terça-feira, maio 28, 2013

Estou oficialmente nas terras abençoadas do Caraça

Agora são 16h32min de uma tarde fria de maio. Não me lembro em que ano nos lançamos pela primeira vez no caminho daquela travessia.  Sei que pensávamos ter que passar pela barriga do gigante. Sei que, sedentos, olhos alucinados, coração palpitante, arrancando goles amargos das bromélias, quando diante dele nos estávamos, da sua implacável imponência, e enxergamos na sua base um rio que serpenteava... algum de nos gritou “agora é só pra baixo!” com muita propriedade. Sabia decisão. Porém estou antecipando os fatos. Chegarei nesse ponto.
é que a memória também é como o rio, contudo não segue um curso bem delineado. Hora está à frente da nascente, outrora na borda da transtornada correnteza, outras a transborda na leveza das margens.
O vento sopra nos campos de fora. Há dois cavalos arredios há pastar no mato. A minha esquerda os Três Irmãos (pico) e a minha direita o meu querido Pico do Casanova!
O qual tenho fotos, já passamos por cima por dentro. Já contornamos, e toda vez em todo lugar que em nos abrigamos ele reina esplendoroso! Deve ser à vista disso que lhe assim batizaram os padrecos. Pelo apelido de um sedutor libertino aventureiro italiano...
O sol ilumina seu contorno por completo. Vou margeando o rio como uma dama de copas enamorada. Tocando o par de cavalos. Cavalo é meu signo zodíaco, madeira é meu elemento.
Esqueci-me de mencionar que durante partes do trajeto vejo com clareza o Pico do Canjerana, onde devo atingir no dia seguinte, mas eu mesmo nem atino pra isso.
Devo esperar a calma-mente, amante da manhã seguinte. O dia seguinte surgirá seguro, sou seu humilde criado, curvo-me diante de ti. Namasté.
ladeando o ribeiro desço um pequeno desnível, atravesso, e logo adiante, não demora muito, encontro a toca onde devo pernoitar. Essa escrita é apinhada de recordações...
Ainda lembro o trabalho que tivemos pra tirar tantos ossos daquela toca, a primeira vez que a vimos. Quando a encontrei havia a ossada inteira de uma vaca que, parecia, ter deitado lá para morrer. Pareceu-me haver se recolhido em berço esplendido, a vinte metros da água, de costas pro Casanova, diante do sol poente que se recolhe atrás do paredão.
Um animal ruminante ferido ou doente, que fosse, mexeu com a minha imaginação.
Naquele dia não compartilhei com ninguém meus pensamentos, adágios, brocardos, aforismos... como o faço agora com Você, Deus querido.
Naquele lugar aconchegante e lindo, pros bovinos e pros meus olhos de menino, onde a pedra se estende em profusão, e cria uma cavidade largueada onde inclusive as árvores ali aparecem, uma vez que eram minúsculas sementes... Ufa!
Naquela toca, apelidada por mim como “a toca da vaca morta” a vez que passei e bem conservo na lembrança, foi quando levei meu amigo colombiano, Oscar.
Passamos a noite contando histórias de assombração, em volta da fogueira.
Ele me contava lendas urbanas sinistras de arrepiar os cabelos. Tradições colombianas. E eu... como bom ouvinte, somente arriscava coisa menos demorada aquelas poucas que sabia. 
Francamente, não sou muito de sentir muito medo. Encontramos a cabeça do boi. A peça que faltava do resto do esqueleto. Adornamos do bicho com penas de gavião de entorno dele acendemos meia dúzia velas.
Dentro daquela caverna passaram, através da oralidade, riscos ancestrais de sangue primitivo. Desde o seu bipedismo. Desde a criação e emissão dos signos linguais. Desde a primeira vocalização gutural do signo linguístico.
porem, durante a travessia eu fizemos, eu e ele pouco nos falávamos. Ele estava próximo de retornar de vez pra Bogotá, depois de estar radicado no Brasil durante quatro anos. Muita coisa devia star passando em sua cabeça. E eu devia dar o devido silêncio para deixa-lo pensar. Pareceu-me que, durante o caminho, havia comunicação mente a mente, o que dizem ser telepatia. Comumente eu formulava uma questão sem lembrar-me de vocalizar a pergunta e, para minha surpresa, recebia de volta a resposta. Isso se tornou frequente, formando uma alameda bilateral. Eu observava suas indagações antes que ele verbalizasse. E durante todo o caminho foi assim, dizendo pouco, sem que um e outro precisassem falar muito, sem contendas, sem assunto. Queria apenas que ele visse aquele lugar que eu tanto prezo, antes de despedi-se pela última vez. A magistral sinuosidade do nosso “mar” de montanhas...
Deus, Oscar, onde quer que você esteja, mande pra ele essa energia que evoco em Seu nome. Por todas as estrelas do céu, por todos os dias da existência.

Chego à toca e logo percebo vestígios da presença do homem.  Uma vara com a ponta bifurcada, aparada à faca ou canivete. Toco de vela, resto de fogueira..

Nenhum comentário: