segunda-feira, maio 27, 2013

5º dia disparo

"Escreve para ti mesmo, recolhido, assombrado."
         

Jack Kerouac


A noite anterior ao dia que se segue passou ao fulgor do próprio encontro. Um caminho visitado pelo pensamento. A claridade ancestral do fogo iluminou meu ego primitivo, atávico. Visitado o acesso ao arcano mistério, suportava a fadiga. Não sentia sanha nem medo.
Levava comigo signo religioso, olhos de madeira. Fora os que me apanhava pela trilha, perpetrando minha senda. Sigo.
no quinto dia já me encontrava refeito. Consigo ajeitar minha tralha numa boa.

A vida campal demanda uma rotina.
Coletar água e ferve-la. Fazer um robusto mingau. Com granola, mel e farinha de trigo. Um café forte reforçado, pão com queijo (enquanto ainda há. Que o frio da noite conserva).
Depois, desfazer a cama. Enrolar o isolante, guardar o saco de dormir, juntar todas as peças de roupa. Lavar as panelas bem lavadinhas.
Colocar, por etapas, passo a passo, tudo na mochila.
dar uma boa cagada, fumando um cigarro. Enterrar a bosta do alcance das vespas.
Daí partir pras miudezas. Conferir cada coisa ao estilo marinheiro, ou piloto de bordo. De preferência duas ou três vezes. Ou cinco, ou dez... depende o tanto que se vai passar perrenge! Os passos do adeus,

1. Agradecer aos capitães do mato o abrigo e a guarida.

2. Agradecer à natureza a bondade da vida.

3. Conferir se coletou água suficiente até a próxima fonte do percurso.

4. Se há um agasalho, fogo, lanterna e cigarros ao alcance das mãos sem ter que tirar a mochila.

5. Conferir duas vezes duas vezes, se a comida, fonte biológica de energia, essencial à sobrevivencial, foi devidamente protegida.
Despedir-se do local a contento, cada um o faz (ou não faz) o seu jeito.
Orientar-se. Onde estou? Pra onde devo ir (agora)? Onde quero chegar (destino)?

6. Traçar na cabeça o itinerário a ser percorrido. Coisa de certa preparação psicológica.

Daí é só meter pé na trilha!

É hora da partida. Aqueço o coração nervoso.
Olhar pra trás é inevitável. É como não desejar sair.
Ligo os motores da vida.
Risco a faísca da ignição.
A ígnea flama acende a brasa.
A ígnea flama flui em eflúvios.
Abarcando os ventos do serrado.
Entre a cumeeira das montanhas.
Vejo o brilho dourado do batatal.
Deixo pra trás a sanha da sorte.
Contradigo a morte. Sigo ao norte.
Aborreço o sul com meus arrabaldes.
Viver é a zanza maravilha!

 Nos primeiros passos do caminho passo por um pasto desértico que algum fazendeiro alucinado ergueu pro seu montanhês. Cá estou, a mil e oitocentos metros de altitude, nos campos. Mais ou menos 900m acima do resto do terreno.

 Logo desponta a minha frente o lindo paredão de cor amarelada, que envolve o campo de fora do Caraça e forma o pico dos Três Irmãos.
A trilha toda é pelo ato das montanhas. Bem perto de você, Deus amigo, pelas cumeeiras que ligam os campos e vales. elo de sabedoria faz ao contrário o contorno de um S. 
Logo a minha direita fica o vale do Piracicaba, que se tornará poluído pelo minério extraído nos arredores de Catas Altas.
Uma ferrovia o transporta, deixando, em contrapartida todo extrato, todo resíduo, todo lixo, toda merda.
À esquerda um vale a perder de vista.

 Não vejo, não penso, não tenho tempo pra mais nada.
Torno a ser laboriosa abelha. Fecunda zanza inexaurível...
Peregrinando... ando... ando... ando...

As únicas pessoas que me interessam são as loucas, aquelas que são loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas; as que desejam tudo ao mesmo tempo. As que nunca bocejam ou dizem algo desinteressante, mas que queimam e brilham, brilham, brilham como luminosos fogos de artifícios cruzando o céu.
Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os encrenqueiros. Os que fogem ao padrão. Aqueles que veem as coisas de um jeito diferente. Eles não se adaptam às regras, nem respeitam o status quo. Você pode citá-los ou achá-los desagradáveis, glorificá-los ou desprezá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles empurram adiante a raça humana. E enquanto alguns os veem como loucos, nós os vemos como gênios. Porque as pessoas que são loucas o bastante para pensarem que podem mudar o mundo são as únicas que realmente podem fazê-lo.

Jack Kerouac.

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