quinta-feira, maio 23, 2013

Paixão da minha existência atribulada


Escrevendo pra Deus
              (...e a saga continua.)
Pensei em continuar a narrativa da minha caminhada durante nove dias nas belas montanhas da Serra do Espinhaço que fazem uma ligação com a Serra do Caraça, que por sua vez, faz o desenho de um S ao contrário.
Essa descrição dos dias que passei na mais completa solidão fizeram aumentar as visitas no meu blog.
Por falar nisso. O Senhor tem blog? Enfim, dizem que não ofende perguntar. E por falar nisso, vou deixar de usar maiúsculas ao menciona-lo, ok? Acho que já estamos íntimos.
Então... passei dois dias na base de uma montanha surpreendente chamada Serra do Batatal.
Ela é uma parte da Serra do Espinhaço. Mais adiante, ao sul, ela se chamará Serra de Ouro Preto e seu afloramento passa a ser subterrâneo. A direita da serra é onde eu estava. À esquerda está a nascente do Rio Piracicaba. Na Serra do Batatal, como fios que caem sobre o manto verde, surgem da terra as primeiras águas do Rio das Velhas.
Esse mesmo campo verde, certa época do ano fica completamente amarelado e repleto de poeira , por conta da falta de água. Isso também acontece com todo o resto do terreno e é uma característica típica do serrado.
Há no serrado a incidência de uma pequenina flor chamada Laelia Caulensis que sobrevive por florescer em terreno pedregoso, onde, durante o período dos incêndios naturais, o fogo não consegue atingir. Essa é uma das suas sabedorias e a 
reprodução dela é uma das suas habilidades.


A natureza (a coisa em si. O Todo, o ambiente natural, o universo cósmico, o mundo. Exceto nós seres humanos) exerce essa capacidade de transmutar com tamanha destreza e desenvoltura que chego a pensar, não fosse o verbo, que tenho aptidão para animal irracional. Convivendo pacificamente com os outros seres que simplesmente “vivem”.
O pássaro não pergunta se deve amanhecer, assim como o verme não questiona se deve seguir, tal como o sol se ergue todo dia e a noite respeita o ciclo da magia.
Certa vez, quando caminhava com um amigo, formado biologia, com olhos mais aguçados que os meus, ele viu no chão as fezes de um felino.
Era um pedaço de merda completamente branco, supondo-se que o animal expulsa de si o cálcio dos ossos da presa digerida. Havia ainda um pedaço inteiro de osso que não havia digerido. Isso foi justamente na subida da serra que eu haveria de enfrentar. Nessa ocasião aquilo me deixou com certo medo, e roguei a Ti, você se lembra? mas também aguçou meu desempenho e passei a sentir-me eu a própria fera. Solitária seguindo à beira da montanha. Seguindo sorrateiramente seu instinto de felino.
Na ocasião em que estava sozinho, sabia sim que havia onças e cobras, e ratões do banhado, mas não guardava espaço em minh’ alma pra pensar nisso.
Na serra habitam poucos mamíferos. Talvez pela distância que há entre as fontes de água. Talvez pelo declive saliente, talvez pelo ciclo de escassez de bichos. Talvez pela força dos ventos, mas certamente não por causa da vista. Deslumbrante. Uma visão ampla do horizonte em profusão causa uma sensação enorme de plenitude. Talvez seja por isso que a onça parou pra cagar e talvez, dar um cochilo.
No alto da Serra do Batatal tem-se um panorama do percurso a ser traçado.
Almejava chegar até o alto do Inficcionado, que contabiliza 2068 metros de altitude, mas já são 2 e 14 da madrugada  e até agora eu nem saí do chão.
Acho, Deus, que tenho mais do que nove dias para descrever essa trip, não tenho? Creio que agora vou preparar pra dormir e esticar um pouco o esqueleto.
Amanhã nós vemos.
Fique consigo.
Abraço,

Gustavos

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