domingo, outubro 27, 2013

Grande Hotel

Alexandre tentava reparar o gravador digital, comprado no shopping popular de BH, em vão. Um, dois, três, sete... e a minha fita cassete corria às mil maravilhas. Como quem dedilha um cavaquinho, instrumento com o qual Wilson compõe suas melodias. 
Nesse dia, uma segunda-feira, não fomos muito além das apresentações pessoais.
Quem é quem, de onde viemos, com que propósito, com qual objetivo.
Eu mesmo não sabia o porquê exato de como fui parar ali. Mas, depois de algumas latas de cerveja gelada, que a senhora das neves não deixou faltar em mossa mesa, de um cágado que surgia misteriosamente a transitar pelo terraço, e s e da prosa macia do senhor das Neves eu já me sentia parte integrante e fundamental daquilo.
Quando o sol ameaçou cair, nos demos conta de que era hora de ir embora.
[Um taxista estava de prontidão para nos levar de volta à Tijuca. Segundo, que detinha larga experiência com as tramitações necessárias a uma produção, havia esquematizado tudo. Esse rapaz, um jovem gordinho, tatuado até os dentes, nos aguardava na porta. Ele sempre foi muito gentil conosco e nunca deixou de fazer nossas vontades, porém, como a violência é um tema em voga no Rio, ele não fugia à regra.
Certo dia me assustou quando disse que um homem roubou um carro dando um soco na cara do motorista e fugindo. Fuga delirante, assalto sui generis.]
Havíamos combinado, eu e Segundo, que, ao primeiro sinal de cansaço do  senhor das Neves, interromperíamos as gravações para continuar no dia seguinte.
Wilson estava a nossa disposição. Exceto nos dias em que se apresentava no canecão no show O Carioca com o Chico Buarque. Espetáculo em que tocava sua preciosa bateria perolada em tons de verde, com o timbrar um prato que sobra no final característica que vim a saber depois. Ele também era chamado pelo Chico à frente do palco, para delírio da pateia, a cantar a canção composta pelos dois, Grande Hotel.
“Vens ao um quarto de hotel de se te anunciares porque com certeza esqueceres que és, que és uma senhora...”
Wilson compõe as melodias no cavaquinho e depois os compositores colocam as letras.
Ele destacou o fato do Chico ser tão bom letrista que usou a maneira como Wilson pronuncia as palavras, “tu estás, tu vens, tu vais...”, herança do seu pai paraibano (cuja história estou guardando para um momento propício) e usou utilizou na letra, do começo ao fim. Que, aliás, se parece muito com a personagem Wilson das Neves. Em outras palavras, ele disse “Chico usou minha fala”, e eu digo, “Chico foi você nessa canção” ouçam:



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