domingo, junho 09, 2013

Eu, porém, vivo da minha própria luz, absorvo em mim mesmo as chamas que de mim brotam.
                                                                 Zaratustra

Agora é com você,

Deus, meu camarada!

Não pode haver nenhum vacilo!
Resolvo seguir meu destino! Ao topo da barriga do gigante!
Contorno ao revés do S na serra do Caraça!
Ao topo do Inficcionado!
Só o cume interessa.
Sigo.

A travessia eu já fiz, em outras circunstâncias, agora persigo um caminho. Ando como animal apressado, astuto, sem lugar pra devaneios. Devo andar nove horas seguidas. Olhos alucinados, corpo esguio. Ao lado esquerdo som de explosão na terra devastada, paisagem lunar. À direita, esperança de alcançar meu objetivo. As vezes ainda vejo a igrejinha do Caraça, o hotel, que um dia foi seminário, a cachoeirinha que desce do alto do Pico do sol em 19 degraus conectados. A ermida abandonada, construída há uns 150 anos mais ou menos, para retiro dos padres meditabundos.  
Do alto vejo tudo Nietzsche-da-mente claro como a luz do dia, Deus amigo.
Tudo em escala reduzida. Tudo afora evoca um ditirambo.
Ando como Nietzsche em Sils-Maria. Anexim glorioso, divina máxima.
ainda morto? Sei que não... Amo aquele que odeia seu Deus, pois seu Deus o confundirá e confundi-lo o trará acima das ignorâncias. Falava Zaratustra, aos laicos aquemênidas. Creio que não para matá-lo com palavras, mas reforçar sua imagem desconstruída.
Estrutura lógica
de apotegma masdeísta filosófico nietzschiano niilista.
Tudo minúsculo deste, desse ou daquele modo, tal como deves ver com sua luneta.
Pergunto, tens namorada? uma deusa?

Nesse tempo eu não tinha... Anda só em adágios. Trocando de pele. Abandonado andrajos pela trilha. Pedaços de pano velho e roto; trapos. Veste suja. Desfazendo-me de das labirínticas paixões do universo. Até mesmo a paixão do Cristo, seu filho.
Preparando-me pra vestir Seu manto branco, imaculado.

Devo saber por onde ando, por onde sigo.
Contudo vejo que me desloco com relativa presteza, dado o cansado acumulado.
Não há sombra convidativa no serrado. O mato está assustadoramente alto.
Faz um bom tempo que ninguém faz essa travessia.

Nem o guará, o chrysocyon brachyurus em grego,
ou Crisóstomo Braquiúro, traduzindo, o que significa ou é relativo à
braqui – (curto) braquiúro (Que tem cauda curta)
criso – (ouro) crisóstomo (Que tem boca de ouro)
Nem o lobo, lobo bobo, faz esse atalho,
 azinhaga, carreira, “roubada”, senda, vereda
picada de cumeeira entupida de nadas e mosquitos peregrinos.
O lobo vagueia no escuro.

Sinto-me em mim minado, em mininado e tranquilo.
Vegetação cresceu assombrosamente. 
Poeira assente ao corpo suado.
Aglutina, anui a cada orifício.
Nariz, boca, olhos, ouvidos.  

No mapa que tracei mentalmente, digo, na imagem do panorama feito, são três retas consecutivas. Por conta da memória visual me joga nas ribanceiras, e apanho ganas do mais profundo do ímago, aquelas que eu nunca soube que existiam, e subo.
Sim, não há desvio, short-cuts (short-cuts make long delays) atalhos atrasam tudo. Não há como sair do cume, há que se seguir adiante. Em frente sempre! Esse é meu destino...

Não existe mais comodidade. Ninguém sabe onde estou. Atravessando lugares ocultos na vereda das cumeeiras, tão escondidos que chego a me sentir sozinho. Mas qual! não temo. Estamos juntos.
Junto forças e sigo por onde for preciso. Preciso alcançar as terras do pico o quanto antes. Preciso desaquecer meu corpo. Precioso organismo funcionando “a pleno vapor”, preciso de água, pois a minha está acabando. A cumeeira é tão agreste.
Chego ao fim da ultima reta. Devo cruzar a mata que segue em linha reta. Atravessar apenas, mas paro pra valer-me da sua sombra fresca.
Àquela hora pensei antes de entrar “como tem gente que se perde na floresta tão pequena”. Dez minutos descansando e saio por onde entrei, sem perceber. Sigo uns vinte metros e ouço o barulho da mineração a minha direita, isso tá errado “paguei língua”. Volto e atravesso zangado e depressa! Por perder tempo.  Peço desculpas àqueles que já se perderam...
Preciso subir o morro íngreme que leva a campo aberto. Zanga no momento não serve pra nada, sigo calado e atento. Preciso tomar fôlego e uns goles d’água. Meu corpo pede um carreta, no meio de tanto ar puro. Paro pra dar uns tragos. A sombra de uma pedra gigante é o único lugar que vejo. Fumo uns daqueles mentolados que comprei pra fumar tomando chá de hortelã. Agora eles são meu recurso de reserva. Como faz calor! o ritmo é frenético! a rampa que leva ao campo é cheia de vegetação, mas que nada! quem não tem perna usa os braços!
Nem quero saber se o iabo nasceu foi? foi nas Bahiaá!
Aperta a marcha! sai logo, enquanto é diaáa!
Banzai!!!
















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