quarta-feira, novembro 13, 2013

Suave vendaval - entrevista com Brisa Marques







Brisa Marques é poeta, atriz, jornalista, compositora e produtora cultural.
Quando criança passou por uma influência sonora originária do gosto musical de seu pai. Chegava a sentir pânico, mas decorava as letras das músicas e hoje tem diferente opinião sobre essa vertente do cancioneiro popular brasileiro.
Leu a primeira palavra de sua vida escrita em uma lata de alimento. Fazia poesia enquanto a mãe cozinhava.  
Após participar da peça teatral da escolinha como uma das bruxinhas, aquela menininha sonhou em ser a atriz para subir outra vez ao palco e viver aquela experiência memorável.
Conseguiu.
Com os ventos da fantasia essa brisa foi além dos palcos, muito além de ritmos e rimas.
Atravessou mares e oceanos cruzando as fronteiras da imaginação.
Em sua jornada pela Europa, foi segunda colocada do primeiro Poetry Slam, em Portugal, realizado em 2009.
Na mesma ocasião foi convidada a participar da edição alemã do evento. 
Participou do Spoken World (Mundo falado), durante o Farrago Slam Poetry, em Londres.
Escreveu Entre as veias de fato, publicado pela editora portuguesa Corpos, é coautora dos livros Me conte a sua história 1 e Me conte a sua história 3.
De aprendiz de feiticeira aquela bruxinha potencializou seus poderes no teatro Oficina, com o antropofágico diretor Zé Celso Martinez Correia, indo mais fundo, tins e bens e tais.

Como jornalista sempre esteve apaixonada pelo teatro.
É o que ela nos conta agora.
Leia.

Gustavo Perez
Você acredita que o jornalista é um sujeito que primordialmente se interessa por gente? Por pessoas?

Brisa Marques
Na medida em que ele intermedia a informação entre pessoas, acho que sim.
G.P.
qual foi o seu primeiro contato com as letras? Quais foram suas primeiras influências?
B.M.
Comecei a escrever diários com nove anos... Mas minha primeira influência foi minha mãe, com as latas de óleo da sadia.
G.P.
O que ela fazia com as latas de óleo? Explique melhor.
B.M.
ela fazia comida e eu fazia poesia... A primeira palavra que eu li foi sadia

G.P.
Que bonitinho! Você se lembra disso?

B.M.
sim. A lata estava em cima da pia, na altura dos meus olhos. Depois disso comecei a ler todas as palavras do mundo.


G.P.
E com relação às outras artes. Música, cinema. Quando você teve o primeiro contato?

B.M.
Música...

G.P.
Por influência de quem ou o quê?

B.M.
eu ouvia muito sertanejo na minha infância. Meu pai é viciado em sertanejo. E eu nunca gostei. Tinha época que eu podia chorar por causa de uma música sertaneja. Pânico. Mas aprendia as letras de todas.

G.P.
(risos)

B.M.
Hoje eu acho que sertanejo tem um conceito mais amplo. Gosto de caipira, de sertanejo, do sertão, de cancioneiros, do Elomar. Daquelas músicas meio faladas.

G.P.
Estou ouvindo uma versão de Ponteio do Edu Lobo.

B.M
O resto, continua me irritando. lindo, mas não chega a ser sertanejo... achas? Cinema...

G.P.
é uma versão em viola de 12 cordas...

B.M.
é...tem a viola né

G.P.
sim, o cinema.

B.M.
Meu pai gostava disso aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=lytFI8QwCd4
gosta
o cinema...

G.P.
você foi ao cinema, já que estamos na infância, com quantos anos?

B.M.
eu adoro fazer cinema. Escrever roteiro, apesar de não ter muita experiência. Atuar no cinema, mas nunca guardo nome de filme. Quando criança eu assistia aqueles negócio de Xuxa contra o baixo astral. Só na faculdade fui conhecer umas pérolas.

G.P.
sim... Você ficou de baixo astral? (risos)

B.M.
Kubrick, Eisenstein, Almodóvar, Lars Von Trier, Tarantino, Lynch, Hitchcock e tem um que eu gosto muito que não consigo lembrar o nome... que faz uns filmes coloridos... Brinca com as formas... Umas coisas assim...

G.P.
Cronenberg?

B.M.
não, italiano, eu acho, ou espanhol.

G.P.
Buñel
B.M
isso!

G.P.
como você se interessou em atuar? Foi vendo filmes desses grandes diretores?

B.M
Humm... Não.

G.P.
poderia me explicar?

B.M.
eu me interessei por teatro ainda na infância... Eu não sei bem se tinha a ver com as novelas que a minha mãe assistia ou ao circo que devo ter frequentado algumas vezes... Não! Já sei!
Uma vez fiz uma peça na escolinha. Uma bruxinha alguma coisa bem pequena. Amei subir no palco.

G.P.
você era a bruxinha?

B.M.
tinham várias bruxas
. Minha mãe tem essa foto. Foi naquele dia.

G.P.
você tem ela digitalizada?

B.M.
infelizmente não

G.P.
não faz mal... Conta-me, podemos pular pra adolescência?

B.M.
iés
G.P.
Quais suas bandas da idade de transição? Entre infância e idade adulta? Você ouvia Legião Urbana? Cazuza?...

B.M.
The Doors, Led Zeppelin, Pink Floyd, Mutantes, Cazuza, Secos e molhados... Banda era tipo isso...
G.P.
você já estava em contato com o teatro?
B.M.
Genesis... Hummm... Sim

G.P.
você acha que a música foi uma forma de protesto, aliada ao movimento do teatro? a qual vertente do teatro

B.M.
inconsciente

G.P.
você participou de início?

B.M.
não optei por nenhuma vertente... Mas o teatro oficina me comoveu profundamente com "os sertões".

G.P.
Você estava no palco ou na plateia?

B.M.
No oficina, quando você está na plateia, acaba indo pro palco

G.P.
Conte-me sobre essa experiência. Quem dirigia teatro oficina? você chegou a integrar o grupo?

B.M.
é a experiência da vida e da arte, simultaneamente, do ver e do ser, do olhar e sentir, do estar, da ficção e da realidade, do passado e do presente, do ator-espectador presente. Zé Celso Martinez Corrêa.
Integrei o grupo como oficineira em 2011, se não me engano, durante 15 dias, na turnê dionisíacas, aqui em Belo Horizonte.



G.P.
me interesso em saber como foi sua participação e quais "impressões" você ainda guarda.

B.M.
participei nas 4 peças

G.P.
como é trabalhar com Zé Celso?
B.M.
Taniko, o rito do mar (foto1): Releitura de uma peça do Teatro Nô escrita no século 15. Foi encenada para homenagear o irmão do diretor, Luis Antônio, assassinado em 1987. Clique aqui para ler mais.
Cacilda!! (foto 2): Segunda parte da maxi-série teatral sobre a vida-obra da grande atriz Cacilda Becker. Estreou no Rio de Janeiro em setembro de 2009 e é a criação mais recente da Companhia. Traz na sua dramaturgia a ascenção de Cacilda no teatro dos anos 40. Clique aqui para ler mais.
Bacantes (foto 3): A tragycomedyorgia marca o famigerado teatro dionisíaco do grupo. Definida como Opera Elektrocandomblaika de Carnaval, foi a escolhida para passagem do milênio. Clique aqui para ler mais.
Banquetes (foto 4): É o clássico diálogo de Platão virado bori a Eros pelo Oficina. Agatão, grande ator grego, acaba de encenar as Bacantes no Teatro de Estádio e recebe seus convivas para um Banquete regado de vinho em sua casa onde vão cantar o Amor, Eros. Clique aqui para ler mais.

Foi uma experiência maravilhosa, intensa. O Zé Celso é um lutador.

G.P.
Qual é a causa dele?
Pergunta retórica: salvar o teatro brasileiro?

B.M.
É um encenador que acredita integralmente no poder transformador da arte. No ser antropófago, na quebra de tabus, nos totens... Na representação da realidade através dos mitos contextualizados politicamente à nossa sociedade atual.
Ele é uma figura fundamental para a história do teatro no mundo.
É incansável. É cruel.

G.P.
Teatro da crueldade?

B.M.
Não... Eu não diria isso. Não chamaria nem de teatro da crueldade e nem diria que a causa dele seja salvar o teatro.

G.P.
Há uma classificação viável?

B.M.
O teatro não está morto. Está mais vivo que nunca. ele não tem apenas uma causa.
G.P.
Artaud escreveu que "ninguém jamais pintou, esculpiu, escreveu ou atuou que não fosse para se salvar do inferno". Você concorda?

B.M.
A macumba atual seria a construção da universidade antropófaga. A desmilitarização da polícia, a garantia do espaço Uzyna Uzona e do terreno ao lado, a não construção de um shopping no local, a preservação do bexiga, importante bairro de São Paulo e por aí vai...

G.P.
sim.

B.M.
não

G.P.
sim, não.
B.M. (risos)
Não concordo, mas sou muito literal. Quem sou eu pra discordar de Artaud.

G.P.
você é uma senhorita.
Mas conte-me sendo o teatro uma arte que demanda a presença da plateia "in loco" na geração que a cada dia se envolve mais e mais com a cibercultura, você pensa que o teatro pode perder espaço para o cinema que hoje é reproduzindo abertamente nos canais do youtube?
Importa-se que eu fume? Aceita água? Café?

B.M.
o teatro já está sendo transmitido ao vivo na rede, inclusive com espaço para a intervenção do internauta... Mas o corpo presente é que faz do teatro a arte viva, o acontecimento.
É a re-presentação... Isso não pode ser definitivamente substituído pelo youtube.
Olha... As próprias relações humanas estão sendo substituídas por isso aqui.
Estou te dando uma entrevista via Facebook. As pessoas estão virtuais.
Creio que ainda restam pessoas apaixonadas de verdade.
Faça isso tudo. Nada vai me incomodar.
computador não tem cheiro.



G.P.
certa vez ouvi Perreio declarar que Shakespeare é um grande professor. grandes momentos de epifania."ser ou não ser"... Você tem ou teve um grande momento de epifania?
B.M.
hahahahahhaha

G.P.
o meu é "quão"... Custei a chegar nele. Qual seria o seu?

B.M.
qual é a explicação do quão?

G.P.
quão perto? Quão distante? Ou ”quanto”. Qualitativo e quantitativo...

B.M.
já tive alguns, mas sinceramente, não me lembro, porque logo em seguida descubro o que não há...

G.P.
um olhar interior que me fez ver que “mesurar” não muda nada a situação...

B.M.
 “em mim não caberá o que não tem fim"
G.P.
poderia eleger um dramaturgo em especial que você gostaria de representar?

 
“Creio que ainda restam pessoas apaixonadas de verdade”

B.M.
eu elegeria 2: Fernando Arrabal e Grace Passô. Gostaria de encenar textos inéditos dois

G.P.
Brisa, essa eu aprendi com a Marília Gabriela.

B.M.
ahn!

G.P.
ping-pong

B.M.
(risos)

G.P.
Deus

B.M.
kakakakakaka

G.P.
hahahaha

B.M.
Universo

Gustavo Perez
Cor

Brisa Marques
Branco.

O que te irrita mais nas pessoas?

Brisa Marques
O gosto por dinheiro.

Gustavo Perez
Bem, essa também é da Gabi Gabriela. Uma frase, um pensamento...


"Não tens quem te elogie, elogia-te a ti mesmo"- Erasmo de Rotterdam.

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