domingo, julho 07, 2013

despedida




Peço licença aos meus leitores para ausentar-me por alguns meses. Mas antes devo dizer.
Quando tentei o suicídio não sabia eu já estava abandonado pela pessoa que mais amei.
Foi numa manhã de sábado. Um dia lindo. Deus, em quem eu acredito, abençoa nossos dias com o sol reluzente, e nos poupa de cataclismos inimagináveis e outras calamidades possíveis.
Afora a consonância cósmica, ulteriores oscilações gritavam dentro de mim. Sentia falta de quem se afastava por motivos dificilmente elucidáveis. Tentava socar o inimigo na escuridão.
Nesse dia, eu e um amigo fomos ao Fica Ficus, (movimento pela preservação das árvores da cidade) com intuito de fazer um som de vinil.
Levei uma picape e meus discos.
Encontrei, como sempre, uma tomada no chão.
Vendi minhas “mandingas” aos amigos que se acercavam; pela presença simbólica, eu creio, pois o som se estende no espaço.
Devo mencionar a presença de uma amiga querida que promoveu santo Antônio em uma trezena. Foi quando realmente passei a gostar de ser um seletor de músicas.
Crisálida estendeu uns panôs no chão e reunimos, depois da feira, uma pequena turma.
Fumamos uma ervinha que eu tinha e todo mundo ficou “de boa”.
Minhas mandingas fizeram sucesso. Vendi quase todas. Chamo de “mandingas” meus manuscritos que, após ter visto na TV o poeta Nicholas Behr, lembrar-nos que o advento da impressão em papel tem apenas pouco mais de quinhentos anos.
Foi quando quis eternizá-los lacrando- em plástico. Minha amada estava a visitar o mar, esse oceano de mistérios, e junto aos manuscritos coloquei conchinhas que catávamos quando éramos criança.
Selecionava as conchinhas como se estivesse na praia, e me lembrava dela...
Minhas relações nunca foram muito certeiras, mas pensava ter ganhado uma chance divina de provar a mim mesmo o contrário.
De vento em poupa levávamos o barco bêbado da vida. Juntava aos patuás pétalas de flor que me agradam os olhos e assim, acabei por criar o que chamamos de objeto de arte contemporâneo.
Todos alegres nesse entardecer arbóreo, e eu, não muito, ou bem dizer, nem um pouco, ou nem tanto. Tal como se fica quando estamos longe ou quem amamos.
Cervejas vieram, cervejas foram.
Juntamos enfim o nosso equipamento e demos por encerrado o movimento na alameda Bernardo Monteiro, por conta do avanço das horas.
O querido amigo Fernando desviou do seu caminho-da-roça, e gentilmente nos agraciou com uma carona até em casa. Bônus track pela música na rua, e compaixão por levarmos tanto peso. Discos, vitrola, violão, mochilas e badulaques diversos.
Chegando em casa, dado tamanho desencanto a sufocar meu peito, como agora, cometi o erro egrégio de querer me drogar. Discuti com meus pais por dinheiro na frente desse amigo. Tenho vergonha disso.
De fato, tenho muitas vergonhas acumuladas.
Sempre fui terrível infante.
Inadequado ao momento sacrossanto da ordem costumeira.
Nunca tive muitos medos, e sempre disse a coisa certa na hora errada.
Talvez seja isso o que faço agora. Muito embora não haja nada de que eu profundamente me arrependa, como dizem os franceses.
Digo com tanta sinceridade, quando o faço, (ou calo) como agora estou fazendo. Com a idade e o amadurecimento aprendi a conviver com o silêncio.

várias foram as fases em que impetrei diálogo com as sombras do meu quarto, e os faróis dos carros reluzentes. Vários instantes que desejo olvidar, ó vida. Vários momentos tão efêmeros e nefastos, agourentos, trágicos, em que solidão entupia meu peito, que o contágio das horas e o piscar dos olhos eram implacáveis insólitos movimentos.

Fui me encontrar com o Diabo, nesse dia em que não obtive êxito no autoextermínio. Já vinha de tantos lapsos e tinha medo, um medo que latia, sempre há um capeta bondoso para ensinar o caminho das pedras.

Quando voltei embriagado de existência, na minha casa, sol a pino, minha mãe, jardim de lágrimas, que brotavam, brotava não, faiscavam, fulgiam crivando o ar como bala, pingando na roupa como ácido, confabulava os porquês da disritmia.

Foi quando peguei um fio bem grosso e pus na janela, feita a forca. Coloquei meu pescoço e me deixei cair.

Por uma questão de segundos...

Meu pai correu com a tesoura e me deu mais alguns anos de vida.

Urinei na cama por reflexo e acordei ouvindo “filho, filho”.

Na segunda-feira pela manhã fui internado em um hospital psiquiátrico.

8 dias se passaram lentos e erradios, dentro da vastidão do claustro.

Quando saí fiquei de quatro quando quem eu pensava que, com voz suave e afetuosa quando falava-me ao telefone, tratou-me como um fugitivo perigoso, e ato continuo não veio ver-me.

Desde então estou recaído. Desde então estabeleci falas enormes com meu reservado deus. Desde então desprezo os próprios da humana semelhança. Desde então escrevo freneticamente em busca do que perdi, tentando encontrar quem já não existe. Desde então sigo rituais macabros. Desde então devo estar morto na incongruência vital. Desde então sou bicho, sou nada. Desde então desaprendi a ser.

Mas afinal, quem poderia dizer, de fato, o que é a vida?





















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