sexta-feira, junho 28, 2013

mistic revelation

Realmente poetinha,

Sinto saudades, sinto vontade de chorar diante da beleza. Ouvindo um solo de guitarra flamenca meu coração se contraiu e aquela água salgada que chamam lágrima quiseram saltar dos olhos, mas me contive. Talvez a beleza não fosse pra tanto ou talvez não fosse o momento de chorar, sim, esse é o verbo. Quando elas escorem, ou brotam, assaltam ou latejam.
O coração palpita desgovernado. Uma oração sem credo, um sapo sem brejo. Um blues sem lamento se faz sem pensar.  Depois, cada um com seu cada-um, compõe a representação desse momento. Tenta representar o sublime, acima d’arte donde se foi, varreu e foi varrido, se dissipou, sumiu, esvaneceu, o interpretante imediato. Um gol do Pelé, a Monalisa de da Vinci, um conto de Tchekhov, todos os perceptos, sabor, som, cheiro, ângulo, frio calor ou arrepio, sensações que tampouco conseguimos descrever, perdem-se no tempo-espaço. Fica o enunciado retratado em signos pouco efetivos.
Os antigos egípcios acreditavam que nossa razão encontrava-se no coração, esse músculo pulsante, e não no cérebro, essa tripa esbranquiçada de recônditas reentrâncias.
Eu diria que notas musicais são mais descritivas do que o verbo. A nota musical é mais vivaz e entusiástica, calorosa, ativa, agressiva, que a palavra. Assim como, claro, pode ser o antagônico aos adjetivos que agora foram atribuídos por mim.
Pode ser desanimada e fraca, calma, dócil e frouxa. Alongada bem como no lirismo do trompete de Chet, num sopro leve e contínuo, quase mortiça. Parece não dizer nada, mas diz tudo. São as chamadas frases musicais. Título bastante conveniente para essa expressão sonora.
Ainda assim seguimos relutantes em aceitar a seiva suave dos sons, esses e outros.
Aliterações. Repetições. Arranjos, acordes, arpejos, bemóis, sustenidos. Ocultações melódicas, organizações poliritmicas, representações harmônicas, pantonalidades múltiplas. Sétimas diminutas oitavadas, nonas, oitavas duplas... Polifonia sinfônica, releituras.
À música é dada uma quantidade aparentemente infinita de termos classificatórios que ela própria desconhece. Um Lá não sabe que é chamado de Lá. Assim como o Dó, Ré, Mi... tal como tudo, toda nomenclatura, todo discurso exotérico ou esotérico.
“O homem é o único animal que se preocupa em nomear”.

Alice conversa com o Gato do País das Maravilhas (no País das Maravilhas os animais, eles falam, diga-se de passagem, o que transgride a realidade e entorpece nosso imaginário) sobre sua gatinha Dinah. Ela indaga “gostaria de saber se quando minha gata ronrona ela quer dizer não, ou se quando ela mia ela quer dizer sim, ou não”. Sabem o que o Gato responde?
Ele dá de ombros, deixando a entender que os animais não se ocupam em dar título aos ruídos que emitem. Novamente, “o homem é o único animal que se preocupa em nomear”.
A música causa sensações indescritíveis. Apavorante, espantosa, admirável, esplêndida. Pode aterrorizar e causar pavor, náusea, pânico...

Für Elise de Beethoven ficou associada ao caminhão do gás passando na rua, anunciando sua presença de forma bem sóbria, nada explosiva.
Imaginem se fosse associado à nona sinfonia.

Para Mikhail Bakhtin, um pensador que se voltou contra o formalismo russo, (escolástica vigente na época que tencionava estudar tão somente a língua escrita, deixando à parte a oralidade, o discurso coloquial.) o confinamento na Sibéria em uma solitária, onde recebia comida e água e não teve contato visual com nada e ninguém, gerou frutos que comemos com gosto ainda hoje.

O som de um vidro quebrando, no mapa visual de quem enxerga e sabe a forma de um vidro, indica que o acidente ocorreu.
o som de um vidro quebrando, no mapa visual de um cego por natureza forma a imagem cerebral de um legi-signo simbólico, que não indica, mas, no momento em que ocorre, é em si a interpretação de tal acontecimento.

Assim, as aves quando anuncia o dia chegando; a chaleira quando apita avisando; o cheiro de algo que causa estranheza e sobressalto e nos tira do andamento habitual dos fatos; o frio da noite que se avizinha...
Todos são signos genuínos em sua completude.
o que podemos “imaginar” ou sentir
são ícones, índices e símbolos legítimos quando deixamos de raciocinar com palavras e nos entregamos humildemente ao fato de que somos animais simbólicos, simbolistas. Entramos em contato com signos genuínos (interpretante final) ainda que breve, apenas roçamos pelo devido de tempo, necessário para gerar um ato reflexo. Penetramos nas obscuridades do instinto pelo devido milésimo (ou milionésimo) de segundo suficiente pra salvar nossas vidas, ou não.
Quando deixamos de ser glosadores verbi-voco-visuais de tudo que nos cerca, deixando a parte a capacidade de organizar os signos linguais que nos afere a capacidade de organizar o pensamento, entrou em contato com a neurolinguística que salvou nossa espécie, (no período quaternário, quando o homo sapiens passa a existir sobre a gleba terrestre, andando sobre duas pernas).

Quanta novidade nesse bipedismo!

Vocalizações ainda eram de suma importância. Como saber o momento de caçar? A fome, que só é vista através de um índice, estômago doendo, formulava a imagem da caçada naquele cérebro primitivo.
Com isso saíamos ato contínuo para as vais de fato, até que a dor fosse domada. Até a invenção de pequenas embarcações, até a invenção da lâmpada...
Assim existimos, fomos, somos, e criamos e seguimos...














mas agora aqui estou eu a conversar com um poeta invisível, um leitor improvável e um Deus morto.
Absorto em meu próprio pensamento...




















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