sexta-feira, maio 24, 2013

amanhecer do 4º dia

To create a little flower is the labour of ages.
Cultivar uma pequena flor é o trabalho de séculos.                                                 William Blake

A caminhada pelo alto do batatal foi tranquila. Eu estava bem hidratado. Isso conta muito, pois não há fontes de água na desértica paisagem do cume. Na cumeeira não há como se perder. É só seguir adiante! O ambiente é lunar. Tem de largura, em certos pontos, a extensão de um campo de futebol. 
O lugar é praticamente inabitado.
Minto.
Exceto por seres rastejantes e pássaros. Exceto por cobras e lagartos, e uma variedade enorme de insetos. Um pequenino rato peludo e outros amistosos roedores.  Exceto por aqueles que desejam se ocultar, de fato. Por ali nenhum ser faz abrigo por muito tempo. Não que eu tenho visto, ou que deixem rastros aparentes na superfície, sobre as pedras ou no mato.
Há por todo canto uma espécie de planta carnívora de coloração vermelha e aspecto gosmento que prende o inseto sobre si quando nela pousa o incauto.
Incautos éramos nós, eu mai dois amigos, quando conseguimos fazer  a travessia pela primeira vez. Um amigo, Brito, natural de Glaura havia sugerido a ideia. Convidamos outro amigo, Yuri, para tal empreitada e lá estávamos. Um tanto perdidos, no alto da serra, com as cartas topográficas na mão, (conseguidas no IBGE) sem saber se íamos mesmo conseguir alcançar as terras do Carraça.
Nessa primeiríssima vez ocorreu um fato inusitado. Estava eu esperando os dois companheiros, quando surge por detrás de uma pedra um ser humano. ?!
Naquele lugar? Como?
Eu explico.
Uma agência de turismo, que já não existe, havia vendido um pacote de eco-trekking partindo de Ouro Preto. Por lá faziam um passeio e começavam a caminhada na Cachoeira das Andorinhas, onde finda a Serra de Ouro Preto, última extensão o Espinhaço. Dali seguiam um dia até o Batatal onde nos encontraram.
Ficaram emputecidos, pois disseram aos leigos que naquele ambiente agreste não havia modo maneiras ou meio, nunca, de haver gente! Mas lá estávamos.
E os otários passavam e a gente, por dentro, ria. Meio que de aflição ou de agonia, porquanto não tínhamos guia pra nos salvar...

Estou sozinho novamente.
Lembro-me daquele dia como se fosse hoje. Da nossa atitude, nosso desencontro, nosso medo, nossa garra, nossa coragem. Um alimentou o outro com qualidades imprescindíveis, para transpor as barreiras do caminho, com vigor o mental que era necessário.
Estou novamente sozinho.

Acabo de trilhar o alto da serra. Caminhar sonho sozinho. Lembro ver algumas vezes vale do rio Piracicaba. Pelos dois lados é bem íngreme e a mata ciliar parece impenetrável.
Garanto que lá, na vazante das águas, sacia sua sede a onça.
Estou na interseção da serra, vista de leste pra oeste, bem onde passa o vento. Com toda força possível. Lá dei nome a uma pedra, “pedra do Jacaré”, que jaz solitária ao centro, isolada das demais. Dos últimos montes que se elevam, antes de visualizar a tal pedra, vê-se uma terra de gigantes. A incalculável fenda circular ocasionada pela extração do minério.
A vossa mão é grande, Deus amigo, mas a do homem.
De onde paro, não por longo tempo, o passo do vento, tenho que enfrentar terreno pedregoso.
Não há, absolutamente, terra sobre meus pés, por half an hour, ou meia hora, mais ou menos. Lá cresce apenas arnica e canela de ema e há muita pedra solta que eu posso pisar e torcer o pé, o joelho, o tornozelo, ou cair no sair, sabe lá. Então devo andar atento.
Vejo que estou quase a concluir o fim desse dia de jornada.
Na descida desse terreno crespo tem-se a falsa ilusão de ver água a vazar das pedras que figuram do outro lado. Falsa porque não há uma gota sequer. Isso foi provado na prática.
Termino a pedregosa descida, estou no mato limpo. Subindo um cadinho faço a curva à esquerda e sigo.
A emoção, ou comoção, ou que dirá desespero, sobressalto, entusiasmo da chegada, vai invadindo meu peito. Voltar não é uma opção.
Não quero. Não devo.
Sigo uma senda ancestral, feita por escravos nos tempos do império. Ela que desvia de um enorme lamaçal.
Foi depois de muitas vezes que por lá passei que percebi que era uma picada construída por mãos humanas. E também notei que rente a ela fizeram dois pequenos silos de armazenar suprimentos.
Passar por ali é como voltar no tempo. A passagem é alegre.
lembro quando uma frente fria me prendeu por vários dias naquele ponto de água adiante. Estávamos em uma paisagem onírica. Tudo parecia um sonho. No quinto dia acabou o suprimento e com serração ou não, tínhamos que voltar. No caminho da debanda, meio perdidos sem saber aonde íamos, trombamos com uma vaca pastando sozinha sobre as pedras.
 Aquilo foi a cena mais surreal que eu já presenciei na vida. Incrível que a vaca estivesse assim tão calma, fleumática e serenada, aproveitando a ocasião do trocadilho, mas creio isso que é próprio das vacas...
Nesse dia, em fevereiro de 2010, o sol ainda estava a pino. Foi o horário de verão que me propiciou maior beneficio com a luminosidade. O sol caía por completo, por volta de sete e 40 da noite. Assim sendo, nunca faltou luz do dia.
Aproximo do lajeado a minha direita. Um riacho de águas claras com dois metros e meio de largura e meio metro de profundidade.
Repleto de plantas que assemelhar-se com algas do mar. Parecem deslizar na corrente mansa. Limbos de todo tipo que se agarram nas rochas. E girinos, muitos, cujo coaxar dos pais se ouve quando a noite cai. Ploct! E pela madrugada adentro...
Eis que, por fim, chego ao lugar onde vou passar a noite. Tantas vezes.
Nesse local existe um desnível na paisagem. Esse desnível formou uma cachoeira nas alturas. Em algum período geológico (que obviamente desconheço) as placas tectônicas causaram uma desigualdade no panorama (de mais ou menos 20m, calculo) que hoje fazem descer das pedras do riacho um filete d’água que logo abaixo se empoça.
O poço parece muito uma mesquita árabe quando se afina para seguir vazando. Água parada e fria. Dá medo entrar, é preciso coragem pra dar um tibum!
Bolhas de matéria branca e desconhecia também se formam acima do poço.
Flutuam no ar sobre o rio, com vento arredio que sopra erradio naquele lugar.
A noite chega vagarosamente.
Assim que alcanço o lugar de pouso e tenho o enorme prazer de tirar a cargueira das costas, que me doem, faço uma gratificante sopa de pacote, com tudo que se pode pensar. Antes que eu caia duro pra trás. Tomar a sopinha revigora. Com queijo bem gordurento, carne de soja e farinha de mandioca. Barra de cereal, what is this?
Depois de reviver, ou reavivar o vermelho do rosto e o brilho dos olhos, é que consigo ver onde estou. Consigo repor glicose. Somos bichos.
Lá não há vista deslumbrante. Em compensação, o céu... Deus! No dia em que o criaste mano... O que você comeu?
A lua era quarto minguante, portanto as estrelas apareciam mais. Aos milhares, milhões, bilhões! Sei lá... A lua ofusca a luz das estrelas, mas como ela surgia somente na garganta da madrugada, as estrelas brilhavam como diamantes flamejantes, faiscantes, chamejantes, fulgentes.
Eu fiz dezenas de pedidos.
O abrigo fica a dez passos do riacho, embaixo de uma pedra. Cabe só uma pessoa com espaço bem reduzido. Tem sessenta centímetros de altura, quando muito, mas protege do vento e do orvalho. É duca... raça. Tem vista panorâmica pro céu e requer velas para iluminação interna.
O piso é de terra preta por musgo aveludado, inofensivo emacio. É só colocar o isolante, sleeping bag! esticar o esqueleto com jeito e pronto!
Dormi feito um anjo, até o nascer do dia...
Sei que não sou anjo.
Se fosse estava ai com você.
Sei que, com o passar do tempo, cria-se uma relação dialética com os objetos. 

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