar a subida da serra. Ela requer meia hora até uma pequena vertente de água fresca, onde paro e me preparo para uma subida mais íngreme.
Lá estava eu, diante da oca que me abrigou durante os dois primeiros dias de aclimatação. Lá eu estava a vislumbrar a suntuosa colina. Lá estava eu a me preparar para o ataque ao topo cumeeira. Já despido das mazelas auditivas da cidade, já desvestido das enfermidades sonoras. 
Pelos meus cálculos faziam mais ou menos nove horas, desde que o sol se ergueu por trás da serra. Tempo que eu carecia para que secar o orvalho da noite que dificulta um pouco a caminhada. 
Pois então. 
Nesse instante eu já havia guardado todos meus pertences, bem reduzidos, salvo a comida. Recolhido toda a bagulhada. E, sim, já havia coletado água. (Lá, próximo as minhas duas cavernas prediletas, coleta-se água em um lugar um tanto curioso. É preciso se deixar cair em um buraco e depois passar por uma fenda entre a terra a pedra, até chegar numa poça mágica. Digo mágica porque se coloca o a garrafa pra encher e a poça diminui. Imediatamente ela enche, assim magicamente. Pois é claro, suponho que a água brota da nascente.) 
passado esse breve parênteses, que requer um exercício de corpo, para se preparar um bom café e seguir o caminho pedregoso. Lá eu ia.
Já não pensava no passado recente. Já não trazia comigo as dores do claustro, onde passei 28 dias. Os ventos haveriam de leva-los. As águas intocadas da trilha (que me esqueci de referir-me, remonta ao tempo do império, é o antigo Caminho de Mariana.) haveria é de limpar meus estigmas. E calor abrasivo do serrado haveria de estancar minhas lágrimas. Ocasionava somente uma visão nítida da ascensão a ser traçada. E nas costas tudo que eu precisava. 
Viver é simples.

mais um trecho dos Paraísos


?
O remorso, estranho ingrediente do prazer, perde-se logo na deliciosa contemplação do remorso, em uma espécie de análise voluptuosa; e esta análise é tão rápida, que o homem, este diabo natural, para falar como os swedenborguianos, não percebem o quanto ela é involuntária e o quanto, de segundo em segundo, ele se aproxima da perfeição diabólica. Ele 
admira seu remorso e se glorifica, enquanto perde sua liberdade.Eis, portanto, meu homem suposto, o espírito de minha escolha chegado a este grau de prazer e serenidade, onde é 
levado 
a admirar-se a si mesmo. Toda contradição desaparece, todos os problemas filosóficos tornam-se límpidos, ou pelo menos assim parecem. Tudo é motivo de prazer. A plenitude de sua vida atual lhe inspira um orgulho desmesurado. Uma voz nele fala (infeliz! é a sua própria voz) e lhe diz: “Você tem agora o direito de se considerar superior a todos os homens; ninguém conhece ou poderia compreender tudo o que você pensa e sente; seriam mesmo incapazes de apreciar a benevolência que lhe inspiram. Você é um rei que os passantes desconhecem, e que vive na solidão de sua convicção: mas que importa? Você por acaso não possui este desprezo soberano que torna a alma tão boa?”.

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