sexta-feira, novembro 15, 2013

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Terceiro Ciclo
Quão?
“onde o fim acaba pelo início”
Prosa e Poesia





Que saudade repleta de sentido. Criando atividades para reduzir a lista de saudades. A janela que emoldura a paisagem. Ladrão de entardeceres, os tons bucólicos sempre emprestam cor à tristeza. E a noite revela seus segredos. Escrevo apenas aquilo me apetece. Que nunca pede licença pra ir embora. Ainda sem saber, eu inventei você.

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Feliz Alento

Como vai, meu amor?
não sei, podes tu?
mudar à vontade
a convicção 
Alheio aos porres de 
bigorna
Assim se formam as 
formas vivas
em que a matéria cobrou
em demasia 
um pouco do meu estado
poético


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Mas pelo fato de a poesia, em comparação com o pensamento, estar de modo bem diverso e privilegiado a serviço da linguagem, nosso encontro que medita sobre a filosofia é necessariamente levado a discutir a relação entre pensar e poetar. Entre ambos, pensar e poetar impera um oculto parentesco porque ambos, a serviço da linguagem, intervêm por ela e por ela se sacrificam. Entre ambos, entretanto, se abre ao mesmo tempo um abismo, pois “moram nas montanhas mais separadas”. Agora, porém, haveria boas razões para exigir que nosso encontro se limitasse à questão que trata da filosofia. Esta restrição seria só então possível e até necessária, se do diálogo resultasse que a filosofia não é aquilo que aqui lhe atribuímos: uma correspondência, que manifesta na linguagem o apelo do ser do ente.

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Vejo que todo mundo tem um dilema. A minha pena incansável pena. Escrevo carta pra mim mesmo. Escrever é tão difícil apunhalar o pensamento. Minha caligrafia agora voa como flecha. Estou tão canibal que sempre que escrevo penso em comer animalescamente, entende? Como disse um professor “o que não é predecessor é sucessor...” E assim segue.

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Tô com uma insônia de merda esses dias. Parece que as coisas não acontecem e de repente se acontecem e tecem a longa rede da realidade que vai se alternando entre bons e maus momentos. Vai-se acalmando como uma lenta, leve, suave melodia que dorme ao meio dia, vai-se do aéreo da mais culminante nota no tom mais elevado do jazz, da batera, do tumtum, papum, e acaba no piano ma no molto, alegro ma no moltopresto ma no moltoadágio. Lembrei-me da minha incansável stamina para certas coisas. Enquanto a fenda da vida não se abre, tudo corre rápido, vai e acaba. A música e recomeça, e eu, meio tonto, não ligo, relaxo. É assim. Não me leve a sério, permanece o mistério. Suave aroma de cânfora, chocolate e vinho. Perfume françês e cafezinho pra depois. Rememorando aromas.


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Como acordar? Acordo pela manhã com dois sóis. Se eu pudesse ser apenas dois, mas não consigo, não dá, não posso, e sigo assim sem poder-me desmultiplicar. A Manú disse que me viu. A Simone sumiu. Mudou pra Brasília. Ah se eu soubesse a cavidade triangular super swipple flex. Havia tantas horas sem sono, sem sonho, sem drama, sem cama, sem ninguém pra pegar no joelho. Sabe, Manú mando um beijo, mas esqueci de dizer.

__não fica assim.
__mas você sabe, aldeia é tudo.
__sim, eu sei. – e saio descontente.

Mas de repente vem uma sensação gostosa de plenitude, aconchego e orgasmo pleno.

Se torto, eu sei. Escrevo aqui.

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Hoje costumo dizer que muito é pouco é muito é talvez até muito pouco. Quantas vozes temos nós? O sonho dourado do iluminismo não vingou. Hoje sei que a opinião é volátil ou distorcida. Não sei se temos muita opção, não há para onde fugir. Devo pastar devo postar devo. Não sei se quero estar em cima ou em baixo. Não sei quantas vezes a dor foi mais sutil que as palavras. Nem sei como referir-me a elas, ou eles, não há gênero. Sentimentos... Como saber? Como dizer como são? Já não sei, já não sei. Como transformar a passagem das horas em momentos bons? Deve ser assim... quem souber me telefona.

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Escusa me

Eu por mim mesmo
Na pele de outro alguém
Vivo sonhando,
mas você não vem, não vem.
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Desejos de ser

distinto 
adj.
1. Que não se pode confundir com outro.
2. Que não faz parte de outro.
3. Que forma corpo à parte.
4. Claro, perceptível, inteligível.
5. Singular, notável, ilustre.
6. Gentil, elegante, primoroso.
7. Que revela fina educação.
8. Ficar distinto: receber distinção (em exames escolares).




Meu espírito de gato deseja ser todos esses adjetivos. O mesmo, através de tantos, através da caridade. Deseja ser gracioso, gentil, elegante, engraçado, pictórico, generoso, único, singular, original, nobre, elegante, aristocrático, unívoco, categórico, excepcional, incomum, extremo.

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Como tratar o indecifrável?


Eu nunca estive preparado. Mesmo assim a vida segue seu rumo, fatalmente, ao mesmo tempo em várias direções. Não importa que a vida seja mesmo essa aventura. O que importa agora é sentir-me vivo. Estou preparado pra o que der e vier ao meu encontro. Porque hoje amanha será passado.

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BEAT PARALELOGRAMO. Andar pelas ruas, as mesmas ruas. Estar sozinho ou acompanhado, viver uma realidade paralela. No meio das pessoas, pareço tão louco quanto devo ser. Perto de mim, meus vários. O eu de pé, o eu de chapéu, o eu sentado esperando os vários minutos calados passarem com imprecisão. Ando durante o dia. O eu que vai pela noite durante a noite pela noite. Dia-a-dia, espero-te à tardinha, quando nos encontraremos felizes a olhar o céu, que vai nos encher os olhos de nuvens. As lágrimas escorrem da exultação mórbida de um luto. Perdido no globo que eu não me encontro. Não peço informação, mas não faz diferença. Estou inerte, indiferente a tudo isso. Vivendo como criatura da noite. Observo os desejos de amor, os delírios de amor, amor contido no vazio do ego que implora alguma existência. Histórias que trazem um personagem oculto. Amores que fazem da vida o pior e o melhor da vida. Litígios da aproximação.

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AINDA DEGLUTINDO UM COMEÇO. Desaninhado, sentei bunda no quartinho onde me cabia inspiração àquela hora. Tentar ficar mimetizado ao máximo. Escondido, confuso como um ratinho. Calado, quietinho. Com medo de mim, medo de me incomodar. Tentando ser contido com as lágrimas de nostalgia, pensando no que jamais seria. Ausente aflito, compungido, atormentado, atribulado, descontrolado, entristecido, desolado, consternado, puto.







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Confissões à Lua

meus dias de amanhã
feitos de vários ontens


concretização de coisas
cotidianas


e as horas vãs
preenchidas pelo medo
fazem a insanidade do tempo


me dissem coisas ao pé do ouvido
coisas que eu
não posso entender


um lamento
um blues dolorido
lembrar do passado
me deixou entediado


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Os pratos se quebravam e não era um casamento grego. O Cigano esteve aqui em minha casa e eu lhe presenteei com uma foto, uma revista, uma meia e uma cueca. Era noite de esquecer-se de tudo. O começo da decomposição. Noite de esquecer você e extirpar com a navalha alguns miomas intelectuais.

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Che arrivare

Volto às coisas do cotidiano, inclusive às fúteis. Absolutamente neutro aos seus relatos, enfim. Perco-me nas palavras duplas, perco-me na sua artilharia. Não sei me defender. Uma sorrateira pilha de nada, nada vai me atingir. A sua pura nudez e nossa nudez a brincar sozinhos. Somos ilhas, em poucas troças e muitas doses. Não desejo o golpe. Cuidado com a malandanza. Cuidado com as noites que chegam de repente.

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Confissões de um cunilíngue.
Então conseguiu ficar e manter-se mimetizado. Cores com seus porres invejáveis, sincero amigo, singelos em sua boemia. Andando pelas ruas, sem pressa, sem medo do esquecimento. Sentindo os ares da Praça da Liberdade, suas árvores, seus jardins, suas fontes. A distância afetiva é como ontem. No jazz, madrugadas fria, distante, secreta, escondida, segura, anônima, sem fim, e o tempo ousa não passar. O tempo afetivo insiste em continuar. Vomitei o passado e vi fugi de ônibus.  Casa casa não tem mais, depois de anos. Fui fraco, um verbário. Calado, afônico, monossilábico.

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Pedaço de mim que estava preso na garganta, saiu como fumaça de rancores, raiva, desejos de vingança, alucinações. Vociferando ao léu, no púlpito das intrépidas memórias, palavras ordinárias contra a dor. Saudades e ódio, para inutilmente tentar fugir de um desmoronamento. Túneis e pontes, conexões entre o passado e o presente na cachoeira de domínios. Quando os seus olhos de menina vulnerável à sombra de um desdenhoso anjo libertário. Confiar em mim foi como mentir uma traição cotidiana que nos acometeu durante algum tempo. Tempo demasiado denso desde o princípio. Aurora após aurora, quando ainda nenhuma manhã sublinha essa lembrança, evolve-me o olvido. Falta-me o seu ventre, suas coxas e as minhas coxas, o seu misterioso riso de mulher. Falta-me a nossa cama para o meu longo cansaço. Falta-me a sua vagina ensolarada para ancorar a minha vergonha de ternura. Espera em sua casa, nessa espessa noite que atravessa.

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Para Artaud

Tentando organizar minha casa mental. De repente tudo fica confuso, como o meio de jogo de uma partida de xadrez. Referindo-me, ferindo e sendo ferido de morte todos quase todos os dias. Morrendo e acordando com medo ou pânico ou preguiça, covardia, ineficiência, turbilhão mental, falta de trabalho, falta de iniciativa, falta de criatividade para iniciar algo que vacila entre o sacrifício e a felicidade. Gerundiando... Dificuldade em ser feliz, dificuldade em fazer feliz.

Deus me ajude.

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Para entender as mulheres é preciso entender de cores, é preciso entender as fases da lua, é preciso entender. É preciso ter um olhar holístico sobre todas as coisas, sem coisificar os seres vivos e tampouco dar vida aos inanimados, mas sabendo que, mesmo estáticos, todos participam do movimento. Não circular nos altos e baixos da régua da história. Personagens vivificam a cena do príncipe e a princesa espera a lua, cheia de melindres. Para entender as mulheres é preciso informar-se de nuances, de matizes de cores, da mudança de luzes. Qualquer logaritmo concebido para conceber. É preciso saber a resposta da pergunta, ainda que essa seja icognicível. Colagem de pedaços isolados, rasgados, mas que juntos estão em harmonia. Um olho daqui e o nariz na linha do horizonte, sempre a sorrir e a piscar ao mesmo tempo. Junta os retalhos e recomeça a costurar. Começa a cerzir metáfora com possibilidades.

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Pequenas paisagens guardadas nas gavetas da memória, fazendo alusão ao título das noites passadas. Pequena menina azul, você agora descansa em outros braços. Agora a noite dança em seu compasso. Melodia previsível sem palavras. Digo-te em segredo que há um altar quando acordo, durante do sono cortado por uma poesia subconsciente. A situação de vulnerabilidade física talvez não seja consciência de todos nós. Duas estrofes, de três versos e se perdeu e em alguma gaveta. Nada desabona as palavras.  A mesma paisagem de prédios e janelas, luzes acesas, lua minguante. Zomba de mim com seu sorriso amarelo. Você liga pra me procurar onda anda minha vida? Quem é essa galera? Você se esconde. A quem mostraria sua realidade? Como tentar esquecer uma sina, um acidente climático. Feito tentar esquecer a realidade, feito rasgar uma carta antiga, um recado que não significa mais nada. Os sinos tocam à mesma hora, um dia mais.

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O mistério que envolve esse teorema envolve esse enigma e sempre se repete à mesma volta. Você bebe a água e eu te bebo. Fico ébrio. Você coloca suas pernas sobre as minhas coxas e eu sinto o seu sexo. Quero engolir sua boca, mas você me beija mais do que eu te beijo e eu adoro. Sinto teu seio pequenino de ninfeta, arrepiado e duro no escuro. Você embriaga-me como quem nada quer e bebe pra matar minha sede. Parecem intermináveis as horas feito minutos. De tudo esqueço. O trabalho inexistente esquece-me de hoje de ontem de antes de ontem. Esqueço que me maldiçoou com sua soberba, sua irracionalidade, com seu atavismo. A vida importa. A vida importa porque suas maluquices de ninfeta fazem-me ter mais responsabilidade. Adoro seu cabelo todo lindamente atrapalhado sobre seus olhos sobre o meu rosto. Seu beijo é o gostoso no caminho percorrido ao instante eterno, efêmero e derradeiro em que te quero. A paisagem, essa fogueira elétrica ao lado da cama e você. A Lua lá fora espreitando nosso desejo com sorriso de Gato. Nesse momento quero esquecer meu passado. Quero esquecer outras luas, outras primaveras, outras trepadas, outros beijos. Nessa hora você se entrega e sobe sóbria sobre mim. Eu, bêbado de ti. A palavra, nada diz. Não importa que devore minha alma.

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Gats vida mut

O dia foi calmo e silencioso.
Nada de palavras, vazio de tempo, reflexões em off


Dia de restabelecimento, dia da santa
e a tarde passa como um vento
shhhhhhhh...

A cama parece meu último refúgio
mas eu não conheço nenhum Jesus da Silva
e não sou capitão de nada

Abespinhado apenas,
enquanto Açucena caminha sobre o abismo.


Lualuminosa


Nervos na mão 
escolho a informação
vou sair daqui

não aguento mais essa
rodadesencontradadesons
rodadesonsdesencontrados

cacos sobrepostos de palavras 
paravólas ânvulas de vávulas
pululam trêmulas valvuladas


vai-se
alçar voo

o doce trombone 
já vai se acalmando
na noite da Paleontolinésia


reinventando - postagem mil 666


Que saudade repleta de sentido. Criando atividades para reduzir a lista de saudades. A janela que emoldura a paisagem. Ladrão de entardeceres, os tons bucólicos sempre emprestam cor à tristeza. E a noite revela seus segredos. Escrevo apenas aquilo me apetece. Que nunca pede licença pra ir embora. Ainda sem saber, eu inventei você.

próprios e peremptórios

Eu quase eu                        

A vida é assim essa confusão de vírgulas sem fim, de perdidas ilusões. Eu quase eu. Sem fôlego, sem voz. Quem não a segue se assusta. E quando ela volta, feito mulheres titubeantes, perplexa, mas decidida, perde-se em sua frágil floresta de vidro. Eco sou eu, o som de mim que não é mais, é outro eu que dizeu.

O som emanado...

nenhum

 


A hora do silêncio. No seu caderninho esquecido. Lembranças jogadas fora. Tidas que arrancar, quando obtidas. Tidas que sonhar quando obtidos novos confrontos, novas partidas. Quando se sabe que ficou pra trás a pele velha?


Faz tempo...


Ontem o que foi que aconteceu? Ontem foi um encontro ao acaso? Proibido beijar na boca. Vencer as tentações rasteiras. O dia seguinte. Curando ressaca. Ou curando a alma ao som de Elomar? Atenho-me a não mais fazer comentários sobre os olhares de peixe-morto.

 

 

 

Falar sem dizer



·                     Não concebo mais racionalmente, não sei mais o porquê de eu ser um risco a mim mesmo. 
·                     O animal não tem propósitos, mas próprios. 
·                     O animal nunca causa danos a si mesmo. 
·                     Emoção, ela flutua entre consciência e sentimento físico.
·                     Não conheço ambição. 
·                     Não passo mais por eles que não quero que me vejam. Protejo-me dos vivos e dos mortos.
·                     A crueldade mora onde há um predador e uma vítima. 
·                     Diminuto é o segundo que separa a lassidão do golpe.

abaixo embaixo

Faz alguns anos eu não vejo o mar, uma impressão única para nós que vivemos distante do litoral. Faz pouco tempo, minha namorada foi de encontro ao mar. Aqui de longe, talvez inconscientemente, nesses dias em que ela esteve fora, me pus a procurar a conchinha mais bonita entre as que ficam guardadas em um vaso – lembrança do tempo em que íamos quase todo ano pra praia, pai e mãe, irmãos, e catávamos conchinha. Somos da geração anterior ao advento da sustentabilidade ambiental.  Acho que nem se encontra mais essas conchinhas, nas praias brasileiras, um tanto por conta de gente como nós.
Eu pensava no mar. Chegava a sentir. As ondas lambendo meus pés num vai e vem sem fim.  Pensava na linha do horizonte, na imensidão... Podia sentir meus olhos marejados de água salgada. Sentia o ar mais denso, a respiração mais leve.  Na água de algum mar rememorado refletindo o brilho das estrelas, pensava. Sensação de calma combinada à magnitude do vazio. Porem, não há maiores desertos em meu caminho. Somente o vazio, imaculado, pronto para procriar.
Espaço onde nada ainda aconteceu, o momento mudo, onde coisa nenhuma ainda foi criada, fabricada ou concebida. A ação, nem mesmo a despeito de ainda estarmos sujeitos à fisicalidade dos corpos, nem ela mesma tem nome ou pode-se nomear. Se dilatada ou retraída, qual tanto se pode aferir significação? Antes do Nada era o Nada. Um Nada maior ainda. Ou menor? Segundo a dialética vigente e mais conexa de que somos resultado da grande viagem cósmica, a matéria reduzida ao tamanho da cabeça de um alfinete e Bang! De repente tudo se apossou do Nada e o Todo se formou. Todas as coisas.


Caso da indissolúvel associação


Nesse diálogo cotidiano consigo mesmo, entre um pensamento e outro que vagam pelas horas, dei-me conta de que somente há poucos dias vejo sob uma nova perspectiva um episódio que ocorreu.
O fato é que elogiei a caixa que uma amiga arrumou pra colocar suas obras de arte, pensando que a caixa era a própria obra de arte, a própria coisa em si. Não havia sequer esse “faz parte” ou o maniqueísmo contém/está contido. “Legal aquela caixa que você fez” eu lembro de ter dito. Foi suficiente pra ela esclarecer que a tal caixa foi usada apenas para transportar as “verdadeiras obras de arte”, mas não para me fazer desassociar visualmente os objetos.
A “caixa” que menciono era o que parecia sido um dia uma grande gaveta de madeira. Sim, quando escrevo “caixa” supõe-se “recipiente que serve para guardar ou transportar outras coisas dentro”, mas na verdade aquela ainda parecia ser uma grande gaveta de madeira. Por extensão, gavetas também são caixas corrediças que se embebem nos móveis e servem para encerrar objetos.
Dentro da gaveta havia uma divisória, que foi acolchoada com espuma pra amparar melhor cada objeto.
Apesar de ter tido acesso a todas essas informações, visualmente falando, a única conexão que fiz da coisa em si foi outra. Foi, pausa, da coisa como um todo. Não sei se foi por distração, por desconhecimento, ou por desconstrução, transformei a coisa em si em “uma coisa só”.
A desconstrução, em seu metadiscurso, torna tudo homogêneo, tudo igual ou muito parecido. Utiliza-se de um só objeto para representar todos os objetos: uma massa amorfa e unitária. Transforma tudo em “uma coisa só”.
Uma pessoa não alfabetizada enxerga signos linguísticos - palavras, frases, frases que formam textos – apenas como um “borrão” sem significado. A ausência de sentido, nesse caso, impossibilita que a palavra “diga” alguma coisa. 
(Continua...)


desci da minha
Paixão da minha existência atribulada              
...e a saga continua.
Que a vida é uma luta, não se discute. Não discutir é uma premissa da filosofia. Cada um tem a sua. Mas, se estruturar o pensamento é uma labuta, há de admitir quem me escute, que eu rezo a minha. Na minha procissão caminham muitas velinhas. A caravana entoa um coro gemido, ode à dor do burrinho. Essas velinhas iluminam as cores papel celofane e a imagem que é viável de se carregar aonde vão passando. Velhos e crianças Tum Tum... espera-se que o lamento em uníssono suba, mas qual. Abelhinha zelosa has no time pra mesmice, sorrow, lamentação, sussurro! Usa aí omê o coro da onça e a mulé o gongo da cabra! Quem mandó acreditá na jararaca-verde? Ofídio da peste! Paixão, paixão. A paixão costuma ser tão difícil. Haja visto a do Nazareno. Devo comprar seis maços de cigarro Sun Marino (Sán Marino, pronuncia-se assim. Faz sucesso por ser barato.) e uns pacotes de biscoito.  Por quê? Mandar pro A. que tá preso. Pagando umas férias. Por quê? “A vida é assim” e não me custa. Já ensinou andar sem vacilar, já afastou invejoso da Vila do meu cangote e economizou verbo dando conselho, e por ser ele mesmo. Já aconteceu dele fazer no F. calhou deu tá sem folha sucedeu. Adveio a boa vontade, na humildade. Sempre! Eu plantei o bem e vou colher o que mereço. O FBI deve ter meu endereço. Falam de mim, sou assim me convém, mas sei a querela entre o bem e o mal. O mal é o bom, e o bem vai mal, no momento presente.
Na terça tenho terapia, oito da mañana. Doctor Deco diz coisas tão assertivas... Olha que me defeco pra psicolombardia. deco dereco dereco deco. O que me faz acordar tão cedo foi empatia. Enfim, existência apropriada significa. Pua não esbagoa fina flor.
Mas arreda esse riso do beco, que escada demanda certo fôlego. Não tenho quem tem de mim. Segunda tem que pegar trintão no Maletovisky, pagar o Patchele, dar fim nessa dívida que já virou novela. Na terça vou malhar, sim. Academia do Djalma. Acho que lá se ganha mais peso tutanóide, que no Liceu de Platão da Grécia antiga. Acho não, tenho certeza.
E assim sigo se com sigo, mais um dia na cadenciosa cadência. Sem cair. No fio da navalha.
Na paixão atribulada da minha existência. Sujo de todas as tintas que me cercam, de todas as cinzas que se altercam, de tudo e de Toda Yng-Yang fluência. Tudo é nada. Quando um cadinho do orbe faísca, esse crisol pronuncia tudo.

 Ca’fé.

Paixão da minha existência atribulada

Sabe? Não? Então vai saber? Tendo a que te comprometas com a leitura. Vou falar, melhor dizendo, escrever. Dentro doseus olhos, (d)entro sua cabeça, gravado e pintado as paredes do crânio a prece intratutanar. Desfaço de mim nanico ácido lático. Verbo-memória que fica acumulado. Seja pelo esforço da física progressão diária, seja por tudo que ficou gravado em minhas retinas sem que eu pudesse querer ou não querer. Lá pros lados onde ando e busco e permaneço, donde do interpretante energético muito se perde, mas o que ficou registrado fotograma, fenômeno acústico, fragrância não se consegue esquecer. Não obstante a lenga-lenga consiga aclarar, apenas esboçar composição leviana de signos. 
Aprendo tempo verbal que improvisa nenhuma acepção. Apreendo sim, e cometo vasto deslize. Minto? talvez, mesmo que menos seja mais em notas rasgadas. Então entra, toma-te fôlego e sopra fundo!
Pra que dizer o que me doe so far? Primo, eu me divido por nós. Divido-me por mim mesmo. Pra que dizer que no mundo há pessoas, há sim. Que saíram do inferno e continuaram andarilhos. Que seguem como vulto a sombra da noite. Aqui, ali e sabe-se lá onde.
Alma de estrela.
Certa conta roubaram minha droga. (Yes, I did do drugs). Umatal Isamara-da-vida foi quem me roubou. (Exúmara). Foi mais ou menos assim. Tava meio estranho atividade na quebrada, ninguém na Vila e nada na Brasília, na Antena só problema, na H, só pro nariz. Acabei indo parar na Capelinha. Não que estivesse lombrado, mas o movimento no beco acontecia no estilo correria. Por lá ganhei o passo. Troquei ideia pouca com outro consumista, que deu parte do esquema. “Tá constando?” perguntei, e ele “a mulher aí que tá fazendo o corre-corre”. Isa Mara entrava e saía do barraco do jou-trafíca, e toda família vigiava a reja. A “mãe” controlava o portão (suspeito eu q o resto da ‘família’ mimetizado na cena, também velava a ação). Dei vinte paus então, pra Exalara fazer meu. depois “um pequeno” eu daria, de comissão. A Urtiga-do-mar me volta, é foda, só com dez contos de farelo, em mercadoria. Mixanga pouca é bobagem, só na ladroagem. Foi tudo tão rápido que Tom, miguinho meu, jovem-velho-conhecido, registrou o fato com olho de gato. “Conheço, é meu considerado” disse “mora perdalí, quase aqui, tá sempre aí, sangue-bão, blá e bláblá”. Completa “O mano saiu prejudicado, Zarama-pófazêissunão” disse num só fôlego de supetão, à dona da portaria. Dalí a pouco ela volta, com a palavra do mano-trafíca “foi ela que te roubou. Vai atrás e se retifica”. Nesse mundim de pilantra, subi com Tom a pequena escadaria. Amigo meu na rua, contou papo reto a quem devia “is a Mara” “cadê ela?” disseram “tá alimbaxo”respondeu “Vamô atrás dela, boy?(boy costuma ser vulgo) “Demorô, osmino!” então éramos cinco. O camisa-vermelha-de-time querendo horripilar. “Bora então”.
Mano-leitor, agora vou contar. Descemos a escadinha na base da fita loca pra cima Chora-vinagre. Lembaixo Exumara sentada, pagando de doida, foi cercada. Foi quando a vi tomá na cara. Eita cavaqueira certa “num pode roubar usufrutuário, macaca besta cavala!”. No desespero levanta e leva uma pemba na mama. Senta anta e conserva o acaso, confusa, quase leva outro na fuça. Eis q a voz de Isa Mara balbucia de pronto soluço certo conceito “vou devolver”. Pego na mão da vadia, tirou um caroço do peio, fração de segundo, inda assustada, mundo onde o-mundo-vê-tudo. Cara, vi terror na cara Exumara que quase se afogou de susto, numa maré de bordoada. Eu, macaco velho, cego saí subindo as escada, ouço com o rabo daoreia “menino, pára de bater nos otro” “bati ninguém não, vó” diz a voz amofinada. “Só pus norma no esquema”. Pensei, na “ética da máfia”. Onde ladra de cabelo piaçava faz alegria da moçada... Is a Mara is a Mara is a marinha.

A Rua da Capelinha é minha antiga conhecida, embora não haja igreja ou coisa parecida. Mas se tem, nunca atinei, nunca entendi.  o morro é mesmo, cheio de enigmas. Sua constituição randômica é cheia de segredos que desafiam o próprio Tempo. Daqui ali chegasse num minuto entrecortando escadas e becos que ligam ruelas e ruas feito mágica. Dada sua composição orgânica acercar-se um barraco o outro. Há excelentes moradias ao ponto em que, de imaginação e de improviso são feitas, modo geral, a próprio punho. Creches, bares, bocas e botecos. Núcleos comunitários. Igrejinha protestante onde evangélicos se divertem à beça, comendo, jogando bola, bebendo Tang e louvando, quase sem pecado, hora após hora até altas horas, e quase não se cansam.
Há muita droga escondida. Nem tão bem que não se possa comprar, mas o suficiente que não se possa “apreender” pelas vias que a Lei condena. Apreender então se torna uma palavra múltipla, de múltiplo significado. Entre as formas de se adquirir conhecimento, apreensão, abdução e experimentação, todas circulam concomitantemente no pequeno espaço fechado que afinal chamamos cérebro. Capaz de arquivar sem compreender. Abarcar sem incluir, o espaço de modo acertado, pois o erro foi abolido e o certo certamente assume vida própria. Veste oportunamente a camisa da situação. Os fracos também amam, morrem, nascem de novo, engravidam, nascem e findam, in memoriam. Sim que não, desse pretenso verbo vindo seja capaz alcançar uma pulga de entendimento. 
Foi na Rua da Capelinha que o diabo disse meu nome. Como se o fosse velho conhecido, quando pensava ser apenas mais um Sebastião ou Benedito. Não, apenas uma vez, olhos claros, lábios no sorriso, pronunciou meu nome, le-tra-por-le-tra, inda me lembro. Como se agora inda soasse e ressoasse pra em meus olhos, boca, pele, nariz e ouvidos.
“Amo. Choro tanta desilusão. Choro o pranto sentido de um coração esquecido num lamento cansado de amor que não foi amado, ah como é triste ver o fim. E quem amou sonhou e fez tudo pra não ser assim. Ah como é triste ver o fim. E quem amou sonhou e fez tudo pra não ser assim”.
Há uns dias atrás ouvi uma narrativa pirada, que me pareceu um tanto real, todavia excêntrica. O início de tudo, da pedra (quisera fosse filosofal) feita por índio, mestres do mistifório de raízes e plantas e, no caso, a química alcaloide potencializada, observada por um negro jamaicano, que a narrou. O dia já amanhecia e ventava enquanto ouvia esmiuçada descrição.
O tal índio, carregava sabedoria única e paramentava um bambu com caldo borbulhante que jamais se havia visto igual. (Creio o fato ocorreu nos entremeios de cadeia. Posto que o jamaicano passou vinte e nove anos “em cana”, entre fugas e reentradas, saídas e voltas...) Segundo o que me foi dito, encheu o índio uma cuia integral desse tal bambu, de um líquido borbulhante e verde totalmente estranho ao ex-bandido que comigo dividia aquele amanhecer com tal história. Aquilo parecia um enigma misturado a uma atitude, um jeito de agir que, naquele momento e agora, sem que soubéssemos, mudaria o mundo. 
Sim, o Jamaica perguntava e o sábio índio cautelar não dizia nada. Nada revelava sobre a misteriosa combinação a que tanto se dedicava. O que causava mais curiosidade no negro que acompanhava a minúcia de cada fase do processo. Finda toda minudência originou uma barra de massa desconhecida.  Prendia-me àquela descrição, como se eu próprio estivesse lá.  Qual gabolice seria o resultado de alto grau de magia? Haverá de ser uma bazófia indígena em toda sua jactância? Agarrava-me à riqueza da narração como se fosse experimentar o exímio veneno. O resultado de tal ganga alucinada não era pequeno. Eis então que o índio retira um pedaço, uma lasca, um toco como quem saca o filete de um osso. Jamaica pensava conhecer todo tipo de alucinógeno a que se tinha notícia quando Bum! J. vulgo “Hare-hare” sentiu sua primeiríssima onda de “pedra” numa viagem que delinear acidentes é desnecessário. Conforme me contava, soube que a força daquele preparado foi sem igual ativo e eficaz. A pujança com que foi arrebatado tinha força desconhecida. “Toma. Vende.” – disse o índio assaz cabuloso ao lado de seu místico preparado. Em seguida J. dominava todas as bocas da quebrada assim como recebia críticas invejosas de seus adversários que até então não conheciam o modus operandi  para tal resultado. A base do cozimento, a mistura, ponto de saturação. Sei foi que ficaram bem putos! disse J. 
O vento sopra novamente na fria manhã onde finda a história. Um grande combate a tudo que estava por vir, desenhando um cenário, passados quase trinta anos. Famílias dilaceradas, doenças mentais, violência, crianças mortas, almas perdidas, pranto, agonia, solidão, clínicas de recuperação, suicídio, dopamina, depressão...
Primeiro groove que eu fiz na rua. Eita som eita loucura e tudo mais beleza pura. Como pino, ninguém previa, nadie supo que hiva un sonido. Lecuona baila comigo um pa de deux fugaz em meus ouvidos. Bailo mais leve, pois todo toque do que você faz e diz, só faz fazer de Nova York algo assim como Paris. Foi triste, Errante, inaugural, foi nesse dia que tentei a morte, não quero mais. Daí em diante, passado. Daí em diante dias e noites, passado o domingo, “contados” por mim-encarcerado foram oito. Mas isso não conta broto porque você se pôs no meu lugar e disse que sentiu que estava sendo positivo, quando eu pedia pra estar morto, mesmo tendo sobrevivido, mesmo agradecendo por ter sobrevivido, mesmo não estar agradecido por isso. Agora passo-a-passo, escolho melhor o repertório verifico uma grande dor de amor, deixo o disco tocar, verifico se há café na xícara antes de correr o risco de estrear sem querer pros meus pais na cozinha uma pré-estreia que poderia destruir meus planos tão oblíquos. Agora vou cobrar meu pagamento em lados B e libertação liberdade, bonequinha. Faixas contínuas, duplos, equilíbrio, sobriedade ébria de miador. Limpo aquilo que esteve escondido preso em mim, o suor de minha cola, aramado em meu pulso. Em solitários erres analisados em flash, na sombra do meu ator de escrever, carcará. Vá fazer sua caçada. É um tempo de guerra. Eu trabalho é carregando peça importante que não pode estar em débito. Medusa não precisa. Prolixo. O que preciso é de uma tomada a mais na rua. Se na rua de rua há mais do que dentro aqui do meu quarto.

Ah caro. Mijei na rua verei catarro, mas voltei com meus dez. Lucro mínimo. Folha mínima a ser absorvida, no caso.
Volto são e salvo. Acrescido da pedra do meu fardo. Volto até com o cérebro mais musculoso, tendo trabalhado, girado, conversado, sido privilegiado, acatado, considerado pelos irmãos de peso, carregado peso, e desdenhado, gozado, curtido e desfrutado e padecido pela visão-sonoridadeaparelhada-presença mambembe que ofereço.

Volto pra casa e escrevo. Isso sim objeto é aquilo que um dia se tornará mais seu do que meu. Padeço de rima e plectro, não sofro mais. Trabalho (?). Trabalho é como colher uvas? Sinto-me satisfeito. Satisfeito de ter saído da concavidade quadrilateral a que tantas vezes estamos subjulgados. Não, certamente que não fui em busca ao só do dinheiro, mas sim de um agenciamento de “coisas”, fatos, “pessoas”, imagens, ações, diálogos, ambivalência, valor, estima, apego, que aconteceram a priori só na minha cabeça. Durante o sonho diurno no qual preparava as tintas musicais. E me deparo com acervo de infinitesimal de vogais, que consoantes transfalam o que quero. Apoucamente transferem, transcodificam dizendo(?) alguma noção de sensação de sentimento-acontecimento. Choro. Amo. Tanta desilusão. Choro o pranto sentido de um coração esquecido num lamento cansado de amor que não foi amado, ah como é tão somente. E quem se sobrecarrega desmantelados agenciamentos? Cobre sim sua cola, cola, rola, orla. Porque a vida é feita de “momentos”...
Preciso de rua, do povo, das pessoas, da faculdade livre da vida para arrumar um lugar onde viver, senão a própria indigesta rua. O solilóquio plurivalente no qual se encera mais ou melhor m(eu) verbo a que em um quadrilátero. Estou atento. Estou centrado. A quem dizer o que sinto? Melhor ornamentar meus escritos, com pétalas arrancadas, (es)colhidas em algum lugar do tempo, e conchas-do-mar (fractais singulares) e palavras manchadas em papel que nunca mais serão ditas. Que se perderam, lacradas, e se objetificaram para, talvez, um fim qualquer, ou, uma pessoal-subjetiva apreciação do belo. Escrevo alfa-beta-gama-ômega-mente, ainda que advinda da escrita, a primeira tecnologia, a invenção do alfabeto grego, a egrégia noção de sensação de percepção da palavra, de fato,em si, seja sua. Não me convém inquiri-lo juízo de valor absoluto. Essa última palavra contém morte. E nem a própria morte, morfológica, é  o fim de tudo. Quando? Como? Enfim. Se parte de tudo se ilumina, o Todo se ilumina em si. Nasce uma criança latino-americana enquanto no Japão enterra-se mais um defunto.
Ignora-se a gramática portanto...  
quero “ir pro mato”. Rever minhas tocas, meu sol, meu céu, minhas estrelas, ver Deus, onde a multidimensional crista dos olhos enxerga tudo e a humildade me dão salvo-conduto. Deus, mais um azul de céu claro se ilumina nos olhos, e estou cercado de homens! Homens e sua maquinária além do fogo! Quero as mãos sujas de carvão! Não quero as letras nem a desilusão do povo. E não querer é também sim-querer e só o que desejo é a terça parte desse dualismo escroto! Ou tens a mínima noção que seja tutelar o verme até a igreja? 
Alguma esperança de nascer de novo?
22h22min
22h33min
Relato dos dias que passei na quebrada e da pesquisa de opinião que faço com os usuários com os quem compartilhei as horas e a droga.
“Morro”, nome afetuoso dado às elevações que contrastam com chamado “asfalto”, também conhecido como favela, antonomásia exclusiva do português brasileiro.   




A ideia de gênese na estética de Kant
Analítica do belo como dedução: meta-estética material do belo na natureza do ponto de vista do espectador. Se o juízo de gosto reclama por uma dedução particular, é porque ele se reporta pelo menos à forma do objeto, de outro lado, ele tem, por sua vez, necessidade de um princípio genético para o acordo das faculdades que ele exprime entendimento e imaginação.
O Sublime nos dá um modelo genético, é preciso encontrar um equivalente dele para o belo, com outros meios. Procuramos uma regra sob a qual estamos no direito de supor a universalidade do prazer estético.
Enquanto nos contentamos em invocar o acordo da imaginação e do entendimento como um acordo presumido, a dedução permanece fácil. O difícil é fazer a gênese desse acordo a priori.
Ora, precisamente porque a razão não intervém no juízo de gosto, ela pode nos dar um princípio a partir do qual é engendrado o acordo das faculdades nesse juízo. Existe um interesse racional ligado ao belo: esse interesse meta-estético incide sobre a aptidão da natureza em produzir belas coisas, sobre as matérias que ela emprega para tais “formações”.
Graças a esse interesse, que não é nem prático nem especulativo, a razão nasce para si mesma, alarga o entendimento, libera a imaginação. Ela assegura a gênese de um acordo livre indeterminado da imaginação e do entendimento. Reúnem-se os dois aspectos da dedução: referência objetiva a uma natureza capaz de produzir coisas belas, referência subjetiva a um princípio capaz de engendrar o acordo das faculdades.

Zona do Euro
Como acordar? Acordo pela manhã com dois sóis. Se eu pudesse ser apena dois, mas não consigo, não dá, não posso, e sigo assim sem poder-me desmultiplicar. A Monica disse que me viu. A Simone sumiu. Mudou pra Brasília. Ah se eu soubesse a cavidade triangular super flex. Havia tantas horas sem sono, sem sonho, sem drama, sem cama, sem ninguém pra pegar no joelho. Sabe, Salú mando um beijo, mas esqueci de dizer.
__Não fica assim.
 __Mas você sabe, aldeia é tudo.
__Sim, eu sei... - e saio descontente. 
Mas de repente vem uma sensação gostosa de plenitude, aconchego e orgasmo pleno. Se torto, eu sei. Escrevo aqui.

verso agudo


Sonho velho guardado esquecido
como folha de papel amarelado
urra num canto da página
um solo de piano jazzado
gargalha e canta encanecido
encanta seu suave gemido
cada gotinha de uma nota
um pão mofado e verso agudo



Urbanidade

?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪Urbanidade. ?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪0;vanecem de soslaio. Estou semi �����������#0;0;&olhando?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪tudo e escrevo. Poeta de café, actinta em apuros. Em casa não há ao sol, E r em mim, meus olhos,a meus movimentos, meu rosto. A miséria hoje me perseguio sol, caído no chão com a língua de fora, a rádio Itatiaia informa. O homem do subterrâneo emerge nas ruas sem destino. De repente me sinto palidamente constrangido. Não com o movimento da rua e os transeuntes mas comigo mesmo. E parece transpa⨪⨪⨪⨪r em mim, meus olhos, meus movimentos?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪, meu rosto. A miséria hoje me perseguiu?⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪⨪Lá vão eles procurar sapatos e deliberam o dia com moedas com���������������&#;


um pequeno infinito
A subida da montanha é lenta e silenciosa. Observo com calma minha natureza íntima. O sol acalenta suavemente. A brisa sopra em meu rosto. Estou atento a cada passo, mas a minha alma voa. Estou alheio ao tempo, mas controlo minha respiração. Já não sou mais a mesma pessoa que pisa na terra. Relva resplandece sobre os ares da primavera. De repente o vento sopra mais forte. Os últimos passos ao topo. Ouço o bater de asas da águia. Quando me aproximo e olho pra cima, vejo o grande pássaro que ali observava sublime, imponente. Ao ver aquele pássaro perder-se no horizonte torno minhas costas e somente àquela hora tive uma visão de onde estava. O quão alto aquele pássaro de visão aguçada podia ver qualquer minúcia. Uma vista completa da serra que contorna o vale, e o vale. Campos verdejantes que criam matizes incríveis. Sento-me para descansar e observar a geografia. O rio serpenteando, as quedas d’água criadas pelo relevo. Um momento de sonho. Silêncio.






Um compromisso com o acaso

Alguns chamam de sorte. Os freudianos chamam de sincronicidade, de sincronia, ou sincronismo, tem a ver com tempo. Cronos engole seus próprios filhos, a poeticidade na interpretação da cronologia, essa fome sinistra. Outros chamam de coincidência, enfim, existem vários nomes para o acaso – fado, destino, sina, ventura, sincronia, simultaneidade, concomitância. Pode escolher. Esse último, o acaso, segue um movimento caótico, acidental, quase mórbido, de suspense, batimentos cardíacos, adrenalina, alívio. Transcendental, percebe?, um movimento não retilíneo e não constante em velocidade. Só não se pode mesurar, medir, criar, inventar ou fabricar um conceito novo capaz de explicar os porquês etimológicos da natureza humana e quantificar e qualificar (o que fazem por ética, grosso modo dizendo, valores universais - não matar, sexo não consensual também vai contra o senso-comum de civilidade) e tudo aquilo que foge da natureza simplesmente humana, demasiadamente humana, a imaginação, abstração. Roubaram-me uma crença, quando eu era criança. Como te roubam cá e lá ao longo da vida. Mesmo Kinsey, o maior taxonomista da área (taxonomia –).


Tudo é Nada


Eu te admirava. Cheguei a gostar sozinho. Estranha forma silenciosa. Dois olhares se cruzam. Olhar de gôzo e assombro. Com o passar dos dias eu mudei... Passei a te achar pedante petulante, pernóstica. Eu te esqueci e agora volto ao fim de todos os inícios. Sem moral, sem...
as cicatrizes lembram as feridas que meu corpo sangrou.




Transmutando

Transmutando... transmutando... A chama violeta. Toda hora Deus e a luz dourada. Minhas coisas estão preparadas. Estou preparado para a mudança, estou também me transformando. Transpondo barreiras entre o homem velho e o novo. Vencendo os obstáculos que a vida nos impõe. Sempre é tempo de renovação íntima, recomeço, reconforto. Amor, carinho, companheirismo, tranquilidade, amizade. Com os mesmos anseios, porém, com mais serena compreensão a que me disponho perdoar e sacrificar. Despojando-me da velha roupagem para vestir a única branca, e burilar meu espírito, iluminar minha alma, vivenciar a paz interna mesmo sob as mais diversas inquietudes externas que nos fazem “perder muito tempo”. Velhas diatribes internas não mais me atormentam. Como tornar novo, melhorar.

Tempus Fugitiv

Cai a chuva, fina e última. Encaro o derradeiro momento como um fugitivo do tempo. As escolas de samba me dão certo enjoo. A fina chuva combina muito mais com as notas caídas. Esse verdadeiro lirismo derramado, cansado, sofrido, tênue, suave, me deixa. Escrever aqui não faz mais sentido. Escrevo sem nexo. Essa enxaqueca passa pela pauta do improviso. O sopro e o braço arqueado do garoto são coisa expressiva. A dor na cabeça minerva. Já deitei no escuro por mais de duas horas, em silêncio. O carnaval me deixa tenso. Não há nada na TV, apenas carnaval das mais diversas maneiras que se possa imaginar, das mais diversas formam que possam explorar a indústria da fantasia e alegria. Imagino-me mentalmente sozinho, sentado em um pub vazio tomando um trago. Esse jazzinho macio e Miles Davis ao meu lado. Sozinho por dentro. Cheio por dentro. Cheio de palavras, contos, casos e cheio até de ladainha que despreza e que desdenha. Aguardo que venha a aguda intercessão dos mortos de mim mesmo. Entendo que caiba um seguro-saúde nesse caso. Receio transcender o Zen. Temo que ninguém entenda o silêncio quando eu falo. Por isso calo. Por isso me entretenho com a superfície mentirosa. Por isso descarto vírgulas, inverto verbo, invento vocábulos. Alguns caracteres a menos, sim, farão falta. Amo pelos meios, meus pequeninos e desbotados floreios.




swiss miss

Um dia de chuva. It’s a kind of blue que invadiu meu coração. Cuidado terráqueo, os ETs estão chegando. Preciso de uma mulher forte e delicada de espírito. Não desejo mais selar dívidas ancestrais com quem não me deseja. Com quem sequer um dia lembrou-se de mim. Com uma criança egoísta que tem pena de si e da própria mãe somente. Não desejo inspirar pena ou mesmo piedade. Desejo o carinho que invadirá meu peito e a plenitude que trará um pouco de paz ao meu peito tão dilacerado. Já lutei guerras e venci a mim mesmo. Já cuidei dos fracos e deles também me afastei para não sofrer. Vivi da ilusão imensa de querer proteger quem não me quer, sequer como amigo ou companheiro. Do sentimento altruísta colhi desdém e desprezo. Já não mais desejo uma criança por desejar tanto, tanto desencanto. E me desfaço em verbos me recompondo. Juntando os próprios cacos de um poderoso artefato que sobrou de mim.

Minha alma voa 




no pano destorcido da realidade



Surge mais forte de fatos que de afeto
Morna é a fragrância da
madrugada

Fragmentos harpejados,

herméticos de Fátima e
agulhas náuticas
no mar de Malta


Amalgamada
farfalha
nalma
e a fleuma
aflora.

murmurejando
ciciando
não
sei
se
canto

rumorejando
negro
pardo
e santo
meu lamento
meu breque

meu salamaleque


meu zumzum


suave vendaval

O que quer que me possua, ignore. Você me possui mais.








softtango
going ahead
e a vida le-

                      vándalo








Shaman   

Então escrevo desesperadamente, compulsivamente. O que não me deixa. O que não me deixava. Procura auxilio nas palavras, minhas próprias palavras. Amaciando o teclado, amaciando o pensamento. Penso que sou essa página em branco e que devo cuidar-se com muito cuidado. Nem sempre isso é possível. Blasfemo esse pedaço de documento virtual com certeza de que não vou ferir ninguém, mas as consequências dessas palavras ressoam, e acabar por arder em mim mesmo. Há um pensamento em fuga, uma poesia. Ela se esvai, porque dilacera mais em poucas palavras que a prosa corrida e articulada. Não que a poesia não seja articulada, não necessariamente o é. Na sua desarticulação cria, no seu estado de caos sistematiza. Desconforto é pra quem está confortável, equilíbrio é para quem está desequilibrado. Quero ser o beijo nessa consciência e mesmo apesar do estrume, ainda enxergar a rosa. Sinto que coisas boas, essas que ficam guardadas na nossa memória lúdica, começam a desabrochar. Estou reunindo toda a força do mundo. A força e o poder de cura das florestas amazônicas, fluidos cósmicos, juventude.




Sexo. Sinto o cheiro de sexo. Sinto o cheiro do meu próprio sexo. Sexo primitivo sexo com beijo sexo com amor sexo sem amor sexo na sua voz sexo na imaginação e no sonho. Você em pé de lado deitada de lado em cima em baixo em volta entre. Diz que me ama, nena. Ainda não estou saciado desse amor que procurava. Ainda me faltava alguma coisa que sinto que nunca mais vou ter – inocência. Meu coração parecia um músculo atrofiado. A inocência infante, pura e delicada, às vezes infausta. Feliz aquele que vê, mas não enxerga. Felizes os cegos de alma, pois eles herdarão a ignorância do mundo. Meus olhos não brilham mais, meus olhos não brilham mais. Felizes aqueles que se emprestam se vendem e se contentam, pois suas almas serão salvas em algum asilo de luxo. Matamos a própria sorte. Não acredito mais em nada. O sonho acabou - The dream is over. O Destino se transformou numa entidade, assim como as virtudes, a Justiça e a Temperança. Sem leis, salvo as quânticas. Sem regras. O sol brilha de novo, mas a paisagem continua tediosa. Era como se... Tenho a impressão que estou tentando contar um sonho – uma tentativa, porque nenhum relato é capaz de transmitir a sensação onírica, onde aflora essa mistura de absurdo, surpresa e encantamento num frêmito de emoção e revolta, essa impressão de ser capturado pelo inacreditável em que consiste a própria essência dos sonhos. Vivemos como sonhamos – sós.

Segundas-feiras são flores de janeiro

Segundas-feiras noite adentram meus devaneios.Vou sem receio, mas esqueço as finalidades do meio. Na vacuidão dos pensamentos que se vagueiam, no meio-de-jogo de uma partida de xadrez. Numa segunda-feira, fauna e flora se misturam. Agora, o conteúdo social falido. Agora, um conceito falido. Realidade entre criação. Olho para minhas mãos, como em tempos perdidos qual busquei compreender nuances de minha alma, os fios que compõem esse tecido. A maior sutileza, na hora do jogo, foi poder ver, sentir e traduzir coisas que se perderam no passado. Por entre ruas e becos, bares e lugares, buscando vírgulas, respirando o ar, navegando os mares, tudo dentro desses olhos. Na Longelândia, bem longe. Distante como diamante bruto.



sal de fêmea
Enfim, a parafernália indecifrável e chamada tempo deixa escorrer o passado. Então acende mais um cigarro, mesmo calado o seu grito é válido. No desprazer que abisma, sua alma esvoaça e retarda as horas. Faz-se ouvir um sussurro. Um frêmito efêmero frenético dispara. Água vazando em algum canto me diz que é hora de ir. Um grito obsceno vem do alto, de onde ouço um som de congado. Vendo meu mundo no claro - cego como obra inacabada. Vendo a inocência de qualquer coisa q ainda não vi. Doeu-me saber que existem pessoas assim. Jamais pensei que um ser humano fosse capaz de deixar o outro morrer aos poucos, cruel, ébria, soberba e lentamente a cada dia. E cada dia parecia noite e os horrores eram poucos comparados à madrugada. Nada mais te faz mal se você se entrega ao silêncio of a dawn. A rua está deserta, mas todo mundo te flagra. Você não é mais o mesmo. Você não tem mais respeito. Não é mais aquele menino-zona-sul que eu conheci, virou um favelado e agora sempre será, sempre.
.......
Blue lines for a drunk lady




Saio da minha casa para dar uma volta, sem rumo nem motivo. A inspiração talvez seja um cancioneiro francês que, ao fundo, canta seu lamento confuso e minguado. Então saio para a rua e ando pelo mercado, vejo as pessoas e caminho. Vejo as pessoas. Todas parecem ter um rumo certo e um destino incerto. Vou flanando, pairando pelo ar como se não tivesse pernas. Como se fosse só olhos. Como se meus olhos se pusessem a comer cada cor, cada movimento, cada imagem. Fico aqui na varanda. Último refúgio tridimensional para mim. Palavras escorrem da pena. Eu me pergunto se deve haver um começo-meio-e-fim, como numa partida de xadrez. Apesar de não vermos, existe uma estrela que brilhará mais forte quando o sol se puser. Devo esperar o sol se por? Minha caverna chama-me e como Curupira não voltará sem deixar rastros invertidos. Meus olhos queimam. Talvez seja a claridade. Me proibido de sair à noite por conta das feras que rondam a cidade. Esse texto fragmentário. Hoje é sexta-feira. Berros, ruídos e sons enlouquecidos. Impossível traduzir as nota do piano em um pentagrama invisível. Chega. Daqui eu me vou. Dialogando com um pensamento débil. Enquanto dentro de mim sentimentos eclodem organicamente como uma colônia de bactérias em colônia de férias. Ouço vozes.



Saint Genet

 

Jean Genet, um dos mais controversos dramaturgos modernos, suas inferências existencialistas no universo da dramaturgia, fazem como pano de fundo uma de suas obras, O Balcão e Querelle. Enquanto ainda hoje, vemos o mistério da marginalia, voltamos a nos envolver com obras dessa “marginalia”, no âmbito dos vícios e das pulsões transgressoras, partindo das obras do Marquês de Sade, do Lord Byron, de Lautrèamont atentando à matéria desenvolvida no cerne da sociedade moderna/contemporânea, da qual emana na década de 1950, O Balcão. Jean Genet é um poeta que soube dar a marginalidade um lirismo poderoso. O próprio Genet representado em Diário de Um Ladrão como uma obra viva da revolta produzindo emanações de uma das mais ricas e complexas obras da literatura e do teatro moderno, o mais subversivo, depois de Sade. Sua poética dramática revela uma discussão autobiográfica que ao mesmo tempo analisa e cura, onde o mal pulsa, dilacera, satisfaz e encontra redenção. Genet em sua vida pessoal passou por um caminho de abandono e crime. Rejeitado pela mãe ao nascer, adotado em um orfanato, tudo ainda poderia ser diferente se não fosse procurado, em sua casa adotiva aos dez anos, por policiais que o levariam ao reformatório, de onde fugiria aos 20 anos para iniciar sua vida de pequenos crimes e prisões. Desde início de vida tumultuado, elabora para si mesmo, a primeira e fatal estratégia de sua vida, assumir a marginalidade, quer fosse ela verdadeiramente praticada por ele ou não. Assim, assumindo-se como marginal, passou a viver e experimentar a vida como tal, praticando crimes e sendo encarceradas várias vezes. Dessa vida de prisões pela Europa, onde passou a maior parte do tempo, e segundo ele “aprende a viver”, entende uma primeira espécie de determinação social: o homem é aquilo que faz, ou melhor, sua função social determina sua existência. Apreende isso de tal forma que resolve abandonar a sociedade que o abandonou em primeiro lugar, sendo marginal convicto, cuja função é permitir que outros o desprezem e recebam desprezo de volta.















saber lacônico
viver conciso
afônico sorriso







Sabem,
eu não sei mais exatamente a quê se refere esse vida. Eu gosto de jogar xadrez. Acho que estou um pouco tomado por essa síndrome da loucura help-less. Esse menino jogou xadrez desde a barriga da mãe. Considerava o xadrez seu alter-ego. Sempre viveu sozinho e se converteu evangélico da Worldwide Church of God. Foi o primeiro campeão mundial americano quando ganhou um torneio de Spassky. Seu ego ficou maior do que ele mesmo, depois de “fazer história” nesse vídeo, ironicamente, em Iceland ou Islândia em plena Guerra Fria. Isolou-se do mundo e deixou a barba crescer... Arquétipo de eremita.



S o n h O


Manhã de primavera, férias. Eu e meu irmão brincávamos no gramado em frente de casa. Meu pai trabalhava a 15 Km de Minsk, onde morávamos. As lembranças são como uma película de oito milímetros com as cores estouradas, lindos tons de luz, do sol alegre do inverno, vermelho e amarelo do vestido da minha irmãzinha. O azul do céu, a imagem com o atraso (ou delay) do projetor, menos de 24 quadros por segundo. Aos domingos íamos ao Teatro Nacional. “Vamos Klaus, mama ruft uns. Mamãe está chamando.” Passa por nós um senhor de idade avançada. O velho caminha lentamente de bengala e conversa consigo mesmo. Estou parado na porta de casa observando... Quando está exatamente na minha linha de visão, ele lança-me um olhar que ainda lembro até hoje. Pareceu-me o olhar da morte. No fundo dos seus olhos ocos.
Sonho que a vovó, sempre de luto, está na beira de um pântano infestado de crocodilos (ou seriam jacarés?) e tenho que salvá-la. Mas eu só tenho oito anos. São as histórias de onça que meu pai contava. Vejo os bichanos, olhos atentos observando. Aparece uma canoa e pessoas levam minha avó para o outro lado do rio. Observo eles atravessarem a remo, até a outra margem, ficam cada vez menores em perspectiva, e mais longe. Quando forço os olhos de miopia, vejo que todos estão vestidos de branco, homens e mulheres. Seriam anjos? Eles a ajudam a descer na margem. Somente ela está vestida de preto. A expressão de pânico silencioso em seu rosto desaparece. Ela aceita que a levem. Via tudo acontecendo como se usasse um binóculo, e tudo acontecia em um lugar onde eu nunca vi e nunca fui. Durante vários anos tive esse sonho. Carregava-o como paisagens flutuantes.
Muti, porque aquele homem é tão velho?”
“Porque o inverno ainda não chegou pra ele, meu filho”


resultado solidão

Queria que soubesse que os cut-ups da vida, acontecem. Momentos difíceis são resolvíveis e o sofrimento nunca é uma constate. Onde há desequilíbrio, retidão. Onde houver desilusão, paz. Amor já não rima com dor. Amor com abraço forte e tenro, com carícias e com carinho, companheirismo com esperança e com inocência, com alegria, ela existe. Eu queria que você soubesse que nada é assim definitivo, mesmo onde há desilusão. Estamos vivos. Diz que eu perdoo. Que a calcinha vermelha e seus pezinhos não saem de mim. Jamais conquistei nenhum reino pela brutalidade, inconsequência ou pela força, tão-somente. Vejo o meu futuro onde lá tudo está bem.




Quatro noites e um sonhador
Acordo para uma nova experiência. O dia. Dia após dia vivo as infinitudes da solidão. Sinto um vazio pela orfandade de meu pai. Suajoie é minha tristesse na região mais dolorida do coração. Mas conservo esse vazio para mim mesmo. E parece que finjo o tempo todo, disfarçamos. Há anos o problema persiste. A congruência de encontros parece já impossível. Então cresce desordenadamente. Faltam lágrimas já desidratadas. Por baixo de um manto de calmaria, carrego toda energia que me falta, feito uma bússola. Então almoço o mundo, engulo a cidade em pedaços, depois de dois ou três cafés pela manhã. A vida é um esporte movido a veneno. Converso com esse vazio que se expande. Mi dice che è triste che crece e non abbiamo fortuna, caduto dal cielo per la paura, pedaço de merda. Solidão a qual as mulheres estão acostumadas. Eu, termino aqui. Boa noite e bom domingo.


Quando uma vela acende a outra...

Como se encerra algo em si? na falha? no ego?
Qual parte do rabisco te faz seguir adiante? o equilíbrio das massas?
Como quem, pena na mão,
verifica, profetiza, cria, engole, samba, arremessa, casa e se divorcia da causa, da causística da causalidade cáustica, enfim, Tudo no Todo e o Nada se transforma...
O que há no fundo do ARREPIO?




quando eu morri, Jim

__ E você? - perguntou Deus – com que música vai querer fazer a “passagem”?
__ Passagem? – perguntei de volta, meio sem saber. Sabendo que na língua “falada” não se “enxerga” aspas nem itálico, nem Maiúsculas nem parênteses.
__“Quanto custa? tem que pagar?” – uns gritavam lá da frente.
__“Vai demorar muito?” outros indagavam lá de trás e continuei minha entrevista.
__ Olha, nesse casso vou precisar da ajuda do Senhor – repliquei em desespero.
__ Ô meu querido, meu Filho agora está em outro cargo...
__ Mas Ele, por acaso, desempenha outra “função”? Tira férias, ou coisa assim, e vai pro Paraíso? (pensei que fosse um cargo honorário, pensei)...
__ Meu caro, qual música você vai querer no seu ritual de passagem? – explicou São Pedro, mediador da conversa nos “portões do céu” –... na hora da sua “transição” – continuou meio exaltado – da carne para o espírito? – concluiu.
__ Eu posso escolher? (Mas à essa “hora” eu já estava morto e agora, tô aqui tentando entrar no céu, ou isso é só um sonho?) – eu suava frio. Qual música eu vou querer quando deixar o corpo material para viver no plano espiritual? Mais essa agora... – vocês vão “editar”?
__ filho, essa é sua ultima escolha carnal... Responde logo, p o..! – e São Pedro quase fala um palavrão, pensei.
__ Tudo bem tudo bem! Suíte pra dois pianos do Rachmaninoff – enchi a boca pra falar.
__ Pede aquela do Ghost! - uma senhora tentava me induzir.
__ Se fosse eu, pedia uma música brasileira - dizia o outro em voz alta, tentando me recriminar.
__ Elitista! - alguém gritou.
__ Burguês! - essa eu vi.
__ Qual?
__ Qual o quê? - perguntei.
__ Qual Suíte?
__ Suíte número 1 Opus n.5
 Rachmaninoff!

Pémm!!! soou uma sirene como se eu fosse ganhar um milhão, mas começou a melodia. O áudio era “divino”, Double Estéreo:

Pirilrim pirlim 
puppupupupupú 
papaprarararararã 
plrilim 
plrolo 
prlim...
prolohm... 

Então eu me vi saindo do corpo, levitando, (me veio à cabeça a logomarca do YouTube) sendo carregado pelos braços por dois anjos fêmeos (um deles se parecia com a Brigite Bardô) sendo levado direto para alto das montanhas rochosas do Himalaia, lugar que eu sempre quis conhecer antes de “morrer”. Meu Deus! O Everest! – corta para uma cena que estou querendo copular com uma das anjas (a moreninha) e só encontro minha própria mão, então a outra diz em anjês –

__ Vamos “Petit”! – sim! então era “Petit” o nome dela.
__ E agora, o quê que eu faço?
__ ...

(Imagina se me deixam no Pão de Açúcar... achei melhor acordar, mas voltei a sonhar com os leões do Discovery Channel)



Quando chegamos do Saara

Depois de viver a vida... No Egito ouvia-se um burburinho, um pequeno boato, um babado sobre um personagem mítico da antiguidade. Estava na boca do povo, mas ninguém sabia o que era... Chegamos do Saara (mercado popular do Rio) e nada sabiam sobre Helena. A história apenas começara e Helena Negra já se casou, viajou em lua-de-mel, voltou, sofreu um acidente de barco (mas já se recuperou) e agora vai à Petra, a trabalho. Tristão está fazendo jus ao nome que recebeu de sua mãe. As mães são perdoáveis. Imperdoável é a velocidade com que Ovídio teria que escrever se fossem representar todas essas cenas, em apenas alguns episódios, no Grande Teatro de Atenas, em Atenas. É nessas horas é que se precisa de um bom roteirista. Um indivíduo de imaginação fértil e raciocínio ágil. Sagaz em sua sagacidade, sem pleonasmar ou criar neologismos. Que saibam conservar o modelo matriz de mulher aliado ao saber popular e ao gosto pelo romance e o drama. Homero, talvez, Plínio, Tibério? José de Alencar? Não, Manoel Carlos, o expert das grandes estrelas, criador do arquétipo moderno, grande autor da contemporaneidade. (entra bossa nova...) “sei lá... sei não... só sei que é preciso lálálá...” Repetição de velhas-novas, imbecilização das massas, os olimpianos, Max Horkheimer, Günter Jakobs, o funcionalismo... Não há nada de criativo nos meios de comunicação.

Danse sur la merde

Le petit va te faire foutre com cigarro de menta. Como é que a música sertaneja faz sucesso na Croácia? O compromisso com a vida continua. O Ritmo não pára. Tudo faz parte do Todo e o Todo faz parte de tudo. Um faniquito Rita Rayworth de arrancar os cabelos da axila. Como estabelecer uma relação de duelo entre homens e mulheres? Somos párias que maquinam coitos e biscoitos. Vidas, ideais, Vidas ideais. Vai uma vem dezoito. Jamais seria juiz de direito, pois não sei arbitrar, não sei julgar. De qual lado estamos? Se os homens somos inseguros? Não sei. Não sei de que lado está “a” verdade, pois as verdades estão dentro em cada futilidade, injustiça, ignorância, desfaçatez que seja (crew) possível. Não sei o que a mente inconsciente de cada um concatena a respeito de sua realidade urbana cotidiana mundana. Sei que rompemos as barreiras da moral. O ser que somos transformou tudo em frozen shit. Inventou o mundo de plástico. Cenas perfeitas de vida nas maçãs do rosto das pobres meninas transviadas. A Barbie empregada doméstica e mãe solteira. 

20 de março de 2011,
...
Hoje, às 20h18min, acaba o verão. Verão passado foi inglório, mas hoje isso se torna apenas passado. Hoje estou, de fato, tirando todas as coisas do meu quarto; gavetas, armário, tudo. Tudo que quero preservar. Já encaixotei meus livros e minhas pequenices que são tudo que tenho. Joguei fora poucas coisas sendo que já tinha tudo armazenado, pois nunca me instalei realmente. Cada estante já está vazia. A cada instante descubro coisas esquecidas, uma camisinha vencida, cartas sentimentalistas (pois as mulheres e as mães escrevem cartas sentimentalistas), manuscritos à caneta que há muito não existe. Mexendo em minhas últimas gavetas, encontrei uma coleção de calcinhas. Quê dizer? São de relações que também não existem mais. Símbolos icônicos de fetiche que não tenho mais. Nem sei distinguir de quem são. São de antigas namoradas, sim, que cantam agora em outras serenatas. As pequenices também são ícones que trago pela curta jornada da vida. Objetos, não muitos, que relaciono a determinadas lembranças, que racionalizo, mas que invadem o setor afetivo. Essa “mudança” é para mim quase um “despacho”. O Titanic está afundando. Quebrou-se o eixo central, a água invade às plenas e quem pode se salva. Renascer é quase um vento divino, um suicídio existencial Kamikaze. Um ir sem deixar-se levar. Um pulo de ponta, um dar-se conta de que mesmo as pequenices de passado não existem. Só significam algo para mim. Algo que se perde e que se renova, pois o sol não pede licença pra nascer a cada dia. Sigo seguindo. Do mundo não saio. Não sou santo, mas se caio me levanto. Da vida trago só a própria vida e as marcas que ganhei. Os espinhos rasgam a carne, dilaceram a alma e o caminho é árduo. Tudo está vazio e estou mentalmente pronto. Existe, de certo, uma auto-organização em meio ao caos, percebe?, que cria e desembaraça novelos. Um fio, aparentemente, interminável de filamentos que se desgrudam desse elemento essencial. Não sei para onde vou crescer. Não traço minha vida com régua. Não sei qual será o próximo passo, mas sigo andando. Desnorteado? Eu me oriento pelas estrelas e pelas sombras, pelo céu e sol. Sou um homem, um animal autobiográfico. Durmo durante a noite e acordo quando amanhece. Sigo pelos horizontes que despontam a minha frente. Hoje é domingo, tudo está vazio. O domingo não gosta de ver ninguém bem. (as calcinhas vão pro lixo).



345milpontas

Paixão da minha existência atribulada

Sinto fome eu como. Sinto sono eu durmo. Sinto frio eu me cubro. Sinto muito já era. Vou dividir em partes e o juízo sintético é uma merda. Sinto falta das minhas cavernas, como eu já disse. Sinto falta das mãos suja de fogo (carvão, na verdade). Mas nesse mundo que a fogueira é só das vaidades, mando o plural a merda e passo a hifenizar tudo. Meu mundo. A virgem do xamãm, man, é não linear, diferente do herói épico. É vertical pra cima ou pra dentro. E agora são três e meia da manhã e eu nessa lenga... Tentando organizar open Sá mentol.  Se eu conseguisse dormir viajaria pra cima e não pra dentro, como estou fazendo agora. Porque organizar pra mim não é produzir. Organizar é produzir? Minha virgem Santa Maria, dividir em partes... Embora eu seja protestante, (como esse Nick Cave é macabro) preciso fazer um compêndio.  Sintetizar tudo e voltar a amar porque “se quieres ser felices. No analices. No analices”. Vou ouviu esse disco. Chega Nick, seu macambroso. Aprende a cantar!





“A amizade é o amor sem asas” escreveu Lord Byron.

Quando eu me sentia tão só, maltrapilho e maltratado (lembro-me de um tango rasgado “El perito compañero también me abandonó”)
eis que fiz contato com um amigo de meu irmão.
recomendei que desse uma olhada nesse meu blogue que trato com discreto amor paternal e que ilumina meus dias como uma manhã de verão.
Desde que saí do hospital André Luís, por conta de uma mal sucedida tentativa de autoextermínio, o que eu, aliás, considero o cúmulo da incompetência. Fui salvo pelos meus pais e já descrevi essa passagem estranguladora que espero esquecer.
Mas entendo esses momentos, movimentos sinérgicos, regulação química, potencialização, recomposição energética que passa pelos desejos.... e pelas atitudes.
hoje, passado esse deletério humano que me fiz durante o ano de 2013, constituímos uma forte amizade que promete ser o eixo de um movimento cultural, construto de uma geração que só faz crescer, mediante signos e sinais do acaso. Meliante, mediante, lá no avarandado, no segredo dos olhos, na militância poética, na flor de janeiro, vento que vem do mar, bem além do fim do medo, na luz do novo começo, no meu jeito de recomeçar inícios, no bem querer, no estado de espírito, na gira, no difícil estar consigo mesmo quando as luzes se apagam e temos que dialogar com as sombras do apartamento.
Um solo de oboé e frases incompletas da ária que estamos a compor.



A casa cheirava à álcool, da sala até a cozinha. Havia apenas dois quartos. No primeiro, ao lado do banheiro dormiam os três meninos. Na sala, quase não havia nada além de uma TV (sempre ligada) uma cadeira ao lado de um monte de roupas, e um sofá. No outro quarto dormia o velho e Tereza, uma jovem de vinte quatro anos que não se sabe como fora morar lá. Parece que veio como uma sobrinha do interior, mas de sobrinha rapidamente s tornou amante. Começou quando seduziu seu primo mais novo, James. Quando James disse aos mais velhos, a libido se espalhou pela casa, e o cheiro de sexo passou a dividir lugar com o cheiro de álcool que pairava permanentemente. A moça sabia gostar do cão vira-lata que vivia com eles - Lilico. A libido, uma vez no corpo pueril, fazia os meninos sentirem algo sem saber o que, um odor, ver de viés uma bundinha, uma calcinha secando no banheiro fazia os hormônios eclodirem no corpo todo. O mais velho deles tinha dezesseis anos. O do meio, quatorze, e o mais novo, o pequeno Jim, tinha apenas onze quando Teresa apareceu do Nada com apenas uma muda de roupa avulsa, mais nada. Guido, "o velho", disse que uma tia distante mandara a menina de um lugar desconhecido, com nome difícil. Guaraci-ci... Guará-cipê-pá... Guaraci-pê... a curiosidade dos irmãos não era muita e ninguém se incomodou com a chegada da moça, mesmo sem saber de onde ela vinha, quem ela era. No segundo seguinte, já havia trepado com todos os irmãos. Cada um sabia seu momento, não brigavam. Desfrutavam da generosidade espontânea daquela mulher que não se parecia nada com eles. O velho sempre chegava bêbado da rua, trazia só amargura. Essa amargura fez os meninos se formarem, entretanto, nas pequenas artimanhas de uma quadrilha, um bando, um "bando de bairro". Depois que o mais velho, o “Estaca-Zero”, também conhecido só por “Estaca” (conseguiu esse apelido porque sempre dizia que ia recomeçar a vida da "estaca zero", mas o apelido pegou mesmo, quando matou um guarda com uma estaca afiada de fazer cerca. Fincou aquele padeço de pau no corpo do homem que estava derrubado no chão. A estaca perfurou sua barriga e ele teve uma morte violenta, ficou meia hora sangrando e balbuciando e praguejando, antes morrer com aquela coisa na barriga. Ficou ali até o dia seguinte, quando começou a feder.)...





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