sexta-feira, junho 07, 2013

Deus, meu caro amigo,

Sei eu não se manifesta. Hei de prosseguir, portanto a minha senda. Mandaste a todos da minha família um mal qualquer. Eu, ou nós mesmos, cavamos nossa sina.
Quero distribuir Dharma, como profere o budismo, não quero aumentar minha divida contigo. Meu Kharma é esse, estar sozinho.
Aquele que apanhei com as mãos que agora ferem as letras do abecedário.
Todavia não cheguei ao fim da trilha.
Long and wild way inda preciso cursar.
05h05minh
Estou frente a frente Contigo.
Ajo maquinal-mente.
Devo ganhar sentido.

Ao abrir os olhos, primeira coisa que vejo acossando meu sossego:
Cleber arroba Hotmail ponto com...
A ego-trip de australopithecus.



À noite pude ver ouvir e ponderar a mineração açoita o quanto a serra.
As luzes que sinalizam o devido andamento da devassa.
Lembra uma estação espacial imensa.
Como star na Lua no alto duma cratera, vendo ávidas formas predatórias invasoras usurpar seu planeta.
 Sinto-me um alienígena.
Sirenes tocam em intervalos repetidos.
Buzinas e apitos respondem qualquer coisa.
Impiedosa ruína.
Produz ou explora?

Noite/dia, dia-e-noite, constantemente.

Ruídos repetitivos, circulares, reentrantes, recorrentes, periódicos, cíclicos.
Signo de Bakhtin.
Eu já estava insano, demente, doido, alucinado.
Queria aliciar um exercito pra atacar o invasor, como em Planeta dos macacos.
Mandar um email pro Cléber xamã chamando.
Senti-me impotente diante da macaca.
A noite transventou eolicamente with the Mineral imperious lullaby’s on.
Foda-se o planeta.
Queremos cálcio em nosso Colgate!
Sobrou apenas a face sul da serra arvorejada com vegetação nativa.
A encosta que verte seu flanco 1200m ao declive de quase 90 graus.
Pra abaixo um buraco circular vasto, amplo e aberto.
Acordo na manha o sétimo dia.
Não sou.
Não penso, no entanto não duvido. 
Por não duvidar,
(propriedade da razão)
Logo
devo haver existido.

Contudo, naquela ocasião, destituído de verbo, havia tão só intuições, tendência natural, aptidão inata, impulso. Era homem, tão somente um fragmento de homem e de mim.
Despeço-me com pressa de seguir.
Relação dialética com a natureza. Porém, lógica sem sentimentalismo.
Desço reto pelas curvas que o trator um dia fez até o topo. Maldita antena de rádio.
Alcanço o olho d’água onde a fenda começa.
Fica em lugar mais afastado, oculto e improvável que jamais havia visto.
A água surge de um buraco onde se inicia uma fenda gigantesca.
Dez passos adiante a água que mana entre a pedra torna-se de difícil acesso.
A não ser que você tenha disposição pra se entalar numa fissura escorregadia de mais ou menos meio metro de largura e descer, sem mobilidade, cinco metros até o fundo.
E dar um jeito de coletar água escorrendo. Corre um filete de dois centímetros de altura. Tímida água segue descendo a fenda que parte a montanha em duas.
Temos que descobrir onde ela se empoça.

Este deus que eu criei, era obra humana e humano delírio, como todos os deuses.


Certa vez fazíamos essa mesma travessia (que leva em torno de oito dias) eu e pesseginho, quando nos deparamos com a total sequidão naquele lugar.
Chegando lá procurei água feito um doido, querendo arrancar da terra água eu não havia.
Que nada! A própria terra seca sedenta clamava por chuva...


Descer a estrada que leva até fonte mais próxima seria caminhar no escuro, literalmente. Com as lanternas de cabeça seria tranquilo, já que eu sei o caminho. Mas não era isso que queríamos.
Tínhamos pouco tempo de luz do dia até o crepúsculo.
A decisão urgia tal qual o Tempo “que não pára”, né Cazuza?
Havia chovido pouco tempo antes quando tentamos começar a caminhada.
Voltamos pra cidade depois tornamos a ir, determinados a fazer no total de oito dias. Permanecer naquele alto representava conseguir não “abortar a missão”.  Foi quando adotamos uma técnica de sobrevivência: colher a água de bromélia!
Elas retêm uma boa quantidade de água por causa do eu formato cilíndrico.
Cada um com uma panela na mão, danamos a torcer as plantas.
Percebi que o campo estava repleto de bromélias de todo tamanho. 
Danamos a pegar aguinha nas bromélias daquele declive de topo.
Uma quantidade que fosse suficiente pra fazer um macarrão e um chá mágico.
Arrumamos as coisas, coisa e tal.
Tinha uma água branca da baixada pra dar uns goles.
a água das bromélias nós coamos fervemos, depois coamos novamente.
Mesmo assim manteve um gostinho alcalino-meio-azedo.
se é que é possível descrever o gosto de uma mistura tão única e singular que nunca ninguém jamais teve o prazer de provar. Os bichinhos todos bebem daquela água. Estávamos furtando uma propriedade alheia. Os mosquitinhos botam ovos e as aranhas fazem teia. As aranhas comem mosquitos e umidificam a poça. No fim tudo funciona.
Formiga também bebe água? Enfim... figueira feita, hora do chazim!  
Chá de hortelã com mel e com aquela água-de-chuva-verde-brilhante-amarelado!
Evocamos os nossos antepassados pra compartilhar daquele requintado chá.
Xá de xamã.
Acho que até bateu uma onda...
No dia seguinte, coletamos mais água para empreender a travessia até o Inficcionado.
descíamos prospectando algum indício de água, quando de repente... Surge um olho d’água cristalina bem purinha! Como um olho verde, e era o olho verde mais lindo que já vi na vida. Lembro como se fosse hoje. Bebemos a vontade lavamos o rosto e afins, banho tcheco, e nos fartamos d’água ate enchermos nossos litros e seguirmos.
Durante o caminho eu percebi que nunca teríamos conseguido sem aquele poço.
Alguém muito bondoso o colocou aqui pra nós.
Eu me pergunto: foi Você?
Foi natureza (ou Deus) muito gentil conosco.
Muito obrigado.




Apanho água onde quase passei sede.
sempre incerto. Água empoçada.
Malabarismo pra chegar ao buraco.
Arredo o mato e pulo dentro!

Pronto!
Tenho água.
Subindo um pequeno monte vê-se um belo panorama.
A baixada, a mata, o vale, a serra seguindo em S, o Pico do Sol, outra montanha.
Agora me vejo diante de um dilema:
Descer, vencido pela fadiga, ou seguir até o topo do Inficcionado?

Era sábado. Se eu agarrasse o objetivo chegaria no domingo.
Estava diante da meta.
Tinha que chutar a bola.
Era segundo tempo da final de campeonato.



Quando, porém, Zaratustra se viu só, falou assim, ao seu coração: “Será possível que este santo ancião ainda não ouvisse no seu bosque que Deus já morreu?”


Assim falou Zaratustra  
Friedrich Nietzsche        






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