quinta-feira, novembro 28, 2013


Estou no alto de uma montanha vestindo apenas uma túnica branca, cabelos loiros anelados, as mãos abertas sentindo o vento. Essa túnica branca, agora é a minha única vestimenta. Agora não me chamo mais Gustavo. Sou um espírito, tenho um nome espiritual, mas na terra já tive vários nomes. Já nasci no Brasil, na Europa, na China. Já vive nas montanhas geladas. Nas tundras da Sibéria. Já atravessei montanhas e campos. Já fui monge, já enfrentei guerras, já fui da corte de César. Fui amigo de Robinson Crusoé. Ajudei a construir as pirâmides do Egito. Já vivi em antigas cidades, pequenas vilas. Já atravessei mares. Já me isolei das pessoas para não sofrer. Já nasci no continente ártico e antártico. Já nasci nas geleiras. Vivo na Terra desde os primórdios da existência humana. Já vivi em um navio pirata. Já fui uma mulher, muito bonita e desejada, e muito inteligente. Já vivi nas planícies, já tive filhos, netos. Já morri tantas vezes quanto vivi. Em um leito aconchegante, cercado de familiares, mas também já morri sozinho e abandonado em picos de montanhas frios e desertos. Daí o medo da abjuração, da desvalia, do desamparo. O medo da solidão foi o chip que permaneceu e prevaleceu em meu corpo. Estou no alto dessa montanha, vejo o mundo dos homens. Do alto dessa montanha vejo os homens se digladiando por poder, mulheres se digladiando pela beleza, crianças com desejos absurdamente consumistas. A terra não está em harmonia e sinto os reflexos dessa desarmonia. Nesse momento está acontecendo na Itália um tremor de terra. Muitos morreram e os que sobreviveram estão deitados. Os que estão de pé ajudam os que estão deitados. Eu estou de pé e permaneço de pé. Meu nome é Não tenho nome, sou um espírito. Já tive mil nomes! Eu sou luz. Se eu passo e não me vêem é porque estão cegos. Eu estou de pé.

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