sexta-feira, julho 19, 2013


2 comentários:

Gustavo Alvarez disse...


Saussure define a enunciação (la parole) como ato individual da vontade e da compreensão, no qual cabe distinguir: 1) combinações, com auxílio das quais o sujeito falante usa o código lingüístico com o objetivo de exprimir o seu pensamento pessoal; 2) mecanismo psicofísico que lhe permite objetivar essas combinações. Assim, Saussure ignora o fato de que, além das formas da língua, existem ainda as formas de combinação dessas formas, isto é, ignora os gêneros do discurso.
Por isso, a inabilidade para dominar o repertório dos gêneros da conversa mundana não se trata nem de pobreza vocabular e nem de estilo abstrato, mas de falta de noção sobre todo um enunciado que ajude a moldar de forma rápida e descontraída o discurso nas (ou fora das) formas estilísticas composicionais definidas.

Gustavo Alvarez disse...

O Nascimento do prazer (trecho)
Clarice Lispector

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar-se inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele e nós.