domingo, outubro 27, 2013

das Neves


Não sei por que resolvi descrever essa história, que foi mais do que uma experiência de trabalho. Foi uma experiência de vida marcante, com ensinamentos que trago até hoje. 
só posso adiantar ao leitor que esse janeiro de 2007 mudou minha vida completamente.
Chegamos à residência de Wilson, e, como era de se esperar fomos muito bem recebidos. Eu como disse, sabia mais por via do que Alexandre me havia dito, pois conhecia o bom e velho Wilson de antes, do que eu havia pesquisado. 
Mas eu não tinha medo nem receio. Nunca temi o contato com gente. E ele logo se mostrou boa gente. Boa mais que boa gente. Mostrou a casa e nos levou para o terraço, onde havíamos de começar o falatório. 
Abriu uma latinha de cerveja e nos ofereceu. Eu, num ato de antiprofissionalismo aberrante, mas sobre o sol escaldante que me dava um pequenino crédito, aceitei. In dúbio pro réu. E seguimos adiante.   
Eu, sinceramente, não sou o ti de arguidor detetive. Aquele que começa a entrevista mais ou menos assim “Fulano, consta aqui na sua ficha que você fez isso e aquilo. Como foi?”. 
A bem dizer, eu não havia preparado uma pauta pra arguir um homem com setenta anos de história na bagagem para me contar. Não havia como. Eu teria que escrever um livro. E antes de escrever esse livro, como faço agora aos bocados, embora nem sei se essa seja minha pretensão, fui raso, quase nu, despido de bagagem.   
Bagagem com a qual eu pudesse dizer que era um homem qualificado para captar depoimentos sobre a história do samba. Nem de samba eu sabia muito, gostava. Mas isso não vem ao caso.
com a chegada do terceiro ciclo sinto-me um navegante apátrida. Sinto a irrefreável necessidade de escrever minhas memórias, e ninguém vai mudar o título disso, pois para isso não há titulo. Para isso qualquer epíteto. Para isso eu mesmo. Para isso a hora há de chegar para todos. Para mim e para o velho e bondoso senhor Wilson.
Enfim, sinto que devo arrancar de mim e trazer a tona, um pouco dos princípios daquela pessoa com quem tanto aprendi. É a hora.

“Então Senhor Wilson, falaremos de que?” começo desacanhadamente. O velho Wilson sorri como quem diz “onde foi que você arrumou esse rapaz Alexandre?”. Depois de meia hora de prosa descontraída, falando sobre o tempo, sobre a localização da “ilha” do governador (sem governador e sem governo, mas com uma prainha bem calma) e sobre a leveza da vida que levava ali naquela casa, eis que o gravador digital pifa, e o meu, de fita cassete, arrasa! 
Saco imediatamente da minha pasta para não perder nem uma falange daqueles dedinhos prosa e coloco para gravar. Quase me emociono de tanta presteza. E Wilson observa que eu posso até gostar de uma lenga-lenga, mas que de bobo não tenho nada.

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